--Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguem tira par, ninguem,
tóca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena!
--Bem; eu vou lá, disse Albernaz.
Deixou os amigos e foi á sala de visitas dar começo ao baile.
--Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!
E elle mesmo em pessoa ia juntando os pares: «Não General, já tenho
par, dizia uma moça. Não faz mal, retrucava elle, danse com o
Raymundinho; o outro espera». Depois de ter dado inicio ao baile, veio
para a roda dos amigos, suado, mas contente.
--Isto de familia! Qual! A gente até parece bôbo, dizia. Você é que
fez bem, Caldas; não se quiz casar!
--Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?
--Vamos jogar o sólo, convidou Albernaz.
--Somos cinco, como ha de ser? observou Florencio.
--Não, eu não jogo, disse Bustamante.
--Então jogamos os quatro de garancho? lembrou Albernaz.
As cartas vieram e tambem uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros
sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florencio dar.
Começaram, Albernaz tinha um ar attento quando jogava: a cabeça lhe
cahia sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de
reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade
de um Lord Almirante numa partida de «whist». Segismundo jogava com
todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para
fugir á fumaça. Bustamante fôra á sala ver as dansas.
Tinham começado a partida, quando dona Quinota, uma das filhas do
General, atravessou a sala e foi beber agua. Caldas, coçando um dos
favoritos, perguntou á moça:
--Então, D. Quinota, que dê o Genelicio?
A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muchocho e respondeu
com falso máu humor:
--Ué! Sei lá! Ando atrás delle?
--Não precisa zangar-se, D. Quinota; é uma simples pergunta, advertiu
Caldas.
O General que examinava attentamente as cartas recebidas, interrompeu a
conversa com voz grave:
--Eu passo.
D. Quinota retirou-se. Este Genelicio ora o seu namorado. Parente ainda
de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na familia. A sua
candidatura era favorecida por todos. D. Maricota e o marido enchiam-n'o
de festas. Empregado do Thesouro, já no meio da carreira, moço de
menos de trinta annos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia
ninguem mais bajulador e submisso do que elle. Nenhum pudor, nenhuma
vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia.
Quando sahia, remancheava, lavava tres ou quatro vezes as mãos, até
poder apanhar o director na porta. Acompanhava-o, conversava com elle
sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquelle
collega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava
um ministro, fazia-se escolher como interprete dos companheiros e
deitava um discurso; nos anniversarios de nascimento, era um soneto que
começava sempre por--salve--e acabava tambem por--Salve! Tres vezes
Salve!
O modelo era sempre o mesmo; elle só mudava o nome do ministro e punha
a data.
No dia seguinte, os jornaes falavam do seu nome, e publicavam o soneto.
Em quatro annos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser
aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.
Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente genio.
Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros
processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas
diarias. No intuito de annunciar nos ministros e directores que tinha
uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornaes longos
artigos sobre contabilidade publica. Eram meras compilações de
bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores
francezes ou portuguezes.
Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande
conta o seu saber e elle vivia na secção cercado do respeito de um
genio, um genio do papelorio e das informações. Accresce que Genelicio
juntava á sua segura posição administrativa, um curso de direito a
acabar; e tantos titulos juntos não podiam deixar de impressionar
favoravelmente ás preoccupações casamenteiras do casal Albernaz.
Fóra da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre physico
fazia comico, mas que a convicção do alto auxilio que prestava ao
Estado, mantinha e sustentava. Um empregado modelo!...
O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das
_mãos_ fazia-se um breve commentario ou outro, e no começo ouviam-se
unicamente as falas sacramentaes do jogo; _sólo, bólo, melhoro,
passo_. Feitas ellas jogava-se em silencio; da sala, porém, vinha o
ruido festivo das dansas e das conversas.
--Olhem quem está ahi!
--O Genelicio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?
Deixou o chapéo e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos.
Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez
azulado, todo elle trahia a profissão, os seus gostos e habitos. Era um
escripturario.
--Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negocios.
--Vão bem? perguntou Florencio.
--Quasi garantido. O Ministro prometteu... Não ha nada, estou bem
cunhado!
--Estimo muito, disse o General.
--Obrigado. Sabe de uma cousa, General?
--O que é?
--O Quaresma está doido.
--Mas... o que? quem foi que te disse?
--Aquelle homem do violão. Já está na casa de saude...
--Eu logo vi, disse Albernaz, aquelle requerimento era de doido.
--Mas não é só, General, accrescentou Genelicio, Fez um officio em
tupy e mandou ao ministro.
--É o que eu dizia, fez Albernaz.
--Quem é? perguntou Florencio.
--Aquelle vizinho, empregado do Arsenal, não conhece?
--Um baixo, de pince-nez?
--Este mesmo, confirmou Caldas?
--Nem se podia esperar outra cousa, disse o Dr. Florencio. Aquelles
livros, aquella mania de leitura...
--P'ra que elle lia tanto? indagou Caldas.
--Telha de menos, disse Florencio.
Genelicio atalhou com autoridade:
--Elle não era formado, para que metter-se em livros?
--É verdade, fez Florencio.
--Isto de livros é bom para os sabios, para os doutores, observou
Segismundo.
--Devia até ser prohibido, disse Genelicio, a quem não possuisse um
titulo _academico_ ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não
acham?
--De certo, disse Albernaz.
--De certo, fez Caldas.
--De certo, disse tambem Segismundo.
Calaram-se um instante, e as attenções convergiram para o jogo.
--Já sahiram todos os trunfos?
--Contasse, meu amigo.
Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silencio. Cavalcanti ia recitar.
Atravessou a sala triumphantemente, com um largo sorriso na face e foi
postar-se ao lado do piano, Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz
metallica, apurando muito os finaes em _s_, começou:
A vida é uma comedia sem sentido
Uma historia de sangue e de poeira
Um deserto sem luz...
E o piano gemia.