Adeus; á luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão.»

Erguei-se Simão Botelho, olhou em redor de si, e fitou com spasmo

Marianna, que levantava a cabeça ao menor movimento d'elle.

--Que tem, senhor Simão?--disse ella, erguendo-se.

--Estava aqui, Marianna?... não se vai deitar?!

--Não vou: o commandante deu-me licença de ficar aqui.

--Mas ha de assim passar a noite?! Rogo-lhe que vá, porque não é

necessario o seu sacrificio.

--Se o não incommodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão.

--Esteja, minha amiga, esteja... Poderei subir ao convez?

--Quer ir ao convez, senhor Botelho?--disse o commandante lançando-se do

beliche.

--Queria, senhor commandante.

--Iremos juntos.

Simão ajuntou a carta de Thereza ao maço das suas, e subiu cambaleando.

No convéz sentou-se n'um monte de cordame, e contemplou o mirante de

Monchique, que avultava negro ao sopé da serra penhascosa em que

actualmente vai a rua da Restauração.

O capitão passeava da prôa á ré; mas com o ouvido fito aos movimentos do

degredado. Receára elle o proposito do suicidio, porque Marianna lhe

incutira semelhante suspeita. Queria o maritimo fallar-lhe palavras

consoladoras, mas pensava comsigo: «O que ha de dizer-se a um homem que

soffre assim?» E parava junto d'elle algumas vezes, como para

desviar-lhe o espirito d'aquelle mirante.

--Eu não me suicido!--exclamou abruptamente Simão Botelho--Se a sua

generosidade, senhor capitão, se interessa em que eu viva, póde dormir

descansado a sua noite, que eu não me suicido.

--Mas mereço-lhe eu a condescendencia de descer comigo á camara?

--Irei; mas eu lá soffro mais, senhor.

Não replicou o commandante, e continuou a passear no convez, apesar das

rajadas de vento.

Marianna estava agachada, entre os pacotes da carga, a pouca distancia

de Simão. O commandante viu-a, fallou-lhe, e retirou-se.

Ás tres horas da manhã Simão Botelho segurou entre as mãos a testa que

se lhe abria abrazada pela febre.

Não pôde ter-se sentado, e deixou cahir meio corpo. A cabeça, ao

declinar, pousou no seio de Marianna.

--O anjo da compaixão sempre comigo!--murmurou elle--Thereza foi muito

mais desgraçada...

--Quer descer ao camarote?--disse ella.

--Não poderei... Ampare-me, minha irmã.

Deu alguns passos para o alçapão, e olhou ainda para o mirante. Desceu a

ingreme escada, apegando-se ás cordas. Lançou-se sobre o colchão, e

pediu agua, que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o

estorcimento, e as ancias, com intervallos de delirio.

De manhã veio a bordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando

o condemnado, disse que era «maligna» a doença, e que bem podia ser que

elle achasse a sepultura no caminho da India.

Marianna ouviu o prognostico, e não chorou.

Ás onze horas sahiu barra fóra a nau. Ás ancias da doença accresceram as

do enjoo. A pedido do commandante, Simão bebia remedios, que bolsava

logo, revoltos pelas contracções do vomito.

Ao segundo dia de viagem Marianna disse a Simão:

--Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer áquellas cartas que vão na

caixa?

Pasmosa serenidade a d'esta pergunta!

--Se eu morrer no mar--disse elle--Marianna atire ao mar todos os meus

papeis; todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro

tambem.

Passada uma ancia, que lhe embargara a voz, Simão continuou:

--Se eu morrer, que tenciona fazer, Marianna!

--Morrerei, senhor Simão.

--Morrerá?!.. Tanta gente desgraçada que eu fiz!...

A febre augmentava. Os symptomas da morte eram visiveis aos olhos do

capitão, que tinha sobeja experiencia de vêr morrerem centenares de

condemnados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum

medicamento.

Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascaes,

sobreveio tormenta subita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e

perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado para o sul. Ao sexto dia

de navegação incerta, por entre espêssas brumas, partiu-se o leme

defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refegas,

desencapellaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um

formoso dia de primavera. Era o dia 27 de Março, o nono da enfermidade

de Simão Botelho.

Marianna tinha envilhecido. O commandante, encarando n'ella, exclamou:

--Parece que volta da India com os dez annos de trabalhos já

passados!...

--Já acabados... de certo...--disse ella.

Ao anoitecer d'esse dia o condemnado delirou pela ultima vez, e dizia

assim no seu delirio:

«A casinha, defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves.

Passeavas comigo á margem do Mondego, á hora pensativa do escurecer.

Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a

mudez do coração ao teu silencio, e, animada por teu sorriso, inclinava

a face ao teu seio como se fosse o de minha mãe... De que ceu tão lindo

cahimos... A tua amiga morreu... A tua pobre

Thereza.............................

E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio?... Onde irás

tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou... Rompe a manhã... Vou

vêr a minha ultima aurora... a ultima dos meus dezoitos annos. Offerece

a Deus os teus padecimentos para que eu seja perdoada... Marianna...»

Marianna collou os ouvidos aos labios roixos do moribundo, quando cuidou

ouvir o seu nome.

«Tu virás ter comnosco; ser-te-hemos irmãos no ceu... O mais puro anjo

serás tu... se és d'este mundo, irmã; se és d'este mundo, Marianna...»

A transição do delirio para a lethargia completa era o annuncio

infallivel do trespasse.

Ao romper da manhã apagára-se a lampada. Marianna sahira a pedir luz, e

ouvira um gemido estorturoso. Voltando ás escuras, com os braços

estendidos para tactear a face do agonisante, encontrou a mão convulsa,

que lhe apertou uma das suas, e relaxou de subito a pressão dos dedos.

Entrou o commandante com uma lampada, e approximou-lh'a da respiração,

que não embaciou levemente o vidro.

--Está morto!...-- disse elle.

Marianna curvou-se sobre o cadaver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro

beijo. Ajoelhou depois ao pé do camarote com as mãos erguidas, e não

orava nem chorava.

Algumas horas depois, o commandante disse a Marianna:

--Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo ... É ventura

morrer quando se vem a este mundo com tal estrella... Passe a senhora

Marianna ali para a camara, que vai ser levado d'aqui o defuncto.

Marianna tirou o masso das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma

caixa buscar os papeis de Simão. Atou o rolo no avental, que elle tinha

d'aquellas lagrimas d'ella choradas no dia da sua demencia, e cingiu o

embrulho á cintura.

Foi o cadaver envolto n'um lençol, e transportado ao convez.

Marianna seguiu-o.

Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou ás pernas

com um pedaço de cabo. O commandante contemplava a scena triste com os

olhos humidos, e os soldados, que guarneciam a nau, tão funeral respeito

os acurvava, que insensivelmente se descobriram.

Marianna estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia

estupidamente encarar aquelles empuxões, que o marujo dava ao cadaver

para segurar a pedra na cintura.

Dois homens ergueram o cadaver ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o

balanço para o arremessarem longe. E antes que o baque do morto se

fizesse ouvir na agua, todos viram, e ninguém já pôde segurar Marianna,

que se atirára ao mar.

Á voz do commandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens

para salvar Marianna.

Salval-a!...

Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir á morte, mas para

abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O

commandante olhou para o sitio d'onde Marianna se atirára, e viu,

enleado no cordame, o avental, e á flor d'agua um rolo de papeis que os

marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondencia de

Thereza e Simão.

* * * * *

Da familia de Simão Botelho vive ainda, em Villa Real de Traz-os-Montes,

a senhora D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, a irmã predilecta

d'elle. A ultima pessoa fallecida, ha vinte e seis annos, foi Manoel

Botelho, pae do author d'este livro.

Amor de Perdição: Memorias d'uma familia · 第 40 / 46 题