Ás onze horas da noite o commandante recolhêra-se n'um beliche de
passageiro, e Marianna, sentada no pavimento, com o rosto sobre os
joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e afflictivas
horas d'aquelle dia.
Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre
o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente d'um arame. O
ouvido têl-o-ia talvez attento ao assovio da ventania: devia de soar-lhe
como um ai plangente aquelle silvo agudo, voz unica no silencio da terra
e do ceu.
Á meia noite estendeu Simão o braço tremulo ao masso das cartas que
Thereza lhe enviára, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que
era d'ella. Rompeu a obreia, e dispôz-se no camarote para alcançar o
baço clarão da lampada.
Dizia assim a carta:
«É já o meu espirito que te falla, Simão. A tua amiga morreu. A tua
pobre Thereza, á hora em que leres esta carta, se me Deus não engana,
está em descanso.
Eu devia poupar-te a esta ultima tortura; não devia escrever-te; mas
perdôa á tua esposa do ceu a culpa pela consolação que sinto em
conversar comtigo a esta hora, hora final da noite da minha vida.
Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? D'aqui a pouco
perderás da vista este mosteiro; correrás milhares de leguas, e não
acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: «A infeliz
espera-te n'outro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.»
Se te podesses illudir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava
com vida e com esperança de vêr-te na volta do degredo? Assim póde ser,
mas ainda agora, n'este solemne momento, me domina a vontade de fazer-te
sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem ás
vezes vaidade de mostrar que o é, até não podêl-o ser mais! Quero que
digas: Está morta, e morreu quando lhe eu tirei a ultima esperança.
Isto não é queixar-me, Simão, não é. Talvez que eu podesse alguns dias
resistir á morte, se tu ficasses; mas, d'um modo ou d'outro, era
inevitavel fechar os olhos quando se rompesse o ultimo fio, este ultimo
que se está partindo, e eu mesma o oiço partir.
Não vão estas palavras accrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar
um remorso injusto á tua saudade.
Se eu podesse ainda vêr-te feliz n'este mundo; se Deus permittisse á
minha alma esta visão!... _Feliz_, tu, meu pobre condemnado!... Sem o
querer, o meu amor agora te fazia injuria, julgando-te capaz de
felicidade! Tu morrerás de saudade, se o clima do desterro te não matar
ainda antes de succumbires á dôr do espirito.
A vida era bella, era, Simão, se a tivessemos como tu m'a pintavas nas
tuas cartas, que li ha pouco. Estou vendo a casinha que tu descrevias
defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves. A tua imaginação
passeava comigo ás margens do Mondego, á hora pensativa do escurecer.
Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
mudez do coração ao teu silencio, e animada por teu sorriso inclinava a
face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas
cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia em quanto a alma se
esta recordando. N'outra carta me fallavas em triumphos e glorias e
immortalidade do teu nome. Também eu ia após da tua aspiração, ou
adiante d'ella, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espirito
queria eu que fosse meu. Era criança ha tres annos, Simão, e já entendia
os teus anhelos de gloria, e imaginava-os realisados como obra minha, se
me tu dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o
estimulo do meu amor.
Ó Simão, de que ceu tão lindo cahimos! Á hora que te escrevo estás tu
para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.
Que importa morrer, se não podemos jámais ter n'esta vida a nossa
esperança de ha tres annos?! Poderias tu com a desesperança e com a
vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos
beneficios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é
uma misericordia divina, uma bemaventurança para mim.
E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio? Onde irás tu
aviventar o coração que a desgraça te esmagou, sem poder esmagar a
imagem d'esta docil mulher, que seguiu cegamente a estrella da tua
malfadada sorte?
Tu nunca hás de amar, não, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se uma
vez visses passar rapidamente a minha imagem por diante dos teus olhos
enxutos? Soffre, soffre ao coração da tua amiga estas derradeiras
perguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta lêres.
Rompe a manhã. Vou vêr a minha ultima aurora... a ultima dos meus
dezoito annos!
Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre d'uma agonia longa.
Todas as minhas angustias lhe offereço em desconto das tuas culpas. Se
algumas impaciencias a justiça divina me condemna, offerece tu a Deus,
meu amigo, os teus padecimentos para que eu seja perdoada.