VI.

Um incidente agora me occorre, não muito concertado com o seguimento da

historia, mas a proposito vindo para demonstrar uma face da indole do

ex-corregedor de Vizeu, já então exonerado do cargo.

Sabido é que Manoel Botelho, o primogenito, voltando a frequentar

mathematicas em Coimbra, fugira d'ali para Hespanha com uma dama desleal

a seu marido, estudante açoriano que cursava medicina.

Um anno demorára na Corunha Manoel Botelho com a fugitiva,

alimentando-se dos recursos que sua mãe, extremosa por elle, lhe

remettia vendendo a pouco e pouco as suas joias, e privando as filhas

dos adornos proprios dos annos e da qualidade.

Seccaram-se estas fontes, e não restavam outras. D. Rita disse a final

ao filho que deixára de soccorrer Simão por não ter meios; e agora das

escassas economias que fazia, nada podia enviar-lhe, porque estava em

obrigação de pagar os alimentos de Simão á pessoa que por compaixão

lh'os déra em Vizeu, e lh'os estava dando no Porto. Ajuntava ella, para

consolação do filho, que viesse elle para Villa Real, e trouxesse

comsigo a infeliz senhora; que fosse elle para casa, e a deixasse a ella

n'uma estalagem até se lhe arranjar habitação; que o ensejo era

opportuno, por estar na quinta de Montezellos o pae, quasi divorciado da

familia.

Voltou pelo Minho Manoel Botelho, e chegou com a dama ao Porto quinze

dias depois que Simão entrára no carcere.

Já n'outro ponto deixamos dito que nunca os dois irmãos se deram nem

estimaram; mas o infortunio de Simão remia as culpas do genio fatal que

o orphanára de pae e mãe, e só da irmã Rita lhe deixára uma lembrança

saudosa.

Foi Manoel á cadêa, e abrindo os braços ao irmão, teve um glacial

acolhimento.

Perguntou-lhe Manoel a historia do seu desastre.

--Consta do processo--respondeu Simão.

--E tem esperanças de liberdade?--replicou Manoel.

--Não penso n'isso.

--Eu pouco posso offerecer-lhe, porque vou para casa forçado pela falta

de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei comsigo da minha.

--Não preciso nada. Esmolas só as recebo d'aquella mulher.

Já Manoel tinha reparado em Marianna, e da belleza da moça inferira

conclusões para formar falsos juizos.

--E quem é esta menina?--tornou Manoel.

--É um anjo... Não lhe sei dizer mais nada.

Marianna sorriu-se, e disse:

--Sou uma criada do senhor Simão, e de v. s.^a

--É cá do Porto?

--Não, meu senhor, sou dos arrabaldes de Vizeu.

--E tem feito sempre companhia a meu mano?

Simão atalhou assim á resposta balbuciante de Marianna:

--A sua curiosidade incommoda-me, mano Manoel.

--Cuidei que não era offensiva--replicou o outro, tomando o

chapéo.--Quer alguma coisa para a mãe?

--Nada.

Estando Manoel Botelho, na tarde d'esse dia, fechando as malas para

seguir jornada para Villa Real, foi visitado pelo desembargador Mourão

Mosqueira, e pelo corregedor do crime.

--Devemos á espionagem da policia--disse o corregedor--a novidade de

estar n'esta estalagem; um filho do meu antigo amigo, condiscipulo e

collega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abraço, e

offerecer o nosso prestimo. Esta senhora é sua esposa?--continuou o

magistrado, reparando na açoriana.

--Não é minha esposa...--balbuciou Manoel--é... minha irmã.

--Sua irmã!...--disse Mosqueira--qual das tres? Ha cinco annos que as vi

em Vizeu, e grande mudança fez esta senhora, que não me recordo das suas

feições absolutamente coisa nenhuma! É a senhora D. Anna Amalia?

--Justamente--disse Manoel.

--Bella, lhe affirmo eu que está, minha senhora; mas fez-se um rosto

muito outro do que era!...

--Vieram vêr o infeliz Simão?--atalhou o corregedor.

--Sim, senhor... viemos vêr meu pobre irmão.

--Foi um raio que cahiu na familia aquelle rapaz!...-- ajuntou

Mosqueira--mas póde estar na certeza que a sentença não se executa; diga

a sua mãe que m'o ouviu da minha bôca. O meu tribunal está preparado

para lhe minorar a pena em dez annos de degredo para a India, e seu pae,

segundo me disse na passagem para Villa Real, já preparou as coisas na

supplicação e no desembargo do paço, não obstante o morto lá ter

parentes poderosos nas duas instancias. Quizeramos absolvêl-o, e

restituil-o á sua família; mas tanto é impossível. Simão matou, e

confessa soberbamente que matou. Não consente mesmo que se diga que em

defeza o fez. É um doido desgraçado com sentimentos nobilissimos! Chovem

cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz

com uma sem-ceremonia que indigna o animo.

--E essa menina que foi a causa da desgraça?--perguntou Manoel.

--Isso é uma heroina!--respondeu o corregedor do crime--Davam-na já por

morta quando Simão chegou aqui. Desde que soube das probabilidades da

commutação da pena, deu um pontapé na morte, e está salva, segundo me

disse o medico.

--Conhece-a muito bem, minha senhora?--disse o desembargador á dama,

supposta irmã de Manoel.

--Muito bem--respondeu ella, relanceando os olhos ao amante.

--Dizem que é formosissima!

--De certo--acudiu Manoel--é formosissima.

--Muito bem--disse o corregedor, erguendo-se.--Leve este abraço ao pae,

e diga-lhe que o condiscipulo cá está leal e dedicado como sempre. Eu

tenho de lhe escrever brevemente.

--E outro abraço a sua virtuosa mãe--acerescentou o desembargador.

--Vou desconfiado!--disse o Mosqueira ao collega--Manoel Botelho tinha,

ha coisa d'um anno, fugido para Hespanha com uma senhora casada. Aquella

mulher, que vimos, não é irmã d'elle.

--Pois se nos mentiu é mariola, por nos obrigar a cortejar uma

concubina!... Eu me informarei...--disse o corregedor, offendido no seu

austero pundonor.

E no proximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no periodo

final: «Tive o gosto de conhecer teu filho Manoel, e uma de tuas filhas;

por elle te mandei um abraço, e por ella te mandaria outro, se fosse

modo ensinarem velhos a meninas bonitas como se dão os abraços nos

paes.»

Estava já Manoel em casa de seus avós, e cuidava em trastejar uma

modesta casa para a açoriana, auxiliado por sua bondosa e indulgente

mãe. O pae fôra informado da vinda, e dissera que não queria vêr o

filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavallaria seis,

desde que abandonára os estudos, onde estava com licença.

Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou immediata e

secretamente devassar se em Villa Real estava a senhora que indicava a

carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, em quanto Manoel

Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz

de fóra, e este mandou chamar á sua presença a mulher suspeita, e ouviu

d'ella a sua historia sincera e lagrimosamente contada. Condoeu-se o

juiz, e revelou ao collega as suas averiguações. Domingos Botelho foi a

Villa Real, e hospedou-se em casa do juiz de fóra, onde a senhora foi

novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da provinda

lavrava ordem de prisão para o cadete desertor de cavallaria de

Bragança.

A açoriana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda

sombra, e apparencias de intenções sinistras.

--Eu sou pae de Manoel--disse Domingos Botelho--Sei a historia da

senhora. O infame é elle. V. s.^a é a victima. O castigo da senhora

principiou desde o momento em que a sua consciencia lhe disse que

praticou uma acção indigna. Se a consciencia lh'o não disse ainda, ella

lh'o dirá. D'onde é?

--Da ilha do Fayal--respondeu tremula a dama.

--Tem familia?

--Tenho mãe e irmãs.

--Sua mãe aceital-a-ia se a senhora lhe pedisse abrigo?

--Creio que sim.

--Sabe que Manoel é um desertor, que a estas horas está prêso ou

fugitivo?

--Não sabia...

--Quer isto dizer que a senhora não tem protecção de alguem.

A pobre mulher soluçava, abafada por ancias, e debulhada em lagrimas.

--Porque não vai para sua mãe?

--Não tenho recursos alguns--respondeu ella.

--Quer partir hoje mesmo? Á porta da estalagem encontrará uma liteira, e

uma criada para acompanhal-a até ao Porto. Lá entregará uma carta. A

pessoa a quem escrevo lhe cuidará da passagem para Lisboa. Em Lisboa

outra pessoa a levará a bordo da primeira embarcação que sahir para os

Açores. Estamos combinados? Aceita?

--E beijo as mãos de v. s.^a... Uma desgraçada como eu não podia esperar

tanta caridade.

Poucas horas depois a esposa do medico....

--Que tinha morrido de paixão e vergonha, talvez!--exclama uma leitora

sensivel.

Não, minha senhora; o estudante continuava n'esse anno a frequentar a

Universidade; e como tinha já vasta instrucção em pathologia, poupou-se

á morte da vergonha, que é uma morte inventada pelo visconde de A.

Garrett no _Fr. Luiz de Souza_, e á morte de paixão, que é outra morte

inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos

maridos a quem o seculo dotou d'uns longes de philosophia, philosophia

grega e romana, porque bem sabem que os philosophos da antiguidade davam

por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor

lh'as não tiravam. E esta philosophia, hoje então...[6] Pois o medico

não morreu, nem sequer desmedrou, ou levou _r_ significativo de

preoccupação do animo insensivel ás amenidades da therapeutica.

A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinaria que

seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem

esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou

ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma

carta do doutor Domingos Botelho. Um periodo d'esta carta dizia assim:

«Déste-me noticia d'uma filha, que eu não conhecia, nem reconheço. A mãe

d'esta senhora está no Fayal, para onde ella vai. Cuida tu, ou manda

cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali alguem de correr

com a passagem d'ella para os Açores no primeiro navio. A mim me darás

conta das despezas. Meu filho Manoel teve ao menos a virtude de não

matar ninguem para se constituir amante. Do modo como correm os tempos,

muito virtuoso é um rapaz que não mata o marido da mulher que ama. Vê se

consegues do general, que está ahi, perdão para o rapaz, que é desertor

de cavallaria seis, e me consta que está escondido em casa de um

parente. Em quanto a Simão, creio que não é possivel salval-o do degredo

temporario... É uma lança em Africa livral-o da forca. Em Lisboa

movem-se grandes potencias contra o desgraçado, e eu estou malvisto do

intendente geral por abandonar o logar... etc.»

Partiu para Lisboa a açoriana, e d'ali para a sua terra, e para o abrigo

de sua mãe, que a julgára morta, e lhe deu annos de vida, se não ditosa,

socegada e desilludida de chimeras.

Manoel Botelho, obtido o perdão pela preponderancia do corregedor do

crime, mudou de regimento para Lisboa, e ahi permaneceu até que,

fallecido seu pae, pediu a baixa, e voltou á provincia.

Amor de Perdição: Memorias d'uma familia · 第 34 / 46 题