Que morte a tua, ó minha santa amiga!»

E proseguiu até ao momento em que João da Cruz, com ordem do intendente

geral da policia, entrou no quarto.

--Aqui!--exclamou Simão, abraçando-o--E Marianna? deixou-a sósinha?!

morta, talvez?!

--Nem sósinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre está atraz da

porta... Marianna voltou ao seu juizo.

--Falla a verdade, senhor João?

--Podéra mentir!... Aquillo foi coisa de bruxaria em quanto a mim...

Sangrias, sedenhos, agua fria na cabeça, e exorcismos do missionario,

não lhe digo nada, a rapariga está escorreita, e assim que tiver um

todonada de forças bota-se ao caminho.

--Bemdito seja Deus!--exclamou Simão.

--_Amen_--accrescentou o ferrador--Então que arranjo é este de casa? Que

breca de tarimba é esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e alguma coisa

em que um christão se possa sentar.

--Isto assim está excellente.

--Bem vejo... E de barriga? como vamos nós de barriga?

--Ainda tenho dinheiro, meu amigo.

--Ha de ter muito, não tem duvida: mas eu tenho mais, e v. s.^a tem

ordem franca. Veja lá esse papel.

Simão leu uma carta de D. Rita Preciosa, escripta ao ferrador, em que o

authorisava a soccorrer seu filho com as necessarias despezas,

promptificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas

com a sua assignatura.

--É justo--disse Simão, restituindo a carta--porque eu devo ter uma

legitima.

--Então já vê que não tem mais que pedir por bôca. Eu vou comprar-lhe

arranjos...

--Abra-me o seu nobre coração para outro serviço mais valioso--atalhou o

prêso.

--Diga lá, fidalgo.

Simão pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Thereza de

Albuquerque.

--O berzabum parece-me que as arma!--disse o ferrador--Venha de lá a

carta. O pae d'ella está cá, já sabia?

--Não.

--Pois está; e, se o diabo o traz á minha beira, não sei se lhe darei

com a cabeça n'uma esquina. Já me lembrou de o esperar no caminho, e

pendural-o pelo gasnete no galho d'um sobreiro... A carta tem resposta?

--Se lh'a derem, meu bom amigo.

Chegou o ferrador a Monehique, a tempo que um official de justiça, dois

medicos, e Thadeu de Albuquerque entravam no páteo do convento.

Fallou o aguazil á prelada, exigindo em nome do juiz de fóra, que dois

medicos entrassem no convento a examinar a doente D. Thereza Clementina

de Albuquerque, a requerimento de seu pae.

Perguntou a prelada aos medicos se elles tinham a necessaria licença

ecclesiastica para entrarem em Monchique. Á resposta negativa redarguiu

a abbadessa que as portas do convento não se abriam. Disseram os medicos

de Thadeu de Albuquerque que era aquelle o estylo dos mosteiros, e não

houve que redarguir á rigorosa prelada.

Sahiram, e o ferrador só então reflectiu no modo de entregar a carta, A

primeira ideia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:

--Ó senhora freira!

--Que quer vocemecê?--disse a prelada.

--A senhora faz favor de dizer á senhora D. Therezinha de Vizeu, que

está aqui o pae d'aquella rapariga da aldeia, que ella sabe?

--E quem é vocemecê?

--Sou o pae da tal rapariga que ella sabe.

--Já sei!--exclamou de dentro a voz de Thereza, correndo ao locutorio.

A prelada retirou-se a um lado, e disse:

--Vê lá o que fazes, minha filha...

--A sua filha escreveu-me?--disse Thereza a João da Cruz.

--Sim, senhora, aqui está a carta.

E depositou na roda a carta, em que a abbadessa reparou, e disse

sorrindo:

--Muito engenhoso é o amor, Therezinha... Permitta Deus que as noticias

da rapariga da aldeia te alegrem o coração; mas olha, filhinha, não

cuides que a tua velha tia é menos esperta que o _pae da rapariga da

aldeia_.

Thereza respondeu com beijos ás jovialidades carinhosas da santa

senhora, e sumiu-se a lêr a carta, e a responder-lhe. Entregando a

resposta, disse ella ao ferrador:

--Não vê ahi sentada n'aquella escadinha uma pobre?

--Vejo, sim, senhora, e conheço-a. Como diabo veio aqui parar esta

mulher? Cuidei que depois da esfrega, que lhe deu o hortelão, a

pobresita não tinha pernas que a cá trouxessem! A mulher pelos modos tem

fibras d'aquella casta!

--Falle baixo--tornou Thereza--Pois olhe... quando trouxer as cartas,

entregue-lh'as a ella, sim? Eu já a mandei á cadêa; mas não a deixaram

lá entrar.

--Bem está, e o arranjo não é mau assim. Fique com Deus, menina.

Esta boa nova alegrou Simão. A Providencia divina apiedára-se d'elle

n'aquelle dia. O restaurar-se o juizo de Marianna, e a possibilidade de

corresponder-se com Thereza, eram as maximas alegrias, que podiam baixar

do ceu ao seu cerrado infortunio.

Exaltára-se Simão em graças a Deus, na presença de João da Cruz, que

arrumava no quarto uns moveis que comprára em segunda mão, quando este,

suspendendo o trabalho, exclamou:

--Então vou-lhe dizer outra coisa, que não tinha tenção de lhe dizer,

para o apanhar de _súpeto_.

--Que é?

--A minha Marianna veio comigo, e ficou na estalagem, porque não se

podia bolir com dôres; mas ámanhã ella cá está para lhe fazer a cozinha

e varrer a casa.

Simão, reconcentrando o indefinivel sentimento que esta noticia lhe

causára, disse com melancolica pausa:

--É pois certo que a minha má estrella arrasta a sua desgraçada filha a

todos os meus abysmos! Pobre anjo de caridade, que digna tu és do ceu!

--Que está o senhor ahi a prégar?--interrompeu o ferrador--Parece que

ficou a modo de tristonho com a noticia!...

--Senhor João--tornou solemnemente o prêso--não deixe aqui a sua querida

filha, Deixe-m'a vêr, traga-a comsigo uma vez a esta casa; mas não a

deixe cá, porque eu não posso tolher o destino de Marianna. Como ha de

ella viver no Porto, sósinha, sem conhecer ninguem, bella como ella é, e

perseguida como tem de ser!?...

--Perseguida! _Tó carocha_! Não que ella é mesmo de se lhe dar de que a

persigam!... Que vão para lá, mas que deixem as ventas em casa. Meu

amigo, as mulheres são como as pêras verdes; um homem apalpa-as, e, se o

dedo acha duro, deixa-as, e não as come. É como é. A rapariga sáe á mãe.

Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentando, dei-lhe um

dia um beliscão n'uma perna. E vai ella põe-se direita comigo, e deu-me

dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Marianna!...

aquillo é da pelle de satanaz! Pergunte o senhor, se algum dia fallar

com aquelle fidalguinho Mendes de Vizeu, a troçada que elle levou com as

rédeas da egua, só por lhe bolir na chinela, quando ella estava em cima

da burra!

Simão sorriu ao rasgado panegyrico da bravura da moça, e orgulhou-se

secretamente dos brandos affagos com que o ella desvelára em oito mezes

de quasi continuada convivencia.

--E vocemecê ha de privar-se da companhia de sua filha?--insistiu o

prêso.

--Eu lá me arranjarei como podér. Tenho um cunhada velha, e levo-a para

mim para me arranjar o caldo. E v. s.^a pouco tempo aqui estará.... O

senhor corregedor lá anda a tratar de o pôr na rua, e que o senhor sáe

cá para mim são favas contadas. E assim com'assim, vou dizer-lhe tudo

d'uma feita: a rapariga, se eu a não deixasse vir para o Porto, dava um

estoiro como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ella

tem paixão d'alma por v. s.^a isso é tão certo como eu ser; João. É a

sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixál-a, que pelo senhor Simão não

lhe ha de vir mal, ou então já não ha honra n'este mundo.

Simão lançou-se aos braços do ferrador, exclamando:

--Podésse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!

--Qual marido!...--disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras

lagrimas que Simão lhe vira--Eu nunca me lembrei d'isso, nem ella!... Eu

sei que sou um ferrador, e ella sabe que póde ser sua criada, e mais

nada, senhor Simão; mas, sabe que mais, eu não desejo que os meus amigos

sejam desgraçados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre

rapariga! Não fallemos n'isto, que eu por milagre choro; mas quando pego

a chorar sou um chafariz... Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a

commoda ali; duas cadeiras d'este lado, e duas d'aquelle. A barra acolá.

O bahu debaixo da cama. A bacia e a bilha da agua sobre esta coisa, que

não sei como se chama. Os lençoes e o mais bragal tem-os lá a rapariga.

Ámanhã é que o quarto ha de ficar que nem uma capella. Olhe que a

Marianna já me disse que comprasse duas aquellas... como se chamam

aquellas invasilhas de pôr ramos?

--Jarras.

--É como diz, duas jarras para flôres; mas eu não sei onde se vende

isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça ha de cuidar que me não

deixam sahir da cadêa. Ainda lhe não disse que não me deixaram cá entrar

hontem á tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua mãe para um

senhor desembargador, fui onde a elle, e hoje de manhã já lá tinha na

estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. Até logo.

Amor de Perdição: Memorias d'uma familia · 第 33 / 46 题