Produced by Pedro Saborano
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 1--Janeiro
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
96, Largo dos Clerigos, 98
PORTO
EUGENIO CHARDRON
4, Largo de S. Francisco, 4
BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
_Proemio--Consolação a santos Nazareth--As ostras--Rehabilitação
do snr. visconde de Margaride--A Rival de Brites de Almeida--Egas
Moniz--Dous poetas ineditos do Porto--D. João 3.º, o principe
perfeito--Subsidio para a historia de um futuro santo--O livro 5.º
da Ordenação, titulo 22--Problema historico a premio--Desastre do
santo officio no Porto--Rancho do Carqueja._
TRABALHOS
DO
EXC.^mo SNR.
CAMILLO CASTELLO BRANCO
DE QUE É EDITOR ERNESTO CHARDRON
*O carrasco de Victor Hugo José Alves*, romance. 1 vol. ... 500
*A freira no subterraneo*, romance historico (traducção). 1 vol. ... 500
*Os amores do diabo*, romance (traducção). 1 vol. ... 800
*Mosaico e silva de curiosidades historicas*. 1 vol. ... 500
*Memorias do bispo do Pará*. 1 vol. ... 500
*Poesias e prosas de Soropita*. 1 vol. ... 500
*A espada de Alexandre*. Córte profundo na questão do homem-mulher e
mulher-homem, por um socio prendado de varias philarmonicas. ... 240
*Carta de guia de casados*, para que pelo caminho da prudencia se acerte
com a casa do descanço, a um amigo, por D. Francisco Manoel. Nova
edição, com um prefacio biographico, enriquecido de documentos ineditos.
... 360
*Vida d'el-rei D. Affonso VI*, escripta no anno de 1684. Com um
prefacio. ... 400
*Diccionario universal de educação e ensino*, traduzido e muito ampliado
nos artigos relativos a Portugal e Brazil. 2 grossos volumes, de 800
paginas cada um, a 2 columnas. ... 6$000
PROEMIO
Esta serie de livrinhos ha de ser uma cadêa com elos de bronze rijos e
toscos, e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços. O bronze é a
porção prestadía do opusculo; é a pagina que não seria descabida em
livro de estudo; é a pretenção do author a que a sua obra perdure mais
de vinte e quatro horas no espirito de quem a lêr.
O pechisbeque é a futilidade que, ao nascer, é acolhida por um sorriso
do leitor; e, apenas o sorriso esmorece, a impressão esvaíu-se; e a idéa
fulge e apaga-se sem deixar mais signal que o relampago das noites de
agosto, e o arrancar da aguia no seio das nuvens.
Ambas as especies pertencem ás minhas noites de insomnia. N'esta
deploravel enfermidade, que ha seis annos me estila no cerebro gota a
gota a peçonha da morte, achei traça de me vingar do acaso que embala o
regalado dormir do meu cão, e me estrondeia nos ouvidos o marulhar das
vagas entre penhascos. Vou ao jazigo das minhas illusões, exhumo os
esqueletos, visto-os de truões, de principes, de desembargadores, de
meninas poeticas á semelhança das que eu vi quando a poesia era o aroma
dos seus altares. Visto-me tambem eu das côres prismaticas dos vinte
annos, aperto a alma com as garras da saudade até que ella chore
abraçada ao que foi. E, depois, n'este festim de mortos, conversamos
todos; e eu, no alto silencio da noite, escrevo as nossas palestras. Ás
vezes, entre muitos estridores que me resoam nos ouvidos, o mais
distincto é o dobre a finados. É quando a aurora reponta: a luz espanca
as imagens cujo meio de vida é a treva e o silencio.
Venho então sentar-me a esta banca, dou fórmas dramaticas ao dialogo dos
meus phantasmas, e convenço-me de que pertenço bem aos vivos, ao meu
seculo, ao balcão social, á industria, mandando vender a Ernesto
Chardron as minhas insomnias.
Eis a minha vingança, que abrangeria o leitor, se estes livros lhe não
abonassem horas de somnolenta digestão de alguns artigos substanciosos.
Estes artigos constarão da nobre sciencia da historia, nomeadamente de
historia nacional, e muito das cousas pertencentes á fidalguia de raça
que vai extinguir-se. É tempo de esgaravatar entre as ruinas do edificio
derruido algumas reliquias aproveitaveis para a comedia humana. Mas nem
tudo será escavar no lixo. Não vaguearemos sempre ao través dos
pardieiros dos antigos solares. Alguma vez nos sentaremos na testada da
serenissima casa de Bragança conversando com os seus duques e monarchas
n'aquella sem ceremonia permittida á arraia miuda de hoje em dia; mas
escreveremos as nossas considerações, como lá dizem, de luva branca e
penna de diamante. Desejamos que a posteridade se entretenha comnosco, e
com o snr. conselheiro Viale. Elle e nós levaremos aos evos uma sincera
historia de Portugal, e andaremos os dous, á compíta, a vêr quem maiores
emborcações de morphina injecta nos nervos das gerações porvindouras.
CONSOLAÇÃO A SANTOS NAZARETH
_Beati qui lugent_, e não pagam.
A BIBLIA E EU.
Amigo!
Sensibilisou-me até ás lagrimas a noticia da sua prisão no theatro de S.
Carlos, n'aquella funesta noite da sua citada prisão, como diria o nosso
collega Jayme José Ribeiro de Carvalho.
Não foi a razão que motivou esta ternura: foi a amizade.
Vossê devia ser preso. Dizer que o espectador póde patear um espectaculo
desagradavel e caro é duvidar que o espectaculo é que tem direito de
patear o espectador.
Santos Nazareth ignora as leis do reino expungidas da jurisprudencia do
Manique, e não tem talvez opinião bem assente ácerca da transmigração
das almas.
A metempsychose do famoso intendente geral da policia fez-se ha 60
annos, pouco mais ou menos, na pessoa d'esse alcaide do real alcaçar que
enviou o meu amigo ao Limoeiro como enviaria Mattos Lobo e Diogo Alves,
se os colhesse no theatro de S. Carlos em flagrante _banzé_. Admitta o
plebeismo que tem o fartum fadista da cazerna e da guitarra, que ainda
hoje chora saudades da Severa, e disputa ás trombetas bastardas de Pedro
I as reaes delicias da sua progenie.
Quando a imprensa rugiu pelas suas guelas de zinco um rugido grande a
favor de vossê, as minhas palpebras exsudaram perolas, na hypothese de
que a intendencia da policia o obrigára a pagar aos quadrilheiros as
despezas de o conduzirem aos ferros d'el-rei.
É que eu considerando-me em plena monarchia do Pina Manique, lembrou-me
um caso acontecido ha 89 annos.
Raphael da Silva Braga, na noite de 2 de outubro de 1795, pateou uma
cantora no theatro de S. Carlos.
O corregedor Pedro Duarte da Silva mandou dous quadrilheiros agarrar o
espectador desgostoso, e mettel-o no Limoeiro.
No dia seguinte participou o successo ao Manique.
O intendente, informando-se das condições do preso, soube que era pobre
e tinha familia; e, além d'isso, pateára com tal conhecimento da arte.
Em consequencia do que, ordena que Raphael seja solto, _pagando 3$200
reis de diligencia para os officiaes_.
Se alguma vez é permittido a um homem da minha idade soluçar de
commoção, é agora. Dar a liberdade a um homem pobre, mediante 3$200
reis, em attenção á sua pobre e consternada familia, é uma cousa bonita
e lacrimavel!
Aqui lhe dou o traslado d'esta pagina de ouro do Manique, e lhe envio a
original pela posta, a fim de vossê regalar os seus amigos vaidosos de
serem de um paiz onde ha isto:
«Snr. Pedro Duarte da Silva. Louvo o procedimento que v. m.^ce teve
contra Raphael da Silva Braga, por ser um dos que hontem á noite deram a
pateada no theatro de S. Carlos: attendendo porém á sua pobre familia,
que está em consternação, e a outros motivos justos, que concorrem, v.
m.^ce o haverá por corrigido, e o mandará soltar, pagando tres mil, e
duzentos de diligencia para os officiaes. Deus guarde a v. m.^ce Lisboa,
3 de outubro de 1795.--_Diogo Ignacio de Pina Manique_.»
No rodar de 90 annos, desde 1795 até 1874, a poesia do direito, graças
ás insomnias do doutor Theophilo, defecou os Maniques da prosa dos 3$200
reis, de modo que vossê não pagou nada, segundo me consta. Isto me faz
cogitar que o progredir é fatal, e que o snr. barão de Zezere, o
longobardo,--chrysalida de outra transmigração,--ha de passar a fuzil
mais polido na cadêa dos intendentes geraes da policia; por maneira que,
na sua futura metempsychose, já se não distingam vestigios do corregedor
Marques Bacalhau, façanhoso magistrado de D. João V.
Entretanto, meu amigo, pois que a raça dos Maniques ainda referve nas
retortas depurantes, aceite o meu conselho:
Antes de entrar na platéa, vá ao camarote das authoridades, e
pergunte-lhes:
--Com quaes dos quatros pés manifestam v. exc.^as, esta noite, a sua
opinião lyrica?
E governe-se, consoante a resposta.
AS OSTRAS
No Porto, as commoções que sacodem os nervos da grande cidade, são
raras; mas, se rebentam, são a valer!
No principio d'este anno, estavamos todos quietos, com estas nossas
caras cheias de ideal, gravidos de philosophias, hypocondriacos, ares
inglezes, indigestos; mas, sobre tudo, bons visinhos e inimigos de
novidades.
A quarta pagina das gazetas andava, ha muito, alugada aos varios
_barateiros_, que se denominam numericamente como as dynastias,
traspassando a sua qualidade de barateiros n.^o 1, n.^o 2, etc., á
proporção que quebram, e vão transmittindo a genealogia dos epithetos,
maneira discreta de esconder os nomes.
Eis que, inesperadamente, se annunciam em letras colossaes AS OSTRAS.
E os litteratos, encarregados de guiarem a corrente da opinião publica,
escolhendo no seu guarda-joias a mais nitida pedraria de estylo,
apregoaram as ostras como ha dezenove seculos o fazia Horacio quando as
afogava no falerno de Mecenas.
O localista do _Primeiro de Janeiro_, com pulso febril, e ternura pelo
marisco, exclamou: «Abençoado o nome de quem quer que em tempos tão
doentios nos trouxe medicina tão efficaz e preconisada!... Não são de
Ostende as ostras que se nos offerecem, frescas, saborosas e
provocadoras, pela manhã como leite de cabra, ao meio dia como o _lunch_
á ingleza, á noite como um restaurador das forças perdidas no labutar
diurno. São de Montijo, igualmente boas, e igualmente irritantes. Vamos
a ellas!»
Vamos lá! conclamou toda a gente doentia, toda a gente em uso de leite
de cabra, toda a gente que _lunchava_ á ingleza, e, em summa, toda a
gente que á noite costumava restaurar as forças, deitando-se a dormir,
ou extrahindo do goraz cozido o phosporo necessario á sua vida
intellectual e physica.
Desde o alvorejar das gazetas, confluiram á praça de D. Pedro todos os
servos que superintendem na culinaria das familias. As massas que
desembocavam das ruas circumjacentes davam a lembrar os comicios
d'aquelles dias de vertigem civica, lá quando os irmãos Passos abriam na
viella da Neta os relampagos do Sinay, e a turbulencia da liberdade alli
vinha soltar um rugido e ameaçar os tyrannos.
Não assim agora n'estes dias em que o paiz, podre de feliz e anemico da
sua indigestão de prosperidade, procura restaurar-se pelo marisco.
De mais a mais, os diarios tinham annunciado que as ostras eram GORDAS;
e, sobre gordas, dizia o _Primeiro de Janeiro_, IRRITANTES. Pela
qualidade de gordas, o sorriso que brincava nos meus labios, quando
mandei o meu gallego comprar doze vintens d'aquelle remedio, era um
sorriso de tão legitima candura como o leitor os tem visto nas bentas
bochechas dos seraphins que sobem de gatinhas pelas columnas dos
altares. Quanto a irritantes, como essa virtude me não parecesse a mais
sadía, mandei ao mesmo tempo comprar a linhaça correspondente.
E, em quanto o criado ia e vinha, consultei, para illudir a impaciencia,
os meus livros no que havia, através dos seculos, mais averiguado ácerca
das ostras. Li em Chernoviz que póde uma pessoa comer oito duzias sem
experimentar o minimo incommodo. Oito duzias--noventa e seis ostras, de
manhã, como leite de cabra; noventa e seis, como _lunch_ á ingleza;
noventa e seis á noite para restaurar as forças: ao todo, duzentas e
oitenta e oito ostras quotidianas que custam no deposito da praça de D.
Pedro 3$840 reis.
É uma alimentação economica e boa para fortalecer o estomago de um paiz
pobre. Qualquer sujeito anemico, pallido, que não possa com um gato por
qualquer parte do mesmo, deve nutrir esperanças de que, no fim de um
anno, tendo comido cento e cinco mil cento e vinte ostras gordas da
praça de D. Pedro, que lhe custam um conto quatrocentos e um mil e
seiscentos reis, póde gozar uma saude mais ou menos gallega.
Assim que o meu criado chegou com dezoito ostras por 240 reis, atadas na
ponta de um lenço, á guisa de biscoutos de revalenta, duvidei da gordura
do testaceo, mas afaguei a charneira da concha bivalve, porque só de per
si a concha tem virtudes medicinaes cuja noticia eu envio aos risos
jubilosos dos meus amigos. Tenho aqui a _Anchora medicinal_ do grande
medico Francisco da Fonseca Henriques, e n'ella a pag. 247, _mihi_,
artigo _Ostras_, leio com estremeções de gaudio: _As conchas das ostras
queimadas são boas para as queixas das almorreimas._
Isto é o que o _Primeiro de Janeiro_ sabia de fundamento quando abençoou
o inventor de remedio tão conveniente ás doenças do tempo. Faz-se mister
grande intuição medica de entranhas a dentro para diagnosticar
hemorrhoidas universaes na nação.
Das alegrias externas, passei a averiguar a gordura annunciada do
testaceo hermaphrodita.
Não me pareceu tão gorda a ostra espalmada na concha que podesse
disputar vantagens a um jantar do Ugolino de Dante na Torre de Piza.
Authorisado pelas idéas que fórmo de gordura, suspeito que o empresario
d'estas ostras descobriu o segredo de repartir dez por cada casca; ou,
negociando as cascas em Montijo, as encheu com ameijoas do Cabedelo. É
uma falsificação engenhosa que merece desculpa em quanto se conservar na
familia dos testaceos; mas desde que o unico depositario das ostras
portuenses começar a introduzir nas conchas das ostras pedacinhos de
bucho de safio, carochas e grillos de salmoura, quer-nos parecer que uma
duzia d'estes covilhetes por oito vintens não é barato, nem me garante a
renovação do meu sangue depauperado.
Não obstante, o consummo de ostras no corrente mez, no Porto e
arrabaldes, tocou uma cifra que seria fabulosa, se as consequencias da
irritação, previstas pelo _Primeiro de Janeiro_, se não manifestassem
formidaveis, nos geitos, nos ademanes, nos esgares, nas crispações
electricas que faiscam dos olhos de toda a gente saturada das ostras do
unico deposito. Conhece-se que os insultos inferiores, que o pó da
concha combate, se deslocaram, e evadiram a cupula do edificio humano.
Os systemas nervosos, levados pela irritação a electróphoros,
tornaram-se engenhos luminosos que transcendem as mais phantasticas
idealisações da pyrotechnica. Esta galvanisação de organismos extenuados
é realmente um espectaculo que honra muito a ostra; mas que tambem póde
vir a ser nocivo á saude das almas.
Sei que temos recursos antiphlogisticos para combater as irritações,
desde as cataplasmas de fecula até ás ventosas sarjadas; mas o emprego
d'estes meios therapeuticos obriga as pessoas timidas a andarem na rua
com um alforge de drogas, como os antigos physicos, ministrando capilés
e orchatas a todos os sujeitos que denunciem instinctos inflammados no
ultimo grau de irritação.
Em nome da moral publica, pedimos ás pessoas irritaveis que se abeberem
em agua de cevada, quando sentirem que a ostra se lhes insinua
perfidamente nos seios do coração.
REHABILITAÇÃO DO SNR. VISCONDE DE MARGARIDE
S. exc.^a festejou o seu natalicio com um baile, em um dia de jejum, por
uma noite de janeiro, breve e esplendorosa. O dia era de abstinencia
carnal, note-se. Creio que o preceito começava á meia noite,
pontualmente á hora em que a restauração das forças, esvaídas na
vertigem dos bailados, reclamava varios phenomenos reparadores desde a
trituração até ao filtramento do chylo no systema sanguineo. Se eu não
odiasse o palavriado vulgar, diria que os hospedes do snr. visconde
precisavam de comer.
Á magnitude do appetite correspondeu a magnificencia dos acipipes. Era
já soada a hora da abstinencia do boi, do perú, da gallinhola, do
_salmagundy_. E, não obstante, as iguarias condimentosas, a febra, a
alimentação rija lourejava nos pratos e nas terrinas entre ondulações de
perfumes. Alguns dos convivas sabiam que o dia ou a noite era de peixe.
Senhoras de idade canonica, respeitaveis por seus principios e
observantes das disciplinas da igreja, não vendo alvejar a pescada ou o
rodovalho entre coxins de batata e cebola, tantalisavam a perdiz em
molho de villão; mas, cerrando os dentes á invasão do peccado,
esquivavam-se a sahir do baile com o bolo alimenticio azedado por
escrupulos. N'este comenos, alguem disse o que quer que fosse a meia voz
ás pessoas perplexas entre a gallinhola _truffée_ e a religião dos
Affonsos.
Umas pessoas, depois que ouviram a nova, sorriram, como vencidas de
tentação deliciosa, e comeram carnes. Outras, invulneraveis e inflexas
na sua abstinencia, martyrisaram-se com trutas e salmões. Como quer que
fosse, houve escandalo. Comeu-se volateria e ruminantes em sexta feira.
Algumas consciencias sahiram do baile do snr. visconde, ás 8 horas e
meia da manhã, com o peso do estomago sobre si.
A opinião publica, já em Guimarães, já em Braga, ergueu-se á altura dos
principios, e murmurou. Eu fiz parte d'esta opinião adversa ao
magistrado superior do districto a quem corre o dever de penitenciar os
seus hospedes com trutas e salmão em dias de peixe, em memoria dos
augustos mysterios do christianismo.
Quanto a mim, o snr. visconde era um atheu e os seus hospedes uma cafila
de heresiarcas. Eis senão quando a imprensa do Porto divulga uma noticia
que bafejou um halito de jubilo na face de Braga, no perfil de
Guimarães, e nos tres quartos do paiz. Apresso-me a repetil-a em grifo
com uma consolação catholica, e tanto ou quê apostolica: _O snr.
visconde de Margaride tinha obtido dispensa do prelado bracharense para
que os seus hospedes podessem comer carne._
Orvalhe-se de lagrimas de alegria o rosto da christandade portugueza;
que eu por mim, quanto um abraço cabe nas potencias da phantasia, aqui
aperto contra o coração o snr. visconde de Margaride, e felicito os
catholicos que digeriram innocentemente as suas vitualhas.
A RIVAL DE BRITES DE ALMEIDA
A façanhosa forneira de Aljubarrota resiste á incredulidade da critica,
abordoando-se ás muletas do patriotismo e á pá. Sabe-se pouco das
proezas de Nuno Alvares e Mem Rodrigues. Nada referem os historiadores
das apostas e porfias dos cavalleiros do Mestre de Aviz. Porém, que a
forneira matou sete hespanhoes ebrios, feridos ou prostrados de fadiga,
isso, que não póde ser honroso porque é vil, aprendem-o as crianças, e
repetem-o adultos com desvanecimento e orgulho. Por honra da minha
patria, quero crêr que a lenda da padeira de Aljubarrota é tão
authentica e verdadeira como a do caldeirão de Alcobaça, apresado no
arraial de D. João I de Castella. Dêem-se-me honras de Niebuhr n'esta
cousa do caldeirão de Alcobaça.
Houve outra heroina, mais digna de lembrança, e, todavia, ignorada. Essa
praticou um feito de nobre coragem, defrontando-se a rosto com o
inimigo, e derrubando-o.
Foi o caso que em 1762 os hespanhoes, commandados pelo marquez de
Sarria, invadiram Portugal pela provincia de Traz-os-Montes. A cidade de
Miranda foi das terras d'aquella provincia a que mais soffreu as
arremettidas do exercito invasor. Alli perto, passa o rio Fresno, cujas
margens se communicam por uma ponte. Na extrema esquerda d'esta ponte
vivia uma mulher casada, cujo marido se alistára nas guerrilhas
dispersas pelas empinadas penedias do Douro. Um piquete de hespanhoes,
com seu sargento, passou a ponte do Fresno. O sargento viu a mulher do
guerrilheiro, que era a mais esbelta e donosa moça da comarca. Postou os
soldados de atalaia a pequena distancia da ponte, e voltou de noite,
acompanhado de dous, com o proposito de se fazer amar da aldeã por meio
do assalto.
Este sargento, em tempo de guerra, não usava das artes maviosas do seu
patricio Tenorio. Em vez da guitarra e da escada de corda, fiava na
suspensão das garantias, na quebra do direito internacional, na cronha
da escopeta, e na pujança de seis rijas espadoas atiradas á porta
d'aquella Elvira montezinha.
A rapariga, votada ao saque, se não tinha commendador em casa, tinha
cousa mais infesta ao sargento: era o marido que, por saudade ou receio,
debandára da horda guerrilheira e fôra, encoberto por entre penhascos,
pernoitar a casa.
Alta noite, os tres castelhanos bateram á porta.
O portuguez não respondeu; foi ella que assomou na adufa do sobrado,
perguntando o que pretendiam áquella hora.
O sargento, depois de inutilisar algumas phrases lyricas, tomou o pulso
á timidez da moça, intimando-a a entregar a praça.
O marido estava ouvindo, e perguntou muito de manso á mulher:
--Quantos são?
--Tres--respondeu ella.
--Deixa-me lá ir, antes que venham mais. E ella, sahindo da janella,
disse:
--Então vamos lá.
--Tu não venhas.
--Não? isso lá, hei de ir, quer queiras, quer não.
O sargento no entanto voltou-se aos dous soldados e disse:
--A praça rende-se.
D'ahi a minutos, abriu-se a porta da rua.
O guerrilheiro deu uma guinada de tigre para a testada da porta, e
desfechou um arcabuz em um dos tres, que foi a terra. Dous pelouros ao
mesmo tempo lhe bateram no peito; mas o portuguez, ao cahir morto,
levava debaixo de si um dos dous com uma navalha hespanhola embebida nas
entranhas. Sobrevivêra o sargento aos companheiros, mas sómente o tempo
indispensavel para que ella o varasse do peito ás costas com o espeto da
cozinha.
Depois, como sentisse o tropel da soldadesca, travou do marido, desceu
por um algar escuro e pedregoso á ourela do rio, e cahiu prostrada de
afflicção, quando conheceu que levava um cadaver. Ao romper da manhã,
galgou á cumiada da serra, onde estanciavam os camaradas de seu marido,
e viu de lá as ultimas fumaças da sua casinha, que os soldados
castelhanos haviam queimado.
Nada mais se sabe d'esta mulher. Não consta, sequer, que o governo de D.
José I lhe mandasse reconstruir o casebre, acabada a guerra.
Houve um poeta contemporaneo, que a descantou em um soneto jocoso,
avantajando-a á Brites de Aljubarrota. As musas sérias não acharam a
heroina digna de poesia grave.
E esse mesmo soneto chocarreiro ninguem o conheceria, se lh'o não
publicassemos aqui, precedido de um interrogatorio académico:
_Qual acção é mais memoravel: a da forneira de Aljubarrota, matando os
castelhanos com a sua pá; ou a da mulher de Traz-os-Montes, matando o
sargento castelhano com o espeto?_
SONETO
_É problema que deve disputar-se,
entre os authores de mais nome e nota,
se póde essa mulher de Aljubarrota
com a de Traz-os-Montes comparar-se._
_Aquella tem razão para gabar-se
de fazer com sua pá tanta derrota;
esta, que deixa co'a barriga rota
ao sargento, tambem deve estimar-se._
_E esta, a meu vêr, melhor juizo tinha,
pois, vingando o marido seu dilecto,
fez o que ao seu genio lhe convinha._
_Metteu-se-lhe nos cascos o projecto
de tratar o hespanhol como gallinha,
e, assim que topou um, pôl-o no espeto._
No principio d'este artigo, fallamos de apostas, porfias e promessas de
cavalleiros, antes de se desfraldarem os guiões e bandeiras na batalha
de Aljubarrota. Vasco Martim de Mello prometteu pôr as mãos no rei D.
João I de Castella; Gonçalo Annes de Castello de Vide prometteu ser o
primeiro que lhe enristasse a lança ao rosto. Estas promessas são
heroicas; mas houve uma de Martim Affonso de Sousa Chichorro
extremamente original pela deshonestidade. Vejam com que limpeza de alma
este fidalgo se preparava para um conflicto de morte, e deprehendam
d'ahi o que eram as crenças da immortalidade no seculo do cavalleiroso
Mestre de Aviz.
Na hoste de D. João assignalava-se João Rodrigues de Sá, o das Galés,
aquelle heroico perfil tão portuguezmente desenhado pelo snr. A.
Herculano no _Monge de Cistér_.
João Rodrigues de Sá, ainda moço n'aquelle tempo, tinha uma bella irmã,
abbadessa do mosteiro benedicino de Rio Tinto chamada Aldonsa Rodrigues.
Martim Chichorro queria muito á gentil prelada, e não resguardava da
censura os seus amores adulterinos com a esposa do Senhor. Na vespera da
batalha perguntaram-lhe os fidalgos namorados da ala de Mem Rodrigues
que promessa era a d'elle.
--Prometto, se escapar da batalha--respondeu o amoroso selvagem--ir ter
uma novena com a abbadessa de Rio Tinto.
Grande cascalhada de riso, naturalmente. Houve logo um bisbilhoteiro que
denunciou ao das Galés a fatuidade de Martim, quinto neto por bastardia
d'el-rei D. Affonso III.
--Pois eu--disse João Rodrigues serenamente--prometto ir atraz d'elle, e
bater-lhe.
Deu-se a batalha. Vasco Martim de Mello morreu no empenho de pôr a lança
no rei. Gonçalo Annes sahiu illeso do voto cumprido. E Martim de Sousa,
tão extensamente cumpriu a sua--as novenas succederam-se em tanta
copia--que a peregrina Aldonsa houve do seu pontual servidor dous filhos
que se chamaram Martim e Pedro. O que os genealogicos esconderam á
posteridade, edificada com as virtudes das abbadessas e dos Chichorros,
foi o genero de sova que o das Galés deu no pai dos seus sobrinhos.
Talvez se desforrasse, consoante o gosto do tempo, em o fazer tio dos
seus numerosos bastardos. As preladas formosas eram as conciliadoras em
contendas d'esta natureza. D. João I morigerava os mosteiros, mandando
vestir o habito de commendadeira de Santos a Ignez Pires, depois de a
condecorar com a dupla virtude da maternidade. Os nossos reis, quando se
enfastiavam das mulheres, davam-as de presente a Deus.
EGAS MONIZ
Representa-se no Porto um drama chamado _Egas Moniz_. Não louvo nem
censuro a composição, nem discuto se melhores interpretes a realçariam
no palco. Tambem não levanto a já debatida questão da veracidade do
facto. O snr. Alexandre Herculano crê que o aio de Affonso Henriques
praticou o feito heroico. É o bastante.
Quando o drama se annunciou, a primeira vez, nos cartazes, um homem de
sessenta annos, vestido de preto, sobrecasaca no fio, o velludo da gola
rapado, as calças recortadas e lamacentas á volta das botas azuladas de
velhice, parou á esquina da rua Formosa, a lêr o cartaz grudado no
cunhal da igreja das Almas.
Eu reconheci-o a distancia, avisinhei-me, e parei, por detraz d'elle, em
frente do cartaz, meditando.
E meditava isto:
Egas Moniz gerou Lourenço Viegas, o espadeiro;
Lourenço Viegas gerou Egas Lourenço;
Egas Lourenço gerou Sueiro Viegas Coelho;
Sueiro gerou João Soares Coelho, valido de D. Affonso III;
João Soares Coelho gerou Pedro Annes Coelho;
Que gerou Estevão Coelho;
Que gerou Pedro Coelho, o matador de D. Ignez de Castro;
Pedro Coelho gerou Gonçalo Pires Coelho;
E assim se foram gerando uns dos outros com uma constancia digna da
nossa admiração, até que uma senhora da casa dos Coelhos, senhores de
Vieira e Felgueiras, casou na casa dos senhores da Teixeira e Sergude, e
d'este consorcio gerou-se:
Gonçalo Pinto Coelho, que gerou:
Martim Teixeira Coelho, que gerou:
Bernardo José Teixeira Coelho, que gerou:
Gonçalo Christovão Teixeira Coelho de Mello Pinto de Mesquita, senhor da
Teixeira, de Sergude e do Bom Jardim, pai d'aquelle homem pobremente
vestido que lia o cartaz do drama _Egas Moniz_, na esquina da rua
Formosa.
Aproximei-me d'elle, puz-lhe a mão no hombro, e disse-lhe:
--Está o meu amigo regosijando-se de lêr em letras enormes o tio de seu
decimo oitavo avô Egas Moniz...
--Não, senhor--respondeu elle sorrindo--estava a scismar n'uma cousa que
me não regosija absolutamente nada...
--Bem sei--acudi eu com a minha notoria esperteza--estava v. exc.^a
meditando que já não ha portuguezes que, á semelhança do seu avô, fossem
de corda ao pescoço dar satisfação da palavra mal cumprida.
--Não, senhor; pensava em outra cousa...
--Bem sei... pensava no apagado luzimento d'esta heroica estirpe dos
Viegas, dos Coelhos, dos...
--Não, senhor; pensava em ir vêr ao theatro Baquet representar a façanha
d'este meu illustre avô; mas vejo aqui escripto que um lugar da galeria
custa duzentos reis; e eu, decimo oitavo neto de Egas Moniz, se tivesse
dous tostões, iria empregal-os no jantar de meus filhos, que estão em
jejum.
..........................................................................
Snr. Antonio Moutinho de Sousa, dê no seu theatro um beneficio a favor
de alguns netos do aio de D. Affonso I, e convide-os a levantar o obolo
que os admiradores de seu avô d'elles depositarem na bandeja dos pobres.
Os descendentes do fidalgo, que ensinou o primeiro rei portuguez a ser
honrado, não deviam ter fome e frio, quando as plateias desbordam de
gente jubilosa de bom patriotismo e de melhor jantar.
DOUS POETAS INEDITOS DO PORTO
Na segunda metade do seculo XVII floreceram no Porto dous doutores,
acariciados das musas, e por isso mesmo rivaes e inimigos: eram João de
Assucarello (ou Sucarello) Claramonte, e Christovão Alão de Moraes,
desembargador da Relação e mais tarde corregedor do civel do Porto. Do
primeiro temos algumas poesias deshonestas, e diminutas noticias, e
essas em referencias dos poetas seus contemporaneos, nomeadamente o
padre Jeronymo Bahia. Do segundo encontra o leitor ampla noticia no
_Panorama_ de 1854, n.^os 123 e 127. Distinguiu-se como poeta e
genealogico. Não sei onde param oito volumes em folha escriptos de sua
mão, intitulados _Genealogia das familias de Portugal_. Sei que o duque
de Lafões, no seculo passado, os não quiz comprar porque lhe não
respeitavam a pureza do sangue dos avós; e a bibliotheca publica de
Lisboa tambem os não adquiriu, ha poucos annos, «por incuria ou capricho
do ex-bibliotecario Canaes», diz o snr. Innocencio Francisco da Silva.
O doutor João de Assucarello satyrisava o Porto, representado nas
pessoas de mais importancia, algumas das quaes nos são hoje
desconhecidas, e difficilmente lhes rastrearemos as familias que as
representam.
Eis-aqui o maledicente soneto do medico, émulo de Christovão Alão:
_As valentias de Gaspar de Anhaya,[1]
O mero e mixto imperio do Sarinho,
A calva de João Nunes frita em vinho,
As filhas do Picão de Miragaya;_
_Mercancia de esterco, ambar da Maya,
Comprado ou já por lenha ou por toucinho,
Geral remedio de Entre-Douro e Minho,
Achado antes nas casas que na praia;_
_Beata calva, immensa gravidade
Dos infanções mantidos com farelo,
Da manta rota a celebre Irmandade:_
_Este é o Porto--acabo de dizel-o.
Ó muito nobre e sempre leal cidade,
Quem te pozera a couves e bacello!_
Não se percebem alguns epigrammas do soneto; mas aquelle verso que
rescende ao _ambar da Maya_ não seria ainda hoje um anacronismo.
Respondeu Christovão Alão, pelas mesmas rimas, do seguinte feitio:
_Bem caro te custou Gaspar de Anhaya,
E te póde custar inda o Sarinho;
Poeta bacchanal, farto de vinho,
Que és deshonra do Porto e Miragaya._
_Villão inda mais sujo que da Maya,
Creado só com brôa e com toucinho,
Quem te mette a fallar em Douro e Minho,
Sendo filho das ervas e da praia?_
_Como has tu de entender da gravidade
Dos infanções, brichote de farelo,
Se não logras dos nobres a Irmandade?_
_Este és, ó bebado!--acabo de dizel-o:
Que só para beber toda a cidade,
A desejaste poeta de bacello!_
Este soneto é bom.
Desculpa-se ao poeta fidalgo a arrogancia com que desdenha o plebeismo
do Assucarello, appellido que nenhum linhagista condecora; dado que este
medico já então tivesse o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Ora
os Alões são mais antigos em Portugal que os seus monarchas. D. Mendo
Alão era senhor de Bragança, antes da vinda do conde D. Henrique a
Hespanha. Alguns genealogicos lhes dão como antepassados os reis
_álanos_. Na igreja de S. Bartholomeu de Lisboa existiu o morgado de
Santo Eutropio instituido por D. João Alão, bispo do Algarve. Esta
familia está representada no Porto por descendentes que não desdouram
tão nobre appellido.
[1] Não ha no Porto alguem que use este appellido; mas a familia que
o teve ainda aqui vivia honradamente no meiado do seculo passado, e
se obscureceu no Alemtejo e Minho por onde se ramificára. Prende com
esta familia do Porto Antonio Fogaça, aqui nascido. D. Sebastião o
mandou como seu residente para Inglaterra, onde permaneceu largos
annos, em serviço dos Philippes, enviando de lá importantes noticias
em tempo de Henrique VIII. Seguiu a facção da rainha Catharina, e
gastou o mais grosso dos seus grandes cabedaes n'esse brioso
empenho. Succedendo no throno a rainha Isabel, foi Antonio Fogaça
preso e duas vezes trateado na Torre de Londres, vindo a morrer das
torturas, quando recobrou a liberdade. Por sua morte, foi-lhe
confiscado o restante dos bens. Antonio Fogaça teve de sua mulher
Isabel Ribeira de Vabo uma filha que se chamou D. Maria, e casou com
Braz Rodrigues Anhaya. D'estes nasceu outra D. Maria do Vabo
Pimentel, que casou com o capitão Manoel Soromenho Dias, de quem foi
filho Luiz do Vabo Pimentel, governador da praça de Albufeira. Em
1750 ainda existia em elevada categoria um filho d'aquelle ultimo.
Era capitao-mór de Alvor, e chamava-se Antonio Pimentel do Vabo. Nas
provincias de Traz-os-Montes e Minho, nomeadamente no Paço de Carude
e Torre de D. Chama, existiram Vabos e Soromenhos. De todas estas
familias descende o snr. Augusto Soromenho, erudito professor do
curso superior de letras, e que, ha quinze annos, com legitimo
fundamento, usou em documentos publicos dos seus appellidos _Vabo e
Anhaya_.
D. JOÃO III, O PRINCIPE PERFEITO
Não me recordo se os chronistas d'este rei nos contam que os
resplendores da graça divina lhe aureolaram o rosto, quando a alma se
desatou d'aquella infame caverna, e foi receber o galardão dos milhares
de hebreus queimados em obsequio á religião da fé, esperança e caridade.
O snr. A. Herculano capitula este rei de _fanatico, ruim de condição e
inepto_; mas isto não faz implicancia á salvação do monarcha, antes a
confirma; porque o grande historiador, sabendo como se fazem optimos
livros, de certo ignora os processos da formação da glottica e dos
santos. Afóra isto, sabe tudo, excepto que D. João III, quando expirou,
causava medo aos que lhe viram a horrendissima cara.
As pessoas medianamente cultas não ignoram que houve um frade de grandes
virtudes e letras chamado frei Thomé de Jesus, da ordem de Santo
Agostinho. D. Sebastião o levou comsigo á batalha de Alcacerquibir. Não
sabemos se o frade pelejou; mas temos de certeza que ficou ferido,
captivo, e encarcerado nas masmorras de Maquinez. Transferido para
Marrocos, por diligencia do embaixador de Portugal, rejeitou o resgate,
que seus irmãos, fidalgos de primeira plana, lhe offereceram, preferindo
a escravidão alli onde eram muitissimos os captivos carecidos de
confortações e exemplos de paciencia. E, ao cabo de quatro annos de
servidão, morreu em Marrocos, aos 17 d'abril de 1582, na idade de
cincoenta e tres annos, legando-nos um livro lá escripto e muito
apreciado com o titulo _Trabalhos de Jesus_.
D'este escriptor mystico possuimos uma carta inedita, motivada pelo
trespasse de D. João III, e escripta desde Lisboa a certa communidade
religiosa. O esclarecido bibliographo F. Innocencio da Silva sente que
esta carta, principiada a imprimir no _Murmurio_, periodico bracharense,
ficasse incompleta. Nós, que tambem possuimos d'ella um traslado da mão
de D. fr. Manoel do Cenaculo, arcebispo de Évora, vamos dal-a integral e
textualmente, na certeza que revivemos um documento historico, lavrado
por testemunha presencial, e, além d'isso, por um dos mais abalizados
escriptores do seculo aureo da lingua portugueza.
Reza assim:
«Amantissimos Padres. O Spirito Sancto cosolador, e emparo dos
atribulados console suas almas, que creio estarão já com a dor, que nós
temos da morte de nosso Pai, Rei, e Senhor, taõ supita, e taõ inopinata,
como foi, e lhes dê o emparo espiritual de sua graça, e temporal de
cabeça tal, qual foi a que perdemos. Amen.
«Ainda que creio, que já teraõ a certeza da morte del Rei Nosso Senhor,
porem por mo mandar nosso Padre, e eu o ter já assim determinado de
fazer, e porque muitas cousas se dizem lá, e cá, que naõ foraõ assim,
pera saberem a certeza do que passa lhes quero contar por ordem tudo:
ainda que folgára eu muito de ter antes perdidas as virtudes, e forças
naturaes do corpo, que te-las pera aver de escrever o que agora ouvirão.
Quarta feira _infra octavas Penthecostes_, sahio El Rei Nosso Senhor,
que santa gloria aja, a ouvir missa á Misericordia, quasi indo em pessoa
a chamar a Misericordia, que d'ahi a pouco tempo o avia de levar á
sepultura, e assim foi esta derradeira sahida só, pera seu costume, e
hia ainda muito bem disposto. Ouvida a missa se tornou muito de pressa
ao Paço com muita, infinda gente, mal disposto de huma perna, mas pouca
cousa, e tudo isto vio hum Padre desta casa. Chegando ao Paço se
encerrou em huma camara só sem ninguem, onde esteve muito grande espaço,
depois do qual chamou, e pedio agoa rosada, com a qual lavou o rosto, e
mãos, e tornou a estar só outro pedaço, donde sahio a jantar muito
melenconisado, e jantou mal, e á tarde teve huma febrezinha muito
pequena.
«Quinta feira se alevantou, e andou hum pouco achacoso, diziaõ que era
de naõ dormir com cuidado do Principe[2] que tivera huma febre, e
arrevesava, e naõ dormia. Mas Deos sabe o que era. Com tudo não tinha
doença que o fizesse estar em cama.
«Á sexta feira se alevantou tarde, e ouvio missa em casa, e jantou muito
bem assombrado, e assim esteve toda a sésta, que ao parecer estava bem,
até as quatro horas, as quaes dadas nos chamárão á procissão _praecipue_
pelo Principe, que Deos guarde, a qual sahia da Sé á Misericordia.
Sahindo nós da Sé chegou hum recado que fossemos a Jesu de Saõ Domingos
com a procissaõ por el Rei, que estava muito mal, e assim se fez, e ouve
pregaçaõ. De maneira que perto das cinco horas se começou el Rei de
agastar, e chamou Confessor, que estava na Mesa da Consciencia, e
confessou-se das cinco até as oito. E logo do Saõ Giaõ lhe leváraõ o
Senhor, e chegando nós ao Rossio, nos deraõ novas, que lhe naõ achavaõ
pulso. Acabando de comungar começou a concertar seu testamento, o qual
naõ acabou de fazer com as mezinhas, e com os agastamentos; mas segundo
me dixe o Confessor da Rainha o substancial delle fez, e assinou. Ás dez
horas se achou mais leve, e despejou[3] para repousar, e ás onze chamou,
e vendo que carregava o accidente pedio a Unçaõ, a qual lhe trouxeraõ
logo, e quando já chegou naõ fallava, mas recebeo-a vivo, a qual
recebida, sendo já meia noite, em quanto podiaõ dizer huma terça rezada,
_expiravit_ levemente, e sem movimentos, nem trabalho mais, que o
mortal, que he o mór de todos. De maneira que em sete horas, a saber des
das cinco ás doze acabou. A isto naõ estive eu presente, mas soube-o do
Confessor da Rainha, e de Luiz Gonçalves, que ahi se achavão presentes,
e delles soube que quando el Rei pedio a Unçaõ, que se recolheo o
Cardeal, e os outros Senhores, e só a Rainha se foi pera el Rei, e com
elle esteve até espirar sem botar lagrima, e acenando a todos que
ninguem chorasse alto por não inquietar a el Rei, ella o consolava, e
animava a passar alegremente aquelle passo com muitas palavras christãs
e devotas: ella lhe teve com grande coraçaõ a candeia em a maõ, e lhe
fechou os olhos, e acabando elle de espirar se foi cobrir de dó, e se
poz em hum oratorio com quatro vellas no altar, e frontal, e dorsel de
veludo carmesi, com o braço de Saõ Sebastiaõ, onde o Padre Montoya a
visitou, e consolou, ou para melhor dizer ella consolou ao Padre, que
ainda que com muitas lagrimas, com tudo mui inteira na rasaõ, e na
modestia exterior, sem nenhum estremo, mostrou estar muito conforme com
a vontade do Senhor Deos, e receber tudo de sua maõ, e que rogava muito
aos Padres, que a encomendassem a Nosso Senhor.
«Agora o que vi com meus olhos lhes contarei, e o que tratei com minhas
mãos: querendo ungir el Rei mandáraõ chamar Padres de todallas Ordens,
os quaes todos chegáraõ tendo elle já espirado, e assim o nosso Padre,
cujo companheiro fui eu, correndo quanto podiamos fomos quasi todo o
caminho, porque não cuidavamos que se fosse taõ asinha. Achámos pelas
ruas e Ribeira tudo cheio de pranto, e de gritos, e de muita gente, que
com trabalho entrámos. Entrados _vidimus coronam capitis cecidisse, et
obiisse_:[4] ninguem se ouvia com gritos, e soluços, huns em pé, outros
de giolhos, outros por esse chaõ: huns chorávaõ, outros gemiaõ, outros
amarellos estavaõ pasmados com ver morte taõ supita e com desemparo taõ
de repente, e de improviso, estavaõ todos attonitos, e sentidos: ninguem
se ouvia, e escassamente podiaõ os Religiosos rezar com lagrimas, até
que ás duas, ou tres depois da meia noite entrou o Cardeal ainda de
vermelho a despejar a camara, rogando, e chamando a todos senhores, sem
lagrima nenhuma, e com el Rei ficáraõ os Religiosos, e alguns Fidalgos,
e assim estivemos até as cinco rezando muitos Officios de defunctos, e
muitas orações. Ás cinco depois de visto o testamento em conclavi, o
Arcebispo despejou a camara sem deixar mais que de cada Ordem hum ou
dous Religiosos para o amortalharem, e o Pinheiro com o Confessor del
Rei a hum canto rezando: e assim cobertas as cortinas do leito dous
Padres de Saõ Francisco, e hum do Carmo, e Frei Jeronimo d'Azambuja de
Saõ Domingos, e eu o amortalhámos, ministrando-nos hum Clerigo Fidalgo,
de maneira que estas tristes maõs o laváraõ, e alimpárão, e
amortalhárão: Bendito seja Deos. Seu corpo ainda que ficou bem
assombrado acabando de espirar, com tudo pelo muito que esteve por
amortalhar _quando o descobrimos estava mais feio, e mais preto do
rosto, e mãos, o mais sujo, e o mais nojento, e em fim o mais mortal e
terreno, que eu vi outro, e eu tive aquelle pelo mór espectaculo_, e
pera todo Religioso ver, pera doctrina, e edificaçaõ, que podia ser:
_Non potuimus continere lachrimas_[5] com pranto, e lagrimas rezando o
Officio de Defunctos lhe posemos huma toalha na cabeça e rosto mal
lavada, e despida huma camiza suja de sangue que botava pela boca, e
cousa verde depois de morto, lhe vestimos outra lavada, e lhe posemos o
Bentinho de Christo, e o emburilhamos em hum lençol, e cozemos com
barbante, sem outra cousa, nem vestido, nem mais habito, e o posemos em
hum catele sem alcatifa, nem nada, onde esteve ate trazerem o ataude.
Nisto acabou o estado, o fausto, as riquezas, as pompas, as cortezias,
os serviços, as adorações reaes, nem em tudo isto se aqueixou dos que
isto lhe faziaõ, aquelle que com só a vista fazia tremer o mundo. Dahi a
pouco lhe poseraõ hum estrado grande em o meio da camara coberto de
veludo preto, rodeado de alcatifas, e sobre elle hum ataude forrado de
veludo preto por fóra com huma cruz de damasco branco, e de linho de
dentro, aonde o Bispo de Leiria, e o do Funchal, e o Arcebispo, e o
Priol de Palmella, e o Bispo D. Pedro e eu com dous Frades o metemos,
onde lhe beijáraõ a maõ por sima do lençol estes que ahi estavaõ,
lançando-se todos sobre elle com muitas lagrimas, começando novo pranto,
e pregado o ataude lhe botáraõ por sima hum panno de veludo preto muito
grande com cruz de damasco branco, e aos pés poseraõ huma mesa coberta
com hum panno de damasco preto, na qual estava huma cruz da capella, e
dous castiçaes com suas vellas, e caldeira de agua benta, e ao rededor
quatro tochas em suas tocheiras de prata. E he muito pera notar, que
assim como el Rei, que santa gloria aja, foi em vida muito amigo dos
Frades, assim des que espirou até o levarem, elles o acompanháraõ,
porque até o amortalharem, como já dixe: estiveraõ com elle Frades de
todallas Ordens, Frades o amortalháraõ, e meteraõ no ataude, e
concertáraõ, e metido cada Ordem vinha sobre si com cruz alevantada, e
estava com elle duas horas dizendo hum Officio de Defunctos entoado.
Convem a saber os de Saõ Domingos das sete até as nove; os do Carmo das
nove até as onze; os de Saõ Francisco das onze ás doze e meia; depois os
da Trindade até quasi as duas; depois nós até as tres, e idos todos
ficáraõ huns poucos de cada Ordem com a capella até as quatro sempre
rezando. Ás quatro entrou o Cardeal, já de roxo, e de giolhos, sem
lagrimas, beijou o estrado, e repartio as toalhas do ataude, convem a
saber da maõ direita á cabeceira o Senhor Dom Duarte, logo Dom
Constantino, logo outro que naõ conheci, logo o Conde da Castanheira: da
banda esquerda _ad caput_ o Duque d'Aveiro, logo tres que naõ conheci,
os quaes escassamente podiaõ levar o ataude, e aberta a porta da camara
por onde o haviaõ de tirar, que estava na varanda, se alevantou hum
pranto taõ grande que era cousa de pasmo. Eu nunca vi tanta gente junta,
nem tanto grito e choro, nem faces ensanguentadas e arranhadas, nem
barbas depennadas, como entaõ vi, tanto que nem havia forças pera andar,
nem pera bulir o corpo lugar, até que o Cardeal rogou, que andassem, e
recolhendo-se começarão a andar, e passadas duas portas não podéraõ
mais, e chamaraõ Religiosos que os ajudassem, dos quaes fui eu hum, de
maneira que eu o amortalhei e meti no ataude, e levei até o meterem nas
andas; a aquelle que a mim, e a toda a Ordem deo sustentaçaõ, e vida, e
com tanto trabalho de meu corpo, que ando agora muito mal tratado por
pesar muito, e porque descendo pela escada me ficou sobre mim só todo da
banda dos pés, sem me poderem valer com a muita gente, onde cuidei de
ficar; mas certo que entaõ naõ senti este trabalho, nem me lembrava
repouso, nem sono, nem comer, no que tinha muitos infindos companheiros.
Assim nas andas forradas por dentro de veludo preto, com hum panno por
sima muito grande do mesmo, com cruz branca, o levou a Misericordia, e a
Capella, e o Cabido, sem mais cruz que a da Capella, todos com tochas a
cavallo, em duas azemolas, que bem tinhaõ que fazer em o levar, que
tanto pezava, e levaraõ-no a Belem, e enterraraõ-no á cabeceira de seu
Pai com hum Responso, que pera mais nem lagrimas, nem gritos, nem gente
davaõ lugar, que segundo se conjeiturava se ajuntáraõ ao levar, assim na
cidade, como fora, até Belem entre homens, mulheres, e meninos por todos
bem quarenta, ou cincoenta mil almas, o que crê facilmente quem presente
se achou, e o via por seu olho, e naõ foraõ com elle Ordens por rasaõ da
Festa da Trindade, nem sabemos ainda quando iraõ, porem todollos
Moesteiros se naõ occupaõ agora senaõ em dizer Officios por elle, e em
fim os Padres de Saõ Jeronimo o botáraõ á terra, onde jaz descansando, e
tornando-se naquillo, que he, aquelle que na vida era Pai, Rei, Senhor,
Emparo, e Soccorro, a quem naõ faltava nada pera ser o mais illustre
Principe da Christandade: praza a Nosso Senhor que lhe dê na outra vida
a gloria, que todos lhe desejamos, e que elle com suas boas obras creio,
que merece. Amen.
«Hoje se quebráraõ nesta cidade os Escudos, que he o terceiro dia, e
ámanhã terça feira juraraõ o Principe, e cremos que passada a Festa se
faraõ os Saimentos Reaes. Do estado do Reino, e quem fica por Governador
_nulli narranti credatis_, porque ainda tudo está secreto, nem se saberá
_ut creditur_ taõ cedo. Isto que lhes escrevi he o certo do que passa,
tudo o ai tenhaõ por incerto. Resta que o encomendem muito a Nosso
Senhor, e a Rainha, e ao Principe, o qual fica bem disposto, e eu o vi
sabbado em pé, e bom, e nosso Padre lhe dixe missa depois del Rei
amortalhado, e lhe dixe hum Evangelho.
«Esta carta tenhaõ cada hum por sua, e encomendem-me a nosso Senhor
todos, porque eu naõ tenho tempo, nem disposição pera escrever
particularmente a todos, ainda que sim vontade grande. As ceremonias da
cidade já naõ se fazem nos dias ordenados, mas a outro tempo. De Lisboa
a 14 de Junho de 1557. Irmaõ de todos, e filho em Christo. _Frei Thomé
de Jesus._»
Está visto que o principe perfeito, flagello dos israelitas, morreu
bastantemente fedorento, revessando postema esverdinhada, e envolto em
uma camisa chagada e esqualida, que fez engulhos ao bom do frade. No
discurso da vida, D. João II soffreu sempre de uma erysipela nas pernas,
que ás vezes lhe não consentia o uso das piugas; por maneira que trazia
as botas estremes sobre a pelle esgarçada de sorosidades. Era uma cousa
immunda em corpo e alma este scelerado real! Vem de molde o extracto de
umas antigas Memorias ineditas de Diogo de Paiva e Andrade: