1.º
Cantigas do Triste Fado,
Bemditas pelo Senhor,
Só as inventa quem soffre,
Canta-as só quem tem amor...
2.º
É um passo da Terra ao Céu,
Da Vida á Morte é um ai...
Só do meu peito ao teu peito
Tamanha distancia vae!
3.º
Quem espera sempre alcança,
Diz um dictado traidor...
E eu espero e desespero,
Não alcanço o teu amor!
4.º
Dou-te amor, tu dás-me penas,
Vives só pela traição...
Fazes commercio de injurias,
Nem Deus te dá o perdão![105]
Logo que a litteratura se apropriou do _Fado_, como de um poema curto
e profundo, a arte foi procurar n’elle a alma do povo, o caracter
nacional, e á semelhança do que fizera Franz Liszt, inspirando-se
nos motivos populares da Hungria, começaram a apparecer as rapsodias
portuguezas, o rythmo do _Fado_ foi superiormente glosado por alguns
compositores, n’uma alta expressão de technica profissional.
As _Rapsodias_ de Victor Hussla contéem _Fados_; Munier compoz um
arranjo sobre o _Fado corrido_; Rey Colaço já publicou 8 _Fados_,
incluindo o _Hylario_ e o _Corrido_; Moreira de Sá deu recentemente a
lume o _Fado choradinho variado_, etc.
Foi certamente Coimbra que, fazendo entrar o _Fado_ nos dominios da
litteratura, chamou para elle a attenção dos artistas portuguezes e dos
estrangeiros que, como Victor Hussla, viveram em Portugal.
Dos nossos poetas modernos, aquelles que passaram por Coimbra são pois
os que melhor revelam nos seus cantares toda a delicada comprehensão
esthetica do _Fado_, toda a sua grande doçura maviosa como expressão
sentimental.
Lembra-me, a proposito, esta quadra de Antonio Nobre:
Meu violão é um cortiço,
Tem por abelhas os sons,
Que fabricam, valha-me isso,
Fadinhos de mel, tão bons!
Cito de preferencia este poeta ainda pela circumstancia de que a sua
morte prematura inspirou o _Triste Fado_, musica de Julio Silva, lettra
de Armando de Araujo.
Mas não deixarei em silencio outras quadras, de rapazes que passaram
por Coimbra. Ellas dão toda a emoção produzida pelo _Fado_ na alma
nacional:
Não temos musica é a nossa falha!
Sabemos a do vento e mais do mar...
É a da India e do campo da batalha,
Que o proprio fado é um modo de chorar.