Um polynomio estranho
Foi o melhor da _soirée_,
No dia do baptisado
Da _raiz do P. A. B._
Na funcção ás 10^{¹⁄₂}
Apparecia o _infinito_
Vestido como um palmito
--Casaca, sapato e meia.
Uma _curva_ muito feia
Pedia ao _numero inteiro_
Para servir de parceiro
Na partida ao voltarete
Á mulher do 3 × 7,
_Polynomio extrangeiro_.
O festim era imponente:
Tocava um _factor commum_
_1_, _2_, _3_, n + 1
_Na corda d’arco tangente_.
Valsava toda contente
A mulher do D. V. D.
Por signal passa-lhe o pé,
Escorrega e cai no chão.
Diz uma nimia _fracção_:
--Foi o melhor da _soirée_!
--Minha _constante arbitraria_,
Diz o _termo_ tão ratão
Á gentil dona _Equação_
D’uma _formula imaginaria_:
«Que faz aqui solitaria
Com esse rosto córado?
Eu por si fico _elevado_
Ao _5.º grau de potencia_.
Que valor tem Vossa Excellencia
No dia do baptisado!»
Uma _differença finita_
Polkava com todo o esmero;
Fazia _tender p’ra zero_
Um _delta_ todo catita.
Uma _esphera_ mui bonita
Mostrava a perna e o pé,
Emquanto o _T e o Z_,
Recostados n’um sophá,
Conversavam co’ o papá
Da _raiz do P. A. B._
Este _Fado_ appareceu no _Almanach de Lembranças_ para 1890, pag. 472,
assignado por José Carlos Lagrange (Lisboa).
Mas todos os contemporaneos e amigos de Luiz de Almeida lh’o attribuem.
Um d’elles, Urbano de Castro, veiu á imprensa reivindicar para
esse inolvidavel bohemio, que tinha a especialidade dos _Fados
scientificos_, a paternidade d’este _Fado_.
Essa reivindicação foi feita no _Correio da Manhã_, a cuja redacção
pertencia então Urbano de Castro, que pessoalmente me confirmou este
facto.
Luiz de Almeida tambem compoz um _Fado dos vinhos_, de que apenas
conheço uma quadra, o mote:
O Collares foi-se casar
Com a genebra de Hollanda.
O Torres, que a namorava,
Ficou de ventas á banda
Sobre a vida airada de Luiz de Almeida são muito interessantes as
informações que me forneceu o illustre professor, e meu amigo, Luiz
Feliciano Marrecas Ferreira.
Recorto de uma sua carta os seguintes periodos:
«Namorou-se de uma rapariga, que andava n’um baile de mascaras,
vestida á Luiz XV--a _Peregrina_--levou-a para casa, mas, como o
dinheiro, mal chegando para o indispensavel, não era elastico, não lhe
pôde dar outro fato, resultando d’ahi o ella ter de ir ao talho, ao
vinho... ao diabo! invariavelmente vestida á Luiz XV.
«Teve amores com uma outra, que era hespanhola, e, como não soubesse
a significação de varias palavras do idioma d’ella, resolveu-se a
comprar um diccionario. N’um bello dia a mulher foge, elle quer-lhe ir
no encalço, junta o pouco dinheiro que tinha e o que pôde realizar. Lá
foi o diccionario para o prégo!
«Mostrando aptidão devéras para o estudo das cadeiras, que devia
frequentar, pouco estudou durante largos periodos. Chegando a certa
altura do anno, abandonava qualquer d’ellas e fazia um fado, onde
revelava sempre com bastante espirito algum conhecimento do assumpto,
não se lhe tendo nunca apontado um erro.
«Inventou a seguinte reacção chimica: «_o alcool em presença do ether
vinico perde uma molecula de agua e toma uma de vinho._» Se o alcool
realmente toma, ou não, os sabios que digam, elle é que nunca deixava
de tomar varias vezes por semana com uma frequencia bem assignalada
pela policia e pelos numerosos amigos e companheiros.
«Depois de lauta ceia em casa de um titular, bastante conhecido
(visconde de Trancoso?) foi passear com um amigo e já de madrugada
recolheu a penates. Deu-lhe para molhar toda a gente, que passava
pela rua, e da saccada do segundo andar, defronte da Polytechnica,
foi deitando agua até que se lhe acabou--n’esse tempo não havia
canalisação, vivia-se em pleno regimen de barril e aguadeiro--e elle
foi-se resignando a assistir _a sêco_ ao transito da rua. N’isto passa
o antigo bando dos toiros: campinos a cavallo, uma charanga de barulho
ensurdecedor, arruaça, garotos e não garotos a apanhar cartazes.
«Luiz de Almeida lembra-se de que ainda poderia haver alguma agua no
fundo do pote, foi n’um pulo á cosinha, tira-o do poial e tral-o para
a janella, onde o sacudiu a vêr se deitava alguma coisa, até que se
lhe escapa das mãos indo cahir com grande estardalhaço n’um intervallo
dos cavallos, partida esta que o levou á Boa Hora.
«Felizmente ninguem ficou ferido, e o pote, tambem como a taça do
celebre rei de Thule, mereceu as honras de uns versos.
«No primeiro andar d’essa casa moravam as _Manas Perliquetetes_,
n’essa época gente séria e recatada e só deixaram de o ser quando
ao L. de Almeida passou pela cabeça--o que realizou--tornar-se seu
perceptor.
«Quando não vivia em _faux ménage_, arranjava uma _républica_ de
rapazes, sendo então um verdadeiro inferno para os senhorios.
«No pequeno largo, entre a R. do Telhal e a de Santo Antonio dos
Capuchos, morava n’um primeiro andar com o Alves (que morreu capitão
de artilheria); o Anthero, do Porto; e o Thomaz Malheiro (engenheiro
civil já fallecido). N’uma manhã põe escriptos nas janellas, apesar de
nenhum d’elles ter feito tenção de se mudar; batem á porta, vae abrir
a uns sujeitos que não conhecia, mostra-lhes a casa e leva-os para a
cosinha depois de longo discurso sobre as vantagens e inconvenientes
do que iam vendo, até que pôde fechal-os á chave. Os homens berraram,
era uma bulha dos demonios na cosinha, os companheiros d’elle riam
a bandeiras despregadas e o Luiz de Almeida vae pôr-se á janella
a assoprar n’um apito até que veiu a policia libertar os presos,
pregando com estes e com aquelle no Carmo.
«Já official de artilheria e no polygono de Vendas Novas deu largas á
veia poetica e folgazã fazendo versos a tudo e a todos.
«Alli havia por esse tempo um tal Rodarte, com mania de caçador, mas
sem a destresa necessaria para esse sport, o qual á volta do campo
trazia sempre, ou quasi sempre, alguma caça comprada a um ferrador,
que existia no caminho. Fez-lhe um dia varias quadras, sendo a
primeira:
Ó Rodarte, Rodartinho,
Ó Rodarte, ó meu amôr,
Quando fôres caçar perdizes
Busca á volta o ferrador.
Como todos os bohemios, Luiz d’Almeida morreu em plena mocidade, crêmos
que pouco depois do verão de 1872, sem que possamos designar com
segurança a data do seu fallecimento.
Na academia de Lisboa, elle foi o mais completo exemplar do
estudante-menestrel, errante de bairro em bairro, de rua em rua, a
cantar o _Fado_ ao som da guitarra dolente, por noites de luar, n’umas
férias sem fim.
Sempre os moços souberam canções, porque amam as mulheres, a liberdade
e a alegria, e porque, n’uma palavra, são moços. Os estudantes teem por
si a tradição de poetas e namorados, que tambem é uma recommendação
suggestiva. Lá diz a trova:
Se houver de tomar amores
Ha de ser com um estudante:
Ainda que não tenha dinheiro,
Tem o passear galante.
As suas canções (estudantinas), muito sentimentaes, prestam-se
facilmente ao rythmo mavioso do _Fado_, para o qual elles compõem
quadras de fino sabor litterario, que contrastam, pela elevação dos
conceitos e pela belleza da fórma, com o _Fado_ popular.
Em algumas localidades ha _Fados_ escolares de classe, como, por
exemplo, o _Fado dos estudantes açorianos_, que foi recolhido no
_Cancioneiro de musicas populares_[85].
N’outras localidades, principalmente em Coimbra, cada estudante poeta
dá largas ao lyrismo individual em quadras de _Fado_, que vão passando
de guitarra em guitarra até se generalisarem na classe e depois no paiz.
[Illustração: HYLARIO]
Hylario foi moderadamente o grande aédo do Fado escolar coimbrão.
Depois de Luiz d’Almeida não tinha apparecido ainda entre a classe
escolastica de Portugal um mais notavel e mais errante cantor de
_Fados_ litterarios.
A sua vida foi ephémera, segundo a lei fatal dos bohemios; mas o seu
nome ficou ligado indissoluvelmente á tradição nacional do _Fado_.
Chamava-se Augusto Hylario Costa Alves; mas o seu nome de guerra foi
simplesmente «Hylario».
Elle conquistou a celebridade que dispensa appelidos e avós.
Era natural de Vizeu e surprehendeu-o a morte quando, através as
delongas proprias da vida esturdia, frequentava o 3.º anno da faculdade
de medicina em Coimbra[86].
Tinha sido nomeado aspirante a medico do ultramar.
Matou-o, na sua terra natal, uma doença do figado, cremos que cyrrhose,
aggravada por um ataque de grippe.
Falleceu, estando em férias de Paschoa, no dia 3 de abril de 1896.
A sua morte causou sensação em todo o paiz, e o seu funeral teve
aquella pompa solemne que costuma derivar da celebridade do morto.
Dizia um telegramma de Vizeu, dando conta d’esse triste acontecimento:
«_VIZEU_, 4, ás 7 h. 35 m. da t.--Hylario, o estudante bohemio que todo
o paiz conhece, principalmente pelo seu _fado_ popularissimo, soffria
do figado. Foi essa a doença que o matou, consequencia de um ataque de
_influenza_.
«O seu corpo foi velado em casa da familia, onde morreu, por academicos.
«O seu enterro realizou-se ás 6 horas da tarde de hoje. Vestiram-lhe o
uniforme de aspirante de medico naval. Acompanharam varias irmandades
e a banda de musica de infantaria 14, sendo a chave do caixão entregue
ao coronel do mesmo regimento. Ás borlas pegaram os officiaes, sendo
o feretro conduzido pelos estudantes do lyceu de Vizeu e dos cursos
superiores das differentes escolas do paiz, que aqui tinham vindo
passar as ferias da Paschoa.
«No cemiterio foram depostas oito corôas, sendo uma da familia, outra
do curso do terceiro anno medico e as restantes de varios academicos e
pessoas amigas do inspirado guitarrista.
«Pronunciaram discursos, quando o corpo baixou á terra, um estudante do
lyceu d’esta cidade, dois estudantes de Coimbra e o advogado Alberto
Ponces.
«A guarda de honra, porque o finado tinha honras militares como
aspirante a medico naval, foi prestada á porta do cemiterio por uma
força, que deu as trez descargas do estylo.
«A morte do pobre rapaz foi muito sentida em Vizeu.»--_M._
Na população de Coimbra, habituada a ouvil-o, a manifestação de
sentimento foi ainda maior talvez do que em Vizeu.
Um telegramma d’aquella cidade dizia:
«O academico Hylario era muito conhecido em todo o paiz pelos seus
popularissimos fados. Em Coimbra deixa saudosas recordações. Seu genio
jovial e tendencias bohemias deram-lhe grande prestigio e ascendencia
na actual mocidade academica. Em Coimbra é sentidissima a sua morte.»
Todos os jornaes diarios do paiz se referiram largamente ao Hylario;
alguns publicaram o seu retrato, esse conhecido retrato em que elle, de
capa e batina, cabeça ao lado, olhos em extasi, dedilha na guitarra um
dos seus _Fados_ dolentes.
Lisboa conhecia-o, tinha-o ouvido; mas os seus _Fados_ haviam chegado á
capital primeiro do que elle.
Um jornal da epoca relembrou n’estes termos a sua vinda a Lisboa:
«Occorreram as festas em honra do João de Deus. Com a academia de
Coimbra veiu Hylario a Lisboa.
«O rythmo inédito do seu fado ia então ter o ensejo de lançar o vôo e
popularisar-se como se popularisaram os versos do grande poeta.
«A poesia e a musica do povo abraçavam-se ali, por um decreto do acaso,
tendo surgido com o intervallo de trinta annos.
«Todos iriam decorar o fado do Hylario como haviam decorado as quadras
adoraveis de João de Deus.
«O destino como que quizera tambem consagrar o grande poeta do amor
inventando este bohemio legitimo, authentico como os dos lendarios
tempos de João de Deus, para fazer perdurar, por uma musica grata ao
povo, a lembrança d’aquella festa sympathica da mocidade.
«E assim foi.
«Durante trez noites Lisboa ouviu, altas horas, os accordes tristes da
guitarra do Hylario e a sua voz potente a que elle imprimia um tom de
melancolia estranha:
«Foge, lua, envergonhada,
Retira-te lá do céu;
Que o olhar da minha amada
Tem mais brilho do que o teu.
«Um dia, quando morreres,
Ó pomba dos meus anhelos,
Consente que eu vá beijar
As tranças dos teus cabellos.
«Da rua passou ao theatro. A não ser nas peças puramente academicas,
estava deslocado n’aquelle meio. Tão legitimamente bohemios eram os
seus fados, a sua maneira de cantar, que o effeito falhava todo como
falharia um trecho de Mozart tocado n’uma baiuca de camareras.»
Em Vizeu sahiu a 12 de junho de 1896 o primeiro numero de um semanario
imparcial, intitulado _Hylario_.
Declarava no artigo do fundo que o seu programma, alem de ser «uma
consagração á memoria do que pode dizer-se o ultimo bohemio portuguez»
era, conservando uma feição accentuadamente litteraria, empregar como
armas de combate a satyra e a critica, com firmeza, mas com moderação.
Estampou o retrato de Hylario na 1.ª pagina, o seu retrato de estudante
e de bohemio; e varios artigos commemorativos da sua morte.
Não sei se este semanario tem continuado, mas possuo o 1.º numero.
Quero ainda referir-me á saudosa necrologia entoada nos jornaes do
paiz, para transcrever as palavras com que um d’elles rematava a
apologia do mallogrado Hylario:
«É menos um doido no mundo, dizem as pessoas graves e de circumstancia.
Mas essas pessoas graves não farão verter, muitas d’ellas, á sua
despedida d’esta vida, senão lagrimas de cerimonia, ao passo que esse
doido é a esta hora sinceramente pranteado por muitos corações juvenis
das filhas do Mondego, que, fascinadas pela sereia da sua guitarra,
corriam em Coimbra apoz elle como as antigas virgens romanas apoz os
seus heroes, offerecendo-lhe o óbolo do seu primeiro amor.
«Meu coração é quadrante,
Quadrante do meu desejo:
Nas horas em que te vejo
Não marca mais que um instante.[87]
«Vivo de ti separado,
Escravo da minha dôr.
Com prazer manietado
Por élos do teu amor.
«Pobre Hylario! Parece que tinhas a previsão do teu fim tão rapido
quando perguntavas:
«...E passo a vida tristonho
A cantar por não saber
Se a vida está só no sonho
E a realidade em morrer![88]
«O destino acaba de te dar resposta.»
Hylario cantava quadras suas e de outros poetas, taes como Guerra
Junqueiro, Antonio Nobre, Fausto Guedes Teixeira, etc.
Proprias ou alheias, avultavam no seu cancioneiro estas lindas trovas
galantes:
Nossa Senhora faz meia
Com linha feita de luz.
O novello é a lua cheia,
As meias são p’ra Jesus.[89]
O mar tambem tem amante,
O mar tambem tem mulher!
É casado com a areia,
Dá-lhe beijos quando quer.[90]
A minha capa velhinha
Tem a côr da noite escura.
N’ella quero amortalhar-me
Quando fôr p’ra sepultura.[91]
Ave Marias são beijos,
Padre Nossos são abraços.
Rosario dos meus desejos,
A cruz é abrires-me os braços.[92]
Tuas mãos são branca neve,
Teus dedos são lindas flores;
Teus braços cadêas de ouro,
Laços de prender amores.
Eu queria ser como a hera
Pela parede a subir,
Para chegar á janella
Do teu quarto de dormir.
Olhos verdes côr d’esp’rança,
Inconstantes, côr do mar.
Quem tem amor é creança,
Sou creança por te amar.
Ao lançar dos olhos meus
A rêde dos meus desejos
No lago dos labios teus,
Eu trago-a cheia de beijos.
N’esse teu labio vermelho
Ha risos do sol de agosto:
A alvorada é um espelho
Onde se mira o teu rosto.
Um canto ao vento fluctua,
Começa a aurora a cantar:
Ó vate, vai-te deitar,
Rasga o pandeiro da lua.[93]
Anda o luar prateando
Os ribeiros palradores.
O ar é quente, a seara
É como um ninho de amores.
Foge, lua, envergonhada,
Retira-te lá do ceu;
Que o olhar da minha amada
Tem mais brilho do que o teu.[94]
Tem o brilho das estrellas
E o fulgor dos arreboes.
Quem me dera com dois beijos
Apagar tão lindos soes!
Não ha saphiras mais bellas
Na grande concha dos ceus.
Pois se Deus quiz ter estrellas,
Roubou-as dos olhos teus!
Á porta do Infinito,
A traços largos, profundos,
A mão de Deus tinha escripto:
«Os teus olhos são dois mundos.[95]
Os teus olhos são escuros
Como a noite mais cerrada.
Apesar de tão escuros,
Sem elles não vejo nada.
Serve-te a madeixa negra
De moldura ao rosto franco,
Como se uma toutinegra
Pousasse n’um lirio branco.[96]
A lua tranquilla dorme
Na amplidão celestial,
Tal como perola enorme
N’uma concha colossal.
Ouvi dizer ao luar
Com trinados na garganta:
«Quem canta seu mal espanta.»
E eu puz-me então a cantar.[97]
Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra:
A forma de um coração,
A forma de uma guitarra.[98]
Guitarra, minha guitarra,
Solta teus ais, minhas queixas.
És tu a unica amante
Que por outro me não deixas.
Vai alta a lua, vai alta,
Brilha nos ceus, branca lua.
Vem tu vel-a, minha amada,
Illuminando esta rua.
A lua, onde os olhos fito,
A face em nuvens recaia,
Como lagrima de prata
Na palpebra do Infinito.[99]
Ás vezes quando, indeciso,
Me curvo p’ra o teu olhar,
Vem n’uma lagrima um riso:
Raio de Sol sobre o Mar.
Pequenas da minha terra,
Dou-vos canções, dai-me beijos.
A quem sua alma descerra,
Vai-se-lhe a alma em desejos.
Tenho já sêca a garganta.
E como é que isto é não sei.
_Quem canta seu mal espanta..._
Puz-me a cantar... e chorei!
Tu és o pomo vedado
Do Éden da minha vida;
Triste illusão do passado
Ao meu porvir transmittida.[100]
Ha malmequeres pelo ceu
--Esse azulino canteiro.--
A lua dá-lhes a côr.
É o sol o seu jardineiro.
Na noite do meu soffrer
Cheia de nuvens sombrias,
Ha o canto das nostalgias
Da minha alma a envelhecer.
Uma noite, no theatro do Principe Real, do Porto, Hylario improvisou
esta quadra ás damas:
Ai! que lindas pombas brancas
Ha no Principe Real!
Quem me dera ser o pombo
Da que não tenha casal!
Depois conservou esta quadra no seu cancioneiro, modificando assim o
segundo verso:
Vejo n’aquelle pombal!
Nas quadras que acompanham o _Fado Serenata_, publicado no Porto por
Eduardo da Fonseca, vem uma que não é do Hylario, nem dos poetas seus
contemporaneos:
Os teus olhos negros, negros,
São gentios da Guiné:
Da Guiné por serem negros,
Gentios por não ter fé.
Esta quadra é popular, e mais antiga. Já tinha saido no _Cancioneiro_
de Theophilo Braga em 1867.
Ouvi cantar o Hylario no theatro da praia de Espinho, no verão, por
occasião de uma récita de caridade que ali se organizou.
Cabeça pendida sobre o lado esquerdo, como para ouvir melhor o que
dizia o coração, a sua voz soluçava requebrada n’uma especie de arroubo
illuminado de inspiração.
Assistia a esse espectaculo uma menina portuense (J. L. R.) vestida
de preto e toucada com uma rosa; Hylario improvisou em sua honra a
seguinte quadra:
Ao vêr-te meiga e formosa
Nas tuas roupagens negras,
Eu cuido vêr uma rosa
N’um _bouquet_ de violetas.
Hylario tencionava colligir as suas canções n’um volume com o titulo de
_Guitarrilhas_.
É-lhe attribuida a musica de varios _Fados_.
O _Catalogo geral alphabetico do Cancioneiro de musicas populares_
dá-lhe a paternidade de cinco, o que me parece exigir alguma correcção.
Indica os seguintes:
I--_Cancioneiro_, fasc. 16, «As Estrellas» 1.º fado. Recolhido em
Coimbra, 1890.
II--_Cancioneiro_, fasc. 13, «A filha do Guadalquivir».
É com leves alterações o _Fado_ que nós em Lisboa chamamos «do Roldão».
O _Catalogo_ diz ser o 2.º _Fado_ do Hylario, mas o _Cancioneiro_
annota a respectiva melodia dizendo: «Parece que a musa teutonica
inspirava o melodista, _que não temos o gosto de saber quem é_.»[101]
III--_Cancioneiro_, fasc. 23. _Fado serenata_. Traz a designação de:
Musica de Augusto Hylario.[102]
[Illustração: FADO SERENATA]
Foi este que ouvimos ao proprio auctor em Espinho, e o que, de
todos que elle indubitavelmente compoz, se tornou mais popular.
Reproduzimol-o na pagina anterior.
IV--_Cancioneiro_, fasc. 34, «_O Ultimo Fado_», com a designação
de--Musica de Augusto Hylario--e a seguinte nota: «Quando nas férias
de 1895, Hylario se hospedou em uma dependencia do escriptorio da
nossa Empreza, offereceu-nos esta composição dizendo-nos que era o seu
_ultimo fado_, mas que tencionava addicionar-lhe algumas variações, e
que reservassemos a publicação para quando elle as tivesse composto
definitivamente.»
Tambem se popularisou este _Fado_, e por isso o reproduzimos.
[Illustração: O ULTIMO FADO]
V--_Cancioneiro_, fasciculo 68. «Fada pósthumo do Hylario» com a
seguinte annotação: «Este fado foi recolhido em Sinfães pelo ex.ᵐᵒ sr.
dr. M. M. Castro Côrte Real, que nol-o enviou com a seguinte nota:
«Fado do Hylario (ultimo). O fado (IV) que vem no _Cancioneiro_ com
a designação de ultimo é anterior a este. Este é que é geralmente
conhecido pelo ultimo; sempre assim o ouvi designar aos estudantes
coevos do grande bohemio. A lettra é do ex.ᵐᵒ sr. Luiz Osorio.»
Ora este _Fado_ é o mesmo que no Porto foi publicado com o titulo de
_Fado do 28_.
Pessoa auctorisada, por ser muito competente na materia, diz-me
d’aquella cidade que o auctor foi o rapaz cego a quem me referirei no
capitulo VI quando tratar do _Fado do 28_.
No _Cancioneiro_, fasciculo 60, vem outro _Fado_ relacionado com o nome
do Hylario: é dedicado á sua memoria e acompanhado da seguinte lettra:
Oh! Hylario, oh! Hylario,
Teu nome me dá paixão.
O teu fado faz vibrar
As cordas do coração.
Guitarra, minha guitarra,
Solta gemidos e ais;
Que os dias passam voando
E os prazeres não voltam mais.
Guitarras andam de luto,
Que o Hylario já morreu.
Seu corpo guarda-o a campa,
Sua alma voou ao ceu.
Oh morte, tyranna morte,
Eu de ti tenho mil queixas:
Quem has de levar não levas,
Quem has de deixar não deixas.
Diz a nota respectiva: «Este fado acha-se vulgarisado por todo o paiz
com diversa lettra.»[103]
Na collecção de glosas de _Fados modernos_, vendida em Lisboa nos
kiosques, sahiu um _Fado para o Hylario_, pranteando a sua morte.
Transcrevemos a ultima quadra:
Calem-se os sons da guitarra
Porque o Hylario morreu
E foi cantar serenatas
Ás virgens brancas do ceu.
O Hylario deixou escola em Coimbra, onde tem tido distinctos
continuadores do _Fado_ academico.
Um d’elles é o sr. Candido de Viterbo, que em 1899 compoz a serenatella
para o _Auto da sebenta_, impressa (Coimbra, casa da viuva Paula e
Silva) com outros _Fados_, a saber: _Fado do Penedo da Meditação_,
_Fado da Quinta das Lagrimas_, _Fado do Penedo da Saudade_, _Fado da
Lapa dos Poetas_, _Fado da Fonte da Serêa_.
O frontispicio, em lithographia, representa, alem de alguns trechos
da cidade de Coimbra, o sr. Candido de Viterbo, de capa e batina,
dedilhando a sua guitarra, sentado no alto de um penedo.
A lettra d’estes _Fados_ pertence aos seguintes academicos: Augusto
Gil, Lopes Vieira, Gomes Lopes, Antonio Macieira, Guedes Teixeira
(Fausto Guedes), Teixeira de Paschoaes, Severo Portela, Humberto de
Bettencourt, Pereira Barata, Marques dos Santos, Alberto Pinheiro,
Mario Esteves e Dom Thomaz de Noronha.
Vamos dar alguns _specimens_:
De Augusto Gil:
Teus olhos, contas escuras,
São duas Ave-Marias
D’um rosario d’amarguras
Que eu reso todos os dias.
Canta mais devagarinho,
Viterbo, ao seu postigo.
Não sei porquê, adivinho
Que está sonhando comigo...
Donzellinhas, tomai tento,
Meninas, não vos fieis.
Cantigas, leva-as o vento,
Cartas d’amor são papeis.
Olhos negros de velludo
Heis de fazer-me doutor.
Sois os meus livros d’estudo
Na faculdade do amor.
[Illustração: Guitarra de luxo]
De Lopes Vieira:
Adeus, rio, choupos, serra,
Adeus tudo, tudo emfim!
Donzellinhas d’esta terra,
Lembrai-vos por cá de mim.
Cantarei, na despedida,
P’ra onde me leva a sorte,
O fado da minha vida,
O fado da minha morte.
De Antonio Macieira:
Andam teus olhos perdidos,
Dizes, de tanto chorar.
Pois eu perdi os sentidos
De os andar a procurar.
De Fausto Guedes:
Deus que nos vê lá de cima,
Alma d’esta alma, querida,
Juntou-nos: somos a rima
Da linda quadra da vida.
De Teixera de Paschoaes:
Sepulturas de desejos
São teus labios ideaes,
Onde vão chorar os beijos
Mal empregados nas mais.
De Severo Portela:
A trança que tu me deste
É negra como o carvão.
De luto tu me vestiste
Dos olhos ao coração.
De Humberto de Bettencourt:
Perdido todo o juizo,
Ia morrendo d’amores:
Pôde mais um teu sorriso
Que a sciencia dos doutores.
De Pereira Barata:
Não tenho de ti reserva
Pelo mal em que me deixas:
Por mais que se pise a herva,
Nunca á herva se ouvem queixas.
De Marques dos Santos:
Ó minha santa madrinha,
Isabel de Portugal,
Heis de me dar a mézinha
Que me livre do meu mal.
Dos Olivaes Santo Antonio,
Lá no alto idolatrado,
Fazei com que as lindas moças
Me tenham todas de agrado.
De Alberto Pinheiro:
Ó Senhora da Bonança,
A quem eu reso a chorar:
Olhai pela minha amada,
Que anda sobre aguas do mar.
Dos meus anneis o mais lindo
Vos darei quando voltar,
E em vossa capella branca
Com ella me irei casar.
De Mario Esteves:
Senhora da minha vida,
A trança deitai-a ao vento,
Que quanto mais desprendida
Mais me prende o pensamento.
De Dom Thomaz de Noronha:
Nos teus seios de luar
Derrama-se o teu cabello,
Como uma aurora a brilhar
Sobre montanhas de gêlo.
Foi Coimbra que deu ao _Fado_ a alta cotação litteraria, que elle tem
hoje nas serenatas academicas.
Muitas d’essas quadras, que ahi ficam relembradas, são poemas
encantadores, _doloras_ suavissimas, verdadeiras obras d’arte em
miniatura.
Não conheço na poesia popular dos outros paizes, e não a conheço
mal,[104] perolas de mais subida concepção poetica do que a maior parte
d’essas quadras que pareciam sair da bocca do Hylario como um bando de
queixumes estonteados, que algum temporal de amor tivesse desaninhado
da alma dos poetas.
De mais a mais o _Fado_, transplantado litterariamente para Coimbra,
não soffreu uma deslocação violenta como quando entrou, producto
exotico, nas salas de Lisboa, e passou da guitarra ao piano.
Em Coimbra elle tem conservado toda a sua amargura dolente, continua a
ser, na voz dos estudantes, o hymno da desgraça, não da que se debate
em abysmos de miseria social, mas em tormentos, certamente exagerados,
de amor e de saudade.
Prevalece integral no _Fado_ de Coimbra a mesma feição psychica de
soffrimento e angustia com que nasceu o _Fado_ de Lisboa.
Não tem a desnatural-o a garridice frivola das salas, a inconsciencia
musical com que elle é martelado nos pianos alfacinhas sem uma parcella
minima de senso esthetico e de vibração emotiva.
Em Lisboa alguns poetas «novos» teem seguido o exemplo dos de Coimbra,
dando ás coplas do _Fado_ uma expressão accentuadamente litteraria.
[Illustração: Guitarra commum]
Do sr. Ribeiro de Carvalho citarei os seguintes.