_Dos seus fructos abundantes
O Algarve se ensoberbece;
Graças ao trabalho honrado,
De dia a dia enriquece._
Quem é que torceu a venta,
Quem fez, acaso, careta,
Ao bom vinho da Fuzeta
Que o nosso Algarve apresenta?
Quem é que se não contenta
Co’os nossos figos chibantes?
Quem não quer ver quanto antes
No prato o atum saboroso?
Pasma este solo, orgulhoso,
_Dos seus fructos abundantes_.
Abundante e variada
É no Algarve a pescaria,
E quem na vida porfia
Mantém sempre a vida honrada;
A figueira abençoada
Vigorosa aqui floresce;
Por parte alguma apparece
Outra que lhe seja igual.
De n’ella não ter rival
_O Algarve se ensoberbece_.
É bem formosa Tavira,
Villa Nova formosa é,
Formosissima Loulé,
Gloria a Faro ninguem tira:
Galharda brilha Odemira
Em o seu torrão fadado;
E de pobre ou rico estado,
Do Algarve a boa gente
Leva a vida alegremente,
_Graças ao trabalho honrado_.
Salve, pois, terra eminente
A que devo chamar nobre,
Onde o rico vale ao pobre
Tão briosa e christãmente!
O Algarve um brado valente
De toda a nação merece;
E é justo que aqui me apresse
Em offerecer a cantiga
A quem, graças á fadiga,
_De dia a dia enriquece_.
Os assumptos biblicos são muitas vezes aproveitados pelo cantador
fadista n’um sentido religioso.
Por exemplo:
A doce mãe de Jesus,
Que remiu a humanidade,
Sentia a cruel saudade
Que ao nada a alma reduz.
Nos céus não havia luz
Desde o sul até ao norte,
Só ella chorava a sorte
E o seu tão horrivel trilho,
Porque, ali, do querido filho
A Virgem chorava a morte.
Quão amargo era o seu pranto,
Quantas lagrimas vertia
Ao pensar que lhe morria
Quem na vida amava tanto!
Seu coração puro e santo
Sentia-se aniquilado,
E ora erguia aos céos um brado
Repassado de desgosto,
Ora olhava o bello rosto
Do seu filho idolatrado.
Tambem o fadista investe ás vezes com os problemas mysteriosos de alem
da campa, como n’este _Fado_:
_Satanaz, rei do Averno,
Reunindo o seu conselho,
Mandou fazer a caldeira
Do grande Pero Botelho._
Clara ideia ninguem faz
Da sua monstruosidade,
Nem de quanta humanidade
Em suas fornalhas jaz.
Por ordem de Satanaz
Foi posta ao meio do inferno,
E á ordem do seu governo
E ali tudo queimado,
Depois de haver decretado
_Satanaz, rei do Averno_.
As bruxas em volta d’ella
Preparam enguirimanços,
E os mais negros manipanços
Vigiam-n’a, com cautella.
Ali cae desde a donzella
Ao condemnado mais velho.
Ha bem perto um apparelho,
Semelhante a uma lousa,
Onde o diabo repousa
_Reunindo o seu conselho_.
Os infernaes feiticeiros
Que do demonio são filhos,
Cantam tristes estribilhos,
Ateiam os seus brazeiros.
Horropilam os berreiros
Que saiem d’esta lareira!
Mas o rei vendo a maneira
Como as almas se perdiam,
Vendo que mais appar’ciam,
_Mandou fazer a caldeira_.
É ali que tudo finda,
Ali tudo se consome:
De Pero lhe deram o nome
P’la sua crueza infinda.
Quem para o céu se não guinda
Attente bem n’este espelho:
Pois quem segue mau conselho,
Ou caminha com cegueira,
Vae acabar na caldeira,
_Do grande Pero Botelho_.
Quanto á historia de Portugal, tenho ouvido _Fados_ sobre os amores e
morte de D. Ignez de Castro e ainda sobre outras epocas e assumptos,
como por exemplo:
_Fazer nos Lusos matança
Muitos tyrannos tentaram;
Mas á voz da Liberdade,
Elles seus fóros salvaram._
Foi Dom João o primeiro,
Quem, por seu punho real,
Para livrar Portugal,
_Estafou_ o conde Andeiro.
Dona Leonor n’um berreiro,
Pedia ao povo vingança;
Porem fugindo-lhe a esp’rança
De recobrar o seu mando,
Deu-se á prisão; mas jurando,
_Fazer nas lusos matança_.
Lá se partiu p’r’as Hespanhas,
Pedir ao rei que a vingasse,
Que Portugal conquistasse,
Contando-lhe outras patranhas.
Umas taes artes, e manhas,
Sempre o hespanhol abalaram:
Logo os seus terços entraram
No reino, altivos e bravos;
E já fazer-nos escravos,
_Muitos tyrannos tentaram_.
Mas os famosos montantes
De Dom João, formidavel,
E do seu grão Condestavel,
Deram-lhes rijo, possantes.
Eis rôtos já, vacillantes,
Os hespanhoes, co’anciedade,
Fogem, ou pedem piedade;
Triumpham, pois, dos revézes
Esses leaes portuguezes,
_Mas á voz da Liberdade_!
Sempre em continuas batalhas
Seu nobre sangue vertendo,
Aos inimigos tecendo,
Com ferro, as negras mortalhas;
Eis como assim das migalhas
O reino todo alimparam;
Eis como, pois, alcançaram
Das nações todas respeito:
E á Liberdade com preito
_Elles seus fóros salvaram_!
Disse-me o sr. Verol Junior tencionar imprimir uma collecção de
_Fados_, que abrange todos os periodos da historia de Portugal.
A vida do fado está intimamente relacionada com a tauromachia.
O fadista não falta a uma espera de touros, com a sua guitarra na mão;
o fadista de um e outro sexo, mulheres e homens.
Antigamente o enthusiasmo era maior, no tempo da Severa e do Vimioso,
quando os fidalgos, «amadores» e «cavalleiros», não perdiam uma espera,
nem uma tourada.
A tradição tauromachica era então muito mais intensa do que hoje,
porque no seculo XVIII tinhamos tido _touros de morte_, e o enthusiasmo
pelas luctas cruentas do redondel conservava ainda, no espirito do
povo, um rescaldo ardente.
No seculo XVIII havia em Lisboa nada menos de quatro praças de touros:
a da Estrella, nas terras do Infantado; a da Parada, junto ao Rocio;
a do Salitre, e a do Campo de Sant’Anna. Não fallando no Terreiro do
Paço, onde se realizavam as touradas de maior pompa.
Quem fazia as cortezias era o _neto_[49], (meirinho da cidade); quem
as recebia era o rei, o senado da camara, o tribunal da junta da casa
do Infantado, e, ás vezes, Nossa Senhora!
Assim, no programma de uma corrida _em obsequio da devotissima imagem
de Nossa Senhora do Cabo, sendo o producto para os cultos da mesma
Senhora_, lê-se o seguinte: «Ás duas horas e meia estará tudo prompto,
e feito o signal costumado, entrará o Neto a fazer as suas cortezias á
devotissima imagem de Nossa Senhora, que ha de estar collocada em um
logar proprio, e depois ao Tribunal».
Por esta não esperava de certo o leitor: que a propria imagem de
Nossa Senhora, collocada em altar todo florente de galas, fosse quem
recebesse as cortezias do cavalleiro.
O costume de fazer touradas em beneficio de Nossa Senhora e dos santos,
era então vulgarissimo.
Em setembro de 1778 effectuou-se na Praça do Commercio um combate de
touros, como n’esse tempo se dizia, _a bem do adeantamento das obras da
egreja de Santo Antonio d’esta cidade_.
Assistiram suas magestades.
Em agosto d’esse mesmo anno realizou-se na Praça do Commercio uma
tourada em beneficio de Nossa Senhora do Cabo, funcção promovida pelo
capitão João Dias Talaia Souto Maior, _como escravo que era, e toda a
sua familia_, da mesma Nossa Senhora.
Os touros, em numero de 25, afóra os que vinham sobrecellentes, eram
offerecidos bizarramente pela casa real.
No mesmo anno pediu o padre Emygio José da Costa licença para organizar
um combate de touros na Real Praça do Commercio, a fim de adquirir uma
avultada esmola destinada aos enfermos particulares da capital.
«_Os touros que hão-de morrer_, dizia o programma, _são dezeseis_, que
El-Rei N. Senhor e varios fidalgos d’esta Côrte deram para o presente
dia.»
Aqui temos, pois, as _touradas de morte_, que tanto horrorisam os
portuguezes que a ellas assistem hoje em Madrid, Badajoz ou qualquer
outra praça hespanhola.
_Quantum mutatus ab illo_... o portuguez!
Outro programma dizia:
«Entrará Nicolau Theodoro, suhiço (sic), vestido á suhiça com uma
lança na mão, e sobre uma mesa á porta do touril esperará um touro, e
ao tempo que o investir lhe metterá a lança, e repentinamente saltará
por sima d’elle; e ficando em pé metterá a mão á espada, e esperará o
touro cara a cara, e promette matal-o ás estucadas ou ás cotiladas.»
Copio textualmente para conservar toda a feição historica do
programma. Pela mesma razão não alterei a orthographia dos seguintes
periodos que de outros varios programmas vou transcrever.
«Entrará o Neto a fazer as cortezias ao Tribunal, e depois um breve
divertimento de algumas danças, em quanto os cavalleiros se põem
promptos, e rodeando a praça sahirá tudo para fóra, entrarão os
quatro contendores a fazer as cortezias do costume ao Tribunal, em
primeiro lugar Theodoro Francisco Ribeiro, o qual já domingo passado
entrou tambem em primeiro logar, e mostrou o quanto era destemido; em
segundo logar Jacintho Pinto de Moraes, aquelle que domingo passado
ficou sem capa, pelo Touro lha tirar dos hombros, e n’este dia a quer
restaurar; em terceiro logar Thomaz Cesar, o polvilheiro, que por
esta Cidade vende poz (sic), que tendo noticias, que domingo passado
os cavalleiros fizeram tantas proezas, quer elle imital-os; em quarto
logar Carlos Antonio Canute, Genovez de Nação, com logea defronte do
Palacio do Excellentissimo Monteiro Mór, sujeito de muito valor, e
forças, e a figura muito especial, tem viajado pela China, e Indias de
Hespanha, e quer mostrar como n’estes paizes se tourea, etc.»
* * * * *
«Seguir-se-ha logo o Contendor Bernardo de Magalhães e Noronha,
filho do Capitão Mór de Formoselha, assistente no campo de Coimbra,
pessoa bem conhecida n’esta côrte, o qual pelo seu nascimento, e
valor, executará acções muito distinctas. Terá para combater 15
touros escolhidos das melhores raças; irá acompanhado de seus criados
ricamente vestidos, e capinhas, tudo com igual aceio.»
* * * * *
«E logo entrarão os contendores, que serão quatro cavalleiros do
gosto dos senhores espectadores, em primeiro logar Lourenço Antonio
de Moraes Bandeira, o qual desempenhará n’esta tarde o seu logar,
pelas valorosas acções que se esperarão do seu animo; em segundo
logar Sebastião Antonio de Mendonça, igual ao primeiro no mesmo
valor; em terceiro lugar Francisco da Silva Alcantara, por appellido
o _fava secca_, este promette á sua parte matar de rojão tres, ou
quatro touros, por se obrigar a isso no ajuste que fez; em quarto
lugar Thomaz Cesar, pulvilheiro d’esta cidade, e n’ella muito bem
conhecido; entrarão estes quatro cavalleiros bem vestidos, e providos
de bons cavallos, acompanhados dos seus criados, homens de forcado, e
capinhas a fazer as cortezias, e acabadas sairão para fóra a mudarem
de cavallos; entrarão novamente, e cada um occupará um angulo da
praça, e se irão seguindo cada um quando lhe tocar, esperar o touro á
sahida da porta do touril, ficando n’esta forma touriando, sem haver
perturbação de logares, somente quando houver duellos os perderão para
se desaggravarem.»
«Entrará logo o Neto e depois os contadores a fazerem as devidas
cortezias ao Tribunal da Junta da Casa do Infantado, os quaes serão
Caietano Romão, criado do Excellentissimo Conde de Arcos, e João
Gaspar, Allemão de Nação, professor da arte de Cavallaria, de muitas
forças e igual valentia, o que pertende fazer certo neste combate;
para o que promette pôr-se a pé, e chamar hum touro, que esteja
com todas as suas forças, e ao investir pegar-lhe em huma ponta, e
passando-lhe o pé dar-lhe huma tão grande cutilada, que, se fôr no
pescoço, lho deixará quasi separado; e se fôr no lombo, lhe cortará
o espinhaço, de sorte que lhe sáião os intestinos pela ferida; e se
pela violencia do touro lh’o não puder fazer da primeira vez, tentará
segunda e terceira; e no caso que o não possa conseguir apezar de toda
esta diligencia que promette fazer, chamará o touro de cara a cara, e
pegando-lhe por ambas as pontas o deitará em terra de pernas assima,
tudo com muita ligeireza, e desembaraço: e se não fizer destas tres
valentias huma perderá dez moedas de ouro, que tem depositado; e se
executar das tres valentias alguma, as ganhará, etc.»
Vejamos agora a nomenclatura que tinham os diversos logares occupados
pelos espectadores:
«Adverte-se que os preços dos camarotes do primeiro andar são a 600
réis a vara, e do segundo andar a 480 réis a vara; e as trincheiras da
sombra a 150 réis, e as do sol a 60 réis.»
N’outros espectaculos, que não fossem touros, mas que se déssem em
qualquer das praças, baixavam os preços consideravelmente.
Assim, n’uma exhibição pyrotechnica, feita por um hespanhol de nação,
_os preços dos camarotes eram a 300 réis por vara, tanto no primeiro
como no segundo andar_, e todos os palanques a 40 réis.
Um outro programma, da Praça do Campo de Sant’Anna, diz:
«Os camarotes do andar de sima serão com mais comado, (sic).»[50]
Comprehende-se que o seculo XIX recebesse do seculo anterior uma viva
tradição tauromachica, que enthusiasmava ainda o povo pelas antigas
corridas, cujo brilho e perigo não tinham sido menores que nas praças
de Hespanha.
As mulheres de má vida não ficavam indifferentes a essa tradição; não
ficou a Severa, que zombava das suas collegas menos animosas do que
ella, e que fez escola.
Algumas raparigas do fado chegaram a tomar parte em touradas.
Assim aconteceu n’uma corrida realizada em outubro de 1842.
A _Revista Universal_, redigida por Castilho, commemorou o
acontecimento n’este _suelto_ vernaculo, de que se perdeu já o feitio:
«A corrida de touros de domingo ultimo no Campo de Sant’Anna pouca
menção merece. Sim eram bravos os animaes; mas, exceptuando algumas
quédas, alguns corpos humanos marrados e pisados, e algumas saudes
provavelmente arruinadas para sempre, não houve ahi successo por onde a
tarde se podesse chamar boa.
«Semear morte em vultos de figura humana, é de pequeno interesse
dramatico; é preciso dar-lh’a prompta e estrondosa; é doutrina
corrente, é aphorismo entre os partidarios do curro. Para descontar
porém a semsaboria da festa, houve n’ella a novidade (pomposamente
annunciada em todas as esquinas da capital) de uma rapariga a cavallo
n’um rossinante, correndo um toiro á vara larga: o toiro, que a podia
ter morto, contentou-se fidalgosamente de dar-lhe uma licção; e
mettendo os cornos pelos peitos ao cavallo, e arvorando-o a prumo, a
despejou da sella, estirada de costas no meio da praça por entre os
risos dos circumstantes.
«A mulher forte, com razão assomada da descortesia, recavalgou para se
desaffrontar; e não duvidamos que o houvera conseguido, se o cavallo
não discordasse manifestamente das opiniões da cavalleira: o exame
phrenelogico dos dois craneos, se algum curioso de anatomia comparada o
tiver de fazer lá para o futuro, deverá, se nos não enganamos, redundar
todo em gloria do quadrupede.»
O brado de um poeta contra as touradas não encontrava écco; nem as
mulheres nem os homens lhe davam ouvidos.
Qualquer _Fadinho_ toureiro, como relembraremos no capitulo seguinte, o
combatia e supplantava.
Resta-nos ainda fallar de duas especies de _Fados_.
Aquelles que tratam assumptos pornographicos, mais ou menos
desbragados, encontram-se na _Guitarrinha innocente_ e no _Almanach do
fado bréjeiro_.
Quanto aos _Fados_ exdruxulos, e outros que apenas visam a uma
combinação artificiosa de palavras, technicas ou arrevezadas, havemos
de incluil-os na secção dos _Fados de nomenclatura_, não porque
propriamente o sejam, mas porque melhor ficarão ali do que em qualquer
outro grupo.
[Illustração: FADO CHORADINHO]