As hortas

_Aos domingos, á tardinha,

Quem não sae fóra de Portas,

Não conhece a felicidade

De comer peixe nas hortas._

A gente cá de Lisboa

Gosta sempre, aos dias santos,

De se metter pelos cantos,

Comendo e bebendo á tôa;

Petisqueira toda boa

Procura a nossa gentinha:

Come pescada ou sardinha,

Com a maior alegria:

P’r’as hortas ha romaria

_Aos domingos, á tardinha_.

Por debaixo da folhagem

Enxuga do branco e tinto;

E creiam, que não lhes minto,

Bebe com toda a coragem:

No fim d’aquella viagem

Tudo tem as pernas tortas;

Parecem uns moscas-mortas,

Mesmo os que tocam a _banza_;

Pois só não fica _zaranza_

_Quem não sae fóra de Portas_.

Uns ficam inteiriçados

Debaixo ali d’umas bancas,

Outros vão movendo as _trancas_,

Mas bastante atrapalhados.

Tantos copos enxugados,

Com tal força de vontade,

Tiram logo a faculdade

De a gente mover as pernas.

Mas quem não vê taes tabernas,

_Não conhece a felicidade_.

Ir ás hortas de passeio,

É melhor que ser sultão:

Quem precisa distracção,

Procure logo este meio.

Podem ir lá sem receio

De virem co’as pernas tortas;

Pois lá por fora de _Portas_

Pouco bebe quem bem pensa;

Mas todos teem licença

_De comer peixe nas hortas_.

A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado) · 第 26 / 60 题