A si mesmo se exalta, elle, na recordação das suas grandes «zaragatas»
em Alfama e Mouraria:
Eu já fiz lá para Alfama
Fugir duzias de janotas.
Desvanece-se de afugentar os janotas e de «resistir á policia»:
Nem dez policias civis
Me põem na casa da guarda.
É a prosapia do «bailhão,» o mais desordeiro e implicante dos fadistas;
como quem diz a «quinta essencia» da classe.
Tem seus _Fados_ especiaes, o «bailhão». Celebra-se a si mesmo; canta a
sua _Odyssea_.
Ha familias, dynastias de bailhões, que se fazem temer: dizem-no estas
glosas, que são paginas de auto-biographia:
Quando as costellas n’um feixe
O amigo ao outro fazia,
E allumiava a Mouraria
A luz do azeite de peixe;
(Não é mau que isto se deixe
Escripto como passou)
Alto nome conquistou
Meu avô, pae do barulho;
E, eu o digo com orgulho,
_Bailhão foi o meu avó_!
Pimpões em cantar mil fados
Nos sujos becos d’Alfama,
Meus manos tiveram fama,
Dando baixa de soldados.
Mesmo p’la pinga azoinados
Ninguem lhes dava _bananos_.
Um d’elles fazia abanos,
Outro fazia gaiolas,
E ambos de finas escolas
_Foram bailhões os meus manos_...
Com familia tão _honrada_,
Seria grande desgraça
Que eu desdissesse da raça
Que sahiu tão apurada!
Mas, sem basofia e sem nada,
Direi que mais se apurou.
Sabei, de pêtas não sou,
E presto culto á verdade,
Quando digo á sociedade:
_O rei dos bailhões eu sou_.
E, quanto ás proprias proezas, continuando as tradições de familia:
Tenho armazem de cantigas,
O que se chama o _beijinho_,
E por mim dão o beicinho
As mais bellas raparigas;
Não me tem faltado as brigas
Em que sempre fui pimpão;
Tenho dado ao escrivão
Boa quantia em metal...
Já disse a um juiz criminal:
_Eu sou fadista bailhão_.
Quando o _bailhão_, nas «cantigas a atirar», arremessa para a nuca o
barrete preto, que no trajo da classe toma a alternativa do chapéu de
aba direita, é tremer d’elle: está disposto a ir passar uma temporada
ao Limoeiro:
Se p’ra traz lanço o barrete
E torço um pouco o focinho,
Vai tudo por mau caminho.
É o caminho da cadeia ou do degredo.
As «cantigas a atirar» não se confundem, pois, nem pelo texto, nem pela
forma, com os «desafios» do norte e com as «desgarradas» do sul.
São o proprio _Fado_ n’uma intenção provocante, de «zaragata» e de
facada.