Fadistas

O facto de termos encontrado nos _Mysterios do Limoeiro_ a palavra

_fadista_ (como termo de calão e por isso graphada em italico) sem que

até essa epoca (1849) appareça qualquer vestigio do vocabulo _Fado_ ou

_Fadinho_ na accepção de cantiga popular, leva-nos á conjectura de que

foi da moderna nomenclatura da classe que derivou o nome da canção, em

vez de ser da canção que proviesse o nome á classe.

Entende-se por fadista a pessoa que cumpre um mau destino; seja homem

ou mulher, prostituta ou rufião. E aqui ha a notar que o vocabulo fado

tomou em calão um sentido exclusivamente pejorativo: Vida do fado, a

má vida; moça do fado, a rameira. Umas palavras geram outras: de fado

(destino) veio fadista; fadistar, levar vida de fadista; afadistar-se,

adquirir ares e modos de fadista; fadistagem, a conectividade da gente

de mau fado, a pratica de suas tunantadas e proezas; fadistice, a

chibança ou prosápia de fadista; _Fado_ ou _Fadinho_ (e _Faduncho_,

aliás menos vulgar) canção em que os faditas lastimam o seu destino.

«O _Fado_, escreve Palmeirim, é de ordinario a historia veridica e

romanesca do homem que de guitarra em punho extasia os ouvintes,

narrando-lhes as tribulações da sua vida ou os incidentes e peripécias

dos seus amores. O mote, a divisa do fadista é:

Eu hei de morrer cantando

Pois que chorando nasci.»[16]

De cantar _o seu fado_ veio a dizer-se, por generalisação, «cantar o

Fado». E esta palavra tomou a accepção de cantiga de fadistas: como

em italiano _barcarola_ é a canção dos _barcaiurolos_ (gondoleiros)

e no portuguez--_serrana_--é a canção dos habitantes das montanhas

(serranos).

É claro que em todos os tempos existiram na sociedade portugueza, e nas

outras, como escumalha vil da civilisação, os representantes da classe

a que hoje se dá o nome collectivo de _fadistas_.

Os autos de Gil Vicente e do Chiado deixam uma nitida impressão do que

era essa despresivel classe no seculo XVI em Portugal.

N’elles apparece a par da boneja (prostituta) o rufião, que a explora;

o rascão bebado e desordeiro, ocioso e libertino, trovista e tangedor

de taberna; o vaganau, etc.

No seculo XVIII encontramos, segundo a lição de Bluteau, «marotos»,

ganisaros ou janisaros, etc.

[Illustração: TYPOS DE FADISTA

(Copias de bonecos de barro)]

Só desde o fim da primeira metade do seculo XIX nos apparece, porém, a

designação _fadistas_, com a de faias,[17] faiantes,[18] bailhões,[19]

etc; e a de _Fados_ como nome generico das suas canções.

O _Fado_, n’esta accepção, é uma palavra adoptada ha meio seculo ou

pouco mais.

O _Fadista_, no seu aspecto moderno, tem surgido aos nossos olhos como

um typo social que os escriptores contemporaneos observam e descrevem.

«Chama-se _Fadista_--diz Theophilo Braga--ao vagabundo nocturno que

no meio das suas aventuras modula essas cantigas (_Fados_); no velho

francez, _Fatiste_ significa poeta, e Edelestand Du Meril pretende que

esta designação vem do scandinavo _fata_, vestir, compor.»[20]

Apoiado na chronologia, crêmos, como já exposémos, que não foram as

canções que deram o nome aos fadistas; mas que, pelo contrario, d’elles

o receberam as canções.

Tanto mais que, entre nós, a palavra fadista não tem a significação

restricta de tangedor e cantor ou poeta de _Fados_, mas é commum

a todos os individuos que vivem no mesmo meio de depravação e

libertinagem, sejam de um ou de outro sexo.

E n’esta accepção generica parece tel-a já empregado o padre Rabecão em

1849, porque o seu fadista da taberna da Madragôa bebe e não canta.

A evidencia do typo--fadista,--de que Lisboa é alfòbre copioso, tem-se

imposto, repetimos, á observação dos bellos-espiritos da litteratura

moderna, alguns dos quaes, e dos mais brilhantes, o retrataram com uma

fidelidade flagrante, como vamos vêr.

Ramalho Ortigão, nas _Farpas_, lança uma affirmação demasiado absoluta

quando diz: «Em cidade alguma da Europa existe uma palavra de

significação analoga a esta--_o fadista_.»

É claro que o typo humano não apresenta o mesmo aspecto em todas as

raças e nações. O clima e a civilisação modificam-n’o, alteram-n’o.

Mas ha um fundo cosmopolita, de equivalencia social, que supprime as

distancias e as fronteiras.

Assim, pelo que respeita á escoria da sociedade, existe em Hespanha o

_chulo_, e em França o _souteneur_, que correspondem ao nosso rufião.

Todos elles vivem á custa de mulheres perdidas, cantando e bebendo nas

tabernas e nos bordeis, como os fadistas portuguezes.

Em Roma ha os _camorristi_, gente de «mala vita», que dão uma facada

por gosto, e vivem na devassidão, como os bailhões e faias da

fadistagem de Lisboa.

Em Napoles o _lazarone_, representando a ultima classe do povo, é um

inutil perigoso como o nosso fadista.

Fóra da Europa, no Brazil, existe o _capoeira_.

Em toda a parte a sociedade tem a sua bôrra immunda, e uma palavra, ou

mais de uma palavra, para definil-a.

Precisamos, pois, investigar qual seria o pensamento de Ramalho

Ortigão, que não desconhece todos estes factos, ao escrever aquella

phrase, em que parece conter-se uma affirmação gratuita por

demasiadamente extensiva.

Quereria, provavelmente, dizer que, apesar do povo ser em toda a parte

fatalista, em nenhuma outra lingua ha uma palavra que lance unicamente

á fatalidade do destino a responsabilidade dos actos praticados pela

ultima classe social.

O illustre escriptor lembra que o fadista moderno continua os

espadachins populares que, no seculo XVIII, suciavam com os fidalgos em

arruaças e espancamentos nocturnos.

Depois fixa o perfil do fadista, a seguros traços, dizendo:

«O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma

accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração

do seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica,

que elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita

successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na

esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade,

pelas noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um

cobarde e um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo,

os braços são frageis, as pernas cambadas; as mãos, finas e pallidas

como as das mulheres, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os

dedos queimados e ennegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fétida,

enfarinhada de poeira e de caspa, reluzente de banha. A ferramenta

do seu officio consta de uma guitarra e de um _Santo Christo_, que

assim chamam technicamente a grande navalha de ponta e triplice calço

na mola. É habitado por uma molestia secreta e por varios parasitas

da epiderme. Um homem de constituição normal desconjuntar-lhe-hia o

esqueleto, arrombal-o-hia com um sôco. Elle sente isso e é traiçoeiro

pelo instincto de inferioridade. Não ataca de frente como o espadachim

ou o pugilista, investe obliquamente, tergiversando, fugindo com o

corpo, fazendo fintas com uma agilidade proveniente do seu unico

exercicio muscular--as _escovinhas_. Não ha senão uma defeza para o

modo como elle aggride: o tiro ou a bengala, quando esta seja manejada

por um jogador estremamente destro. A guitarra debaixo do braço

substitue n’elle a espada á cinta, por meio da qual se acamaradavam com

a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo XVII. É pela prenda de

guitarrista que elle entra de gôrra com os fidalgos, acompanhando-os

ainda hoje nas feiras, nas touradas da Alhandra e da Aldea Gallega, e

uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, onde depois da meia noite se

vai comer o prato de _desfeita_, acepipe composto de bacalhau e grão de

bico polvilhado de vermelho por uma camada de colorau picante.»

Em seguida pormenorisa o traje tradicional do fadista: «a bota fina

de tacão apiorrado ou o salto de prateleira, a calça estrangulada no

joelho e apolainada até o bico do pé, a cinta, a jaleca de astrakan e o

chapeu arremessado para a nuca pelo dedo pollegar, com o gesto classico

do grande estylo canalha.»

Apenas lhe esqueceu um complemento da _toilette_: o penteado, as

melenas cuidadosamente lisas e repuxadas sobre as orelhas.

Descreve-o, finalmente, cantando o _Fado_:

«A guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle

com um desfastio impávido, deixando pender o cigarro do canto do

beiço pegajoso, gretado e descahido; com um olho fechado ao fumo do

tabaco e o outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma

contemplação imbecil; o tronco do corpo cahido mollemente para cima do

quadril; a perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da

amante reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta algumas vezes,

apoiando a mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça

alta, esticando as cordoveias do pescoço e entoando a melopéa dos

fados, em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções

religiosas á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge,

acompanhada da expressão physionomica de uma sentimentalidade de

enxovia, pelintra e miseravel.»

Uma exuberante tatuagem é um dos caracteristicos do corpo do fadista;

ás vezes, não só exuberante, mas tambem muito complicada de figurações

caprichosas, algumas das quaes, como o signosamão, cuja interpretação

ethnographica está por fazer, livram, segundo a superstição

tradicional, de maus olhados e de espiritos ruins.

Na vida do fado este facto é commum tanto ao homem como á mulher.

O rufião tatúa a amante, pacientemente, como se estivesse produzindo,

com ternura e enthusiasmo, uma obra de arte; ou se tatúa a si mesmo ou

se deixa tatuar pelos seus pares.

Luiz Augusto Palmeirim tambem descreveu o fadista.

Nota que não tem familia, é engeitado da Santa Casa, para assim ir ao

encontro da predestinação, do mau fado, que vem do berço, e com que o

fadista pretende desculpar toda a sua existencia de vicio e torpeza.

Mas ha muitos que teem familia, paes conhecidos, e que são levados á

fadistagem por uma espontanea tendencia de baixos instinctos, pela

companhia e convivencia de _faias_, pela desmoralisação do Limoeiro

onde foram uma primeira vez expiar qualquer rapaziada leve; ou ainda

pela suggestão nociva do bairro em que nasceram e moram.

A _Bisnaga escolastica_, «colhida do Campo da Cotovia pelo lavrador do

Palito Metrico», conta as brigas e contendas travadas entre os rapazes

do Bairro Alto e os de Alfama, a murro e calhau.

Estes dois bairros, antigas escolas de fadistagem, habilitavam, assim,

praticamente, desde a infancia, os continuadores das suas tradicionaes

escarapelas e zaragatas, ainda hoje não extinctas completamente.

Alfama e o Bairro Alto vem, pois, educando por suggestão local os

fadistas do futuro.

Pato Moniz, na _Agostinheida_, querendo mostrar que o padre José

Agostinho de Macedo arranchava com faias e bailhões, recebendo d’elles

apoio, tambem se refere a essas pugnas, ás vezes cruentas, que

preparavam cidadãos para a vida do fado:

«Andava n’este tempo accêsa a guerra

Entre a malta de Alfama e Bairro Alto,

Gingantes campeões afragatados,

Miqueletes[21] revéis, cujas façanhas

Em macarróneo metro celebradas[22]

Tem dado assumpto a um par de gargalhadas.

E no sitio da Penha[23] aos dias santos

Com poitas,[24] e com fundos de garrafa,

A dente, á unha, á bordoada, a ferro,

Latindo tão raivosos como um pêrro,

Travavam cruentissimos combates;

Não que morresse algum, mas abundavam,

Entre o furor de punhos e pedradas,

Bolas partidas, ventas esmurradas!

De uma das taes guerrilhas tinha o mando

O _General Luneta_, homem provindo

De linhagem illustre, e por seus séstros

Entre a mais bréjeiral, çáfia[25] cambada,

Entre a relé mais pifia confundido;

E por seus capitães eram com elle

Claros pimpões, a flor da pangayada.[26]»

Pato Moniz illustra o texto com a seguinte nota: «Bem sabida, e bem

fallada foi em Lisboa a guerra da rapazia no sitio da Penha de França;

e muito mais depois que n’ella entraram o _General Luneta_ (Dom Th.

d’A., cujo rival no generalato era um façanhoso Pretalhão)[27] e alguns

outros, que, posto serem geralmente havidos em ruim conta, nunca se

esperou que chegassem a tanto.»

Vê-se mais uma vez que no principio do seculo XIX ainda não eram

correntes as palavras fadista e fadistagem. A 1.ª edição da

_Agostinheida_ é de 1817. Pato Moniz usa todas as expressões que

podem pintar a escumalha social: çáfia cambada, gingantes campeões

afragatados, relé mais pifia, flor da pangayada, etc. só lhe

faltava ainda a palavra fadistagem. Se já então pudesse dispôr do

vocabulo--fadistão, com certeza o haveria atrambolhado ao padre José

Agostinho, que alguma coisa teve de isso, em verdade.

Casos ha em que os fadistas provéem de pais honestos, de familias

decentes e remediadas, e até, facto que já foi mais vulgar do que

hoje,--porque as raças nobres tendem a extinguir-se,--tem havido

fadistas descendentes de familias illustres.

Estes, eram jovens fidalgos que viviam com picadores e cocheiros,

toureiros, arruaceiros e espadachins.

D. Affonso VI, quando infante, e D. Francisco, irmão de D. João V,

viveram com a ralé que hoje se chama fadistagem.

D. Miguel de Bragança foi creado no mesmo teor de vida; mas depois, no

exilio, regenerou-se completamente.

Outros fidalgos houve, porém, que menos felizes chegaram até á facada,

ao homicidio, e tiveram de ir cumprir no ultramar uma pena infamante.

Para ser fadista é necessario um longo tirocinio: aprender a tocar

guitarra e cantar o _Fado_, a fazer «escovinhas», _riscar_, a esconder

a navalha na manga da jaleca, a puxar as melenas, a enfiar as calças

esticadas, e a fallar o calão.

Vemos ás vezes rapazes do povo trabalhando em qualquer officio, mas já

vestidos de fadistas: andam na aprendizagem, por vocação e por gosto.

Não esperam senão a monção favoravel que os ha de levar definitivamente

para a vida do fado.

Essa monção é qualquer acontecimento de familia--a morte do pai, da mãe

ou de algum outro parente que ainda lhes impunha certo respeito.

Partido esse laço, adeus trabalho, adeus honra, adeus dignidade e

consciencia.

Até o seu appellido perderão: hão de passar a ser conhecidos por um

alcunha.

Ha só um caso em que o noviço do fado ainda pode salvar-se: é se

não conseguiu livrar-se, por debilidade physica, de sentar praça no

exercito.

Palmeirim nota com razão: «O fadista, feito soldado, deixa de ser

homem, é um automato! Os artigos da guerra arrefecem-lhe a inspiração,

entibiam-lhe o enthusiasmo pela poesia, sua irmã de infortunio.»

Mas isso não acontece sempre, não é regra geral, porque muitas vezes

o iniciado na fadistagem, depois de ter sentado praça no exercito ou

na armada, conserva os seus amores nos bordeis, frequenta os bairros e

botequins suspeitos, arma desordens com a policia e com os soldados da

guarda municipal, e chega o ser um heroe... da Mouraria.

O marinheiro é muito mais fadista do que o soldado: talvez por que

a guitarra de bordo seja o traço de união que o põe em constante

communicação espiritual com os outros fadistas.

Nos mares da India ou da China o _Fado_, tangido por elle ao luar, no

convés do navio, lembra-lhe Lisboa, a Mouraria e Alfama; lembra-lhe a

sua terra, se é saloio ou se é natural do Ribatejo.

O fadista saloio, diga-se de passagem, tambem tem tanto «caracter

de classe», que se conhece pela apparencia: a carapuça ou o chapeu

desabado, a melena repuxada, a calça de bocca de sino, o ar gingão e

canalha.

Traz na carroça a guitarra e toca o _Fado_ nas tabernas da estrada:

ás vezes combina, com os maltezes, fazer um crime, assaltar um casal

solitario e matar os donos.

Ainda outro escriptor portuguez descreveu o fadista: é Julio de

Castilho no 1.º volume da sua _Lisboa antiga_.

«Deixal-o lá (o _Fadista_) sentado na borda do mocho da taberna,

arranhar na banza truanesca os amores do conde de Vimioso, mais os

seus; deixal-o ir saracotear-se na espera dos toiros, todo chibante com

a sua calça de bocca de sino, e a sua jaleca de alamares; deixal-o ir

para as hortas ao domingo, deleitar, com os chistes ambiguos do ultimo

fadinho corrido, os bulhentos freguezes da Perna de Pau e do Alto do

Pina.

«Estou-o a ver encostado a uma ombreira, de chapeu para traz e mãos

cruzadas nas costas, com os olhos piscos do fumo azul de um cigarrito

engelhado, que de quando em quando lhe pende ao canto da bocca,

exprimir no rosto encorreado, na fronte baixa e estreita, na nuca de

cão de agua, e na melena recurva, que elle enxota com as costas da

mão, todos os segredos ignobeis dos antros que lhe são theatro. A

sua voz avinhada e rouquenha come umas palavras, e estropia outras,

ao prantear a morte da Severa, n’um tom silvestre de acre melancolia

indescriptivel.

* * * * *

«O fadista do Bairro Alto é o _marialva_ do rés do chão da sociedade,

escória das tendencias elegantes de uma cidade grande, producto

bastardo da ociosidade e do vicio. É o triste frequentador da galeria

das causas crimes; e muita vez o pobre Othello obscuro da parte de

policia. O fadista é um aleijão nos costumes; tarde lhe chegará a sua

vez de regeneração, lôbrego vadio inconsciente, a quem o Limoeiro

fascina, com o magnetismo escancarado de um sapo collossal.»

O fadista tem, nos seus bairros, botequins e tabernas especiaes,

que frequenta todos os dias ou todas as noites: ahi se discutem os

assumptos da classe, rixas, amores, ciumes, crimes da vespera ou do dia

seguinte...

Fialho d’Almeida, nos _Gatos_,[28] coloriu com duas pinceladas

intensamente descriptivas um botequim da Carreirinha do Soccorro:

«Ás oito horas, no corredor estreito e comprido que é a sala do

botequim de fadistas que lhes disse, todo occupado com duas filas

de mesas onde os freguezes abancam, sentados em mochos de pau, para

saborear a pequenos goles, uma cerveja que parece feita d’ourina

albuminurica, ou qualquer chavena d’esse café negro e pegajoso que

a Mouraria designa pelo pittoresco nome de _carócha_; ás oito horas

não ha no botequim um unico logar, devoluto. Por um rótula de dois

porticos, ao fundo, intercalada de prateleiras de garrafas, d’onde se

franjam, por transparencia, fogos de rubis de creme rosa d’aguardente

de ginjas, esmeraldas de Kermann, grandes topasios de licor de canella

e tangerina, pousa o busto do cafézeiro, em camisola, um gordanchudo,

barbaceno e alvar, que trata a freguezia por _gajos_, e coça as piugas

nos entreactos da confecção dos capilés. De roda, outros gallegos

ajudam, indo do fogão para o balde das lavagens, da gaveta das colhéres

para os _trés-fonds_ da baiuca, d’onde nos intervalhos de silencio

vem um guinchar d’enormes ratazanas. Nas paredes, quadrinhos de

mulheres offerecendo os seios á sucção de quem nas observa--bicos de

gaz flambando sob tulipas de loiça pendentes do taboado; e por entre

as filas de bancos onde mal cabe a perna do moço que faz o serviço,

atravessa de quando em quando uma especie de _rodeuse_ da rua Suja,

chuchada, vestida de branco, com tamancos nos pés e lesmas de cabello

ruivo sob a testa.»

A pintura é fiel, palpitante de realidade, e o scenario dos botequins

fadistas não muda essencialmente de bairro para bairro.

O publico dá-lhes o nome de botequins de _lepes_; em calão, _lepes_

quer dizer dez réis. Esta designação exprime a miseria dos _habitués_,

e está um pouco antiquada, porque hoje a despesa a fazer n’aquelles

botequins excede a de outros tempos. Todos elles ou quasi todos elles

teem piano e pianista, que exige uma diaria certa; e as _camareras_,

que servem as bebidas, vão arteiramente induzindo os freguezes a

maiores gastos.

De todos os botequins fadistas da actualidade o mais amplo é o do Veiga

no largo Silva e Albuquerque, onde aliás ha outro, o do Peres, afamado

pela _ginjinha_; na rua d’aquelle mesmo nome o botequim do Ramalho tem

uma roda abundante de _habitués_ da Mouraria.

No Bairro Alto o botequim da rua da Atalaya, n.ᵒ 100; em Alcantara,

o da Praça d’Armas, n.ᵒ 5; em Alfama o da Rosa Maria são os de maior

nomeada na fadistagem hodierna de Lisboa.

Nas tabernas, onde as iscas vieram desthronar a chanfana, tão decantada

no seculo XVIII por Tolentino e pelo Lobo da Madragôa, tambem o fadista

tem preferencias especiaes, segundo os bairros.

Em Alcantara, na rua do Livramento, a taberna do Otero é conhecida pelo

«armazém da meia noite», designação popular que por si mesma dá ideia

de um coio de fadistas noctivagos.

Na rua da Guia a taberna do _Manuel do Jogo_, na rua da Amendoeira a

taberna do _Cego_, no largo do Limoeiro a taberna do Pateo do Carrasco,

e na rua de S. Miguel a taberna do Batalha são fócos vulcanicos da vida

airada, onde o cheiro das frituras, do tabaco e do vinho condensam uma

atmosphera crassa, capaz de congestionar um Hercules.

Tanto aos botequins como ás tabernas se liga a tradição do _Fado_ no

piano, na guitarra ou na voz soluçante dos «filhos da Desgraça», elles

a ellas.

O fadista do Bairro Alto dir-vos-ha, se fôr consultado, que a guitarra

de Alda Gracinda, rameira da rua do _Diario de Noticias_, vale um

thesouro quando ella lhe põe as mãos.

Um dos primeiros cantadores do _Fado_, segundo a chronologia e a fama,

foi José Norberto, o saloio de Campolide. Em 1848 teria uns 50 annos de

idade. Era sympathico: boa cara, physionomia desanuveada.

Bulhão Pato conserva de memoria algumas glosas que lhe ouviu, e que

são muito caracteristicas da vida tradicional dos _Fadistas_ n’aquella

epoca e... ainda hoje.

Lembras-te tu, meu bemsinho,

De quando eu cantava o _Fado_

Na taberna do Córado?

Choviam copos de vinho:

Foi dia de S. Martinho.

* * * * *

Estavas tu a assar castanhas

Quando os meus olhos te viram.

Quando nós fomos ás hortas,

Passeiamos todo o dia.

Á noite, ao passar as Portas,

Me perguntaram p’la guia.

Eu com a piella com que ia,

Como ia trocando os passos,

Fiz a «banzara» em pedaços

E no fim da brincadeira

Fui coser a bebedeira

Na cadeia dos teus braços.

Quando dei co’um matacão

N’aquelle gajo á Esperança,

Para arranjar a fiança

Andaste em passo de cão.

Vendestes o teu cordão,

Teu capote se empenhou.

Se hoje solto e livre estou,

A ti o devo em verdade.

E por tanta caridade

Minha alma presa ficou.

Banzara é uma paragoge do calão--banza--synonymo de guitarra.

O bom cantador do _Fado_ requebra a voz com «sentimentalidade canalha»

e com a «intermissão de uns _oras_ e de uns _ais_ mui langorosos, o

_zing_ fadista de cervejarias e botequins de lacaios.»[29]

Curvado sobre a guitarra, como para ouvir melhor a voz d’esse

instrumento querido e suave, que parece dizer-lhe confidencias, ergue

de quando em quando a cabeça e põe os olhos no alto, acompanhando assim

as notas agudas que parece fugirem da terra para as regiões do sonho...

É um enlevo, um extasi, como podem sentil-o as almas que vegetam no

lôdo da crápula; é a «sentimentalidade canalha», de que falla Camillo;

a poesia da devassidão; é a mariposa que roçou no monturo e adeja para

seccar as azas no ar e na luz do espaço infinito.

Outro eximio cantador do _Fado_ foi o Pitalcante, filho do famoso

jogador de pau que se chamou José Maria Saloio.[30].

Presava-se de saber musica, pois estudára no Conservatorio. Chegou a

ser um Orpheu popular. Encantava as patrulhas com os seus descantes, a

ponto de algumas vezes o não prenderem ou de o soltarem depois de preso.

Foi verdadeiramente uma celebridade no seu genero, fazendo _pendant_ no

sexo masculino á Severa, que foi a mais insigne cantadora do _Fado_ e

que, por este e outros motivos, terá capitulo especial.

Bulhão Pato esteve para levar o Pitalcante a Alexandre Herculano,

quando o grande historiador já residia em Val-de-Lobos.

A tysica, fim vulgar nos fadistas e nos bohemios, cujos excessos os

consomem rapidamente, foi a doença que victimou o Pitalcante.

Devemos agora fallar do Salles _Patuscão_.

Era, como quasi todos os fadistas de um e outro sexo, enthusiasta pela

tauromachia, grande _aficionado_.

Tomou parte n’uma tourada de fidalgos, que se realisou na praça do

Campo de Sant’Anna, a 28 de agosto de 1859.

N’esta corrida foi cavalleiro o conde de Vimioso, então maior de

quarenta annos.

Salles era «moço de forcado»; e muito da intimidade do Vimioso.

Alto, moreno, bexigoso; pulso rijo: um valentão.

Diga-se desde já que foi elle o auctor do _Fado_ da Severa, quando ella

falleceu:

Chorae fadistas, chorae, etc.

Não obstante a sua corpulencia e robustez, o Salles _Patuscão_ morreu

tysico, como Pitalcante.

O Sousa Casacão (ainda hoje muito lembrado na tradição popular) teve

notoriedade como cantador do _Fado_, e conservou essa evidencia até

depois de 1870.

Um dos seus _Fados_ predilectos fôra-o tambem da Severa; é o que

principia dizendo:

É pena que o meu José,

Sendo um esperto rapaz,

Não saiba dizer Thomaz,

Não possa dizer Thomé.

Dizer nunca pôde o T

Quando vem junto com O;

O outro dia disse só

Todo o _b a ba_ por si,

Mas chegou ao _ta, te, ti_,

E não pôde dizer _tó_.[31]

De 1860 a 1880 figuraram como cantadores do _Fado_: José Borrègo, José

Petiz, José Maria Enguia, José Carlos, Saldanha da Porcalhota, José

Maior, José Montaurino, Caetano, o _Calcinhas_, João Campanudo, José

Bento d’Oliveira, _Patusquinho_, etc.

Tambem, continuando as tradições fadistas da Severa, se tornaram

notaveis: Maria Cezaria (a quem foi dedicado um _Fado_ pelo guitarrista

Ambrosio Fernandes Maia), Luiza Cigana e Maria Paus.

Como guitarristas adquiriram renome, além de Ambrosio Fernandes Maia,

Antonio Candido, o _Visinho_; Thomaz dos Santos, o _Thomaz do Bairro

Alto_; Antonio Casaca, Manuel Casaca e José Casaca; José Gualdino, João

da Preta, Augusto Trajano o _Palhetas_ e João Maria dos Anjos.

Tanto o Anjos como Ambrosio Fernandes Maia publicaram methodos de

guitarra: o do 1.º foi editado pela livraria Pereira; e o do 2.º pelo

proprio auctor.

O Maia ainda vive e d’elle, por interposta pessoa, colhi interessantes

informações, sendo uma d’ellas que o _Fado_ mais antigo que conhece é o

do _Marinheiro_.[32]

Por isso o reproduzimos n’este livro.

Conheci, e ouvi muitas vezes, o João Maria dos Anjos.

Era eximio no _Fado_; sem embargo, gostava de tocar, em concertos

publicos, peças de maior responsabilidade artistica, como trechos de

opera, etc.

Uma d’essas composições era a _Marcha funebre de Luiz XVI_; de difficil

execução.

Sempre lhe manifestei opinião contraria a esta aristocratisação

artistica da guitarra; elle respondia-me:

--É para mostrar que a guitarra pode dar tudo.

Mas na praia da Ericeira (aonde elle ia todos os annos dar um concerto)

era encantador ouvil-o, por noites de luar, nas Ribas e nas Furnas,

variar prodigiosamente o _Fado_.

Diz a seu respeito o professor Vieira no _Dicc. biog. dos musicos

portuguezes_: «Entre varias pessoas distinctas que o apreciavam como

excellente tocador do instrumento nacional, conta-se a sr.ᵃ duqueza de

Palmella, que algumas vezes o mandou chamar para abrilhantar as suas

reuniões mais intimas.»

Tambem uma vez foi ao Paço no reinado de el-rei D. Luiz.

João Maria dos Anjos deixou um filho, que sentou praça no exercito

ultramarino.

Ainda ha pouco, vindo á metropole, me procurou.

O Anjos foi um guitarrista da epoca em que o _Fado_ entrou nas salas; e

em que a guitarra passou da mão do povo para a das damas illustres.

Diz-se que concorreu muito para esta ascensão nobilitante sua magestade

a rainha D. Maria Pia, encantada com a melodia simples e doce, que

constitue o fundo nacional dos nossos _Fados_.

Manuel Roussado (hoje barão do seu appellido) explorou no theatro

a corrente aristocratica do _Fado_, escrevendo a comedia _Ditoso

Fado_, que fez carreira na Trindade, representada por Taborda e Rosa

Damasceno.[33]

O assumpto da comedia é simples: _Violante_ e o _Doutor Saraiva_,

pessoas de boa sociedade, descobrem, momentos antes do seu casamento,

que são ambos doidos pelo _Fado_, e essa harmonia de pensamentos

completa a felicidade das suas almas.

Julio Cesar Machado refere-se á epoca da aristocratisação do _Fado_

lamentando-a como adaptação violenta e desnaturada.

«O fado é talvez filho bastardo do landum,[34] mas é mais bonito que

elle: os filhos bastardos, não se sabe por que, são quasi sempre mais

bonitos que os legitimos: este foi mais adiante, e logrou ser mais

formoso que o pai. O vagabundo nocturno assenhoreou-se d’elle durante

muito tempo; chegou a pensar que era preciso ter desenhos emblematicos

na mão, gravados com tinta e polvora, caracoes sobre a orelha e uma

morte ás costas para se poder entender bem a poesia d’essa musica, que

significa a tristeza das desgraças, amores que hajam tido por capella o

Aljube e o Limoeiro, o ciume da faca de ponta, o amargar ventura entre

grades, as saudades da patria, o suspirar do degradado...

«Isso não impediu que em todo o tempo um ou outro fidalgo tenha

querido dar-se a estudar os segredos d’aquella musica tão vaga, que

pede a maior parte do seu encanto ao sentimento do tocador e á doçura

plangente dos descantes: citam-se o marquez de F.[35], o conde de

V.[36]; ultimamente, uns poucos de mancebos, grandemente amadores

d’essa musica, e prendados com os dotes mais requeridos para tirarem

d’ella effeitos admiraveis, reunem-se ás noites n’alguma quinta dos

suburbios da cidade, e não seria facil dizer-se com que inspiração

ardente, n’aquelle campo, á luz das estrellas, suspiram as vozes

dos cantadores e as cordas maviosas das suas guitarras, poetica,

melancolicamente, como raios da lua por entre uma chuva de lagrimas.

* * * * *

«Mas, desde que os fidalgos e os janotas gostam de ser fadistas, estão

os fadistas a querer parecer janotas e fidalgos, e não se pode contar

com elles; saiem-se já de casaca, em grande seriedade de _virtuoses_, a

dar concertos no Casino e no Circo, e o mais que se alcança d’elles é

contarem-nos a vida de Salomão e de David...

«Uma massada!»[37]

Effectivamente, no Casino do largo da Abegoaria, chegou a haver

concertos publicos em que se ouvia o _Fado_, com grande aprazimento do

auditorio fidalgo, cantado por algumas coristas dos theatros da capital.

O empresario d’estes concertos está ainda vivo e são: era Ernesto

Desforges.

Quando elle tratou de arrendar o Casino, perguntou-lhe o velho Figueira:

--Para que é?

Desforges respondeu com lealdade:

--Para dar concertos de guitarra.

Figueira replicou-lhe:

--Isso é um instrumento que se ouve de graça em todas as ruas. Ninguem

vai pagar para o ouvir.

Enganou-se. Os concertos, sob a direcção de João Maria dos Anjos,

tiveram um grande exito. No primeiro tocaram apenas 12 guitarristas; no

ultimo eram já 50.

Depois um allemão de appellido Gruder, que mais tarde figurou como

lithographo n’um processo de notas falsas, tambem foi explorar o _Fado_

e a guitarra para o Gymnasio.

A generalisação do _Fado_ explica a apparição de publicações, que lhe

diziam respeito, e tinham grande voga.

Publicaram-se:

_A guitarra_, de Souto Maior Judice.

A _Lyra do Fado_, de Manuel Antonio da Luz, que foi morrer a

Rilhafolles.

_O Piano e a Guitarra_, de Ernesto Cesar dos Santos, que a tuberculose

victimou aos 20 annos de idade.

_O Fado Liró_ e o _Fado do Marinheiro_, collaborados por Luiz F. da

Costa Soromenho (já fallecido), Patricio José de Mattos, a quem uma

paralysia atormentou os ultimos annos de existencia, e F. Napoleão da

Victoria, que tem hoje uma loja de livros (principalmente theatro) na

travessa de S. Domingos.

_O Fado Universal_, _A Lyra do Fadinho_, a _Lyra do Cantador_ (todos

de 1878) collaborados por Domingos Fernandes (Salazar Guerreiro),

fallecido; Patricio José de Mattos, A. Feliciano Corrêa, tambem

fallecidos; J. Rodrigues Chaves (actor, ainda vivo), Ernesto Cesar dos

Santos, J. Cordeiro (fallecido) e F. Napoleão da Victoria.

O _Pianinho_,[38] principalmente redigido pelo sr. José Ignacio de

Araujo, que ainda floresce com distincção em todos os generos de poesia

popular, apesar da sua idade avançada.

_O Cantador Popular_ e o _Fado Novo_, collaborados por P. J. Mattos, A.

F. Corrêa, Xavier de Paiva; o Vianna que foi collaborador do _Pimpão_

(_Antonio Vigas_), já fallecidos; e F. Napoleão da Victoria.

_Fado Chic_, _Fado Maritimo_, _Fado dos Jesuitas_, glosas de diversos,

limadas por F. Corrêa.

_O Fado Politico_, em que se apreciava a marcha dos partidos.

Ignoro quem fossem os collaboradores.

_O Fado exdruxulo_, para piano e guitarra, de Salazar Guerreiro.

_Cantigas do Fado_, de Luiz de Araujo.

Apenas vi a 3.ª edição, que é de 1881.

Outra collecção editada por Casimiro Baptista.

Appareceram alguns _Fados_ licenciosos, que a policia apprehendeu.

N’este genero tem-se publicado a _Guitarrinha innocente_ (innocente

por antiphrase, é claro) e o _Almanach do Fado brejeiro_, _Fado da

Padralhada_, etc.

Dá perfeita ideia do gosto com que o _Fado_ se ia generalisando, o

seguinte mote publicado em um dos folhetos que deixamos mencionados:

Se isto assim continuar,

Onde irá parar não sei!

Veremos andar pela rua

De guitarra o proprio rei.

Começaram a apparecer almanachs de cantigas do _Fado_, para acompanhar

e satisfazer o gosto publico:

_Almanach do Cantador_ (1871). Editor, Verol Junior.

_Almanach do bom fadista_ (1875), de Joaquim José de Mattos, já

fallecido.

_Almanach dos bons Fadinhos._ Editor, Verol Junior, Está publicado o de

1902.

_Almanach dos cantadores._ Editor, F. Silva, rua de Santo Antão. No 6.º

anno.

_Almanach dos fados das salas._ Editor, o mesmo F. Silva.

Quasi todos os almanachs populares, para obter maior acceitação, não

deixam de conter alguns _Fados_.

O da _Terra e mar_, para o anno de 1902, insere, por exemplo, o

_Fadinho da cerração do mar_ e o das _Duas fragatas_.

Tambem o sr. Verol Junior iniciou o _Almanach da Severa_, a que mais de

espaço nos referiremos.

Os fadistas classificam os _Fados_ segundo os assumptos que n’elles são

tratados.

Assim dizem:

_Fados á terra_ (assumptos terrestres).

_Fados ao mar_ (assumptos maritimos).

_Fados á campa_[39] (assumptos funebres).

_Fados á Escriptura_ (assumptos biblicos).

Tambem pertencem ao genero _Fados_ as «Cantigas a atirar», ou de

provocação e despique.

Conheço uma publicação exclusivamente dedicada a esta especie

de _Fados_. Intitula-se _Cantigas a atirar, Fadinhos para quem

fôr pimpão_. Por um _fadista de pé leve_. Lisboa, Typographia

Luso-Britannica, 1873.

E conheço muitas outras cantigas da mesma especie espalhadas pelos

diversos almanachs de _Fados_.

Exemplo de «cantiga a atirar»:

_Venha o diabo á escolha,

Não sei qual mais approvar;

Que tu a cantar fadinhos

És mesmo um gato a miar_.

Amigo, por compaixão,

Não estafes esta gente,

Que sabe perfeitamente

Qual a tua presumpção:

P’ra nossa satisfação

Mette na bôcca uma rolha;

Assim escondes a _bolha_

E passas por mais sensato:

Entre a tua e a voz do gato

_Venha o diabo á escolha_.

Quem nos ouvidos soffrer

Do teu canto o som bravio,

Sentirá um arrepio

E febre julgará ter.

D’um caldeireiro o bater

É custoso de aturar;

Inda assim se o comparar

Á tua voz desabrida,

Não sei por qual me decida,

_Não sei qual mais approvar_.

Os cães á lua ladrando,

Os burros a darem zurros,

Os leões soltando urros,

Corvos aos mil crocitando;

Todos vão atordoando

Os ouvidos, coitadinhos!

Mas não sei se estes brutinhos

(Sem pretenções a encantar)

São menos de apoquentar

_Que tu a cantar fadinhos_

Deixa essa balda ruim,

Não te mettas a finorio,

Se não queres que o auditorio

Te rogue pragas sem fim.

Vae-te já com tal _chinfrim_

De cantigas p’ra enfadar;

Não tens voz para cantar,

Jamais serás cantador,

Porque, sem tirar nem pôr,

_És mesmo um gato a miar_

Outro:

_Quando ás vezes a mostarda

Chegar sinto ao meu nariz,

Tenho cá um vinagrinho

P’ra os piar no almofariz._

Suas basofias insanas

Pôem-lhe os queixos em perigo;

Se me conhecesse, amigo,

Deixaria essas _lampanas_;

Metto-o no rol dos parranas,

Apesar de vestir farda...

Tambem traz o burro albarda

E eu não tenho medo d’ella.

É bom fazer-se de vella

_Quando ás vezes a mostarda_...

Se você, seu borra-botas,

De ser valente tem fama,

Eu já fiz lá para Alfama,

Fugir duzias de janotas;

Não sou de soffrer chacotas,

Repare bem no que diz:

Nem dez policias civis

Me põem na casa da guarda

Quando cá certa mostarda

_Chegar sinto ao meu nariz_!

Seu palerma atrevidete,

Pergunte aqui e acolá,

Depois logo saberá

A firma com quem se mette!...

Se p’ra traz lanço o barrete

E torço um pouco o focinho,

Vae tudo por mau caminho,

Porque nunca fui dos mansos;

E p’ra dar ensino a _tanços_

_Tenho cá um vinagrinho_...

Saiba você, seu marau,

Meu senhor, rei dos pandilhas,

Que vae parar a Cacilhas

Se lhe atiro um chimbalau.

Vou fazer-lhe o catatau,

Se o que disse não desdiz.

Se tem dó do seu nariz

Perca as basofias insanas,

Porque me não faltam ganas

_P’ra o pisar no almofariz_.

Nas provincias do norte tambem ha certamens poeticos entre a gente do

povo, especialmente no Minho. É o que lá chamam «cantar ao desafio.»

E nas provincias do sul, fóra da classe dos fadistas, diz-se--cantar

á desgarrada. Mas em Lisboa e seus arredores resalta uma profunda

differença entre as «cantigas a atirar» e os duellos a verso das outras

classes, tanto do norte como do sul.

Começa a avultar a differença na propria designação: _a atirar_.

Esta expressão dá logo ideia de uma classe bulhenta e desordeira, que

deseja «ferir» o adversario, em vez de o vencer apenas.

Nos «desafios» e nas «desgarradas» usa-se geralmente a quadra; nas

«cantigas a atirar», a décima.

É a influencia da fórma estrophica do _Fado_ com seu mote e suas glosas.

A disputa assenta sobre a competencia ou incompetencia para cantar

_Fadinhos_; póde o adversario ser um rouxinol, mas se não entrar bem

no rythmo do _Fado_, é peior do que um cão a ladrar, na opinião dos

fadistas seus pares.

A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado) · 第 14 / 60 题