Da conducção das boiadas do Sertão do Brazil: preço ordinario do gado
que se mata, e do que vai para as fabricas.
Constão as boiadas, que ordinariamente vem para a Bahia, de cem, cento
e sessenta, duzentas, e trezentas cabeças de gado; e destas quasi cada
semana chegão algumas a Capoame, lugar distante da cidade oito legoas,
aonde tem pasto, e aonde os marchantes as comprão: e em alguns tempos
do anno ha semanas, em que cada dia chegão boiadas. Os que as trazem
são brancos, mulatos, e pretos, e tambem Indios, que com este trabalho
procurão ter algum lucro. Guião-se, indo huns adiante cantando, para
serem desta sorte seguidos do gado; e outros vem atraz das rezes
tangendo-as, e tendo cuidado, que não sahião do caminho e se amontoem.
As jornadas são de quatro, cinco, e seis legoas, conforme a commodidade
dos pastos, aonde hão de parar. Porém, aonde ha falta d’agua, seguem
o caminho de quinze, e vinte legoas, marchando de dia e de noite,
com pouco descanço, até que achem paragem, aonde possão parar. Nas
passagens d’alguns rios, hum dos que guião a boiada, pondo huma armação
de boi na cabeça, e nadando, mostra ás rezes o vão, por onde hão de
passar.
Quem quer que entrega a sua boiada ao passador, para que a leve das
Jacoabinas v. g. até a Capoame, que he jornada de quinze, ou dezaseis
até dezasete dias, lhe dá por paga do seu trabalho hum cruzado por
cada cabeça da dita boiada: e este corre com os gastos dos tangedores
e guias; e tira da mesma boiada a matalotagem da jornada. De sorte
que, se a boiada constar de duzentas cabeças de gado, dão-se-lhe outros
tantos cruzados, se com todas chegar ao lugar destinado. Porém se no
caminho algumas fugirem, tantos cruzados se diminuem, quantas são as
rezes que faltão. Aos Indios, que das Jacoabinas vem para Capoame,
se dão quatro até cinco mil réis: e ao homem que com seu cavallo
guia a boiada, oito mil réis. Sendo as distancias maiores, cresce
proporcionadamente a paga de todos. E por isso, do Rio de S. Francisco
acima vindo para Capoame, alguns dos que tomão á sua conta trazer
boiadas alhêas querem seis ou sete tostões por cada cabeça, e mais se
fôr maior a distancia.
Huma rez ordinariamente se vende na Bahia por quatro ou cinco mil réis:
os bois mansos, por sete para oito mil réis. Nas Jacoabinas vende-se
huma rez por dous mil e quinhentos até tres mil réis. Porém nos curraes
do Rio de S. Francisco, os que tem maior conveniencia de venderem o
gado para as Minas, o vendem na porteira do curral pelo mesmo preço,
que se vende na cidade. E o que temos dito até aqui das boiadas da
Bahia, se deve tambem entender com pouca differença das boiadas de
Pernambuco e do Rio de Janeiro.