De diversos preços do ouro vendido no Brazil, e do que importa o que
cada anno ordinariamente se tira das minas.
Varios forão os preços do ouro no decurso destes annos: não só por
razão da perfeição de hum, maior que a do outro, por serem de mais
subidos quilates; mas tambem a respeito dos lugares, aonde se vendia:
porque mais barato se vende nas minas, do que na villa de S. Paulo, e
de Santos: e muito mais vale nas cidades do Rio de Janeiro, e da Bahia,
do que nas villas referidas. Tambem muito mais vale quintado, do que em
pó: porque o que se vende em pó, sahe do fogo com bastantes quebras:
além do que vai por differença por razão do que se pagou, ou não se
pagou de quintos.
Huma arroba de ouro em pó pelo preço da Bahia a quatorze tostões a
oitava, importa em quatorze mil trezentos e trinta, e seis cruzados.
Quintado, pelo preço da Bahia, a dezeseis tostões a oitava, importa em
dezeseis mil trezentos, e oitenta, e quatro cruzados.
Huma arroba de ouro em pó pelo preço do Rio de Janeiro, a treze tostões
a oitava, importa em treze mil trezentos, e doze cruzados. Quintado, a
quinze tostões a oitava, importa em quinze mil trezentos, e sessenta
cruzados.
Donde se segue, que tirando-se cada anno mais de cem arrobas de ouro, a
quinze tostões a oitava, preço corrente na Bahia, e no Rio de Janeiro,
sendo quintado, vem a importar cada anno em hum milhão quinhentos, e
trinta e seis cruzados. Das quaes cem arrobas, se se quintarem, como he
justo, cabem a Sua Magestade vinte arrobas, que importão em trezentos
e sete mil, e duzentos cruzados, mas he certo, que cada anno retirão
mais de trezentas arrobas.
E com isto não parecerá incrivel, o que por fama constante se conta
haverem ajuntado em diversos tempos assim huns descobridores dos
Ribeiros nomeados, como huns mais bem afortunados nas datas: e tambem
os que mettendo gado, e negros para os venderem por maior preço, e
outros generos mais procurados, ou plantando, ou comprando roças de
milho nas minas, se forão aproveitando do que outros tirárão. Não
fallando pois do grande cabedal, que tirou o governador Artúr de Sá,
que duas vezes foi a ellas do Rio de Janeiro, nem dos que ajuntárão
huma, duas, e tres arrobas, que não forão poucos. Tem-se por certo, que
Balthazar de Godoy, de roças, e catas, ajuntou vinte arrobas de ouro.
De varios Ribeiros, e da negociação com roças, negros, e mantimentos,
fez Francisco do Amaral mais de cincoenta arrobas. Pouco menos Manoel
Nunes Vianna, e Manoel Borba Gato: e com bastante cabedal se recolheu
para S. Paulo José Goes de Almeida; e para o caminho novo Garcia
Rodrigues Paes, e João Lopes de Lima tirárão do seu ribeirão cinco
arrobas: os Penteados de sua lavra, e industria, sete arrobas: Domingos
da Silva Moreira, de negocio, e lavra, cinco arrobas: Amador Bueno da
Veiga, do rio do Ouro-Preto, do ribeirão, e de outras partes, oito
arrobas. E finalmente deixando outros muito bem aproveitados: Thomaz
Ferreira abarcando muitas boiadas de gado, que hia dos campos da Bahia
para as minas, e comprando muitas roças, e occupando muitos escravos
nas catas de varios ribeiros, chegou a ter mais de quarenta arrobas
de ouro, parte em ser, parte para se cobrar. Mas tratando de cobrar o
ouro, que se lhe devia, houve entretanto quem lhe deu por desgostos
humas poucas de balas de chumbo, que he o que succede não poucas vezes
nas minas.
Tambem com vender cousas comestiveis, aguardente, e garapas, muitos
em breve tempo accumulárão quantidade consideravel de ouro. Porque
como os negros, e os Indios escondem bastantes oitavas, quando catão
nos ribeiros, e nos dias santos, e nas ultimas horas do dia tirão
ouro para si; a maior parte deste ouro se gasta em comer, e beber: e
insensivelmente dá aos vendedores grande lucro, como costuma dar a
chuva miuda aos campos, a qual continuando a rega-los sem estrondo,
os faz muito ferteis. E por isso até os homens de maior cabedal não
deixárão de se aproveitar por este caminho dessa mina a flôr da terra,
tendo negras cozinheiras, e mulatas doceiras, e crioulos taverneiros,
occupados nesta rendozissima lavra, e mandando vir dos portos do mar
tudo o que a gula costuma appetecer, e buscar.