Da estimação do tabaco do Brazil na Europa, e nas mais partes do
mundo, e dos grandes emolumentos, que delle tira a fazenda real.
Do que até agora se tem dito, facilmente se póde entender a estimação,
e valor a que tem chegado o tabaco, e mais particularmente o do Brazil.
Pois (como disse ao principio) havendo pouco mais de cem annos, que se
começou a plantar, e beneficiar na Bahia, forão as primeiras arrobas,
que se mandárão a Lisboa, como huma sementeira de desejos, para que
cada anno se pedissem logo, se mandassem mais e mais arrobas. E
passando de mimo a ser mercancia: hoje apenas os tantos milhares de
rolos, que levão as frotas, são bastantes para satisfazer ao apetite
de todas as nações, não só da Europa, mas tambem das outras partes do
mundo, donde encarecidamente se procurão. Vale huma libra de tabaco
pizado em Lisboa, de vinte até vinte e quatro tostões, conforme he mais
ou menos fino: e o que El-Rei tira deste contracto cada anno, são dous
milhões, e duzentos mil cruzados. Nem hoje tem os Principes da Europa
contracto de maior rendimento, pela muita quantidade de tabaco, que se
gasta em todas as cidades, e villas.
Sirva de prova o que conta Engelgrave no primeiro tomo da Luz
Evangelica, na dominga quinta depois de Pentecostes, ao paragrapho
primeiro, allegando por testemunho do que diz ao historiador Bernabé de
Ryc-Ke, como certamente informado. Diz pois este autor que, na cidade
de Londres, cabeça da Gram-Bretanha, povoada de mais de oitocentas
mil almas, passão as vendas de tabaco o numero de sete mil: e dando,
que cada huma destas não venda mais cada dia, que hum florim e meio
de tabaco; importará o que se vende cada dia, dez mil e quinhentos
florins: os quaes reduzidos á moeda portugueza, em que cada florim são
dous tostões, importão cinco mil e duzentos, e cincoenta cruzados. E
consequentemente o que se vende só em Londres em hum anno, que consta
de trezentos e sessenta e cinco dias, importa hum milhão, nove centos,
e dezasseis mil, duzentos e cincoenta cruzados. E a que somma chegará o
que se vende cada anno em toda a Gram-Bretanha, em Flandres, em França,
em toda a Hespanha, e em Italia? Para não fallar de outras partes, e
do que vai para fóra da Europa, particularmente ás Indias Oriental,
e o Occidental: procurando-se o do Brazil, por mais perfeito, melhor
curado, em maior quantidade da que se lhe póde mandar, por não faltarem
os comissarios aos mercadores, que tratão de prover as partes mais
proximas.