Das pessoas, que se occupão em purgar, mascavar, secar, e encaixar: e
dos instrumentos que para isso são necessarios.
Aonde não há purgador (que sempre seria bom tê-lo), preside tambem na
casa de purgar o mestre de assucar, a quem pertence julgar, como se
hade botar o primeiro, e o segundo barro nas fôrmas; quando se hade
humedecer, e borrifar mais ou menos, conforme a qualidade do assucar;
e quando se hade tirar o barro, e o assucar das fôrmas. Mas, ainda que
haja purgador distincto com sua soldada; sempre será bem, que este se
aconselhe com o mestre, para obrar com maior acerto, e que tenhão ambos
entre si toda a boa correspondencia, para que fiquem melhor servidos
assim o senhor do engenho, como os lavradores, e elles mais acreditados
em seus officios.
Preside ao balcão de mascavar, e de secar, e ao peso, e ao encaixar
do assucar o caixeiro: e corre por sua conta, repartir, e assentar
com toda a verdade, e fidelidade o que cabe a cada qual de sua parte:
pregar, e marcar as caixas, e entrega-las a seus donos.
Trabalhão na casa de purgar quatro escravas, e são as que entaipão, e
botão barro nas fôrmas do assucar, e lhe dão suas lavagens. No balcão
de mascavar, assistem duas negras das mais experimentadas, que chamão
mãis de balcão; e com outras o mascavão, e apartão o inferior do melhor
huns negros, que trazem, e aventão as fôrmas, e tirão dellas os pães de
assucar, e o amassador do barro de purgar, que he tambem outro negro.
No balcão de secar trabalhão as mesmas duas mãis com as suas
companheiras, que são até dez, estendendo os toldos, e cobrando com
toletes as lascas, e os torrões grandes em outros menores a traz dos
quebradores dos pães; e na caixaria ajudão ao caixeiro no peso, e
encaixamento do assucar as negras, e negros, que são necessarios; como
tambem no pilar, igualar, pregar, e marcar.
Os instrumentos, de que se usa na casa de purgar são furadores de
ferro, para furar os pães em direitura do buraco das fôrmas: cavadores
tambem de ferro, para cavar o pão no meio da primeira cara, antes de
lhe botar o primeiro, e o segundo barro; e macetes, para o intaipar. No
balcão de mascavar usão de couros, para aventar sobre elles as fôrmas;
de facões, e machadinhos, para mascavar; e de toletes, para quebrar o
assucar mascavado. No balcão de secar são necessarios facões, toletes,
e rodos, e o páo quebrador de quatro lados de costa para quebrar os
pães de assucar. No peso, balanças, pesos de duas arrobas, e outros
menores, com o da tara; pas, e passacús. Na caixaria, pilões, rodo, páo
de assentar, ao qual huns chamão moleque de assentar, e outros juiz;
enxo, verrumas, martelos, e pregos; pé de cabra, para tirar pregos
das caixas; e o gastalho, que serve para unir as taboas raxadas, ou
abertas, mettendo suas cunhas entre os lados das taboas, e os dentes
ou buracos do gastalho, que a abraça por cima, e desce pelas ilhargas;
e as marcas de ferro, com que se marca, e declara a quantidade do
assucar, o numero das arrobas, e o signal do engenho, em que se fez, e
encaixou. E desta sorte, qualquer arte se vale de seus instrumentos,
para facilitar o trabalho, e sahir com suas obras perfeitas, o que sem
elles não poderia alcançar, nem esperar.