_Dorothêa_
Não delires... Outras vozes, vozes de pessoas vivas, te chamarão.
_Electra_
É minha mãe... Silencio!... (_Escutando. Entra Pantoja pela direita_)
SCENA VII
ELECTRA, PANTOJA E DOROTHÊA
_Pantoja_
Minha filha, como sahiste da egreja sem que eu te visse?
_Dorothêa_
Sahimos para respirar ao ar livre. Electra asfixiava. (_Áparte_)
Approxima-se a hora... Deus nos ajude!
_Pantoja_
Sentes-te mal, minha filha?
_Electra_
(_com voz assustada e sumida_) A minha mãe chama por mim.
_Pantoja_
(_pegando-lhe carinhosamente na mão_) A dôce voz da tua mãe, falando-te
em espirito te dará conforto, prendendo-te com piedade e amôr a este
sagrado refugio. (_Ouve-se passando na egreja o côro das noviças_) Ouve,
Electra... É a voz dos anjos que te chamam do ceu.
_Electra_
(_delirante_) É o côro dos meninos a brincar. E entre essas vozes ternas,
distingo a de minha mãe chamando-me da sepultura.
_Pantoja_
Estás allucinada. É o divino côro dos anjos.
_Electra_
Não, não ha anjos... Ouço o meu nome, ouço o bulicio dos meninos, que
revolve toda a minha alma. São os filhos dos homens que fazem a alegria
da vida. (_Continua a ouvir-se mais apagado o côro das noviças_)
_Pantoja_
(_inquieto_) Irmã Dorothêa, diga á irmã porteira que vigie a porta da Rua
Nova e a da Ronda. (_Á esquerda e á direita_)
_Dorothêa_
Sim, meu senhor...
_Pantoja_
Mas não; irei eu mesmo... Não me fio de ninguem... Vou eu mesmo vigiar
todo o claustro, todas as passagens, todos os recantos da casa.
(_Assustado, julgando ouvir ruido_) Escute... Não ouvio?
_Dorothêa_
Quê?... Não ouvi nada... É illusão.
_Pantoja_
Pareceu-me ouvir um rumor de vozes... e bater n’uma porta ao longe.
(_Escuta_)
_Dorothêa_
De que lado? (_Olhando para o fundo á direita_)
_Pantoja_
Na direcção da enfermaria... Não estou socegado... Quero vêr eu mesmo...
Electra, volta para a egreja... Leve-a, irmã Dorothêa... Esperem-me lá...
(_Dando-lhes pressa_) Andem... (_Acompanha-as até á porta da egreja. Sae
pressuroso, inquieto, pelo fundo, á direita. Dorothêa vê-o afastar-se,
pega na mão de Electra, e vivamente volta com ella ao centro da scena.
Electra, sem vontade, deixa-se levar_)
SCENA VIII
ELECTRA E SOROR DOROTHÊA
_Dorothêa_
Vem commigo... Para a egreja não.
_Electra_
Aqui... Deixa-me respirar, deixa-me viver.
_Dorothêa_
(_aparte, inquieta_) É a hora dada pelo marquez de Ronda... Aproveitemos
os minutos, os segundos, ou tudo está perdido. (_Olhando para a
esquerda_) Vou dar-lhes entrada para este claustro... (_Alto_) Irmã
Electra, espera-me aqui.
_Electra_
(_assustada_) Onde vaes? (_Pega-lhe no braço_)
_Dorothêa_
(_com decisão, defendendo-se_) Tratar de ti, dar-te a saude e dar-te a
vida... Prepara-te para sahir d’este sepulcro, e leva-me comtigo.
_Electra_
(_tremula_) Irmã Dorothêa... não me deixes.
_Dorothêa_
Este momento decide da tua sorte... Volverás ao mundo... verás Maximo.
_Electra_
Quando?
_Dorothêa_
Já... Vaes vêl-o entrar por ali... (_Esquerda_) Animo!... Não me
estorves... Não te movas d’aqui. (_Sae correndo pela esquerda_)
_Electra_
Meu Deus! Virgem Santissima!... Será certo?... Por aqui... por aqui
virá... (_Julga vêr Maximo na escuridão_) Ah! é elle... Maximo! (_Falando
como em sonhos, desviando-se como d’um ser real_) Pára... Deixa-me...
Não posso amar-te como irmão, não posso... Está no fogo o cadinho em
que quero fundir um coração novo... Não vês que não posso levantar os
olhos para ti?... Para que me fitas d’esse modo, se me não pódes levar
comtigo?... É aqui que eu procuro a verdade. Minha mãe chama por mim...
(_Com accento desesperado_) Mãe! mãe! (_Volta-se de frente para o fundo.
Ao soarem as ultimas palavras de Electra, apparece a sombra de Eleuteria,
formosa figura em habito de monja. Electra de costas para o publico,
contempla-a com os braços cruzados no peito_) Oh! (_Grande pausa_)
SCENA IX
ELECTRA E A SOMBRA DE ELEUTERIA, que vagamente se destaca na
obscuridade do fundo. Electra adeanta-se para ella. Ficam as
duas figuras frente a frente, á menor distancia possivel uma da
outra.
_A Sombra_
Sou a tua mãe, e venho a aplacar a angustia do teu coração amante. A
minha voz dará á tua consciencia a paz. Nenhum vinculo da natureza te
prende ao homem que te escolheu por mulher. O que te disseram foi uma
ficção carinhosa destinada a trazer-te á nossa companhia e á doçura
d’esta santa casa.
_Electra_
Oh! mãe adorada, que consolação me dás!
_A Sombra_
Dou-te a verdade, e com ella a fortaleza e a esperança. Acceita, minha
filha, como provação em que se retemperou a força da tua alma, esta
reclusão transitoria, e não maldigas quem a promoveu... Se o amor
conjugal e as alegrias da familia solicitam a tua alma deixa-te de
boamente levar da suavidade d’essa atracção, e não procures aqui uma
santidade que não é para ti. Deus está em toda a parte... Eu não pude
encontral-o fóra d’este abençoado refugio... Procura-o tu no mundo por
vereda differente d’aquella em que eu me perdi... (_A sombra cala-se e
desapparece no momento em que se ouve a voz de Maximo_)
SCENA ULTIMA
ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ, PANTOJA E SOROR DOROTHÊA
_Maximo_
(_á porta da esquerda_) Electra!
_Electra_
(_correndo para elle_) Ah!
_Pantoja_
(_pela direita_) Minha filha, onde estás?
_Marquez_
Comnôsco.
_Maximo_
Commigo.
_Pantoja_
Foges-me, Electra?
_Maximo_
Não foge... Resuscita.
FIM