Muito inquieto, sem saber o que ha de fazer, como todos nós... Vou chamar

a senhora...

_Pantoja_

Não, não vá. Já chegaram a senhora superiora e as irmãs de S. José?

_Balbina_

Já, sim senhor, chegaram agora.

_Pantoja_

Não diga nada á senhora. Vá para casa e espere por mim.

_Balbina_

Sim, senhor. (_Sobe para casa_)

_Pantoja_

(_indeciso e como assustado_) Não sei que faça... Pela primeira vez na

minha vida hesito... Irei?... Esperarei aqui? (_resolvendo-se_) Vou. (_A

poucos passos encontra-se com Maximo, agitado e colerico, que vem do

jardim e o detem_)

SCENA XI

PANTOJA E MAXIMO

_Maximo_

(_ardentemente em toda a scena_) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que

d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no

delirio em que está.

_Pantoja_

(_perturbado_) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra...

_Maximo_

Foi mordida pelo monstro.

_Pantoja_

Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta

de factos e que se chama a Historia. (_Querendo ir-se_) Adeus.

_Maximo_

(_agarrando-o fortemente por um braço_) Espere. Primeiro vae repetir

aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro

da Historia...

_Pantoja_

(_sem saber que dizer_) Eu... convém assentar préviamente que...

_Maximo_

Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa...

Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão...

Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente.

Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo.

_Pantoja_

Para mim é mais: é o ceu e a terra.

_Maximo_

Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta,

urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos

eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se

envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima

mulher? Que responde?

_Pantoja_

Nada.

_Maximo_

(_acommette-o explodindo em colera_) Pois por esse infame silencio,

mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no

mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra

desfere o raio que nos aniquilla; (_agarra-o pela garganta e derriba-o no

banco_) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula,

Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o

que sejas!

_Pantoja_

(_recobrando alento_) Que brutalidade! que infamia! que demencia!

_Maximo_

Bem sei. Estou doido... (_Recompondo-se_) E quem é que dispõe assim do

poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera

insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho,

incapaz de responder á força com a força?

_Pantoja_

(_tomando aprumo_) Com a força te respondo. (_Voltando á sua condição

normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa_) Tu és a força do

musculo, eu a força da alma. (_Maximo olha para elle, attonito e

confuso_) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas?

_Maximo_

De que póde mais?

_Pantoja_

A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido,

recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu,

Maximo, tremes!

_Maximo_

É a ira. Não a provoque.

_Pantoja_

Nem a provoco nem a temo. (_Cada vez mais senhor de si_) Tu maltratas-me.

Eu perdôo-te.

_Maximo_

Que me perdôa a mim! (_iracundo_) Mas é para o homicidio que assim me

empurra!

_Pantoja_

(_com serena e fria gravidade, sem jactancia_) Enfurece-te, grita,

bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana

que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho.

Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna.

Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que

está aqui (_na sua mente_) é indestructivel. Na minha vontade só um poder

impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia

que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna.

_Maximo_

Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem

ternura, nem compaixão.

_Pantoja_

O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por

qualquer caminho que se me depare.

_Maximo_

(_aterrado_) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o

da Bondade Humana. (_Com exaltação_) Deus do ceu! tu não pódes permittir

que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que

á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não

permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a

maquina do Universo destruida e aniquillada.

_Pantoja_

Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas.

_Maximo_

Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos.

_Pantoja_

Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te.

_Maximo_

Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (_Segura-o vigorosamente por um

braço_) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece

as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi

morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria

de minha mãe.

_Pantoja_

(_depois de o encarar fixamente_) Vamos. (_Ao darem os primeiros passos

sae Evarista de casa_)

SCENA XII

OS MESMOS, EVARISTA E PATROS. Atraz d’Evarista a superiora e as

duas irmãs de S. José

_Evarista_

Que succedeu, Maximo?... Que colera é essa?

_Maximo_

É este homem que me enlouquece... Venha, tia, venha tambem comnosco...

(_Vendo a superiora e as irmãs, amedrontado_) Que mulheres são aquellas?

Que querem essas senhoras? (_Chega Patros do jardim, correndo_)

_Patros_

(_pesarosa, choramigando_) Minha senhora, a senhorita enlouqueceu...

Corre, foge, desapparece, chamando em gritos por sua mãe... Não quer que

a consolem... não ouve, não vê ninguem, não conhece ninguem!

_Evarista_

(_caminhando para o jardim_) Filha da minh’alma!

_Maximo_

(_olhando para o jardim_) Ahi vem. (_Larga Pantoja e dirige-se a ella_)

_Patros_

O senhor e o snr. Marquez conseguiram convencel-a e trazem-a para casa...

(_Apparece Electra conduzida pelo marquez e por Urbano. Junto d’elles,

Maximo. Ao vêr os que estão em scena Electra oppõe alguma resistencia.

Suave e carinhosamente a obrigam a approximar-se. Traz o cabello e o seio

adornado de flôrzinhas_)

SCENA XIII

ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO, MARQUEZ E PATROS

(Conservam-se na scena a superiora e as irmãs)

_Evarista_

Deliras, minha pobre filha!

_Maximo_

Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu carinho será a tua razão.

_Electra_

(_afasta-se de Maximo com um movimento de pudor. O seu delirio é sereno,

sem gritos, sem risadas. Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada

e melancolica_) Não te approximes. Não te pertenço. Já não sou tua.

_Maximo_

Porque me foges? para onde vaes sem mim?

_Pantoja_

(_que passou para a direita, junto de Evarista_) Para a eterna verdade,

para a inalteravel paz.

_Electra_

Vou por minha mãe. Sabem onde está minha mãe?... Vi-a no côrro dos

meninos... Foi depois até a mimosa que está á entrada da gruta... E eu a

seguil-a sem a alcançar... Olhava para mim e fugia... (_Ouve-se ao longe

o canto dos meninos_)

_Marquez_

Aqui está Maximo... Olhe... É o seu noivo.

_Maximo_

(_vivamente_) Serei o teu marido... Ninguem se oppõe, e não ha força

nenhuma que o empeça, Electra, minha vida.

_Electra_

(_impondo silencio_) Quem fala aqui de noivos e noivas? Quebradas as

festas do noivado: não ha bôda... Que tristeza a da minha alma!... Só ha

padres com tochas a rezar por defuntos... Que grande é o mundo, e que só

que está! que vazio!... Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens negras,

que são illusões, as illusões que foram minhas e não são de ninguem

agora... as illusões sem dôno!... Que solidão!... Tudo escurece, tudo

chora... Vae acabar o mundo... vae acabar. (_Com arrebatamento de medo_)

Quero fugir, quero-me esconder. Não quero padres, não quero tochas, não

quero officios... Quero ir para a minha mãe... Onde m’a enterraram?...

Levem-me á pedra da sua campa, e ali juntas, nós ambas, minha mãe e eu,

lhe direi as penas da minha alma, e ella me dirá verdades... verdades!

_Pantoja_

(_áparte, a Evarista_) É a occasião. Aproveitemol-a.

_Evarista_

Vem, minha filha, nós te levaremos á quietação e á paz.

_Maximo_

Não: o descanso e a razão estão aqui. Electra é minha... (_Evarista

procura leval-a_) Exijo-a.

_Electra_

Adeus, Maximo... Já te não pertenço: pertenço á minha dôr... A minha mãe

chama-me para o seu lado... (_Extactica, anciosa, prestando uma attenção

intensissima_) Ouço-lhe a voz...

_Maximo_

A voz!

_Electra_

Silencio, que me chama! (_delirando de alegria_) que está chamando por

mim!

_Evarista_

Torna a ti, meu amor!

_Electra_

Não ouviram? Não ouvem?... Lá vou, mamãsinha, lá vou! (_Corre para o alto

da escada_) Vamo-nos! (_A Maximo, que quer seguil-a_) Eu só... É por mim

só que chama. Tu não... Para estar sósinha commigo... Não ouves a voz

d’ella dizendo: Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou falar-lhe...

(_Vae entrando na casa com Evarista e Pantoja_)

_Maximo_

Que iniquidade e que horror! Para m’a roubarem, enlouqueceram-na. (_Quer

desprender-se dos braços de Urbano e do marquez_)

_Marquez_

(_contendo-o_) Não enlouqueças tambem tu.

_Urbano_

Socega!

_Marquez_

Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos!

_Maximo_

Amarrem-me! Levem-me manietado para a solidão, para a sciencia, para a

verdade. Este mundo incerto, mentiroso e iniquo, não é para mim!

FIM DO QUARTO ACTO

ACTO QUINTO

Sala do locutorio em S. José da Penitencia. Portas lateraes.

Ao fundo uma grande janela d’onde se vê o claustro.

SCENA I

EVARISTA E SOROR DOROTHÊA

_Evarista_

(_entrando com a freira_) D. Salvador...?

_Dorothêa_

Chegou ha um momento: está no escritorio com a superiora e com a madre

escrivã.

_Evarista_

Então Urbano lá irá ter com elle... Emquanto esperamos, dê-me noticias de

Electra... Foi muito feliz a escolha que fizeram de si, irmã Dorothêa—tão

sympathica e tão dôce—para a acompanhar, para viver com ella, para ser a

sua amiga e a sua confidente...

_Dorothêa_

Electra não me quer mal, e é talvez certo que por essa razão algum tanto

contribuirei para a socegar.

_Evarista_

(_aponta para a cabeça_) E como está ella de...?

_Dorothêa_

Bem. Recuperou inteiramente a razão, e não tem nenhum vestigio de

delirio, a não ser ainda aquella ideia fixa de querer vêr a mãe, de lhe

falar, de ter d’ella a solução das suas dúvidas. Todo o tempo que tem

livre das obrigações religiosas, e todo o que póde alcançar, o passa

no pateo do nosso cemiterio, e na horta contigua; e tanto ahi como no

dormitorio, sempre a mesma preoccupação a absorve.

_Evarista_

E lembra-se de Maximo? fala d’elle?

_Dorothêa_

Fala: mas nas suas meditações e nas suas rezas a ideia que mais acaricia

é de poder amal-o como um irmão, e, pelo que ainda hoje me disse, espera

conseguil-o.

_Evarista_

Mas é uma ideia apenas! É preciso que a essa ideia se associe o

coração... E bem poderia ser que assim succedesse se a desgraça de antes

d’hontem não viesse alterar o seguimento dos factos...

_Dorothêa_

Uma desgraça!...

_Evarista_

Morreu o nosso velho amigo D. Leonardo Cuesta...

_Dorothêa_

Não sabia...

_Evarista_

Que immensa tristeza para todos nós! Ha dias que se sentia mal, e

presagiava o seu fim. Sahiu na segunda feira muito cêdo, e na rua perdeu

os sentidos. Levaram-o para casa, e ás tres horas da tarde estava morto.

_Dorothêa_

Pobre senhor!

_Evarista_

No testamento nomeia Electra herdeira de metade da sua grande fortuna...

_Dorothêa_

Ah!

_Evarista_

Mas coma expressa condição de que ella abandone a vida religiosa. Sabe se

D. Salvador já terá conhecimento d’isto?

_Dorothêa_

Supponho que sim, porque elle tem conhecimento de tudo, e adivinha o que

não conhece.

_Evarista_

E é verdade!

_Dorothêa_

(_vendo chegar Urbano_) O snr. D. Urbano.

SCENA II

AS MESMAS E URBANO

_Evarista_

Falaste-lhe?

_Urbano_

Sim. Deixei-o a trabalhar no escritorio, com um tino, com uma fixidez

d’attenção, que me assombram. Que homem!

_Evarista_

Já teve noticia das ultimas disposições do pobre Cuesta?

_Urbano_

Já.

_Evarista_

Está contrariado?

_Urbano_

Se está não o mostra. Bem sabes que nem nos casos mais difficeis elle

deixa transparecer as suas commoções...

_Evarista_

(_interrompendo-o com enthusiasmo_) É um espirito d’aguia, que paira

acima de todas as tempestades da terra.

_Urbano_

Interrogando-o a respeito das esperanças que tinha de conservar Electra

no convento, respondeu-me singelamente com uma serenidade pasmosa:

«Confio em Deus».

_Evarista_

Que grandeza d’alma! E sabe que Maximo e o Marquez são os testamenteiros?

_Urbano_

Sabe mais. Recebeu ao meio dia uma carta d’elles annunciando-lhe que

virão esta tarde, acompanhados d’um tabellião, inquirir a menina, para

que declare se acceita ou se renuncia a herança.

_Evarista_

E á vista d’essa communicação...?

_Urbano_

Nada: imperturbavel, como sempre, repetindo a sua conhecida formula, que

o pinta n’um traço: «Confio em Deus».

SCENA III

OS MESMOS, MAXIMO E O MARQUEZ (pela esquerda)

_Marquez_

Esperaremos aqui.

_Maximo_

(_vendo Evarista_) Adeus, tia. (_Sauda-a com affecto_)

_Evarista_

(_respondendo ao cumprimento do marquez_) Então, Marquez... Ha finalmente

esperanças de ganhar a batalha?

_Marquez_

Não sei... Luctamos com féra de muito ardil.

_Evarista_

E a ti, Maximo, que te parece?...

_Maximo_

Que estamos em frente d’um terrivel mestre consummado no embuste. Mas eu

confio em Deus.

_Evarista_

Tambem tu...?

_Maximo_

Naturalmente: em Deus confia todo aquelle que crê na verdade. Combatemos

pela verdade. Como poderiamos suppôr que Deus nos abandone? Não poderia

ser, querida tia.

_Urbano_

Não viste Electra quando atravessaste os claustros?

_Maximo_

Não vi.

_Dorothêa_

(_approximando-se da janela_) Vae passar agora. Vem do cemiterio.

_Maximo_

(_correndo para a janela com Urbano_) Que triste! e que bella! A brancura

do habito dá-lhe o aspecto aereo de uma apparição. (_chamando-a_)

Electra!

_Urbano_

Cala-te.

_Maximo_

Não posso. (_Volta a olhar_) É então certo que vive... É ella que vae ali

na sua realidade primorosa, ou é uma imagem mystica que se despegou d’um

retabulo d’altar para andar pela terra?... Lá volta para traz... levanta

os olhos para o ceu... Se a visse diluir-se no ar, dissipando-se como uma

sombra, não me admiraria... Põe os olhos no chão... Pára... Em que estará

pensando? (_Continua a contemplar Electra_)

_Marquez_

(_que ficou no proscenio com Evarista_) ...Sim, minha senhora: falso,

falsissimo!

_Evarista_

Olhe o que affirma, marquez...

_Marquez_

Affirmo que ou o veneravel D. Salvador se equivoca, ou que disse,

sabendo-o, o contrario da verdade, movido de razões e fins, que não

penetram as nossas limitadas intelligencias.

_Evarista_

É impossivel, marquez... Faltar á verdade um homem tão justo, de tão pura

consciencia, de ideias tão altas!

_Marquez_

E quem nos diz, minha cara amiga, que nos arcanos d’essas consciencias

exaltadas não ha uma lei moral, cujas subtilezas estão longe do nosso

mesquinho alcance? Ha absurdos na vida do espirito como os ha na

natureza, onde vemos inumeros phenomenos cujas causas não são as que se

figuram.

_Evarista_

Não: não posso crer! Ha talvez casos em que a mentira aplana o caminho do

bem. Mas não estamos n’um caso d’esses... Eu por mim, não acredito.

_Marquez_

Para que possa formar o seu juizo, ouça o que lhe vou dizer. A marqueza,

Virginia, assegura-me que de Josephina Perret—sem que n’isto possa haver

mistificação nem equivoco—nasceu este homem que ahi está... E Evarista,

amiga intima de Josephina Perret, prova e demonstra esse facto da

maneira mais simples, mais clara e mais positiva. Além d’isso, eu mesmo

pude comprovar que Lazaro Yuste viveu longe de Madrid desde 1863 até 1866.

_Evarista_

Com tudo isso, marquez, não posso convencer-me de que...

_Marquez_

(_vendo entrar Pantoja pela direita_) Ahi vem elle.

_Maximo_

(_descendo ao proscenio_) Chega o abutre.

_Dorothêa_

Se me dão licença retiro-me. (_Sae pela esquerda. Pantoja permanece um

instante junto da porta_)

SCENA IV

EVARISTA, MAXIMO, URBANO, MARQUEZ E PANTOJA

_Pantoja_

(_adeantando-se vagarosamente_) Meus senhores, desculpem-me tel-os feito

esperar.

_Maximo_

Prevenido do objecto da nossa visita, creio que será inutil expol-o...

_Marquez_

(_benignamente_) Não o repetiremos para não mortificar o snr. de Pantoja,

que deve a estas horas considerar perdida a sua inutil campanha.

_Pantoja_

(_sereno, sem jactancia_) Eu não perco nunca.

_Maximo_

Será adeantar muito.

_Pantoja_

E asseguro que Electra, tendo aprendido já a desprezar os bens da terra,

não acceitará o legado.

_Evarista_

Já vês que este homem não se rende.

_Pantoja_

Não me rendo... nunca, nunca.

_Maximo_

Estou vendo. (_Sem poder dominar-se_) É então preciso matal-o?

_Pantoja_

Venha a morte.

_Marquez_

Não chegaremos a tanto.

_Pantoja_

Cheguem onde queiram. Hão de encontrar-me sempre impassivel e estavel, no

meu posto.

_Marquez_

Confiamos na lei.

_Pantoja_

Eu em Deus. E digo aos representantes da lei que Electra, adaptando-se

facilmente a esta vida de pureza, libando já as doçuras ineffaveis da

oração e da paz em Deus, não abandonará esta santa casa.

_Maximo_

(_impaciente_) Podemos falar-lhe?

_Pantoja_

N’este momento, precisamente, não.

_Maximo_

(_querendo protestar_) Oh!

_Pantoja_

Socegue.

_Maximo_

Não posso.

_Evarista_

É a hora do côro. Quer D. Salvador dizer, por certo, que depois da hora...

_Pantoja_

Está claro que sim. E para que se convençam de que nada temo, podem

trazer além do tabellião, o snr. delegado do governo. Mandarei abrir

a portaria... Permittirei que falem emquanto queiram com Electra. E se

depois d’isso ella quizer sahir, que sáia...

_Marquez_

Cumprirá o que diz?

_Pantoja_

Como não? se é em Deus unicamente que confio.

_Marquez_

Voltaremos logo. (_Toma o braço de Maximo_)

_Pantoja_

E nós para a egreja. (_Saem Urbano, Evarista e Pantoja_)

SCENA V

MARQUEZ E MAXIMO, que percorre a scena muito agitado,

impaciente, receioso

_Marquez_

Que diz a isto, Maximo?

_Maximo_

Que este homem, de tão superior talento para fascinar os debeis e para

zombar dos fortes, nos enlouquecerá a todos. Eu não sou para isto.

Em luctas de tal ordem, vontade contra vontade, sinto-me arrastado á

violencia.

_Marquez_

E que faz tenção de fazer?

_Maximo_

Leval-a embora. A bem ou a mal. Por vontade ou á força. Se não tiver

bastante poder para isto, adquiril-o, compral-o; trazer amigos,

cumplices, um esquadrão, um exercito... (_Com crescente fervor_) Renascem

em mim os rancores dos antigos bandos, com toda a ferocidade romantica do

feudalismo.

_Marquez_

Assim pensa, e assim o diz, um homem de sciencia!

_Maximo_

Os extremos tocam-se. (_Exaltando-se mais_) Para esse homem, para esse

monstro não ha argumentos, não ha raciocinios... É preciso matal-o.

_Marquez_

Nem tanto, nem tanto, meu querido! Imitemol-o, sejamos como elle astutos,

insidiosos, perseverantes.

_Maximo_

(_com brio e eloquencia_) Não: sejamos como eu... sinceros, claros,

valorosos. Marchemos de cabeça alta e de cara descoberta para o inimigo.

Destruamol-o, ou deixemo-nos destruir por elle... Mas d’uma vez, de uma

só investida, de um só golpe... Ou elle ou nós.

_Marquez_

Não, Maximo. Temos de ir com tento. Temos de respeitar a ordem social em

que vivemos.

_Maximo_

A ordem social em que vivemos envolve-nos em uma rede de mentiras e de

argucias, e n’essa rede morreremos estrangulados, sem defeza alguma...

presos de garganta, e de pés e mãos, nas malhas de milhares e milhares

de leis capciosas, de vontades fraudulentas, aleivosas, subornadas,

corrompidas.

_Marquez_

Socega. Preparemo-nos para o que esta tarde nos espera. Temos de prever

os obstaculos para pensar com tempo no modo de os vencer... Que succederá

quando dissermos a Electra que a mãe do seu noivo é com effeito e fóra de

toda a dúvida Josephina Perret e não Eleuteria Dias?

_Maximo_

Que ha de succeder? Que não o acreditará, porque na sua mente se

petrificou o erro e será já tarde para o desarraigar. Pois não se sabe

o que pode a suggestão contínua? O que póde o insinuante e invasivo

ambiente de uma casa como esta sobre as ideias dos que a habitam?

_Marquez_

Empregaremos meios efficases.

_Maximo_

(_com violencia_) Quaes? Deitar fogo ao convento, deitar fogo a Madrid...

_Marquez_

Não divagues. Se Electra não quizer sahir, leval-a-hemos á força.

_Maximo_

(_muito vivamente até o fim_) Ou uma força triumphante, ou uma

desesperação de vencido... morrer eu, morrer ella, morrermos todos.

_Marquez_

Morrer não. Vivamos todos, e preparemo-nos para a peor solução. Tenho

uma chave para entrar no claustro pela Rua Nova, e a irmã Dorothêa

pertence-me... Caluda!

_Maximo_

Violencia!

_Marquez_

Subtilesa e astucia!

_Maximo_

Adeante, de pronto, e pelo caminho direito!

_Marquez_

Não, homem, de vagar, com geito, e pelo atalho enesgado! (_Tomando-lhe

o braço_) E vamo-nos d’aqui, que estamos a tornar-nos suspeitos...

(_Levando-o_)

_Maximo_

Sim, vamo-nos.

_Marquez_

Confia em mim.

_Maximo_

Confio em Deus.

MUTAÇÃO

Claustro de S. José da Penitencia. Á direita uma asa da egreja,

com frestões envidraçados, pelos quaes transluz a claridade

interior. Á esquerda grande portada por onde se passa a outro

claustro, que se suppõe communicar com a rua. Ao fundo, entre a

egreja e as construcções da esquerda, grande arco abatido, para

lá do qual se vê em ultimo plano o cemiterio da congregação. É

noite escura.

SCENA VI

ELECTRA E SOROR DOROTHÊA

_Dorothêa_

Tão certo como ser noite, vieram dois sujeitos ao convento com proposito

de te arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. Não o crês?

_Electra_

Sem que me digas quem são, o meu coração o adivinha: Maximo e o marquez

de Ronda... Se é certo que projectam levar-me é enorme a perturbação que

me causam. Desde que entrei n’esta santa casa emprehendi, como sabes, a

grande batalha do meu espirito. Procuro, humildemente e com a ajuda de

Deus, transformar em amor fraternal o amor de uma natureza bem diversa

que arrebatou a minha alma... Converter o ardente fogo do sol numa fria

claridade da lua... O constante meditar, lento mas progressivo, o desmaio

do coração, e as ideias submissas e dôces que Deus me envia vão-me dando

forças para vencer.

_Dorothêa_

Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza d’esse novo amor, porque tens

mêdo de te encontrar com D. Maximo de Yuste?

_Electra_

Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno ganho o perderia n’um só

instante.

_Dorothêa_

(_incredula_) E achas, em tua verdade, que tenhas algum terreno ganho?...

_Electra_

Oh! sim, algum... não muito por emquanto.

_Dorothêa_

Talvez, irmã Electra, que o vêr essa pessoa te demonstre se

effectivamente podes...

_Electra_

(_vivamente_) Oh! não m’o digas, que não posso!... No estado em que me

sinto, n’este principio de lucta, se o visse, se o ouvisse, eu perderia

toda a esperança de paz... Não vês que em minha consciencia eu me estou

debatendo contra dois impossiveis: não poder amal-o como esposo; não

poder amal-o como irmão? (_Aterrada_) Que supplicio, meu Jesus!... Para

o mundo não, não... Prefiro estar aqui, n’esta solidão de morte, n’este

laboratorio da minha alma, junto do cadinho divino, em que estou fundindo

um viver novo.

_Dorothêa_

Não esperes que as tuas ideias te deem a paz. Confia em Deus e n’aquelles

que Deus te envia... (_Resolvendo-se a falar mais claramente_) Não te

amedrontes assim perante o que suppões teu irmão. Alguem talvez negará

que o seja.

_Electra_

(_em grande excitação_) Cala-te! Cala-te! Em assumpto de tão grande

melindre toda a palavra que não contenha a certeza é inutil e cruel...

Póde levar-me á loucura. O que eu peço a Deus é a morte, ou a verdade

inteiramente indubitavel e definitiva.

_Dorothêa_

Socega, pobre Electra...

_Electra_

(_exaltando-se cada vez mais_) Todas as confusões que me atormentaram

ao vir para aqui estão renascendo no meu espirito... Atropelam-se-me no

pensamento anjos e demonios... Deixa-me... Eu quero fugir de mim mesma...

(_Corre a scena em grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando

acalmal-a_)

_Dorothêa_

Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento vae ter fim. (_Olha com

anciedade para a porta da esquerda_)

_Electra_

Electra: Drama em cinco actos · 第 6 / 7 段