_Gil_

Sim, senhor, muito facilmente se distrae uma pessoa pensando em...

_Maximo_

Em coisas vagas, indefinidas, aereas, vaporosamente illuminadas de côr de

rosa e d’azul...

_Gil_

Eu, distrahido, confundi a cifra da potencial com a da resistencia... Mas

já rectifiquei... Queira vêr se está bem.

_Maximo_

(_lê_) 0,318,73... (_Com repentina transição para um goso expansivo_)

Homem! e que não estivesse! Se ainda errasses outra vez?... A exactidão

dos mathematicos perdoaria, por hoje, á nossa phantasia de poetas.

_Gil_

Ah! a exactidão não perdôa nunca: é a tyrannia da nossa vida;

opprime-nos, escravisa-nos, não nos deixa respirar.

_Maximo_

Essa mestra implacavel tambem algumas vezes nos sorri, nos acalenta e nos

encanta. Vês essa cifra?

_Gil_

(_contente, dizendo de memoria_) 0,318,73.

_Maximo_

Pois sabe que nunca os maiores poetas do mundo, Virgilio ou Homero,

Dante, Lope de Vega ou Calderon escreveram estrophe mais inspirada e mais

poetica do que é hoje para mim a d’esses miseros numeros! É verdade que a

harmonia, o encanto poetico não é n’elles que está. Está em que... Adeus,

vae almoçar... Deixa-me, deixa-nos... (_Afasta-o com a mão para que saia.

No ponto da scena em que pode olhar para o interior da habitação_) Ali é

que está a imaginação, a poesia, o ideal, no fundo d’essa cosinha, onde

n’este momento ondula a mais altiva e a mais virginal flôr da innocencia,

da candura e da bondade humana.

SCENA VI

MAXIMO E ELECTRA

_Electra_

(_entrando com uma terrina fumegante_) Aqui está o banquete.

_Maximo_

A vêr o que se fez! arroz com menudilhos... O thema é digno de Lucullo.

_Electra_

Elogia-o sem provar: está superfino. (_Senta-se_) Vou-te servir.

(_Servindo-o_)

_Maximo_

Não tanto.

_Electra_

Olha que não tens mais nada... Acho que se não deve ter mais d’uma

coisa... e escolher a melhor.

_Maximo_

Meu Deus! o que diria a tia, se agora nos visse aqui almoçando juntos...

_Electra_

Um almoço feito por mim!

_Maximo_

Sabes que está maravilhoso o teu arroz?

_Electra_

Foi minha mestra, em Hendaya, uma senhora valenciana. Eu fiz um curso de

arrozes. Sei-os fazer de sete maneiras differentes, todos riquissimos.

_Maximo_

Decididamente és todo um mundo novo.

_Electra_

E quem é o meu Colombo?

_Maximo_

Não ha Colombo que ousasse descobrir-te. Tu és um mundo que apparece.

_Electra_

Será talvez por eu ser um mundosito assim desconhecido, que querem

metter-me no convento para me livrar do perigo de que dêem commigo. E é

o que me espera...

_Maximo_

D’essa é bem natural que não escapes.

_Electra_

(_assustada_) Que dizes!

_Maximo_

Quero dizer: escapas... porque te hei de salvar eu.

_Electra_

Prometteste-me o teu amparo.

_Maximo_

E dou-t’o.

_Electra_

Que tencionas fazer?

_Maximo_

Eu te digo: o negocio é grave...

_Electra_

Falas com a tia, já se sabe...

_Maximo_

Falo com a tia...

_Electra_

E que lhe dizes?

_Maximo_

Falo com o tio...

_Electra_

Façamos de conta que se acabaram todos os tios com quem fazes tenção de

falar. E depois?

_Maximo_

Depois, tendo-te provisoriamente abrigado no mais inviolavel sacrario,

procederei minuciosamente ao exame e á sellecção dos noivos. E sobre este

assumpto temos que conversar...

_Electra_

Vaes ralhar-me?

_Maximo_

Não: já me disseste que te enfastia esse brinquedo de bonecos vivos.

_Electra_

Cuidei que me distrahiriam, e cada vez me entristeciam mais!

_Maximo_

Nenhum d’elles te inspirou um sentimento especial, distincto do dos

outros?

_Electra_

Nenhum!

_Maximo_

Declararam-se todos por escripto?

_Electra_

Uns por escripto; outros por meio de olhares espantosos, que nunca

cheguei a comprehender bem o que quizessem exprimir, e por isso não metto

estes em conta...

_Maximo_

Perdão: teem de entrar todos no rol: epistolares e olheiros. E aqui

chegamos ao ponto sobre que devo dar-te, desde já, a minha sincera

opinião: casa-te, Electra; casa-te quanto antes!

_Electra_

(_envergonhada, baixando os olhos_) Assim... tão breve!...

_Maximo_

O mais breve possivel. Precisas de ter a teu lado um homem, um marido.

Tens a alma, a tempera, os instinctos e as virtudes da casa conjugal. É

portanto forçoso que da grande lista dos teus pretendentes se escolha

um, o melhor, o mais digno de te amar e de ser amado por ti, porque, sem

amor, considera bem que não ha familia.

_Electra_

Estou certa.

_Maximo_

E tu nasceste destinada para a vida exemplar e fecunda de um lar feliz...

(_Teem acabado de comer o arroz_)

_Electra_

Queres mais?

_Maximo_

Não: estou satisfeito.

_Electra_

De sobremesa tens fructa, que é do que mais gostas. (_Põe na mesa o

fructeiro_)

_Maximo_

(_pegando n’uma bella maçã_) Gósto, porque esta (_mostrando-lhe a maçã_)

é a verdade em toda a sua pureza. Aqui não interveio a mão do homem senão

para a colher.

_Electra_

É a obra divina, bella, simples, admiravel.

_Maximo_

Faz Deus esta prodigiosa maravilha para a dar ao homem; e nem sempre lh’a

agradece aquelle que foi eleito para em certo dia e a certa hora passar

por baixo da macieira em fructo!

_Electra_

Quantas vezes basta, para colher a felicidade, esquecer-se a gente por um

momento da terra, e levantar os olhos para cima!

_Maximo_

(_contemplando-a_) Pois é o que eu faço, Electra.

SCENA VII

ELECTRA, MAXIMO E RICARDO, pela esquerda

_Ricardo_

Mestre...

_Maximo_

Quê?

_Ricardo_

Chegamos ao rubro.

_Electra_

A fusão!

_Maximo_

Avisa-me ao branco incipiente.

_Ricardo_

Virei dizer.

_Maximo_

Olha. Que preparem na officina a bateria Bunsen. E previne de que hei de

precisar para logo do dinamo grande.

SCENA VIII

ELECTRA E MAXIMO, depois o OPERARIO

_Electra_

(_com tristeza_) D’aqui a um instante vaes tratar da fusão, e eu...

_Maximo_

Tu—está claro—irás para casa.

_Electra_

Nem é bom pensar no que vae ser quando eu chegue!

_Maximo_

Tu ouves, calas-te, e esperas.

_Electra_

Esperar... esperar sempre! (_Acabam de almoçar_) Ai que, se tu me não

vales, não sei o que será de mim, com a tia e com o snr. de Pantoja...

Elles a teimarem que eu vá para anjo, e Deus a desageitar-me cada vez

mais para a carreira angelical!

_Maximo_

(_que se tem levantado e parece disposto a continuar o trabalho_) Não

tenhas cuidado. Confia em mim. Eu te irei requerer como teu protector e

teu mestre...

_Electra_

(_approximando-se supplicante_) Não te demores então, Maximo. Por amor

dos teus filhos, não te demores. Se tu me tomasses tambem como filha,

para estar com os meninos, para viver com elles!

_Operario_

(_pelo fundo_) O snr. marquez de Ronda.

_Electra_

(_assustada_) Vou-me embora?

_Maximo_

Por vir o Marquez? (_Ao creado_) Que entre. (_O operario sae_)

Offerecia-se-lhe café, se houvesse.

_Electra_

Vou buscal-o. (_Sae com pressa_)

SCENA IX

MAXIMO, MARQUEZ E ELECTRA. No fim da scena, RICARDO

_Maximo_

Entre, Marquez.

_Marquez_

Maximo... (_Olhando em redor, desconsolado_) E Electra?

_Maximo_

Na cosinha. Foi buscar-nos café.

_Marquez_

Na cosinha! Continua-se vivendo então n’esta casa como na ilha de

Robinson? Ahi está o que não comprehendo: como tendo você lá em cima

todos os confôrtos d’um palacio...

_Maximo_

É muito simples... O trabalho e o habito do estudo enclausuram-me

aqui. Puz os pequenos ao lado da officina para os ter ao pé de mim; e,

reduzindo o mais que me foi possivel a minha orbita d’acção, para aqui

me fiquei, recluso no dever que me impuz, como um asceta na estreiteza da

sua gruta.

_Marquez_

Sem nem sequer se lembrar de que é rico...

_Maximo_

A minha riqueza é a singeleza, o meu luxo é a sobriedade, o meu repouso é

o trabalho, e assim viverei emquanto viver só...

_Marquez_

Não tardará então muito em mudar de vida... Precisamente lhe venho

contar... (_Entra Electra com a bandeja contendo o serviço e a maquina de

café_) Oh! a deusa do lar!

_Electra_

(_adeanta-se cautelosa de que não caia alguma peça_) Por Deus, Marquez,

não me ralhe.

_Marquez_

Eu ralhar?

_Electra_

Nem me faça rir... para não haver um desastre. Sentido! (_O marquez pega

na bandeja_)

_Marquez_

Aqui me tem para companheiro de infortunios... Ainda então lhe parece que

eu seja dos que ralham? Eu sou dos que explicam. Mas não pertencem a esta

seita os senhores ali do outro lado do jardim...

_Electra_

Os tios.

_Marquez_

A noticia do lindo idyllio, que se está passando aqui como na

inverosimilhança de uma tapeçaria ou de um panno de leque, lá chegou já

á distribuição dos premios em Santa Clara, onde a estas horas estará

deliberando o conclave. As suas resoluções serão terriveis.

_Electra_

A Virgem Maria me valha!

_Marquez_

Socegue...

_Maximo_

Isso tem de ser agora commigo.

_Marquez_

Será comnosco. O seu café, minha menina, está digno de Jupiter, pae dos

deuses: é do que elles tomam no olympo, aos domingos.

_Maximo_

Segue-se, Electra, que em vez de regressar sósinha, teremos de ir ambos

levar-te aos snrs. de Yuste.

_Ricardo_

(_assumando á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco incipiente!

_Electra_

(_com inconsciente alegria infantil_) A fusão!

_Maximo_

(_a Ricardo_) Não posso agora. Chama-me quando chegar o branco

resplandecente. (_Ricardo sae_)

_Marquez_

Peço licença... (_Tendo-se servido de vinho_) Eu brindo o hymeneu dos

metaes, saudando os cadinhos do magico prodigioso.

SCENA X

MAXIMO, ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA

_Electra_

(_aterrada_) D. Salvador! Deus me acuda!

_Maximo_

Queira entrar, snr. de Pantoja. (_Pantoja adeanta-se lentamente_) A que

devo a honra...?

_Pantoja_

Antecipando-me aos meus bons amigos, tios d’esta menina, que d’aqui a um

momento terão voltado a casa, aqui me acho resolvido a cumprir o dever

d’elles e o meu.

_Maximo_

A familia toda consubstanciada no snr. de Pantoja...

_Marquez_

Para metter medo á gente.

_Maximo_

Considera-nos reus d’algum tremendo crime...

_Pantoja_

Não considero senão unicamente que esta menina não pode estar aqui. Venho

buscal-a. Ha de sahir commigo. (_Pega na mão de Electra, insensivel,

immobilisada pelo medo_) Vem.

_Maximo_

Queira perdoar (_Sereno e grave, approxima-se de Pantoja_) Com todo o

respeito que lhe devo, rogo-lhe, snr. de Pantoja, que solte a mão d’esta

senhora. Antes de lhe tocar, teria sido mais opportuno que falasse

commigo, que sou o dono d’esta casa, e o responsavel de tudo o que n’ella

se passa, de tudo o que vê... e de tudo o que não queira vêr.

_Pantoja_

(_depois de uma breve hesitação larga a mão de Electra_) Seja assim.

Deixarei de dirigir-me a esta pobre creatura, desvairada ou trazida aqui

ao engano, e falarei comtigo, a quem quizera dizer apenas muito breves

palavras:—Venho buscar Electra. Dá-me o que não te pertence, o que não te

pertencerá nunca.

_Maximo_

Electra é inteiramente livre. Nem eu a trouxe aqui contra sua vontade,

nem contra sua vontade a levará d’aqui quem quer que seja.

_Marquez_

Se se pudesse, pelo menos, conhecer os fundamentos da auctoridade do snr.

de Pantoja...

_Pantoja_

Eu não preciso de lhes dizer, aos senhores, qual é a proveniencia da

auctoridade de que disponho, e que esta menina me reconhece, prestando-me

a obediencia que lhe peço. Não é verdade, Electra, que basta uma palavra

minha para immediatamente te separar d’estes homens, e levar-te para quem

depositou em ti o seu mais puro amor, e nem vive nem quer viver na terra

senão para ti? (_Electra, immobilisada, olhando para o chão, cala-se_)

_Maximo_

Não, bem vê que não basta essa unica palavra sua.

_Marquez_

Não offerece dúvida que é uma palavra bôa, mas insufficiente.

_Maximo_

Quer permittir que a interrogue eu? Electra, minha querida amiga,

assegura-te o coração e a consciencia que entre todos os homens que

conheces, entre os que vês aqui e os que não estão presentes, é sómente e

exclusivamente ao muito dedicado e ao muito respeitavel snr. de Pantoja

que tu deves submissão e amor?

_Marquez_

Fale abertamente e destemidamente, menina! Diga-nos o que o seu coração e

a sua consciencia lhe dictarem.

_Maximo_

E se este senhor, a quem indubitavelmente deves toda a consideração e

todo o respeito, te ordenar que o sigas, e nós outros te dissermos que

fiques, de tua livre e plena vontade, que determinas?

_Electra_

(_depois de penosa lucta_) Ficar.

_Marquez_

Já vê...

_Pantoja_

Não está em si... Fascinaram-a.

_Maximo_

Parece-me inutil a insistencia...

_Marquez_

Para acabar vencido...

_Pantoja_

(_com fria tenacidade_) Eu não sou dos que os homens vencem. A razão é

vencedora sempre, e eu seria indigno da que Deus me deu, e que defenderei

até o meu derradeiro alento, se a não puzesse continuamente acima de todo

o erro e de todo o extravio. Maximo, os metaes que ardem nos teus fornos

são menos duros do que eu. As tuas mais poderosas maquinas são brinquedos

de vidro comparadas com a minha vontade. Electra pertence-me: basta que

eu o diga.

_Electra_

Que terror, meu Deus!

_Maximo_

Se quer assegurar-se do que póde a sua vontade opponha-a á minha.

_Pantoja_

Dispenso demonstrações comtigo ou com quem quer que seja. Basta-me saber

o que devo fazer, e fazer o que devo.

_Maximo_

Pois toda a minha força é essa: o dever.

_Pantoja_

O teu dever é uma hypothese terrena e accidental. O meu gira em torno de

uma consciencia tão rija e tão forte como o eixo do universo; e os meus

fins são tão altos que nem tu os alcanças nem poderás alcançal-os nunca.

_Maximo_

Por mais incommensuravel que seja a elevação dos seus fins, pelo amor de

Electra eu irei a toda essa altura, para a defender.

_Marquez_

Esta senhora voltará comnosco á sua casa.

_Maximo_

Commigo. E isso bastará para justificação de todos os seus actos, e para

que os tios lhe perdoem, se teem que perdoar-lhe.

_Pantoja_

Os senhores de Yuste não renegarão n’esta conjunctura os sentimentos e

as convicções de toda a sua vida. (_Exaltando-se_) Eu estou no mundo

unicamente para que Electra se não perca. E não se ha de perder. Assim o

quer a vontade divina, de que a minha é um reflexo, e que vós confundis

com um capricho da brutalidade humana, porque não sabeis nada do que são

nas puras regiões espirituaes as emprezas de uma alma... Pobres cegos!

pobres loucos!...

_Electra_

(_consternada_) D. Salvador, não se desgoste—por Nossa Senhora lh’o peço!

Eu não sou má, Maximo é bom... Sabem-o todos... Sabem-o os tios... e o

snr. de Pantoja bem o sabe! Não deveria sublevar-me até o ponto de vir

para aqui sósinha, como determinei vir... Foi um acto de grave rebeldia,

concordo. Voltarei para casa... Maximo e o snr. de Ronda irão commigo, e

os tios hão de perdoar-me... (_A Maximo e ao Marquez_) Não é verdade que

me perdoarão? (_A Pantoja_) Porque é esta má vontade a Maximo, que nunca

lhe fez mal nenhum?... Confessa—pois não é assim?—que elle nunca lhe fez

nem lhe quiz mal? Em que se funda essa aversão?

_Maximo_

Não é aversão: é odio recondito, inextinguivel.

_Pantoja_

Odiar-te, não. As minhas crenças prohibem-me o odio. De certo que ha

entre nós ambos uma incompatibilidade proveniente da nossa differença de

principios... Teu pae, Lazaro Yuste, e eu, tivemos desavenças profundas,

que é melhor esquecer... Mas a ti, Maximo, nunca te quiz mal... Antes

te quero bem. (_Mudando de tom para mais suave e conciliador_) Perdôa a

severidade com que te falei, e permitte que, fazendo um grande esforço

sobre mim, eu te implore que deixes Electra partir commigo.

_Maximo_

(_inflexivel_) Não posso annuir.

_Pantoja_

(_violentando-se mais_) Por segunda vez, Maximo, esquecendo todos os

resentimentos, profundamente humilhado, eu te supplico... Deixa-a.

_Maximo_

Não.

_Pantoja_

(_devorando o vexame_) Bem... Pela segunda vez m’o negaste... Para

offerecer ás tuas bofetadas não tenho mais de duas faces, por isso te não

peço por terceira vez a mesma coisa. (_Com gravidade e rigidez_) Adeus,

Electra... Maximo, Marquez, adeus.

_Electra_

(_baixo a Maximo_) Por quem és, Maximo, transige um pouco...

_Maximo_

(_redondamente_) Não.

_Electra_

Não disseste que me levarieis, tu e o Marquez? Vamos todos. (_Esta phrase

é ouvida por Pantoja que se detem na sua marcha lenta para a sahida_)

_Maximo_

Não... Ha de ir primeiro elle. Nós iremos quando nos convenha, e sem a

salvaguarda de ninguem.

_Pantoja_

(_friamente da porta_) E a que vaes senão a aggravar a situação d’essa

menina?

_Maximo_

Vou ao que devo ir.

_Pantoja_

Pode-se saber o que é?

_Maximo_

Escusado.

_Pantoja_

Não preciso de que me reveles as tuas intenções. Para quê, se as conheço?

(_Dá alguns passos para o centro da scena, cravando a vista em Maximo_)

Não me fio na expressão dos teus olhos. Penetro na tua mente, e descubro

o que pensas... Interroguei-te, não para saber da tua intenção mas para

ouvir as promessas com que a encobres... Em ti não mora a verdade, nem o

bem... não, não, não... (_Sae repetindo as ultimas palavras_)

SCENA XI

ELECTRA, MAXIMO, MARQUEZ E RICARDO (Principia a escurecer)

_Electra_

(_consternada, procurando um refugio em Maximo_) Maximo, ampara-me!

Livra-me do terror que me inspira este homem.

_Maximo_

Conta commigo. Não tenhas medo. (_Pega-lhe nas mãos_)

_Marquez_

Começa a escurecer. Vamos.

_Electra_

Vamos... (_Incredula e medrosa_) Então, deveras, sempre vou comtigo?

_Maximo_

Juntos n’esta hora, como o seremos para toda a vida...

_Electra_

Comtigo para sempre? (_Augmenta a escuridão_)

_Ricardo_

(_á porta da esquerda_) Snr. D. Maximo, o branco deslumbrante!

_Marquez_

(_a Ricardo_) A fusão está feita. Creio que se podem apagar os fornos.

_Maximo_

(_com effusão beijando as mãos de Electra_) Minha alma, minha consolação,

minha alegria! comtigo para todo sempre... O que vou dizer aos nossos

tios é que te peço, que te faço minha, que serás a minha mulher e a

mamãsinha dos meus filhos.

_Electra_

(_opprimida, como se a alegria a transtornasse_) Não me enganas?... Virei

a viver sempre com os teus meninos? Serei entre elles a menina maior?...

Serei tua mulher?

_Maximo_

(_com voz forte_) Sim. (_Illuminada a casa do fundo, resplandece com viva

claridade toda a scena_)

_Marquez_

Vamo-nos. É noite.

_Electra_

É o dia!... o meu dia eterno! (_Maximo enlaça-a pela cintura e saem. O

marquez segue-os_)

FIM DO TERCEIRO ACTO

ACTO QUARTO

Jardim do palacio de Garcia Yuste. Á direita, a entrada para

o palacio, com escadaria larga de poucos degraus. Á esquerda,

jogando com a entrada, um corpo de architectura grutesca,

ornado com baixos-relevos: junto d’esta construcção, um banco

de pedra, em angulo, de risco elegante. Jarrões ou plantas

exoticas adornam este terraço, com pavimento de mosaico, entre

o edificio e o solo areado do jardim.

No segundo plano e no fundo, o jardim com grandes arvores e

macissos de flores. Do centro partem trez arruamentos em curva.

O da esquerda leva á rua. Cadeiras de ferro. É de dia.

SCENA I

ELECTRA E PATROS, com um cesto de flores que acabam de colher

_Electra_

(_tirando uma carta da algibeira_) Deixa ficar as flores, e aqui tens a

carta.

_Patros_

(_pousando as flores_) Com esta faz trez desde esta manhã!

_Electra_

(_escolhendo as flores mais pequenas com que fórma tres ramilhetes_) São

tantas as coisas que Maximo tem que me dizer, e eu a elle...

_Patros_

Bemdito seja Deus, que da noite de hontem para hoje tanta felicidade lhe

deu, senhorita Electra!

_Electra_

E que depressa, Patros! que rapidamente! como n’um sonho, que tudo

se fez! Hontem á noite fiquei pedida, e hoje marcam os tios o dia do

casamento...

_Patros_

E no emtanto, carta para lá, carta para cá... de não acabar nunca...

_Electra_

Que queres? Se desde hontem nos não podemos vêr como companheiros, na

fabrica, porque sômos noivos agora... Temos de nos corresponder por

escrito. Na carta das oito horas e um quarto falava-lhe das coisas muito

serias que estou impaciente por dizer-lhe. Na das nove e vinte e cinco

recommendava-lhe que se não esquecesse da colhér de xarope que tem de se

dar a Pepito de duas em duas horas... N’esta agora digo-lhe que a tia foi

para a missa e que tem demora... É natural que elle lhe queira falar...

_Patros_

Até ás onze horas de certo que não volta a senhora da egreja...

_Electra_

E ás onze vou eu para a missa com o tio. (_Atando os tres ramilhetes_)

Pronto! Este para elle, estes para cada um dos meninos... Um a cada um

para que não briguem... (_Dispondo-se a compôr o ramo grande_) E agora

o ramo grande para a Senhora das Dôres... Vae, e volta depressa para me

ajudares... Espera resposta—é claro—uma palavra que seja!

_Patros_

Vou de corrida. (_Sae pelo fundo_)

_Electra_

(_escolhendo as mais lindas flores para o grande ramo_) Hoje, minha

querida Mãe Santissima, ha de ser maior a minha offerenda; e a minha

pena é que não seja tão grande que fique sem uma só flôr o jardim dos

tios... Deante da tua santa imagem queria eu hoje collocar todas as mais

lindas coisas da terra: as rosas, as estrellas e os corações amantes...

Virgem Maria! consolação e esperança nossa! não me desampareis, levae-me

ao bem que te pedi, e que hontem á noite me prometteu a expressão dos

teus divinos olhos quando as minhas lagrimas te disseram a gratidão e a

esperança da minha alma...!

_Patros_

(_pressurosa pelo fundo_) Não trago carta, mas trago um recadinho, que

ainda é melhor...

_Electra_

Que vem cá?

_Patros_

Logo que saiam uns senhores, que estavam já a despedir-se... Que a menina

o espere aqui para lhe falar um momento... Tem de ir a uma conferencia

depois...

_Electra_

(_olhando para o fundo_) Virá já?...

_Patros_

Ahi vem.

_Electra_

(_dando-lhe o ramo_) Toma lá... para Nossa Senhora... Para a Nossa

Senhora do meu quarto, bem entendido! Não é para a do altar do oratorio,

toma sentido: é para a da cabeceira da minha cama.

_Patros_

Pois pudera! (_Entra correndo pela escada_)

SCENA II

ELECTRA, MAXIMO, depois o MARQUEZ

_Maximo_

(_a distancia, abrindo um pouco os braços_) Menina!

_Electra_

(_mesma attitude_) Maximo!

_Maximo_

Aqui estamos embaçados, deante um do outro, sem saber que dizer.

_Electra_

Embaçadissimos. Começa tu.

_Maximo_

Tu... para te desacanhares... Dize-me uma grande mentira: que me não amas.

_Electra_

Dize-me primeiro tu uma grande verdade.

_Maximo_

Que te adoro. (_Approximam-se_)

_Electra_

Em paga d’essa mentira toma esta rosa que te escolhi, sem brilho,

pequena, singela, humilde, como eu quero ser para ti.

_Maximo_

Tu tens um grande coração e um alto espirito...

_Electra_

Não tenho; mas gostava de ser ainda mais tôsca e mais informe do que sou

para que tu me ensinasses tudo, e eu não tivesse nada que não fôsse teu.

_Maximo_

Deus fez de ti a sua obra mais preciosa...

_Electra_

E deu-te essa obra, que é apenas o esboço d’uma creatura humana, para que

tu a completes e aperfeiçôes.

_Maximo_

Para que eu a enthronise e a corôe, deixando desenvolver-se d’ella a

immortal flôr de humanidade, que é a simples mulher da casa, forte, pura,

alegre e compadecida. (_Consulta o relogio_)

_Electra_

Tens essa conferencia... Vae á tua obrigação... Não te demorarás muito?

_Maximo_

Virei encontrar-me com a tia quando ella vier da missa.

_Electra_

E o marquez, desde hontem... voltou como tinha dito?

_Maximo_

Deixei-o agora na fabrica a escrever ao tabellião. Incomparavel amigo!...

Hontem á noite—sabes?—contei-lhe, ao voltar para casa, o teu romance

paterno... esse romance dos dois capitulos... Indignou-o a intervenção

despotica de Pantoja e de Cuesta na tua vida; e essa lamentavel historia

mais ainda o fortaleceu na firme determinação de defender-nos...

_Electra_

(_surprehendida_) Mas então precisamos ainda de que nos defendam?

_Maximo_

No essencial é claro que não... Mas quem nos assegura que esses dois

homens não tentem oppôr-nos alguns obstaculos de jurisdicção theorica?

_Electra_

(_tranquillisando-se_) D’essa jurisdicção nos riremos nós.

_Maximo_

Mas rindo, rindo, teremos de a prevenir e de a annullar.

_Marquez_

(_pressuroso pelo fundo_) Então ainda aqui?

_Maximo_

Falavamos de si, e deliberavamos nomeal-o procurador dos nossos negocios

de familia...

_Marquez_

Acceito a procuração... (_Reprehendendo-o com doçura_) Mas, homem, que se

lhe faz tarde!

_Maximo_

Adeus, adeus! até já.

_Electra_

(_vendo-o partir_) Vae, e vem depressa.

SCENA III

ELECTRA E O MARQUEZ

_Marquez_

Electra: Drama em cinco actos · 第 4 / 7 段