_Evarista_

(_contente de vêl-o_) Até que emfim, Pantoja... (_Formam-se dois grupos:

á esquerda Cuesta sentado, Urbano em pé; á direita, Pantoja e Evarista,

sentados_)

_Pantoja_

Venho contar-lhe coisas da maior gravidade.

_Evarista_

Ai de mim! seja o que Deus quizer.

_Pantoja_

(_repetindo a phrase com reservas_) Seja o que Deus quizer... está muito

bem, mas queiramos tambem nós o que quer Deus, e empenhemos toda a nossa

vontade em produzir o bem, por mais que nos custe!

_Evarista_

A sua energia fortifica a minha... Então... que ha?

_Pantoja_

Ha pouco, em casa de Requesens, falou-se de Electra em termos dissolutos.

Contavam que, indecorosamente envolvida por um vespeiro de namorados,

ella se divertia a receber e a mandar cartas a toda a hora do dia.

_Evarista_

Infelizmente, Salvador, a frivolidade d’esta menina é tal que, com toda a

minha ternura por ella, nem eu mesma a sei defender!

_Pantoja_

(_angustiado_) Pois saiba mais, e veja que não tem limites a maldade

humana. Hontem á noite o marquez de Ronda, na tertulia da sua casa, na

presença de Virginia, sua santa mulher, e de outras pessoas do maior

respeito, não cessou de exaltar os encantos de Electra com expressões do

mais material e repugnante mundanismo.

_Evarista_

Tenhamos paciencia, meu amigo.

_Pantoja_

Paciencia... Paciencia é uma virtude que vale muito pouco sempre que se

não reforça com a resolução. Não confundamos essa virtude com o vicio

da negligencia, e determinemo-nos com firmeza, minha querida amiga, a

resguardar Electra da infamia do mundo, em logar onde não veja exemplos

de leviandade e onde não ouça uma só palavra do contagioso impudor da

sociedade em que vivemos.

_Evarista_

Onde respire um ambiente de pura virtude...

_Pantoja_

E não a perturbe o zumbido de pretendentes impudicos e infecciosos...

Na critica edade da formação do caracter, em que ella está, temos nós a

obrigação de livral-a do immenso perigo, do maior de todos...

_Evarista_

Que perigo?

_Pantoja_

O homem. Nada na terra peor que o homem... quando não é bom. Por mim o

sei: fui o meu proprio mestre. O meu desvario, de que pela graça de Deus

me curei, e depois d’isso a minha tão longa e entristecida convalescença,

duramente me ensinaram a grave e delicada medicina das almas...

Deixe-me, e eu lhe salvarei essa menina... (_Interrompe-o Urbano, que

passa para o grupo da direita_)

_Urbano_

(_dando importancia á sua revelação_) Sabem o que me disse Cuesta?

Que entre a cafila dos pretendentes ha um preferido. Electra mesma o

confessou.

_Evarista_

E quem é? (_Passa da direita para a esquerda, ficando á direita de

Pantoja e d’Urbano_)

_Urbano_

(_a Pantoja_) Isto poderia modificar os termos do problema.

_Pantoja_

(_mal humorado_) E que significa essa preferencia? É um affecto puro, ou

é uma paixoneta immoderada, febril e ephemera, d’essas que constituem o

mais grave symptoma da loucura do seculo? (_Excitado e levantando a voz_)

É o que é preciso saber-se! que se saiba quem é!

_Urbano_

Saberemos...

_Pantoja_

(_passando para junto de Cuesta_) O snr. Cuesta não a interrogou?

_Evarista_

(_ao centro, a Urbano_) Procura tu certificar-te.

_Cuesta_

(_enfadado, em resposta a Pantoja_) Parece-me que estão os snrs.

desenvolvendo um zelo excessivo e contraproducente.

_Pantoja_

(_com uma suavidade que não encobre a sua altaneria_) O meu zelo, meu

muito querido D. Leonardo, é o zelo que devo ter.

_Cuesta_

(_um tanto ferido_) Eu julguei na minha qualidade de velho amigo da

casa...

_Pantoja_

(_levando Urbano comsigo para a direita_) Cuesta mette-se demais com o

que não é da sua conta.

_Cuesta_

(_a Evarista sem lhe dar cuidado que Pantoja o ouça_) O nosso presado

snr. Pantoja é talvez demasiadamente afouto na facilidade com que penetra

nas attribuições dos outros.

_Evarista_

(_sem saber bem que explicação dar_) Emfim, como nosso amigo muito antigo

e leal...

_Cuesta_

Tambem eu o sou.

_Urbano_

(_olhando para o fundo_) Ahi está já o Marquez.

SCENA XIV

OS MESMOS E O MARQUEZ

_Marquez_

Em boa hora chego!

_Pantoja_

(_áparte_) Em pessima!

_Marquez_

(_depois de saudar Evarista_) E Electra?

_Evarista_

Vem já.

_Marquez_

(_cortejando os outros_) Já não é cêdo.

_Urbano_

É a hora. (_Pantoja, impaciente, espera Electra á porta do seu quarto.

Cuesta fala com Urbano_)

SCENA XV

OS MESMOS E ELECTRA

_Pantoja_

(_com alegria annunciando-a_) Eil-a aqui. (_Electra entra pela direita,

muito elegantemente vestida com singeleza e distincção_)

_Marquez_

(_encomiastico_) Que elegante!

_Electra_

(_satisfeita, voltando-se para que a vejam de todos os lados_) Meus

senhores, que me dizem?

_Cuesta_

Divina!

_Marquez_

Ideal!

_Evarista_

Sim: estás bem.

_Pantoja_

(_fastiento dos elogios tributados a Electra_) Vamo-nos? (_Preparam-se

para sahir_)

SCENA XVI

OS MESMOS E BALBINA, que interrompe bruscamente a scena,

entrando pela esquerda, pressurosa e suffocada

_Balbina_

Minha senhora! Minha senhora! (_Suspensão geral_)

_Todos_

(_menos Electra_) Que é?

_Balbina_

Ai! o que a menina foi fazer!

_Electra_

(_áparte, batendo o pé_) Descobriram-me!

_Balbina_

Santo nome de Jesus!... Do que ella se havia de lembrar!... (_rindo_)

Não, que uma coisa assim!... Em nome do Padre...

_Evarista_

(_impaciente_) Acaba...

_Electra_

Eu confessarei, se me deixam. Foi que...

_Balbina_

Foi a casa do snr. D. Maximo, e roubou-lhe... com muita graça, mas

roubou...

_Urbano_

O quê?...

_Balbina_

O menino mais pequeno! (_Olham todos para Electra, que promptamente se

recompõe do susto e assume uma altitude serena e grave_)

_Evarista_

(_a Electra_) Isto que vem a ser?

_Pantoja_

Electra!

_Balbina_

Estava o menino dormindo muito socegadinho. A senhorita e a maluca da

Patros entraram pela casa dentro, ás escondidas e em bicos de pés...

Embrulharam-o, muito bem embrulhado, e fugiram com elle para cá.

_Evarista_

É inacreditavel.

_Pantoja_

(_reprimindo a sua irritação_) E não é decente.

_Electra_

(_com effusão_) Tia! pois se nos queremos tanto, tanto d’alma!... eu a

elle e elle a mim!

_Marquez_

(_enthusiasmado_) Que exemplar mulher!

_Cuesta_

Merece todo o perdão.

_Evarista_

Maximo estará furioso a estas horas...

_Balbina_

O José já para lá foi a correr...

_Urbano_

E a creança onde está?

_Balbina_

Está no quarto da Patros. A menina escondeu-o lá até que ella de noite

lh’o leve para dormir com a menina. (_Sorrisos dos homens, menos de

Pantoja_) O menino acordou ha um momento, e a Patros quiz dar-lhe um

biscouto para o entreter... Eu, que o ouço, acudo, e vejo-o... Virgem

Maria! Quiz pegar n’elle... Qual! estrebuchou e bateu-me... Tive de lhe

dar uma palmadinha tambem...

_Electra_

(_correndo para a esquerda com um impulso instinctivo_) Oh! meu querido

amorsinho!

_Pantoja_

(_procurando contel-a_) Não.

_Evarista_

(_segurando-a por um braço_) Espera.

_Balbina_

(_á porta da esquerda_) Ainda se ouve chorar.

_Electra_

Pobresinho d’elle!

_Evarista_

Que o levem para a sua casa.

_Electra_

Ninguem lhe toque... Ninguem se atreva a tocar-lhe... É meu.

(_Desprende-se á força de Evarista e de Pantoja, que querem contel-a, e

sae de uma corrida pela esquerda_)

SCENA XVII

OS MESMOS E JOSÉ

_Pantoja_

(_colerico, passando para a direita_) Que falta de dignidade e de juizo!

_José_

(_pressuroso, pelo jardim_) Minha senhora...

_Evarista_

O snr. D. Maximo que disse?

_José_

Não sabia de nada. Está lá com uns senhores. Quando lhe contei poz-se a

rir... Como se nada!... Diz que o menino que está muito bem entregue á

menina.

_Urbano_

Já é pachorra!

_Evarista_

(_a José_) Vaes leval-o a casa. Para que a menina aprenda.

_Marquez_

Voto por que a deixem gosar um pouco mais do seu lindo crime.

SCENA XVIII

OS MESMOS E ELECTRA, pela esquerda, trazendo nos braços o

menino, que tem pouco mais ou menos dois annos

_Electra_

Queridinho da minh’alma!

_Evarista_

Deixa o menino, e vamo-nos.

_Urbano_

São horas.

_Cuesta_

(_ao marquez_) Eu, pela minha parte, acho que é um rasgo de maternidade.

E applaudo-o.

_Marquez_

Eu digo que é um lance angelico. E adoro-o.

_Evarista_

(_querendo pegar no menino_) Então, Electra?

_Electra_

(_em passo ligeiro afasta-se dos que querem tirar-lhe o pequerrucho. Este

abraça-lhe o pescoço_) Não, não posso deixal-o agora.

_Evarista_

Balbina, pega n’esse menino.

_Electra_

(_passa de um lado para o outro, procurando um refugio_) Não! e não!

_Urbano_

Dá-m’o a mim.

_Electra_

Não!

_Pantoja_

(_imperioso, a José_) Pegue n’elle, José.

_Electra_

Não, já disse!... Ninguem lhe toca... É meu.

_Evarista_

Mas, filha, se temos de sahir!

_Electra_

Saiam! vão com Deus. (_Vendo que o chapeu a inhibe de abraçar e beijar

o seu amiguinho, arranca-o rapidamente da cabeça e atira-o para longe.

Continúa a passear o menino, fugindo dos que lh’o querem tirar, e, sem

ouvir, falando com o pequerrucho, que lhe deita os braços ao pescoço e a

beija_) Dorme, dorme, meu amor. Não tenhas medo, filhinho... Dorme, que

não te largo.

_Evarista_

Então vamos ou não vamos?

_Electra_

Eu não vou... Tens fome? tens sede, meu anjo? Eu te acalentarei... Deixa

berrar esses egoistas todos, que se não lembram de que não tens mãe!

_Pantoja_

Mas tem quem olhe por elle.

_Evarista_

Basta! (_Imperiosa, aos creados_) levem-o para a sua casa.

_Electra_

(_resolutamente, sem deixar que toquem na creança_) A casa! a casa!

(_Com passo decidido, sem olhar para ninguem, corre para o jardim e sae.

Seguem-a todos com a vista, indecisos, não ousando dar um passo para

ella_)

_Pantoja_

Que escandalo!

_Evarista_

Que loucura!

_Marquez_

Que juizo! o juizo mais perfeito da mulher! Achou o seu caminho.

FIM DO SEGUNDO ACTO

ACTO TERCEIRO

O laboratorio de Maximo. Ao fundo, occupando grande parte da

parede, divisoria com revestimento de madeira na parte inferior

e envidraçada para cima. Este tapamento separa a scena d’um

vasto local, em que se vêem maquinas e apparelhos para a

producção de energia electrica. A porta praticavel no socco

divisoria communica com a rua.

Á direita, no primeiro plano, um corredor que dá passagem para

o jardim dos snrs. de Garcia Yuste. No ultimo plano, uma porta

de communicação com a habitação de Maximo e com a cosinha.

Entre a porta e o corredor, uma estante com livros.

Á esquerda, porta de passagem para as casas em que trabalham os

ajudantes. Junto a esta porta, uma estante com apparelhos de

physica e objectos de uso scientifico.

Ao fundo, dos dois lados do socco de madeira, prateleiras com

frascos de diversas substancias e livros. No angulo da direita

um pequeno aparador.

Á esquerda da scena, a mesa do laboratorio com os objectos que

no dialogo se indicam. Fazendo angulo com ella, a balança de

precisão sobre um supporte de fabrica.

Ao centro pequena mesa de jantar, e quatro cadeiras.

SCENA I

MAXIMO, trabalhando n’um calculo, com grande attenção ao que

está fazendo—ELECTRA em pé, arranjando os multiplos objectos

que estão na meza: livros, capsulas, tubos de ensaio, etc.

Veste com simplicidade caseira, e grande avental branco.

_Maximo_

(_sem levantar os olhos do papel_) Para mim, Electra, a dupla historia

que me contas, esse supposto poder dos dois cavalheiros, é um facto

destituido de valor positivo.

_Electra_

(_suspirando_) Deus te ouça!

_Maximo_

Tudo se reduz a duas paternidades platonicas sem nenhum effeito legal...

até agora. O mais feio do caso é a auctoridade que quer assumir o snr. de

Pantoja...

_Electra_

Auctoridade oppressiva, suffocante, que me tira o ar. Nem me fales

n’isso, se não me queres amargurar a alegria de estar cá em casa!

_Maximo_

Devéras? assim te affliges?

_Electra_

Ainda mais: ponho-me n’esse estado singularissimo de cabeça e de

nervos... Já te contei... Em certas occasiões da minha vida apodera-se de

mim um desejo, fixo, fundo, absorvente, de tornar a vêr a imagem da minha

pobre mãe, como a via na minha meninez... Pois sempre que se aggrava para

mim a tyrannia de Pantoja, renasce o meu doloroso e invencivel anceio; e

sinto a perturbação nervosa e mental que me annuncia...

_Maximo_

A visão da tua mãe? Isso, rapariga, não é d’um espirito rijo e são.

Aprende-me a governar essa imaginação... Trabalha-me para a frente, e á

má cara. O ocio é o peor de todos os perturbadores da intelligencia.

_Electra_

(_muito animada_) Cá estou seguindo á risca o que me mandaste fazer.

(_Pega n’uns frascos de substancias mineraes e leva-os para uma das

estantes_) Estes frascos para o seu logar... Emquanto penso n’isto nem

penso na furia da tia logo que souber...

_Maximo_

(_attento ao trabalho_) A tia até ha de acabar por gostar... Mas

deixa que tu, tambem!... Não te bastou a loucura d’hontem... raptar

insidiosamente o menino... Tornas a trazer-m’o... ficas-te a embalal-o

e adormecel-o, muito mais tempo que o regular... E, não contente ainda

com a saturnal d’hontem, pespegas-te hoje cá em casa, e aqui andas

a sargentear, para uma banda e para outra, muitissimo fresca da tua

vida!... Ainda foi por Deus, que convidados para a distribuição dos

premios e para o almoço em Santa Clara os tios ainda a estas horas

ignorem o pulo medonho que a boneca deu da casa d’elles para a minha!

_Electra_

Tu é que me aconselhaste que me insubordinasse... «_Insubordina-te!_»

_Maximo_

Sim senhor: fui o instigador do delicto... E gabo-me d’isso.

_Electra_

A minha consciencia diz-me que não ha mal nenhum no que faço.

_Maximo_

Pois está bem de vêr que não ha... Foi talvez para casa de um pulha que

tu vieste!... Não faltaria mais nada senão que principiasse agora a haver

mal em estar alguem na minha casa!

_Electra_

(_trabalhando sempre e falando sem se distrahir do que faz_) Eu digo

mais: estando tu esmagado de trabalho, só, sem creados, e estando eu

para ahi, de mãos a abanar, sem ter absolutamente nada que fazer, o que

pareceria mal, o que seria indecente, é que eu não viesse...

_Maximo_

Cuidar de mim e dos pequenos... Effectivamente, se isso não é logica,

digo-te que botemos luto, porque já não ha logica no mundo!

_Electra_

Queridos pequerruchinhos! Toda a gente sabe que os adoro... São a minha

paixão, o meu fraco... (_Maximo, abstrahido n’uma conta, cessa de dar

attenção ao que ouve_) Chega-me a parecer... (_Approxima-se da mesa

levando uns livros que não estavam no seu logar_)

_Maximo_

(_vagamente_) Quê?

_Electra_

Que nem a sua propria mãe lhes quereria tanto como eu!

_Maximo_

(_satisfeito com o resultado do seu calculo, lendo em voz alta uma

cifra_) Zero, trezentos e dezoito... Fazes favor de me dar as _Tabellas

de resistencias_... aquelle livro encarnado...

_Electra_

(_correndo á estante da direita_) Não é este?

_Maximo_

Mais adeante.

_Electra_

É verdade... que tôla!

_Maximo_

Fica-te muito bem,—sabes?—que em tão pouco tempo conheças todos os meus

livros e os seus logares na estante...

_Electra_

Não dirás que te não puz tudo muito arranjadinho.

_Maximo_

Não; e darei graças a Deus, porque entrou finalmente n’este antro,

revolto e poeirento, a limpeza e a ordem!

_Electra_

(_desvanecida_) Confessas então que não sou absolutamente, absolutamente

inutil?

_Maximo_

(_olhando com fixidez para ella_) Não ha nada inutil na creação. Quem te

diz a ti que te não creou Deus para altos destinos? Quem te diz que não

virás a ser...

_Electra_

(_anciosa_) O quê?

_Maximo_

Uma alma grande, formosa e nobre, que está por hora meia afofada ainda na

serradura e na estopa de uma boneca?

_Electra_

(_com alegria_) Pae do ceu, se assim fosse! (_Maximo levanta-se e, na

estante da esquerda, pega n’umas barras de metal, que examina_) Nem me

digas isso que me entonteces de alegria... Pode-se cantar?...

_Maximo_

Podes cantar... (_Electra repete trauteando o andante de uma sonata_)

A boa musica é a espóra das ideias preguiçosas, que não affluem; e

é o gancho que puxa pelas que estão agarradas de mais ao fundo do

entendimento. Canta, companheira, canta... (_Prosegue attento á sua

occupação_)

_Electra_

(_á estante do fundo_) Continúo coordenando isto. Os metaloides para este

lado. Já os conheço pelos rotulos... Como este trabalhito entretem! Era

capaz de ficar aqui todo o santo dia...

_Maximo_

(_jovial_) Camarada!

_Electra_

(_correndo para elle_) Que manda o magico?

_Maximo_

Eu não mando por ora. Proponho. (_Pega n’um frasco que contém um metal em

limalha_) Se a menina magica quer collaborar commigo ha de fazer favor de

me pesar trinta grammas d’este metal.

_Electra_

Péso.

_Maximo_

Sabes já pesar na balança de precisão...

_Electra_

Perfeitamente. Dá cá. (_Alegre, contente, ao deitar o metal na capsula,

admira-lhe a belleza_) É lindo! Que é isto?

_Maximo_

É aluminio. Parece-se comtigo. Pesa pouco...

_Electra_

Ah! eu então?...

_Maximo_

Pesa pouco, mas é extremamente tenaz. (_Olhando-lhe para a cara_) Tu

tambem?

_Electra_

Em coisas que eu cá sei, sou tenaz até á barbaridade, e, chegado o

momento, estou certa de que o seria até ao martyrio. (_Continúa pesando

sem interromper a operação_)

_Maximo_

Que coisas são essas?

_Electra_

Que te importa! Tu és o magico, mas eu é que magíco... commigo, ás vezes.

_Maximo_

(_attento ao trabalho_) Pesas-me depois setenta grammas de cobre.

(_Dá-lhe outro frasco_)

_Electra_

O cobre então serás tu... Não: é tambem feio de mais para se parecer

comtigo.

_Maximo_

É feio, mas util.

_Electra_

Compara-te antes ao ouro, que é o que vale mais.

_Maximo_

Nada de ditos! Estás a desmoralisar-me o laboratorio.

_Electra_

Dá ao menos licença de que me reveja nas qualidades do metal bonito que

se parece commigo... Sou tenaz... Não me quebro... Farás favor de o dizer

á tia e ao tio Urbano, que, no sermão que me prégaram esta manhã, por

umas quarenta vezes me disseram que sou fragil... Fragil, eu!

_Maximo_

Não sabem o que dizem.

_Electra_

Sabem lá elles... nem o que é o aluminio, nem o que eu sou!

_Maximo_

Mas toma sentido, que te não equivoques no peso!

_Electra_

Equivocar-me eu! Pateta! Eu tenho muito mais tino do que ninguem cuida!

_Maximo_

Já vou vendo, já vou vendo! (_Dirige-se a uma das estantes em procura

d’um cadinho_) A tia, quando chegar a casa, é que lhe ha de custar um

pouco mais a compenetrar-se de que tenhas todo o tino que dizes...

_Electra_

Deus, que vê os corações, sabe se eu tenho culpa! Porque é que a tia não

deixa que eu venha para cá?

_Maximo_

(_voltando com o cadinho que escolheu_) Por que tu és uma menina

solteira, e as meninas solteiras não podem ficar assim em casa d’um homem

só, por mais honrado e por mais digno que elle seja.

_Electra_

Pois, senhor, não haja dúvida que, por essa regra, estão divertidas as

pobres meninas solteiras! (_Termina o peso e apresenta os dois metaes

pesados nas suas duas capsulas de porcelana_) Aqui tens o aluminio e o

cobre.

_Maximo_

(_pegando nas capsulas_) Um primor. Que limpeza de mãos... Que firmeza de

pulso, e que serenidade de attenção para não fazer d’isto uma trapalhada!

Estás fina.

_Electra_

Estou contente apenas. Quando se tem a alegria tudo corre bem.

_Maximo_

Ahi disse a collega uma importantissima verdade. (_Verte os dois corpos

no cadinho_)

_Electra_

Isso é um cadinho, não é?

_Maximo_

Sim senhor, para fundirmos os dois metaes.

_Electra_

Para nos fundirmos tu e eu, se não pegarmos á bulha no meio do fogo...

(_Trauteia a sonata_)

_Maximo_

Faze favor de chamar o Ricardo.

_Electra_

(_correndo á porta da esquerda_) Ricardo!

_Maximo_

Que venha tambem o Gil.

_Electra_

Gil! Venham ambos, que manda o mestre... não se demorem!

SCENA II

ELECTRA, MAXIMO, RICARDO E GIL, o primeiro vestido de operario,

com blusa, o segundo em trage burguez, com mangas de alpaca,

pena na orelha

_Gil_

(_mostrando um calculo_) Aqui está o valor obtido.

_Maximo_

(_lê rapidamente a cifra_) 0,158,073... Está errado (_Seguro do que diz

e com certa severidade_) Não é possivel que para um diametro de cabo

menor de quatro millimetros obtenhamos um circuito maior, segundo o teu

calculo. A verdadeira distancia deve ser inferior a duzentos kilometros...

_Gil_

Não sei então... eu... (_Confuso_)

_Maximo_

Está mal. É que te distrahiste.

_Electra_

É que vocês, coitados, não teem... a attenção serena...

_Maximo_

Emquanto fazeis os calculos estaes a pensar em historias da carocha.

_Electra_

E a conversar, a falar de touros, de theatros, da politica... assim não

fazemos nada.

_Gil_

Vou rectificar as operações.

_Electra_

E, sobretudo, muita paciencia, muita contensão, todos os cinco

sentidos!... Senão tornamos á mesma.

_Gil_

Vou vêr isto.

_Maximo_

Anda lá e não te descuides (_Gil sae e Maximo, virando-se para Ricardo,

entrega-lhe o cadinho_) Aqui tens.

_Ricardo_

Para fundir...

_Maximo_

Está preparado o forno?

_Ricardo_

Sim senhor.

_Maximo_

Mette immediatamente, e quando esteja em fusão, avisa. Com esta aleação

vamos fazer um novo ensaio de conductibilidade... Espero chegar aos

duzentos kilometros com perda escassissima.

_Ricardo_

Faz-se o ensaio hoje?

_Maximo_

(_atormentado por uma ideia fixa_) Sim, quanto antes. Não abandono este

problema. (_A Electra_) É a minha ideia fixa, que me não deixa viver.

_Electra_

Ideia fixa tambem eu tenho uma, e por ella vivo. Avante!

_Maximo_

Avante, _Electra_! Avante, _Ricardo_!

_Ricardo_

Não manda mais nada, patrão?

_Maximo_

Que actives a fusão.

_Electra_

Que se fundam bem os metaes!

_Ricardo_

Hão de ficar os dois em um só, senhorita.

_Electra_

Dois n’um.

_Maximo_

(_como preparando-se para outra occupação_) Agora, minha graciosa

discipula...

_Electra_

Agora ha de o mestre perdoar, mas tenho de ir vêr se acordaram os meninos.

_Maximo_

Ha quanto tempo comeram?

_Electra_

Ha trez quartos d’hora. Devem dormir meia hora mais. Está bem regulado

assim?

_Maximo_

Está bem tudo o que determines.

_Electra_

Olha o que dizes, que estarás por tudo...

_Maximo_

(_carinhosamente_) Por tudo.

_Electra_

Que se fique sabendo!... Eu venho já. (_Sae ligeira e cantando pela

esquerda. Entra ao mesmo tempo um operario, pelo fundo_)

SCENA III

MAXIMO E O OPERARIO

_Maximo_

Que ha?

_Operario_

Veio aquelle senhor, o marquez de Ronda...

_Maximo_

Porque não entrou?

_Operario_

Perguntou pelo patrão... Disse-lhe que tinha uma visita... Elle então,

como pessoa da casa, logo disse: «Já sei... ha de ser a senhorita

Electra... Voltarei logo».

_Maximo_

Porque lhe não disseste que entrasse, meu pascacio?

_Operario_

Como me disse que voltava...

_Maximo_

Pois sempre que vier, que entre, esteja que não esteja a senhorita

Electra, e sobretudo estando.

_Operario_

Assim se fará. (_Sae pelo fundo_)

SCENA IV

MAXIMO E ELECTRA

_Electra_

(_voltando do interior da casa_) Dormidinhos como dois anjos... até

d’aqui a meia hora...

_Maximo_

E os adultos não comem? não se almoça hoje n’esta casa?

_Electra_

Quando queiras. Está feito o almoço. (_Dirige-se para o aparador, onde

está a pequena baixella: talheres, toalha, guardanapos, fructeira_)

_Maximo_

É como deve ser... Tudo a horas... assim se chega sempre ao que se quer.

_Electra_

(_estendendo a toalha_) Ao que eu quero não chegarei nunca por mais

pontualidade que ponha...

_Maximo_

Deixa-me ajudar-te... (_Vae-lhe passando os pratos, os talheres, o pão, o

vinho_) Chegas, sim.

_Electra_

Achas?

_Maximo_

Acho. Tão certo que chegas como que tenho uma fome de cincoenta cavallos

de força.

_Electra_

Melhor, para que te agrade o almoço.

_Maximo_

A elle!

_Electra_

N’um minuto. (_Sae_)

SCENA V

MAXIMO E GIL

_Maximo_

Bemdita seja essa mulhersinha preciosa, que tão simples, tão instinctiva,

tão ingenuamente, traz a sua grande alma inquieta, torturada e núa, a

inundar de alegria e de luz este esconderijo da sciencia, transformando

tão estreita aridez em tão vasto paraizo! Bemdita a que com um mero

sorriso de creança vem arrancar da sua abstracção consumidora este pobre

Fausto, envelhecido aos trinta e cinco annos, e dizer-lhe: «Nem só de

verdades se vive!» (_Interrompe-o Gil, que tem entrado um pouco antes e

se approxima sem ser visto_)

_Gil_

(_satisfeito mostrando o calculo_) Pronto. Creio ter achado a cifra

exacta.

_Maximo_

(_pega no papel e olha-o vagamente, sem se fixar_) A exactidão!... E

tambem tu pensarás que só de coisas exactas vive o homem!? Saturada

de certeza, a alma insaciada appetece, mais que tudo, o que é apenas o

sonho, e vôa para elle, avassalada e rendida, sem nem sequer tentar saber

se é para a realidade, se para a illusão, que vôa!... Considerando bem,

Gil, nada mais natural do que um equivoco de calculo.

Electra: Drama em cinco actos · 第 3 / 7 段