Ao outro dia, depois de muito chorar da mãe, a cujo seio arr

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OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

XXIII

O OLHO DE VIDRO

TYPOGRAPHIA

DA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

--RUA AUGUSTA, 44, 46 E 48--

LISBOA

OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO

Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8.º, de 200 a 300

paginas Impressa em bom papel, typo elzevir

250 réis em brochura e 400 réis encadernado

1--Coisas espantosas.

2--As tres irmans.

3--A engeitada.

4--Doze casamentos felizes.

5--O esqueleto.

6--O bem e o mal.

7--O senhor do Paço de Ninães.

8--Anathema.

9--A mulher fatal.

10--Cavar em ruinas.

11 e 12--Correspondencia epistolar.

13--Divindade de Jesus.

14--A doida do Candal.

15--Duas horas de leitura.

16--Fanny.

17, 18 e 19--Novellas do Minho.

20 e 21--Horas de paz.

22--Agulha em palheiro.

23--O olho de vidro.

24--Annos de prosa.

25--Os brilhantes do brasileiro.

26--A bruxa do Monte-Cordova.

27--Carlota Angela.

28--Quatro horas innocentes.

29--As virtudes antigas.

30--A filha do Doutor Negro.

31--Estrellas propicias.

32--A filha do regicida.

33 e 34--O demonio do ouro.

35--O regicida.

36--A filha do arcediago.

37--A neta do arcediago.

38--Delictos da mocidade.

39--Onde está a felicidade?

40--Um homem de brios.

41--Memorias de Guilherme do Amaral.

42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.

45 e 46--Livro negro do padre Dinis.

47 e 48--O judeu.

49--Duas épocas da vida.

50--Estrellas funestas.

51--Lagrimas abençoadas.

52--Lucta de gigantes.

53 e 54--Memorias do carcere.

55--Mysterios de Fafe.

56--Coração, cabeça e estomago.

57--O que fazem mulheres.

58--O retrato de Ricardina.

59--O sangue.

60--O santo da montanha.

61--Vingança.

62--Vinte horas de liteira.

63--A queda d'um anjo.

64--Scenas da Foz.

65--Scenas contemporaneas.

66--O romance d'um rapaz pobre.

67--Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.

68--Noites de Lamego.

69--Scenas innocentes da comedia humana.

70 e 71--Os Martyres.

72--Um livro.

73--A Sereia.

74--Esboços de apreciações litterarias.

75--Cousas leves e pesadas.

76--THEATRO: I--Agostinho de Ceuta.--O marquez de Torres-Novas.

77--THEATRO: II--Poesia ou dinheiro?--Justiça.--Espinhos e

flôres.--Purgatorio e Paraizo.

78--THEATRO: III--O Morgado de Fafe em Lisboa.--O Morgado de Fafe

amoroso.--O ultimo acto.--Abençoadas lagrimas!

79--THEATRO: IV--O condemnado.--Como os anjos se vingam.--Entre a flauta

e a viola.

80--THEATRO: V--O Lobis-Homem.--A Morgadinha de Val-d'Amores.

_CAMILLO CASTELLO BRANCO_

O OLHO DE VIDRO

ROMANCE HISTORICO

4.ª edição, conforme a 1.ª, unica revista pelo auctor

1918

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

LIVRARIA EDITORA

_Rua Augusta, 44 a 54_

LISBOA

O OLHO DE VIDRO

Nota das edições que tem tido este romance até á presente

1.ª edição--Lisboa--1866--Livraria de Campos Junior--1 vol. in-8.º de 199

pags.

2.ª edição--Lisboa--(Sem data)--(É a 1.ª edição com a reimpressão da

1.ª folha.)

3.ª edição--Lisboa--1904--Vol. 23.º da nossa Collecção, da qual se fez uma

tiragem especial de 100 exemplares em papel de linho nacional para

bibliophilos.

4.ª edição--Lisboa--1917--que é a presente.

PROLOGO

(DA 1.ª EDIÇÃO)

O eminente bibliographo e meu prezado amigo Innocencio Francisco da Silva,

historiando em breves linhas a vida quasi obscura de Braz Luiz d'Abreu,

conclue com estas palavras: _Se algum dos nossos romancistas actuaes se

resolvesse a tratar o assumpto, affigura-se-me que a vida d'este nosso

medico, com os curiosissimos incidentes que ficam apontados, lhe dariam

sobeja materia para a fabrica de uma composição, onde mediante a lição dos

escriptos, que nos restam de Braz Luiz, poderiam fundir-se habilmente

especies mui interessantes para d'ahi resultar obra de cunho

verdadeiramente nacional_.

Os termos em que o convite é feito animam e ao mesmo tempo assustam.

Comecei temerariamente a composição d'este romance: máo foi principial-o,

que eu sou tão pouco cioso de aprimorar escriptos d'esta ordem, que não me

fórro ao perigo de concluil-os e imprimil-os, ainda quando me desagradam.

Não direi o que penso d'este: assevero, porém, que não está de certo

realisada a esperança do meu amigo Innocencio Francisco da Silva. Se a

biographia do author do _Portugal-medico_ é mina para locupletar

romancistas, vão lá todos, que eu não toquei nos veios mais ricos.

Porto, 3 de março de 1866.

_Camillo Castello Branco._

INTRODUCÇÃO

Francisco Luiz d'Abreu, estudante do segundo anno medico na universidade de

Coimbra, estava, por volta das onze horas da noite de 28 de janeiro de

1692, estudando, no seu _Vila Corta_, as theorias de Galeno ácerca das

purgas--_de purgatione_.--Embebecido e pasmado nas virtudes drasticas dos

olhos de caranguejo, apenas tinha um todo-nada de espanto para celebrar os

não menos miraculosos effeitos da pelle de cobra, quando, tão a deshoras,

duas aldrabadas na porta o roubaram ao seu enlevo. Francisco encapuzou-se

no gabão, e abriu as portadas da janella que dava sobre o _Becco das

Flores_, becco assim denominado por antiphrase, figura de rethorica

tolerantissima que permitte denominar-se flores o adubo de que ellas tiram

a seiva putrida, mais tarde evaporada em aromas.

--Quem é--perguntou o estudante, apertando as azas nasaes, com ingrato

despreso das boninas da sua rua.--Quem é o vadio?

--Sou eu!--respondeu quem quer que era, abrindo pequeno respiraculo por

sobre o ferragoulo, que lhe envolvia todo rosto.

--Tu!...--exclamou Abreu com alvoroço.--Vou abrir! Pois és tu?!

Algum motivo mysterioso tinha o academico para descer ás escuras a

precipitosa escada, contando as escaleiras e raspando com o pé cauteloso

sobre cada degrau. Aberta a porta recebeu nos braços com ardente vehemencia

o interruptor de seus estudos, e tão alheado ficou das suas considerações

therapeuticas sobre a pelle de cobra, que nem já os olhos de caranguejo lhe

lembravam.

--Tu aqui, Antonio de Sá!--tornou Francisco.--Eu fazia-te na India!...

Sobe, meu desventurado rapaz, que não ha ainda duas horas que os teus

condiscipulos te lamentaram, especialmente José de Barredo se arrepellava

por ter sido teu confidente n'esses funestissimos amores que te perderam...

--Com razão!...--murmurou o outro--com razão me lamentaste, que eu sou

desgraçado, quanto póde sel-o n'este mundo um rapaz de vinte annos.

--E que magro estás!... atalhou Francisco Luiz, achegando-lhe do rosto a

candeia de lata, que despregou do velador.--Como estás acabado!...

--Se te parece!... um anno quasi sem ar, nem sol; passado de terrores...

Como não queres que eu esteja pallido e descarnado?! São assim todos os

rostos que se lavam com lagrimas...

--Pobre Antonio!...--atalhou o outro muito consternado--Se, ao menos,

tivesses fugido de Portugal, como nós suppunhamos, terias céo e ar...

Senta-te, homem!... Queres tu comer?

--Quero.

--Ainda bem! A desgraça não te quebrantou o antigo estomago... Aqui tens

queijos, figos e bolos de Santa Clara... Olha que ainda duram os amores da

freira... Aqui tens o coração da freira n'estas trouxas d'ovos. Carne não

na ha, e não sei onde vá procural-a a esta hora... Queres tu uma sôrda?

Essa faço-t'a eu: estão alli os alhos; e, á mingoa de azeite, cosinha-se

com o da candeia, e depois conversaremos ás escuras.

--Isto basta para quem anda faminto de bons bocados--disse Antonio, com

desusado atticismo, devorando o queijo e os figos, e as trouxas allegoricas

do coração da franciscana, não já como desgraçadissimo entre os homens, mas

certamente como de entre os estudantes o mais faminto.

O hospedeiro academico enfreou sua curiosidade emquanto o amigo não pôde

dispor da lingua, empenhada na soffrega lida da deglutição. No entretanto,

andava elle rebuscando na gaveta alguma vitualha, como se em gaveta de

estudante alguma vez se operasse o milagre de que alguns raros anachoretas

se gosaram na Palestina, quando os anjos do céo lhes cosinhavam os

fricassés.

--Que andas tu procurando?--perguntou Antonio de Sá Mourão.

--Um boi que te mate essa fome! Hei medo que me devores, rapaz.

--Nem manjar branco me dês que já me cá não cabe. Estou alimentado para

tres dias, se fôr necessario. Queres agora a minha historia de treze mezes?

Deita-te ahi na tua cama; escuta e adormece quando quizeres. Que sabes tu

da minha vida?

--Sei o que todos sabem: que fugiste de Bragança com uma moça, filha unica

de pae rico e feroz, que te fez procurar aqui em Coimbra, e me quiz metter

no aljube para lhe dar conta de ti, allegando que eu devia forçosamente ser

teu confidente, por que sou christão novo como tu.

--Não sabia--interrompeu Antonio--que os meus infortunios implicaram

comtigo...

--Mais do que eu te sei dizer... Os trabalhos, que me ameaçavam,

affligiam-me muitissimo menos que a idéa da inexoravel perseguição que te

fariam por toda a parte. Esperava eu, a cada hora, a noticia da tua prisão,

com todas as probabilidades de que morrerias na forca, se não morresses na

fogueira. Ninguem dava novas tuas, que não fossem horrorosas. Uns diziam

que tinhas sido morto a tiro; diziam outros que te havias suicidado. Ao

cabo de seis mezes, espalhou-se a boa nova de que tinhas embarcado para a

India, favorecido por teus parentes ricos de Lisboa, e tambem corria que a

moça te acompanhára vestida de rapaz. Ora, como nunca mais se fallou de ti,

acreditámos que estavas salvo... Como te vejo aqui, Antonio?! Que é isto?!

Onde tens estado? Como pudeste fugir á justiça, se não foi n'algum

subterraneo?

--Eu te conto, respondeu Antonio. Aquella temporada de ferias que fui

passar com meus tios em Bragança foi a morte da mocidade, das esperanças, e

de tudo em que eu fundamentára a felicidade das minhas modestas ambições. O

prazer exclusivo da minha vida tinha sido o estudo, a gloria da sciencia,

desvanecimento louco de poder ainda, mediante a sciencia, avisinhar-me do

throno, como os antigos da nação[1] e desopprimir nossos irmãos, quanto

coubesse na alçada do juizo, e no prestigio que a posição de medico do rei

me désse. Era um sonho talvez desatinado; mas o despertar-me d'elle foi

atroz!... Amei aquella mulher; referi-te o nascer d'aquelle funesto amor.

Sabes que os teus conselhos e vaticinios, ainda mal que realisados, não

poderam reduzir-me ao dever, á honra, e propriamente ao discreto egoismo,

que tantas vezes nos arreda de abysmos cavados pela excessiva

sensibilidade. O peior, meu amigo, já não era vencer-me eu; era vencer a

compaixão que me fazia a pobre menina, cujas alegrias dos dezoito annos eu

fôra converter em amargura de toda a vida.

--Combati essa opinião--interrompeu Francisco Luiz--por cuidar que era

grande parte n'ella a tua vaidade, a vaidade do homem que se julga

necessario á vida da mulher...

--É verdade; combateste a insensata opinião; mas... não sei se cedo se

tarde o fizeste; o certo é que as tuas razões me pareceram sophisticas e

glaciaes. Vi em ti o philosopho que sempre foste; e em mim vi o homem

duplicado em sua existencia pelo amor, os dois homens que se combatem e

forcejam por despedaçar-se, até que um triumpha, e... fica senhor das

ruínas do coração... Já agora não discutamos como medicos em volta de um

cadaver. Saibamos que está morto o homem, e ouve tu singelamente a historia

das delirantes febres que o acabaram.

De antemão sabia eu já que a filha de Fernão Cabral me seria negada e que

os lacaios do christianissimo fidalgo, por ordem de seu senhor, me

ameaçariam com os seus tagantes.

Isto não embargou que eu timidamente me fosse apresentar ao nobre morgado

de Carrazedo, e lhe pedisse a filha. Fernão ouviu-me em pé, e respondeu-me

n'estes termos: «Olhe para estes retratos»--e apontou para uma duzia de

figuras pendentes das paredes--«olhe para estes retratos, e veja se ahi

está algum com a estrella vermelha das seis pontas cosida sobre a garnacha

ou sobre o arnez[2]» dito isto apontou-me a porta da escada.

Não sei se odio, se lagrimas, se tudo a um tempo, me enchia o coração! Já

então não tive animo para te escrever!

Ha desgraças tamanhas que um homem parece envergonhar-se de contal-as aos

seus amigos mais do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da minha

ignominia. Deixei Bragança e fui para a Guarda, resolvido a entregar-me

inertemente ao devorar silencioso da minha saudade.

Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma casa agreste e erma na

quebrada da Serra da Estrella. A desesperação alli foi-me consoladora, por

que a morte era inevitavel n'aquelle desamparo.

Nem ainda então pude escrever-te, meu amigo! Assim que tentava fazel-o, não

sei exprimir que desalento me esvaía a cabeça. «Que vale queixar-me?! dizia

eu entre mim--O que Deus não dá não m'o podem dar amigos. Deixal-os gosar,

deixal-os ignorar estas obscuras angustias.»

Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu passeiando nos quasi pardieiros

da minha vivenda, quando ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia

da serra ao alpestre casalejo de meus avós, os quaes alli se tinham

homisiado no tempo das grandes perseguições do rei D. Manuel. Accudi á

janella e ouvi uma voz de homem dizer: «É aqui.» Não sei que outras

palavras se disseram: eram a voz d'ella: era Maria.

Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento da minha situação, tinha,

nos braços a filha de Fernão Cabral, e á beira d'ella vi uma criada sua,

que nos fôra medianeira, e um criado da casa de meu pae.

Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fugira de Bragança, logo que o

pae se ausentou por alguns dias, no proposito de negociar o casamento

d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como não tinha mãe, e costumava passar

muitas horas reclusa no seu quarto, os domesticos não deram logo conta da

fuga, nem a suspeitariam tão cedo, se a sua aia não faltasse tambem. Fugiu

caminho da Guarda, e procurou-me alta noite, em casa de meus paes, que

tentaram restituil-a á casa paterna, temerosos dos resultados. Como ella,

porém, os assustasse ainda mais com o proposito de se matar,

encaminharam-na ao meu deserto, com todo o segredo.

Imagina tu que hospedagem daria eu á filha do gentil-homem, alli,

n'aquellas ruinas, onde todas as alfaias eram um catre de bancos, uma arca,

dois tamboretes de páo, e alguma loiça vermelha do uso dos caseiros, pobre

gente de nossa raça, que para alli ficára grangeando e usofruindo as

pouquinhas e inferteis terras!... A Maria e á sua criada grave dei o meu

leito; e com o meu criado me fui ao palheiro, e me agazalhei nas mantas que

os caseiros nos emprestaram.

De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu destino, e a dar-me alguns

recursos para fugirmos até onde passassemos insuspeitos. O velho chorava, e

eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse de me ver feliz!

Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem saber que rumo tomasse. Meu

pae mandava-me fugir por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria,

esperançada na commiseração do pae e na protecção dos seus santos

advogados, queria que eu e ella fossemos ajoelhar aos pés d'elle. Por mais

que m'o dissesse em tom de anjo quando revela os decretos do céo, não pude

sequer imaginar possivel o perdão do soberbo fidalgo.

Saimos para Celorico, a quatro leguas de distancia. N'uma aldeia dos

arrabaldes, moravam irmãos do meu caseiro, grangeando um casal. Alli

deliberei repousar alguns dias, porque Maria já tão sem forças ia da

jornada por serras n'um dia de rigoroso inverno, que mal podia ter-se nas

andilhas. Desde aqui avisei meu pae, pedindo-lhe novas do que soubesse.

Respondeu-me que, horas antes, tinha sido cercada nossa casa, e que elle,

com todos os nossos, estavam arriscados a ser presos.

E foram, no dia seguinte, presos e fechados em masmorras.

As immediatas noticias que tive foram cruelissimas. Todos os nossos bens

tinham sido inventariados como para entrarem no sequestro feito a bens de

judeus. Eu não devia já esperar recursos alguns de minha casa, e o dinheiro

que eu possuia pouquissimo era para me transportar para fóra do reino.

Sobrepõe tu, Francisco, a estes lances, o medo da prisão, e escutar a cada

instante nos menores rumores o estrepito dos quadrilheiros! E, se estes são

poucos supplicios para conceberes muito em sombra a minha vida, ajunta a

isto uma cama de enxerga n'um quarto de vigamento por onde a ventania

esfuziava, e sobre essa enxerga a pobre menina a tremer os frios das

sesões, e eu de mãos postas a contemplal-a assim!

Para que ninguem da aldeia nos visse, os dias para nós eram a continuação

das noites. Aquelles pobrinhos fazendeiros, de portas a dentro, melhoraram

quanto poderam a nossa situação. Eu, por minhas mãos, carpintijei o tabique

para aconchegar o nosso quarto; e, com todas as cautellas, consegui que

viessem de longe bragaes e roupas com que tirei á alcova de Maria as

tristezas da indigencia. Melhorou a minha pobre amiga e desenvolveu

espantosa energia na lucta. O sorriso d'ella dava-me alentos; mas não podia

espancar da minha alma a imagem de meu pae, mãe e irmãos encarcerados,

perseguidos pelo rancor vingativo de Fernão Cabral, e mais que muito

sujeitos á extremidade de pagarem com a vida o meu delicto.

Com que traças e trabalhos eu conseguia incertas noticias d'elles! Para mim

era já consolativa a nova de que os não tinham mandado para os carceres da

inquisição de Coimbra. Logo que elles aqui entrassem, perdidos os

considerava eu.

E assim vão decorridos treze mezes, Francisco Luiz! Comprehendes tu que

infernos eu tenho apagado com as minhas lagrimas para poder viver ainda!...

Lagrimas escondidas d'aquella martyr, para que ella, conhecedora do meu

desalento, não desanime!...

--E choras assim, Antonio! Coragem!--exclamou Abreu, tomando contra o seio

o anciadissimo moço.

--Ai! deixa-me chorar, que não o pude ainda fazer tanto ás largas. Deixa-me

chorar, que isto é veneno mortal que me sáe aos olhos! É preciso que

vejamos alma compadecida para sabermos a doçura d'este desafogo das

lagrimas!

Passados momentos, Antonio apertou, de golpe e convulsamente, as mãos do

condiscipulo, levou-as aos labios, e exclamou soluçante:

--Sabes ao que vim?

--Diz, meu querido amigo.

--Venho pedir-te dinheiro para fugir de Portugal.

--Tel-o-has. Minha mãe já não vive, e eu tenho uma legitima. Conta com

ella.

--Bem hajas! bem hajas, meu Francisco! Mas venho pedir-te mais alguma

coisa.

--Diz.

--Eu tenho um filho de quinze dias. Não posso fugir com a creancinha.

Aceitas-m'a no regaço da tua caridade? Ficas com o meu filhinho, para m'o

restituir, quando a felicidade me bafejar?

--Ficarei como teu filhinho, Antonio. Dar-lhe-hei o coração que te dou a

ti. Se Deus o não tiver levado, quando voltares, achal-o-has. Não lhe direi

o teu nome de pae, sem que tu lh'o possas dar. Ninguem saberá que é teu

filho, sem que tu possas dizel-o ao mundo.

--É assim que t'o roga a minha alma attribulada... a ti e a Deus, que me

está fallando no teu coração. Porque não hei de eu ajoelhar a teus pés, se

creio que em ti está o Senhor da compaixão e da misericordia?!

Francisco Luiz de Abreu levantou nos braços o arquejante moço; e, não menos

commovido, ratificou as promessas feitas.

* * * * *

Ás dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de

Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua

terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas

noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a mãe da creancinha, que

bebia um leite aguado de lagrimas.

Dez dias volvidos, por noite alta, entrava no mesmo casalejo Francisco Luiz

de Abreu, com uma ama de leite, e com a sua legitima materna n'um saco de

moedas de ouro.

Contemplou a formosura da peccadora, e a formosura do innocente nos braços

d'ella. Saudou-os, chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada do

seio.

--Como se chama o anjinho?--perguntou o academico.

--Tu o dirás--respondeu Antonio.--É teu afilhado.

--Seja Francisco--disse a mãe.

--Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-lhe o meu nome--observou o

academico;--mas tu sabes, Antonio, o resguardo que convém ter comvosco, com

este menino e comigo. O meu parecer é que se esconda quanto ser possa a

influencia que eu hei de ter na creação de teu filho. Melhor é que as

suspeitas do mundo, se ellas vingarem descobrir ligações d'esta creança

comigo, me julguem a mim, que não a ti, pae d'ella. O meu intento é alugar

uma casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. Não irei ser padrinho,

para não dar corte á desconfiança de que elle seja meu filho. Assim se irá

creando, até que eu conclua a formatura. N'este meio tempo, quererá Deus

que tu voltes a Portugal.

--Voltarei eu?!--exclamou Antonio, apertando no mesmo braço o amigo, o

filho, e a mãe, que estava lavando com lagrimas o rosto da creancinha,

deitada nos braços do estudante.--Ver-vos-hei eu mais?--balbuciou,

intallado de gemidos. Que futuros melhores posso esperar eu!? Como crês tu

possivel o termo da perseguição?...

--Não sei--disse Abreu, fingindo esperanças.--Não sei... mas as voltas do

mundo são tão espantosas... Todavia...--continuou elle com o alvoroço de

uma já sincera esperança--não te lembraste ainda d'uma felicidade

muitissimo possivel?

--Qual?--conclamaram os dois, para quem um raio de esperança era já cousa

de estontear como a luz do sol aos exhumados das trevas de longo

encarceramento.--Qual? que felicidade nos promettes, meu amigo?

--A mais obvia e facil. O que me espanta é que ella vos não haja sorrido

primeiro do que a mim. Ides para Hespanha, não é assim?

--Vamos.

--De lá passaes a Hollanda, onde achareis o abrigo que os nossos irmãos

deparam a quantos infelizes vão de cá acossados pelas tochas do auto da fé.

Tu, Antonio, és novo e robusto. Se não quizeres continuar os teus estudos

medicos lá fora, voltas a tua actividade para outra ordem de trabalhos:

fazes-te mercador, ganhas dinheiro, esqueces a patria, como se nunca a

tivesses, como em verdade não temos; depois, mandas ir o teu filhinho, como

complemento da tua felicidade na vida tranquilla.

--Que sonho!--clamou alegremente a filha de Fernão Cabral.--E eu nunca

pensára n'isso...

--Nem eu...--ajuntou Antonio.--Ha umas desgraças que esterilisam a mais

pensadora e expeditiva alma! Eu não via senão escuridade... Agora, bem

hajas tu, meu irmão, que me restitues á serenidade de homem inquebrantavel

por affrontas da sorte... E a ti, a ti, meu amigo? Não hei de eu mais

vêr-te?

--Porque não, se eu hei de ser propriamente quem te vá levar o filho?

--Oh! então já sei que ha o antever da perfeita felicidade, cá mesmo d'este

grande abysmo em que me lancei com esta infeliz menina...

E, abraçando-se n'ella, choravam ambos lagrimas já de jubilo, como as de

quantos naufragos que apegam sobre ponta de rocha, ainda quando ao

despegarem-se, para ganhar terra, voragens novas se lhes anteponham.

N'este dia, como se a adversidade cançasse de cruciar os dois fugitivos,

boa nova lhes chegou a sobredoirar os prazeres da esperança.

Sem embargo da raivosa perseguição do fidalgo de Bragança á inculpada

familia do hebreu, as leis não se dobraram a sentenciar a perdição dos

innocentes. Apoz dez mezes de masmorra na cidade da Guarda, os dois velhos

e seus filhos sairam livres, sob a bandeira misericordiosa dos dignitarios

da Sé, conjurados todos em deporem sobre a pura christandade dos presos, e

sua irresponsabilidade nas desordens do máo membro de sua familia.

Redobrada a exultação de Antonio com esta nova, queria já elle dispensar-se

de receber o emprestimo de Francisco de Abreu, como quem contava com sobejo

dinheiro de sua casa resgatada do sequestro. O amigo, porém, não

condescendeu nem o desquitou da obrigação de devedor, instando na immediata

saida de Portugal, porque a raiva do fidalgo redobraria de vigilancia,

depois da soltura dos presos em quem não podéra assentar em cheio a mão

rancorosa.

Prevaleceram as judiciosas previsões de Francisco Luiz. Áquella hora, de

feito, já Fernão Cabral, esporeado pelo odio, apertava novas diligencias

para descobrir o rasto dos fugitivos, e, mediante disfarçados espias que na

Guarda lh'os andavam furoando, não estava já longe de lhes descobrir o

rasto.

Ao outro dia, depois de muito chorar da mãe, a cujo seio arrancaram a

creancinha, Francisco Luiz, sem saber como se estancavam lagrimas de tão

puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com o menino, sem esperar as

ultimas despedidas.

Ao anoitecer d'este dia, os consternados paes, por serranias não trilhadas

endireitaram ás fronteiras e vingaram entrar em Hespanha. Contemplavam-se a

espaços, e viam nos olhos um do outro o desconforto, a desesperança, o

convencimento de que sua desgraça ia crescendo.

--E o nosso filhinho?...--dizia ella em gemidos, que pareciam um arrancar

da vida.

E elle cobria o rosto com as mãos, arquejava, engulia as lagrimas e não

respondia.

--Que mal fizemos em deixar a creancinha!--voltava ella, cruzando os braços

sobre os seios, que lhe doiam entumecidos do leite.--Que ruim mãe eu

fui!... Meu Deus, perdoae-me que eu sómente agora considero

a grandeza do meu crime!

--Não chores assim!--atalhava o attribulado moço. Pois como andarias tu

fugitiva com um filhinho de tres semanas! Ó Maria, por Deus te peço que nos

não atormentemos! Ajuda-me a ser homem! Ampara-me, pela boa sorte do nosso

filho te rogo que me ampares! Volta ao futuro os olhos de tua alma!

Esperemos... luctemos, sejamos fortes, não nos deixemos acabar aos golpes

d'esta saudade.

I

Informações

Corria o anno de 1697.

Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudára sua residencia para

Coimbra, esperançado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam

sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos

antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de

Ourem. Não tinham filhos; mas dos braços de um ao outro saltava um

menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho.

A creança tratava de padrinho o doutor, e á senhora chamava mãe. A

esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de

anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome

de mãe, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.

Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o

pequenino Braz era filho natural d'elle, e que Francisca de Oliveira,

bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito

entranhas tão christãs que levara para sua companhia o menino, e lhe

queria até á extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe

chamasse mãe.

Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem

fossem os paes d'aquella creança. A ama, que a tinha amamentado,

morrêra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o

destino d'elle.

Um dia, como a creança, antes de ir-se á cama, entrasse a beijar a mão

do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe:

--Não tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz?

--Pois sim, mãesinha--disse a creança, e saiu pela mão da creada.

Francisca proseguiu:

--Pois não é assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle é nosso

filho.

--Ó menina, respondeu o marido--esse convencimento parece-me difficil...

--Nosso filho gerado no coração...--tornou ella.

--Isso lá, sim; d'esse modo já eu o perfilhei; mas o peior é que ámanhã

podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua

maternidade de coração a reclamarem o que é seu legitimamente.

--Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes ainda imaginar que elles

vivem? Ha tres annos que não temos uma carta d'elles!

--Mas tambem não recebemos a certidão de obito.

--Pois sim,--redarguiu Francisca--mas, se elles vivessem, as pessoas de

Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; não t'as

dariam, ainda mesmo que lhe não soubessem os verdadeiros nomes?!

--Acho-te razão; porém, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos.

O mais certo é o que eu tantas vezes te tenho dito...

--Que Fernão Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?

--Sim.

--Não creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a

parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. Cá, ninguem me tira a

mim da cabeça, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do

fidalgo os mataram lá por fóra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de

desgraça chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado

succedeu com tantos irmãos nossos.

--Póde ser--obtemperou Francisco Luiz;--mas teriam coragem de matar-se

uns paes que deixavam esta creança?!... Não é possivel! A ultima carta,

que recebi de Antonio, aqui está--disse elle, tirando-a do segredo de

uma gaveta--é de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. Não se

queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito,

que é signal de boas avenças com as miserias da vida. Diz que está em

arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se

trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle,

talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver

definitivamente resolvido, e depois...

--Mais nada--atalhou Francisca--Ora, no Canadá, já sabemos que elles não

estão. N'outras colonias, tambem tu já sabes que ninguem os viu. Que

havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres

annos?

--Que as cartas me são roubadas--insistiu o doutor.

--E tu a teimar, homem!... Oxalá que eu me engane; mas, se adivinho,

Deus sabe que o menino está amparado, e que ha de ser sempre meu filho,

ainda que o senhor me dê muitos filhos.

--Suicidarem-se!--proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de

absorvido em suas cogitações, não ouvir a esposa--Suicidarem-se não póde

ser... Antonio Mourão graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e

de lá passou para Hollanda. Um medico não chega a encarar com tão feia

miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em

qualquer parte acharia pão, ainda que fosse máo physico; porém, com os

talentos d'elle, não posso conceber máo medico. Seja o que fôr,

Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha.

Hei de perguntar em que época e em que navios sairam colonos, e para

onde sairam. Não o fiz até agora por medo que as minhas cartas andem

espiadas, e vão dar ás mãos de Fernão Cabral. Mas vou escrever ao nosso

amigo Francisco de Moraes Taveira, que está em Lisboa de viagem para

França, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irmãos de

Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de Sá Mourão.

Francisca entrou á alcova do menino, e sentou-se-lhe á beira do catre a

contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espaços, na rosa

entre-aberta dos labios.

Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo

Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de

pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia.

Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado

a França, iria indagar pessoalmente a Marselha, e não pouparia despezas

com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasião, lhe

noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que lá

se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina

em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: «Não sei se érro em trazer

o rapaz para Portugal; mas a mãe insta, chora, e definha-se a termos que

receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o

que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da

vida, me attenda.»

Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que não trouxesse

para Portugal, como victima amarrada para o açougue, o pobre rapaz que

lá fóra vivia sem receio da polé e da fogueira. Pintava-lhe, sem

encarecimento, os perigos que ameaçavam em Portugal um rapaz creado e

educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e

destemidamente o seu pensar em coisas de religião. Recordava-lhe as

numerosas victimas da inquisição, que preferiram morrer a desconfessar

sua fé, antepondo a gloria do martyrio da idéa herdada de avós á

hypocrisia de aceitarem apparentemente a religião dos carniceiros filhos

de Domingos de Gusmão. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel

Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, não obstante,

garrotado e queimado na praça da Ribeira em Lisboa no anno de 1652.

Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o

advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serrão[3] e outros, cuja

inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes

custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga

torrente de lagrimas.

As reflexões do medico abalaram o judeu; mas não lhe demudaram a tenção.

Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar á

patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e

instancias da mãe; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do

clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era sósinho a querel-o

afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, até

que deliberou trazel-o de volta da sua excursão mercantil a França e

outras nações.

De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu.

Dizia que Antonio de Sá Mourão, convidado com grandes lucros a ir

estabelecer-se como medico no Canadá, ou Nova França, aceitara a

proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no

prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios,

carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e

fôra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de

flibusteiros, conhecidos como _demonios do mar_, na linguagem da

peninsula britannica, faziam aguada n'uma bahia d'aquella infamada

costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas,

capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle.

Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o

medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia,

algumas das quaes se presumia que tinham caido nas mãos dos flibusteiros

segundo informações de um galeão hespanhol, que das pessoas embarcadas

no navio perdido, até áquella hora, não viera noticia a França.

Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse á esposa.

--Tinhas adivinhado desgraçadamente! O nosso Braz já não tem pae nem

mãe. Agora podemos dispor do futuro d'esta creança. Vê tu que funesto

remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! Já não ha

duvidar... Estão mortos! Batam as mãos os gallileos, e folguem de ver

que vingaram as ondas o que as lavaredas não poderam! Oh!... que vontade

eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e

contar-lhe as desgraças de seus paes.

--Não--atalhou Francisca--não lhe digas nada; não digas! Que lucra elle

em saber isso?... Vaes semear-lhe no coração odios e paixões que, no

futuro, lhe podem ser a sua perdição. Nem se quer lhe digas em tempo

algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este condão

funesto!

II

Não era mãe!...

No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter

o ouvido fito aos rumores surdos da inquisição, recebeu mui secreto

aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio,

qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se

nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a

entender que pertencia mais ou menos á seita maldita; ou, como diziam,

tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se

para trabalhos grandes.

Alvoroçado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e

refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a

profissão de boticario, no Fundão, até ao anno de 1652, em que fôra

queimado o capitão Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo

Pedro Lopes.

Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga alguns parentes e amigos, que

podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe,

porém, que visitasse as egrejas com frequencia, e désse bem publicas

demonstrações de sua piedade.

Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui

violentada se prestasse a uma ostentação hypocrita, da qual a credula

israelita se penitenciava com muitos jejuns e orações.

Decorridos mezes, fez-se auto da fé, e n'elle saiu condemnado a prisão

illimitada um Fernão Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa

d'este christão novo era o ter-se descaminhado e caido nas mãos dos

inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz

d'Abreu, lhe escrevêra de Damasco. Esta carta indirectamente ameaçava a

tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a

tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia

conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade.

Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam

motivo para condemnarem Fernão Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho

manuscripto que possuimos, chamado _Memorias de Francisco Soares

Nogueira_, encontramos trasladada a carta, cuja copia não vem descabida

ao ponto; e, se mais não vale, tem por si o merito de nos dizer como os

boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipulação dos

ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a

inspiração com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica.

Dizia assim a carta:

Oh Fernando, oh Fernando,

até quando

ha de durar teu descudo,

entre o povo torpe e rudo?

Que serve estar aguardando?

Sabes a banda d'além...

e o que convem.

Quem se agarra, quem se afferra,

deixa o monte, deixa a serra,

e ao valle seguro vem.

Não vês como arde esse matto,

mentecato,

que pouco a industria val?

Antes que chegue ao casal,

levanta cabana e fato!

Não sejas aventureiro,

que o toureiro

_sim_ (?), morre em seu officio.

Mais val ter outro exercicio,

que fundar em ser ligeiro.

Por que não queres ser forro?

Eu morro,

por não haver quem te arranque!

Se pódes vêr de palanque

por que queres andar no corro?

Tambem eu estive lá,

e sei o que ha;

tudo passei, tudo vi.

Não se incerra o mundo ahi;

melhor mundo vae por cá;

o pão é cá mais ensôsso,

e a carne sem chambão;

tambem cá se ganha pão,

e não com tanto sobr'ôsso.

A gente é cá sem reima,

de menos teima;

a terra fructos produz,

e o sol dá cá mais luz,

posto que tanto não queima.

Digo-te verdade mera:

considera;

e, se queres ter descanço,

vem buscar o rio manso,

foge do mar que se altera;

foge do lago e da cova,

cousa nova,

e só n'isto me obedece.

Mova-te o proprio interesse,

quando o grão Deus te não mova;

que os lobos como rodeiam

sempre pream.

Divulgou-se a carta, depois do auto da fé. O doutor Abreu, assim que a

viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas

punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos

dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porém,

como se a hypocrisia lhe não désse caução bastante segura, o lente de

medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de

fugir, sem dar ansa aos espias.

Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisição cada vez mais

desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, não menos vigilante

que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus

haveres ao estrangeiro.

O pequeno Braz era-lhe empêço. Não sabia elle se devia levar comsigo a

creança. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se,

tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do

pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito á creança;

mas não era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se

viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Então lhe seria a ella

bom de comprehender que sómente é mãe aquella que sentiu as dôres da

maternidade.

--Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?--perguntava

Francisco Luiz á mulher.

--Se o podessemos levar sem difficuldade...

--Não podemos, por que eu já desconfio que nos será negado o passaporte.

Temos de fugir; e escapar com uma creança desembaraçadamente ninguem o

faz. Bem sabes que nossos avós matavam os filhos que lhes retardavam e

denunciavam a fuga.

--Deixa-se em casa dos nossos parentes--tornava ella.

--Isso é sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz é considerado meu

filho--observou o doutor.

--Tenho uma boa idéa--ajuntou elle--entreguemol-o a Francisco de Moraes,

de Villa Flor, que sabe a historia d'esta creança, e lhe ha de servir de

pae com os sobejos da sua riqueza. Não ha tempo a perder. Vou

escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze

dias.

Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe

ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphãosinho filho do

desventurado israelita, que perdêra provavelmente a vida, quando cuidava

ganhal-a com honra.

Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da

creança, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o

menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias

desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua mãe. Já ella pedia ao

marido que não deixasse o menino; vacillava já tambem o doutor; e, muito

instado da esposa e do coração, que a si mesmo se reprehendia, deliberou

resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a

passagem para outro reino.

Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua

patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou

na saida, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de

liquidação de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu

rapidamente negociára na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o

inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava

processo, quando o lente alli chegou.

Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisição,

Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra.

Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de

maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz

o hebreu de Villa Flor.

A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes

principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com

portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade

do piloto de uma nau portugueza destinada á India, introduziu no navio o

doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do

piloto. As arcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo

que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino

Braz, que dormia á hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe

nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.

Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela mãe. Ai! se ella o

fosse, não perguntaria o desamparadinho por sua mãe.

Respondeu-lhe um moço de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fóra

de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creança chorou em

silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as

caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.

Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fôra buscar a Amsterdam.

Heitor Dias da Paz distrahia a creança de seis annos com brinquedos

proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo.

Heitor quiz instituir-se mestre do _a b c_ do pequeno; mas as graças

infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito

rir vêl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela

casa no jogo dos esconderêlos.

Dentro em pouco, as lembranças dos fugitivos hebreus eram apenas

brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.

Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor,

e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mêdo de que, n'alguma

hora, a inquisição lhe quizesse galardoar a astucia no escape do

sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle as santas rezinas da

fé, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por cançado de

amontoar riquezas.

Assim se reuniram em felicidade ainda não experimentada, os paes de

Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orphão, que,

de muito amado que era, não sentia falta dos seus primeiros amparadores.

III

O faro das bestas-feras

Por espaço de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias

de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes não o

incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de

gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das

sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas

muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita

de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.

Decorridos, porém, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao

pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era já

pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes,

confiado na discrição do moço, concedeu-lhe licença. Heitor pediu que o

deixasse levar com elle o seu irmãosinho Braz Luiz, para, desde os dez

annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes á carreira da medicina.

A generosa lembrança foi applaudida pelos velhos, e o pequeno

agradeceu-a com lagrimas de alegria.

Do pupilo ou, segundo as presumpções do vulgo de Coimbra, filho do

doutor Abreu, já ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, lá

voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino.

Apresentava-o como orphão pobrinho, cuja educação elle tomára a seu

cargo. O pequeno já tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e

quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou mãe, o filho de

Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas não

dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.

Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido

examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica,

sciencia que então reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de

Villa Flôr, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposições

que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores.

Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe

os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco

de perder-se.

Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com

precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que

liam no collegio a ignorancia do moço em doutrina christã,

interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o

educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem

resava por um livrinho de orações. Apresentaram-lhe diversos livros de

piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno

sentiu um bate no coração, comprehendeu instantaneamente o perigoso

d'aquelle interrogatorio, e saíu-se bem do aperto, indicando o

cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz

Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fôra

necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta

esperteza não enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram

logo em urdidura; e já as inquietas consciencias dos frades não levavam

as noites d'um somno.

No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applicação e extremado

engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e

contou ao pae a inquirição porque passára o menino sobre o cathecismo

christão. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho

que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias

engenhou razões para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno

de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim.

Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, já

cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia

atiladas; de modo que deu força ás suspeitas, mostrando estar apercebido

para destruil-as.

O Olho de Vidro · 第 1 / 11 段