B) _Ao paiz--Os impostos portuguezes e as suas applicações_.

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neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão

final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com

o original. No final deste livro encontrará a lista de erros

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Rita Farinha (Dez. 2008)

Á COLONIA PORTUGUEZA NO BRAZIL

A LUCTA CIVIL BRAZILEIRA

E O

SEBASTIANISMO PORTUGUEZ

POR

CUNHA E COSTA

ADVOGADO E JORNALISTA REPUBLICANO

PORTO

TYPOGRAPHIA DA EMPREZA LITTERARIA E TYPOGRAPHICA

_178, Rua de D. Pedro, 184_

1894

A LUCTA CIVIL BRAZILEIRA

[Figura]

Á COLONIA PORTUGUEZA NO BRAZIL

A LUCTA CIVIL BRAZILEIRA

E O

SEBASTIANISMO PORTUGUEZ

POR

CUNHA E COSTA

ADVOGADO E JORNALISTA REPUBLICANO

PORTO

TYPOGRAPHIA DA EMPREZA LITTERARIA E TYPOGRAPHICA

_178, Rua de D. Pedro, 184_

1894

ÁS HONRADAS MEMORIAS

do

Dr. José Falcão

a mais nobre figura moral do partido republicano portuguez

e de

José Chrispiniano da Fonseca

o melhor dos amigos,

o mais dedicado dos correligionarios e a mais brilhante intelligencia

da mocidade das escolas portuguezas em 1890-1891

D.

Estas paginas de propaganda

sincera e patriotica

O A.

_Aos Ex.^{mos} Snrs.

Dr. José Calmon N. Valle da Gama

e

Antonio Tavares Bastos

Dig.^{mos} Consul e Vice-Consul da Republica dos Estados-Unidos do

Brazil no Porto_

_Homenagem de muita estima

e consideração do

A._

A revolta de uma parte da armada brazileira, ás ordens do

contra-almirante Custodio de Mello, em 6 de setembro de 1893, encontrou

no sebastianismo portuguez o mais franco e decidido appoio.

A imprensa monarchica, na sua grande maioria composta de simples

salariados ás ordens dos depositarios das graças e dos benesses, sem as

condições de independencia necessarias a quem pretende escrever o que

pensa, aproveitou o ensejo para novas e torpes especulações, da natureza

d'aquellas a que deu azo a entrevista de Badajoz entre republicanos

hespanhoes e portuguezes. Por seu turno, o jornalismo democratico,

imperfeitamente informado e receioso de errar em face das noticias mais

absurdas e contradictorias, não poude, a principio, desmascarar, como

lhe cumpria, os manejos indecorosos que, á sombra de uma bandeira mal

definida, os sebastianistas de aquem e de além-mar iam urdindo na treva

contra as novas instituições brazileiras.

Só quem por dever de officio conhece a imprensa monarchica portugueza, o

seu pessoal e os seus processos de combate, poderá fazer uma ideia clara

e nitida dos extremos de villania a que aqui se desce para, _à

outrance_, defender a realeza expirante e os interesses a ella

vinculados. Nas questões internas como nos conflictos internacionaes, a

injuria, a calumnia, a insidia, a mentira, a ausencia absoluta de todos

os escrupulos, são materia corrente de uso quotidiano, e tão formal e

completo é o desprestigio d'esse jornalismo alquilado, que os seus

desmentidos ou negativas, por via de regra, são recebidos pelo publico

como a prova mais concludente dos factos ou das affirmações cuja

veracidade pretende contestar-se.

A acção perniciosa d'essa imprensa e dos seus agentes, não raro vae até

ao ponto de preparar ao jornalismo republicano verdadeiras ciladas,

cujos effeitos, só mercê de extrema reserva e de uma vigilancia

constante é possivel destruir. É frequente, por exemplo, receberem-se

nas redacções dos jornaes republicanos informações completamente falsas,

apadrinhadas por nomes suppostos e precedidas das expressões as mais

encomiasticas para a causa republicana e para os seus apostolos. D'aqui

as difficuldades de uma tal lucta e os excessos de prudencia a que nós,

jornalistas republicanos, somos obrigados, no cumprimento da nossa

missão nobre, honrada e patriotica.

Se assim succede em questões que se passam, por assim dizer sob os

nossos olhos, e cuja analyse e critica são relativamente faceis,

calcule-se o que succederá com acontecimentos que tem por theatro de

acção um paiz distante, estudado pelos portuguezes sob pontos de vista

mais ou menos mercantis e cuja evolução politica e social se exerce em

sentido diametralmente opposto ao desejado pelo systema que

providencialmente nos explora!

É para nós ponto assente que os Bragança-Orléans e respectivos

serventuarios, de mistura com todos os especuladores de bolsa

compromettidos na desenfreada jogatina dos ultimos tempos, se deram as

mãos n'esta campanha que parece terminada com a rendição do _ex-neutro_

sr. Saldanha da Gama. E porque muita gente o sabe, e porque o sabem o

governo e os republicanos brazileiros e porque sobre a colonia

portugueza no Brazil recahem as mais graves suspeitas, é necessario que

toda a verdade se diga, que luz se faça n'esta embrulhada, para que a

parte honesta, viril e sã do povo portuguez não venha a soffrer as

deploraveis consequencias da inepcia de uns, da insania de outros, da

ignorancia de não poucos e dos interesses inconfessaveis da maior parte.

Não consiste o patriotismo em occultar sob apparencias enganosas e

falsas como europeis de saltimbanco as culpas, os erros e os crimes das

instituições que ainda nos regem e dos que á sombra da sua impunidade

protectora nos conduziram á ruina, á miseria e á ignominia;--dos que

malbarataram os recursos nacionaes e fizeram com que o nosso nome e o

nosso credito fossem arrastados pelas praças e esquinas dos grandes

centros de actividade e de riqueza em _placards_ insultantes;--dos que

pouco a pouco fôram corrompendo este organismo a que pertencemos,

fazendo-lhe perder o culto das praticas civicas, adormentando-lhe as

energias, prostituindo-lhe a individualidade e o caracter;--dos que

arvoraram em systhema de administração o binario conjugado do imposto e

do emprestimo e o processo governativo da compra das consciencias

alquiladas a peso de ouro;--dos que, impotentes para conter por mais

tempo a indignação popular e os clamores de protesto, rasgaram

violentamente o pacto constitucional, supprimindo de facto as liberdades

publicas, o direito de reunião, o direito de associação, a livre

faculdade de interpetrar pela palavra e pela penna a vontade

nacional;--dos que collocaram a grande familia democratica fóra da

legalidade, burlando o suffragio, roubando o voto, fusilando o

eleitor;--dos que, ao cabo de largos annos de recurso ao credito, deixam

o paiz sem defesa, com um exercito sem soldados, e as colonias sem

garantia, com uma armada sem navios!

Não. Não consiste n'isto o patriotismo. Antes julgamos que só a

exposição clara e leal de tantos erros, de tantas miserias e de tamanhos

crimes poderá ainda accordar n'este povo, tão glorioso outr'ora, tão

abatido hoje, o remorso da sua quasi cumplicidade e um supremo esforço

no caminho da reacção e do protesto.

Essa exposição vamos fazel-a, no cumprimento de um dever e no uso

legitimo de um direito.

De facto, á obrigação de como patriotas e republicanos separarmos as

nossas responsabilidades das dos fautores da nossa ruina, accrescem

ainda circumstancias especiaes que passamos a explanar.

Fomos nós quem, desde o começo da revolta, sustentamos a sua

illegitimidade, em successivos artigos publicados no jornal _A Voz

Publica_, cuja direcção politica então nos pertencia.

N'esses artigos, escriptos com a maxima convicção, lealdade e

DESINTERESSE, lamentavamos que portuguezes se associassem aos manejos

sebastianistas, preconisavamos a necessidade da nossa colonia se

inspirar nas novas ideias de progresso e ordem, appoiando os apostolos

da causa republicana no Brazil e creando entre os partidarios das

instituições implantadas em 15 de novembro uma forte corrente de

sympathias, que mais tarde poderiam constituir uma solida fonte de

vantagens para o nosso paiz, uma vez n'elle estabelecido o regimen

republicano.

Como porém n'esses artigos, por força de argumentação, fomos obrigados a

expôr, ainda que ao correr da penna, as miserias, as ruinas e os vexames

a que a monarchia arrastou a nossa querida patria, alguns compatriotas

nossos, residentes no Brazil, lembraram-se de accusar-nos de _falta de

patriotismo_, o tal patriotismo que consiste em calar o opprobrio,

occultar as faltas e deixar impunes os grandes criminosos... só porque

são portuguezes!

Eis o que nos leva a formular umas ligeiras considerações sobre o

assumpto, despretenciosas mas verdadeiras, e hoje mais do que nunca

opportunas.

* * * * *

Muitos dos nossos compatriotas que emigraram para a republica dos

Estados Unidos do Brazil, anteriormente ao _ultimatum_ de 11 de janeiro

de 1890, só imperfeitamente conhecem as actuaes condições de existencia

da politica e da sociedade portugueza.

De facto, até essa data funesta, o medonho descalabro a que hoje

assistimos, presos de fundado terror, conservava-se ainda latente, mercê

de circumstancias que não vem para aqui ponderar, e o espirito publico

só em percentagem minima acceitava os receios e as previsões pessimistas

da imprensa republicana.

Viciada pela educação mais corruptora e anti-patriotica, a opinião,

sempre confiante e desinteressada dos acontecimentos, taxava de

exageradas as gravissimas accusações por nós vibradas contra o regimen

vigente, e julgando um pouco difficil o estado do paiz suppunha no

entanto que essas dificuldades poderiam demover-se pelo emprego dos

expedientes usados com exito até ahi.

Pode dizer-se que a vida politica da nação, antes do _ultimatum_, se

concentrava em um pequeno nucleo de firmas conhecidas, bastante

desacreditadas já, mas protegidas pela indifferença publica e pela não

revelação dos graves erros, attentados e crimes, até ahi cuidadosamente

occultados e que mais tarde vieram a tornar-se do conhecimento de todos.

D'esta indifferença, d'esta ignorancia, partilhavam os nossos

compatriotas residentes no Brazil e, desde então, longe do local dos

acontecimentos, dos centros de illustração e propaganda e absortos no

labutar insano da sua existencia consagrada ao trabalho, muitos

persistiram nos seus erros, não obstante o estendal de torpezas

desenrolado aos olhos do paiz.

Serve isto para explicar até certo ponto o mal dissimulado antagonismo

de certos elementos da nossa colonia contra o advento da forma

republicana no Brazil, e o errado ponto de vista sob o qual foi por

elles interpetrada a nossa attitude em face da revolta de uma parte da

esquadra brazileira, revolta que, a principio dissimulada sob uma tenue

camada de verniz democratico, se tornou depois, com a adhesão de

Saldanha da Gama, francamente restauradora de instituições condemnadas e

proscriptas.

A grande maioria dos nossos compatriotas, sympathica á causa dos

revoltosos, procedeu, quanto a nós, com inteira boa fé. Homens simples,

por via de regra estranhos ás veredas, tortuosas da politica portugueza,

ausentes no Brazil desde uma epoca em que Portugal apparentemente

gravitava na orbita regular das nações de vida equilibrada, honesta e

prospera;--mal podendo distrahir da sua vida de esforço e de trabalho o

tempo necessario para inquirir dos recentes acontecimentos, analysal-os,

critical-os e d'elles formar um juizo seguro, esses portuguezes, aliás

movidos pelo mais nobre e respeitavel dos sentimentos, vivem n'uma

patria psychologica, n'uma patria ideal, a que corresponde uma realidade

objectiva terrivelmente desoladora!

A par d'esta boa gente, sincera, leal, bem intencionada, ha por certo

alguns especuladores, actuando, quer por interesses proprios de baixa

esphera, quer por instrucções de mandantes vinculados á cevadeira

monarchica portugueza. Mas esses são bem conhecidos e a sua punição

deixar-nos-hia indifferentes, senão jubilosos.

É necessario porém, é mesmo indispensavel, que os interesses geraes do

paiz, que os interesses dos nossos compatriotas residentes no Brazil,

não venham a soffrer da inepcia, da insania ou dos intuitos

inconfessaveis de alguns especuladores professos; é mister que a nossa

colonia, tão honrada e tão trabalhadora, esclarecida pelos que tomaram a

seu cargo cooperar na creação de um novo Portugal, digno de grandiosas e

quasi esquecidas tradicções, crie no seio da grande republica um forte

nucleo democratico, a um tempo solidario no movimento progressivo da

poderosa Federação sul-americana e auxiliar importantissimo do movimento

democratico portuguez.

É no desempenho d'este nobre papel, d'esta missão verdadeiramente util,

que a colonia portugueza no Brazil póde prestar á sua patria o melhor

dos serviços.

* * * * *

A normalidade da vida portugueza não póde hoje prescindir da cooperação

e auxilio da Republica dos Estados-Unidos do Brazil.

É n'esse paiz que está porventura o futuro da nacionalidade portugueza,

se um dia esta, accordando emfim para a consciencia e posse dos seus

destinos, e fazendo um supremo appello ás energias que ainda lhe restam,

se resolver a iniciar uma nova existencia de trabalho e de probidade,

readquirindo um nome que perdeu e rehabilitando uma firma que lhe

deshonraram.

Nem a Inglaterra, nem a França, nem a Hespanha, nem a Allemanha, para as

quaes a phantasia, a inepcia ou o interesse dynastico se tem voltado,

nas occasiões afflictivas, como protectoras ou cointeressadas,

representam um elemento solido e efficaz de auxilio e cooperação.

Ruinosas umas, restrictas outras a interesses limitados, subordinadas

quasi todas a considerações que por completo lhe alteram a possivel

utilidade e expansão, e ainda a melhor dependente de um futuro remoto

postoque fatal, essas allianças, convenios, tractados ou accordos, não

representam por fórma alguma elementos vinculados ao regular

funccionamento do nosso organismo politico, social e economico, forças

componentes d'esta resultante a que se chama a vida autonoma da nação

portugueza. São ephemeras, heterogeneas e repugnantes ou pairam ainda

nos dominios da aspiração doutrinaria, remotamente exequivel.

Já assim não succede com o Brazil, cuja solidariedade comnosco se impõe

pela identidade de raça, de lingua, de costumes, de tradicções,

continuada desde o periodo da colonisação e affirmando-se a cada

momento, ainda nas phases de maior antagonismo entre o elemento nacional

e o migratorio portuguez. Tradicções que mais não podem apagar-se,

semente que mais não pode perder-se, como nas antigas colonias

hespanholas se não extinguiu nem extinguirá nunca o fundo castelhano.

Factor que a emigração constante a cada momento renova e mantem vivo e

brilhante, nas relações da ordem civil e commercial, na arte, na

industria, na sciencia, pela communhão intellectual permanente entre

portuguezes e brasileiros, pela cultura acurada d'essa lingua commum,

tão bella e tão sonora.

«Ao lado da America germano-saxonia, com o seu genio practico e

utilitario, ficará a America do sul aos povos que descobriram ambas e

todo o resto do mundo desconhecido. Nem a falla nobre do castelhano, nem

a grave lingua portuguesa se perderão, como accaso viria a succeder se o

imperio peninsular não tivesse sahido da Europa.»[1]

Sómente essa communhão, essa ampla fraternidade, que se impõe a todos os

espiritos verdadeiramente interessados na prosperidade da patria

portugueza, tem sido, principalmente desde o 15 de novembro, sacrificada

a mesquinhas considerações de interesse dynastico, ao empenho, hoje

criminoso, de manter em Portugal uma instituição condemnada em nome da

civilisação e em nome da dignidade e do credito portuguez, horrivelmente

compromettidos pelos que á sombra d'essa bandeira prostituida se

locupletaram fartamente.

Desde o 15 de novembro que os governos e a imprensa monarchica

portugueza hostilisam surdamente a actual ordem de cousas no Brazil,

causando com esse procedimento, que é a mais detestavel das politicas,

prejuizos incalculaveis ao nosso paiz.

A comprovação d'estas asserções é extremamente facil. Só poderá pôl-as

em duvida quem nem sequer se dê ao incommodo de lêr a imprensa diaria.

Ora o governo brazileiro sabe isto. Ora os homens publicos do Brazil tem

d'esta campanha o mais perfeito conhecimento, além dos episodios de

caracter gravissimo que nós só imperfeitamente podemos explanar e que,

entre outras consequencias vergonhosas para nós e em extremo

prejudiciaes, deram logar á retirada de um ministro portuguez no Brazil.

Mas o governo brazileiro, mas os homens publicos do Brazil, sabem tambem

que com elles está de alma e coração o partido republicano portuguez,

que esse partido tem a seu lado a parte nobre, honrada e sã dos nossos

compatriotas, e que a republica é hoje entre nós uma verdadeira

aspiração nacional. N'uma palavra:--na grande Federação sul-americana

não se ignora que, em Portugal, os amigos do Brazil, os seus

cooperadores dedicados e desinteressados, são os membros da grande

familia republicana, os unicos que vêem com o enthusiasmo sincero de

irmãos em crenças o assombroso progresso d'essa terra hospitaleira que

para os portuguezes foi sempre uma segunda patria.

Como se explica essa guerra intransigente movida contra as novas

instituições brazileiras pela monarchia portugueza, guerra manifestada

na imprensa officiosa por uma fórma inequivoca, que por vezes assumiu um

caracter em extremo imbecil e inepto, e cuja insania não trepidou

perante a propria intervenção dos agentes officiaes?

Facilmente.

Para as instituições que implacavelmente nos exploram e arruinam, um dos

maiores senão o maior pesadelo é a existencia de um Brazil republicano,

cuja influencia contribue em grande parte na obra demolidora que ha

muito encetamos contra essa monarchia, que nos levou á miseria,

deshonrando-nos ainda por cima.

O 15 de novembro foi um golpe fatal para a grey monarchica. Trouxe ás

ideias democraticas um enorme prestigio, innumeras e valiosissimas

adhesões, estreitou o affecto que já prendia os republicanos d'aquem e

d'além Atlantico, creou sympathias, solidariedade, auxilio e protecção.

Essa influencia benefica foi-se accentuando rapidamente, á medida que

crescia tambem nos serventuarios da realeza a surda hostilidade contra a

nova republica.

Vê-se que a monarchia comprehendera o perigo. Somente, n'esta como em

identicas questões, poz completamente de parte os mais sagrados

interesses nacionaes para apenas se preoccupar com o egoismo do que

ella, a misera, suppunha ser o interesse da propria conservação! Foi o

que a perdeu! Comprehendendo o perigo, não soube conjural-o pela

tactica, pela habilidade, pela finura. Tambem, não admira! De ha muito

que as instituições deixaram de ser appoiadas pelos estadistas para só o

serem pelos aventureiros!

Desde esse momento o seu caminho estava nitidamente traçado, e começou

então essa campanha tenaz de intriga, de injuria, de insidia, de

calumnia, em que a par das maiores falsidades se debitavam as maiores

torpezas;--essa campanha levada a cabo pela sanha partidaria e pelo ouro

de especuladores compromettidos;--esse libello soez, cuja villania só é

egualada pela inepcia e que não trepidava em publicar como oriundos do

Rio, Buenos-Ayres, Londres e Paris, telegrammas forjados nas proprias

redacções.

Um exemplo bastará.

No dia 13 de março, quando já era perfeitamente conhecida em Portugal a

rendição de Saldanha da Gama, o _Correio da Manhã_, celebre pelos

telegrammas varios sobre a revolta, recebidos dos _seus correspondentes_

de Paris, Londres, Rio, Buenos-Ayres e não sabemos tambem se de Pekin e

Massuah, publicava o seguinte:

«Correu ante-hontem em Lisboa o boato de que o governo recebera um

telegramma em que se lhe noticiava que o almirante Saldanha da Gama

havia deposto as armas e procurado abrigo a bordo da corveta

_Mindello_.

Achamos tão extraordinario aquelle boato, em vista das ultimas

noticias recebidas, que não o quizemos reproduzir, e ante-hontem

mesmo, telegraphamos ao nosso correspondente em Buenos-Ayres,

pedindo-lhe esclarecimentos sobre os boatos terroristas espalhados

em Lisboa.

A resposta, que só hoje nos foi annunciada, publicamol-a adeante em

telegramma».

Eis o telegramma:

«_Buenos-Ayres, 13, 12 h. e 20 m. da t._ (Ao _Correio da

Manhã_)--*Não se acredita aqui rendição Saldanha. Bombardeamento

recomeçará ámanhã. Conta-se com victoria insurrectos*».

Ora uma causa que tem d'estes _defensores_ é evidentemente uma causa

perdida!

Nem todos porem encaram estas e identicas prosas com o soberano despreso

com que nós, que lhe conheciamos a proveniencia, as recebiamos.

Assim, a attitude dos elementos portuguezes que mais ou menos

ostensivamente se associaram á tentativa restauradora, creou entre o

nosso paiz e os homens publicos do Brazil profundos antagonismos que

poderão não explodir com extrema violencia, mercê de circumstancias que

não vem para aqui ponderar, mas que existem, mas que são uma realidade a

que cumpre attender, e que só poderão sanar-se integralmente no dia em

que Portugal, fazendo justiça imparcial mas severa e plena, banir do seu

solo depauperado uma monarchia odiosa e odiada e a turba multa dos

vampiros e sanguesugas, que sob a sua egide protectora, prosperam,

tripudiando sobre o pouco que ainda resta das velhas fontes de riqueza.

Se queremos estreitar com o Brazil os laços que os principios e os

interesses aconselham e dos quaes _absolutamente carecemos_, façamos a

*Republica Portugueza*, tornemo-nos um povo livre, honrado e digno como

é o Brazil, emancipemo-nos de tutelas odiosas e arruinadoras e chamemos

a contas a ignobil camaradilha que com incrivel impudor nos roubou a

bolsa prostituindo-nos a dignidade.

Eis a obra patriotica. O resto são devaneios, chimeras, insufficiencia

mental ou reincidencia no erro e no crime.

* * * * *

Ignoram os nossos compatriotas residentes no Brazil os extremos de ruina

a que as administrações da monarchia arrastaram esta Patria querida,

esta Patria que elles invocam a cada momento nas suas cartas, nas suas

orações e até nos seus sonhos.

Se soubessem a verdade, se conhecessem a extensão do attentado e a

profunda ignominia dos criminosos, talvez que o seu criterio se

modificasse, convertendo-se em odio feroz, em raiva indomita, contra os

auctores de tamanhas torpezas e contra a instituição que lhes garante a

impunidade.

Vamos, porem, no cumprimento da nossa missão de propaganda sincera e

honrada, dar-lhes uma ideia, ainda que leve, dos factos que em appoio

dos principios justificam e amplamente legitimam a existencia do partido

republicano portuguez.

Não recorreremos para tal fim aos nossos publicistas, aos nossos homens

publicos, á imprensa partidaria. Poderiam as nossas palavras ser

arguidas de _chauvinismo_ jacobino e não faltaria quem, sob essa côr,

pretendesse desvirtuar-lhe a importancia.

A grande maioria dos nossos compatriotas residentes na republica dos

Estados-Unidos do Brazil dedica-se ao commercio. É o commercio, é o

trafego mercantil, a sua maior fonte de lucro e de riqueza.

Pois bem, para comprovar as nossas affirmações, é ao commercio que

recorreremos tambem, á exposição das suas queixas, ás suas proprias

palavras. É o honrado corpo commercial de Lisboa, appoiado pelos seus

collegas de todo o paiz, quem vae responder-nos.

Não poderiamos ter escolhido origem mais insuspeita! O commercio, como

collectividade, não tem côr politica, não milita sob bandeiras

partidarias. Completamente independente e alem d'isso de caracter por

via de regra conservador, as suas declarações não podem deixar de ser

tidas e havidas na maior consideração.

* * * * *

A doutrina que vamos expôr contem-se em duas representações da

Associação Commercial de Lisboa, dirigidas, a primeira á Camara dos

dignos Pares do Reino, em julho do anno findo e a segunda ao gabinete

portuguez, em janeiro do corrente anno, tendo respectivamente por

titulos:

A) _Representação da Associação Commercial de Lisboa á Camara dos

dignos Pares do Reino_.

B) _Ao paiz--Os impostos portuguezes e as suas applicações_.

N'esses documentos, impressos e largamente distribuidos, analysa-se a

traços rapidos mas seguros a lastimosa situação a que chegamos.

Qual ella seja vamos vêl-a.

Tem a palavra os commerciantes portuguezes.

A

...........................................................................

--É preciso dinheiro,--grita-se em toda a parte; pede-o o illustre

ministro da fazenda, que pretende equilibrar o orçamento do estado, e,

n'este afanoso empenho, _tributa-se com a mesma irreflexão com que se

tem esbanjado milhares de contos de réis_.

Pois muito bem, como membros d'uma collectividade, e das que mais paga

para o thesouro, e como cidadãos portuguezes, assiste-nos tambem a nós

agora o direito--e duplo direito--de dizer bem alto a todo o paiz onde é

que ha de ir procurar-se esse dinheiro, sem aggravar as classes

trabalhadoras, augmentando a miseria e a fome publicas.

Terá de ser talvez um pouco longa esta exposição, mas a quem quer que a

leia, que o faça a espaços, como se a pequenos goles bebesse um copo de

agua enregelada; mas que a leia em todo o caso, para que lhe não reste

no futuro--_e futuro que se nos antolha proximo_--o direito de dizer que

ninguem o advertiu.

De ante-mão prevenimos tambem que no que vae lêr-se não ha calculos que

malsinem as nossas palavras, nem politicas subjectivas d'um partidarismo

anniquilador, que ensombrem a nossa conducta; _olhamos n'este momento

por cima de todos os partidos e de todas as politicas para os horisontes

da patria_.

...........................................................................

Ha duas grandes divisões na população do paiz:--d'um lado estão os que

pagam, do outro os que recebem, com a aggravante de serem aquelles em

muito maior numero do que estes.

_De ha muito que as fontes de receita publica se reduzem ao imposto,

emprestimo e pautas das alfandegas, sem que até hoje ninguem tenha

pensado em criar outras._

A agricultura, a decantada agricultura d'este paiz _soi disant_

agricola, _jaz no mais desolador abatimento_, por falta de braços; e no

balanço geral da Europa, Portugal apresenta na sua producção uma media

annual de cinco decalitros por habitante. Isto segundo calculos

realisados em 1890, calculos mais ou menos provaveis, visto que da parte

do grande productor ha sempre uma certa reluctancia em fornecer dados

para a estatistica, por motivos faceis de comprehender, se nos

lembrarmos de que ha uma entidade official que se chama--_escrivão de

fazenda_.

Em nome d'uma falsa protecção, e desprezando o § 23 do artigo 145 da

Carta Constitucional, que bem claramente estabelece garantias ao

trabalho nacional, transforma-se o Estado arbitrariamente, por decreto

dictatorial, em monopolisador de farinhas, as fabricas matriculadas

monopolisadoras de trigos estrangeiros, e obriga-se o consumidor a

comprar o trigo nacional pelas tabelas officiaes.

...........................................................................

O commercio torna-se dia a dia mais difficil. _Ao descredito que no

estrangeiro ganhou Portugal, graças á irreflectida administração que tem

tido nos ultimos annos, junta-se a miseria nacional_ e os córtes de 30

por cento nas inscripções, o que veio a cercear os interesses de muitos

particulares, de muitos estabelecimentos, de orfãs e viuvas, os quaes

todos por lei foram obrigados a converter em titulos de divida publica

os seus haveres.

_Durante o ultimo anno, cerca de quatrocentos estabelecimentos

fecharam_, por não realisarem transacções que lhes dessem para viver,

quanto mais para pagarem as pesadissimas contribuições que já oneram o

commercio.

...........................................................................

Na propria rua Garrett (Chiado), rua do Oiro, e outros verdadeiros

centros do mais importante commercio, apparecem hoje estabelecimentos

com escriptos, que ninguem arrenda, quando ainda ha pouco tempo, só pelo

trespasse da chave d'essas lojas se davam contos de réis!

O proprio commercio de vinhos--principal fonte da nossa receita e

principal genero da nossa exportação--está a definhar-se, pelas doenças

dos vinhedos.

Gados não os temos com abundancia, por falta de pastagens. Importamos do

estrangeiro em média annual 34:000 cabeças de gado vaccum. Como se não

nos bastassem todas estas desgraças, ainda as ultimas tempestades vieram

reduzir á fome numerosas familias.

_A industria nacional, mal começa a viver, é carregada de tributos,

porque entre nós só se procura o que mais ha de ser tributado, e a

industria morre_, semelhantemente á árvore que o inexperto lavrador

começa de tronchar, ainda antes de ella dar fructo: de fórma que, á

proporção que a contribuição industrial vae subindo, a materia

collectavel vae desapparecendo. Provam-no as ultimas estatisticas. E

todavia os nossos financeiros, os nossos homens publicos, nem sequer

reparam n'este gravissimo prejuizo; preoccupa-os demais a ancia de

lançar tributos sem curarem das desastrosas consequencias d'esses

tributos.

_Para maior descalabro do nosso meio, a emigração torna-se assombrosa_;

avoluma de instante para instante: assim a classe média desapparece,

porque não tem no paiz onde exercer a sua actividade, os capitaes

emigram tambem, porque _não ha ramo algum de commercio e de industria

que não seja em Portugal fortemente e vexatoriamente tributado_, de modo

que á emigração dos braços accresce a emigração de capitaes, e com estes

os grandes capitalistas e proprietarios, que vão fugindo para o

estrangeiro.

Os suicidios--outro symptoma de miseria e fome--augmentam cada vez mais,

confirmando assim o estado de minacissima ruina d'este desgraçado paiz.

E tudo isto é a consequencia forçada da orientação funesta que temos

levado.

Mas o que é mais pungente, é que não se muda de orientação. Agora mesmo,

obrigados a fazer humilhantes accordos com os nossos credores, ainda

continuamos vivendo com a mesma administração dos tempos em que o

dinheiro andava por ahi basto.

...........................................................................

Onde appareceu até hoje um só plano de administração publica tendente a

criar fontes de receita?

Ás difficuldades do thesouro, ás angustias da nossa miseria, acode-se

sempre com o imposto. Mas o imposto é impossivel subir mais. Nem o

commercio nem a industria podem satisfazer as contribuições que lhes são

lançadas. Demais veremos dentro de breve tempo algumas das fabricas, que

possuimos, fecharem-se, por não poderem realisar lucros só para

contribuições.

E cada fabrica que se fechar, vejam bem, representa centenares de

pessoas, que virão para a rua pedir aos governos que lhes dêem de comer.

_Teremos então a revolução da fome_, com todos os excessos que lhe andam

sempre inherentes.

...........................................................................

Isto não póde ser.

Portugal precisa de criar elementos de vida, precisa de arrancar das

condições do seu meio e das aptidões do seu povo a sua propria riqueza,

mas riqueza _que não póde ser esbanjada em alargamento dos quadros

burocraticos, para empregar mais 200 ou 300 afilhados; em desdobramento

dos corpos de exercito, para promoções rapidas de officiaes; em

remodelações de secretarias, para se criarem maior numero de directores

geraes_; em ampliações de cursos superiores, empiricos e não uteis,

pomposos e não positivos, que vomitam annualmente para a circulação

d'este meio pobrissimo centenas de diplomados em qualquer cousa, mas que

são outros tantos braços inuteis debaixo do ponto de vista da producção.

É para isto que devem dirigir-se as vistas de qualquer estadista, que

tenha a energia pombalina, para arcar de frente com todos estes cancros

da sociedade.

...........................................................................

Portugal, nos seus sete seculos de existencia como nacionalidade, nunca

soube infelizmente aproveitar os elementos de vitalidade que as

circumstancias lhe proporcionaram. Pouco depois de constituida a nação e

de affirmada, na revolução popular que acclamou D. João I, a consciencia

da sua força e da sua autonomia, veio a conquista e a exploração do

Oriente dar-lhe riquezas bastantes para enervar o povo pelo luxo e pela

submissão á côrte. E se é facto que n'essa epoca Lisboa se tornou o

emporio commercial do mundo, tambem é certo que da essencia de trabalho

e que da cohorte de escravos, de que se compunha em parte a população

fanatica e ignorante, resultou o grande abalo que feriu de morte o paiz,

na aventura phantasiosa de D. Sebastião.

Mais tarde, quando o Oriente já não dava bastante para os loucos

desperdicios, tivemos o Brazil, e quando o Brazil se emancipou, era

ainda a America do Sul que nos accudia nas nossas angustias. A corrente

de riqueza emanava d'aquelle paiz pujantissimo para Portugal, inapto

para o trabalho pelo fanatismo, em que o deixara a preponderancia

jesuitica, e pela subserviencia passiva, em que o lançara a inquisição.

_Aonde não chegavam as riquezas vindas do Brazil, era supprido pelos

successivos emprestimos, que se realisavam sempre com o falso pretexto

dos melhoramentos, em nome das exigencias da civilisação, melhor se

diria pelas necessidades da politica._

Foi em nome d'este principio que se contrahiram fabulosos emprestimos, a

mór parte dos quaes voltavam para os paizes d'onde tinham vindo, porque

os engenheiros incumbidos d'esses grandes melhoramentos eram

estrangeiros.

As nossas escolas superiores teem sido prodigas apenas em bachareis em

direito, e todo o nosso ensino dá como resultado uma grande desegualdade

entre a instrucção primaria e media, e a instrucção superior.

_Os melhoramentos publicos custaram-nos por tanto milhares de contos

mais do que devem ter custado n'outro paiz_, onde a instrucção seja

essencialmente pratica e positiva, e onde se gaste menos com o pessoal

technico e dirigente, para se dispender em trabalhadores. _E se não,

vejam em qualquer orçamento, se dois terços da verba, destinada, a um

determinado melhoramento, não é sempre consumida por engenheiros

directores, sub-directores, inspectores e sub-inspectores, fiscaes e

sub-fiscaes, olheiros e sub-olheiros, uma horda emfim de pessoal, para o

qual se torna até necessario inventar classificação._

Por um susto constante, justificado por essas luctas nacionaes, que

baptisaram entre nós a liberdade, as exigencias sempre crescentes do

militarismo, e sempre satisfeitas, graças ao medo dos pronunciamentos,

foram depauperando o thesouro, a ponto que só o ministerio da guerra nos

absorve hoje o melhor de mais de cinco mil contos de réis, sem incluir

n'esta verba as despezas da municipal e policia, guardas fiscaes e

policia fiscal. De modo que ainda que possuíssemos o exercito tal como o

dão as estatisticas, _nós gastamos só com a força militar mais do que a

Dinamarca, do que a Bulgaria, a Rumania, a Servia, a Suecia, a Noruega,

a Grecia, tanto como a Suissa, tendo esta o triplo do nosso exercito,

sem fazer despeza com policia e municipaes, sendo Portugal o paiz que se

apresenta com um exercito mais inferior._

Não somos nós quem o diz, mas um ministro de estado honorario......... o

sr. Marianno de Carvalho, que ainda ha pouco tempo publicou no _Diario

Popular_ um artigo, que perfilhou publicamente na sessão do dia 20, na

camara dos senhores deputados, e no qual dizia que, em caso d'uma

necessidade de mobilisação, nós só poderemos apresentar em armas vinte

mil homens, posto que o effectivo do nosso exercito em paz deva ser de

vinte e oito mil homens.

«Mas á falta de soldados, de armas e equipamentos--continúa o mesmo

estadista--o exercito compõe-se--além do ministro da guerra, do chefe do

gabinete e do director geral da administração militar,--de 8 generaes

commandantes das respectivas divisões, assistidos dos seus estados

maiores; 4 commandantes militares nos Açores e Madeira; 1 general chefe

de estado maior; 1 general commandante em chefe de engenheria; 1 general

commandante em chefe de artilheria; 1 general inspector em chefe de

cavallaria; 1 general inspector em chefe de infanteria; 1 general

inspector da escola do exercito, que conta 150 alumnos; 1 general de

divisão commandando os 50 pensionistas do asylo dos invalidos; 2

marechaes de campo; 11 generaes de divisão; 24 generaes de brigada; 49

officiaes de estado maior; 145 officiaes de engenharia para 550

soldados; 213 officiaes de artilheria para 2:895 soldados; 253 officiaes

de cavallaria para 3:390 soldados; 1:136 officiaes de infanteria para

13:392, e emfim 61 officiaes das praças fortes, a maior parte das quaes

está a desmantellar-se.

«Tudo isto sem contar medicos nem capellães. Quanto aos musicos,

tambores, clarins, cornetas, o seu numero attinge a cifra de 2:263; de

sorte que para um total de cerca de 18:000 homens, divididos em 52

regimentos, contamos em summa 1 general para 514 soldados; 1 official

para 9 soldados, e 1 musico ou clarim para 8 soldados.»

Como isto dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo...

Mas que importa? Ao menos possuimos um exercito só de officiaes, musicos

e tambores. Estão satisfeitas as exigencias d'alguns, e é quanto nos

basta.

...........................................................................

Para que nos serve esse simulacro de exercito que ahi temos, onde é

certo, contamos muito distinctos e dignos officiaes, mas cuja soldadesca

se compõe de inuteis e inhabeis homens, que, bem applicados, poderiam

dar optimos trabalhadores, industriaes, mechanicos e operarios, emfim

braços productores, forças vivas para o paiz?

É ainda o mesmo estadista que responde a esta interrogação. _O exercito

serve apenas para luxuosas paradas e acompanhamentos de procissões,

policia de feira e operações da urna eleitoral._ (Marianno de Carvalho,

_idem_, _ibidem_).

E para sermos francos, visto que n'este momento seria um crime encobrir

todo o mal, _a opinião publica_, talvez mal orientada, é-nos grato

crêl-o, _chega até a affirmar que o exercito vive, satisfazendo-se-lhe

as suas exigencias, para sustentaculo das instituições, para esteio e

amparo do throno_. Não o cremos.

...........................................................................

Toda a instituição que viver pela força, ha de cahir pela força, porque

as instituições hão de ser sempre a expressão consciente da vontade da

nação; teem de viver da communhão de interesses e da identificação com o

paiz a que presidem.

...........................................................................

Mais, e mais revoltante ainda:--_a opinião corrente é de que o exercito

não custa ao thesouro publico a verba de 5:100 contos de réis, que

accusa o orçamento_.

Franca e imparcialmente, será isto administrar um paiz?

Administrar um paiz não é inscrever verbas colossaes no orçamento geral

do Estado, para manutenção da força que não existe, e ainda quando

exista, não gasta o que querem que ella gaste.

_Administrar um pais não é falsear o povo administrado, distrahindo

verbas que a opinião publica aponta destinadas a interesses

secundarios._

O exercito que temos, mesmo completo, poderia custar--dizem-no todos os

que entendem do assumpto--o maximo tres mil contos de réis. _Em que se

empregam, pois, os restantes?_

É sem se darem inteiras explicações á opinião publica por estas e outras

responsabilidades tremendas, que impendem sobre o nossos

administradores; é sem se lavarem d'estas vergonhosas accusações... que

se tem o impudor de vir pedir aos unicos que podem contribuir para o

desenvolvimento organico da nacionalidade, que paguem mais!

...........................................................................

Quando no seculo passado, em 1776, Turgot pretendia que, para salvar a

França d'uma crise muito similar á nossa, esta tivesse uma representação

nacional de todas as classes, desde a communa até ao Estado; quando

luctava pela egualdade e unidade do imposto e pela diminuição das

despezas; quando pedia liberdade absoluta nos cambios e no trabalho, e a

facilidade de communicações, os aulicos, os grandes senhores, envoltos

nos festins da côrte, ultimos reflexos dos tempos de Luiz XIV, nem

sequer o ouviam.

Mais tarde veiu Necker, que não é senão um Turgot em miniatura; depois

de Necker, Calonne e Lomenie seguiram o mesmo caminho, até que se chegou

a 1789, e um adepto do reformador de 1776, Mirabeau, poz em pratica, com

a energia do seu genio, as transformações reclamadas por todos. Depois

não se fez uma reforma, _estoirou uma revolução_, e as idéas então

chimericas de Turgot triumpharam!

...........................................................................

B

...........................................................................

_A nossa vida administrativa tem corrido sempre desordenada, e os nossos

orçamentos feitos de molde a ser a despeza superior á receita, não

obstante esta augmentar annualmente em perfeita progressão geometrica._

Assim, em 1821, quando o paiz acordava sobresaltado pela aurora da

revolução de 1820, o orçamento do Estado accusava uma receita de

7.677:139$368 reis e uma despeza de 8.519:100$000 reis, dando já um

_deficit_ de 841:960$632 reis. O _deficit_ continua a crescer,

oscillando annualmente, por essas epocas, entre dois mil e quatro mil

contos. Em 1841, vinte annos depois, as nossas receitas elevam-se já a

10.332:626$618 reis, isto é, mais 2.655:487$250 reis, e a despeza a

11.775:181$182 reis, isto é, mais do que em 1821 a somma de

3.256:081$182 reis. Vê-se por tanto que se a receita augmentou, tambem

cresceu a despeza, e longe de se equipararem a receita e a despeza, esta

continúa sempre sendo superior áquella. É o velho systema de

administração que tanto nos tem prejudicado: gastar, gastar muito, sem

attender á extensão das nossas forças.

Uma rapida analyse pelos orçamentos nos demonstrará quanto é verdadeira

tão pungente afirmativa.

Vimos que em 1841-42 o orçamento accusava já uma grande subida,

simultanea na receita, na despeza e no _deficit_. Pois em 1862, a pouco

trecho depois do movimento da regeneração e da conversão da nossa

divida, o orçamento estadea o mesmo systema de

desequilibrio:--14.328:760$273 reis de receita e 15.304:524$225 reis de

despeza.

Subindo assim receita, despeza e _deficit_, por que havemos, pois, de

nos surprehender com as difficuldades que assediam, ha tres annos, a

nossa vida collectiva? _São a consequencia mais natural e mais directa

dos erros longamente accumulados em successivos desbaratos._

E não vá julgar-se que nos insurgimos contra o augmento que teem tido as

receitas do Estado. Insurgimo-nos contra a administração que tem

incidido sobre essas receitas.

...........................................................................

Como provam os administradores d'este paiz que se gaste com o exercito a

quantia de réis 5.123:656$201, quando em 1874-1875 a despeza com o

exercito subia apenas a 3.406:380$630 réis? Que razões haverá hoje para

este augmento de despeza? _Acaso temos nós em 1893 melhor exercito, e

estão mais fortificadas as nossas praças e mais guarnecidos os nossos

fortes, para que assim se explique este excesso de mais de 1:500 contos

de reis?_

...........................................................................

O que não póde ser, é continuarmos a vida que havemos levado ha setenta

annos, com _deficits_ constantes.

O seguinte quadro que copiamos do livro do Barão de S.

Clemente--_Estatisticas e biographias parlamentares portuguezas_--prova

incontestavelmente tudo o que deixamos dito.

=====================================================================

Annos| Receita | Despeza | Saldo | _Deficit_

-----+----------------+----------------+-------------+---------------

1860 | 11.866:871$879 | 13.232:060$133 | | 1.365.188$254

1861 | 11.922:580$116 | 14.022:375$923 | | 2.099.795$807

1862 | 12.731:770$544 | 14.338:668$801 | | 1.606.898$257

1863 | 14.328:760$273 | 15.304.524$225 | | 975.763$952

1864 | 14.866:736$923 | 16.829:333$235 | | 1.962.596$312

1865 | 16.500:377$685 | 17.147:964$812 | | 647.587$127

1866 | 17.226:219$094 | 17.867:553$139 | | 641.334$045

1867 | 15.880:635$189 | 19.375:792$376 | | 3.495.157$187

1868 | 16.757:625$754 | 22.427.625$754 | | 5.670.000$000

1869 | 16.107:698$500 | 23.156:269$146 | | 7.048.570$646

1870 | 15.357:216$000 | 19.875:024$915 | | 4.517.808$912

1871 | 17.960:666$325 | 22.193:984$247 | | 4.233.317$925

1872 | 18.273:394$325 | 22.194:727$630 | | 3.921.333$305

1873 | 19.753:900$261 | 22.430:399$267 | | 2.676.499$006

1874 | 22.350:764$287 | 22.608:777$045 | | 258.012$758

1875 | 21.995:970$000 | 21.925:312$110 | 70.657$590 |

1876 | 23.152:432$000 | 22.693:253$595 | 459.178$405 |

1877 | 24.059:981$000 | 23.317:506$405 | 742.474$595 |

1878 | 25.262:124$000 | 26.418:047$362 | | 1.155.923$362

1879 | 25.358:276$000 | 28.162:084$586 | | 2.803.808$586

1880 | 26.329:842$000 | 29.413:160$305 | | 3.083.318$305

1881 | 26.211:568$000 | 29.636:518$531 | | 3.424.850$531

1882 | 28.567:212$000 | 30.360:857$061 | | 1.793.645$061

1883 | 28.529:838$000 | 30.837:374$960 | | 2.307.536$960

1884 | 31.226:590$000 | 31.485:881$162 | | 259.291$162

1885 | 31.195:037$000 | 31.967:164$351 | | 772.127$351

1886 | 31.378:490$000 | 33.265:651$968 | | 1.887.161$968

1887 | 32.271:150$000 | 34.018:729$028 | | 1.747.579$028

=====================================================================

Temos, porém, o seguimento do mesmo systema de administração nos annos

subsequentes até 1890:

=====================================================================

Annos| Receita | Despeza | Saldo | _Deficit_

-----+----------------+----------------+-------------+---------------

1888 | 38.104:359$084 | 38.798:984$380 | | 686:625$296

1889 | 37.312:346$385 | 39.165:380$387 | | 1.353:016$052

1890 | 39.284:695$778 | 42.780:655$496 | | 2.545:859$718

=====================================================================

Basta. O que se tem passado depois de 1890, isto é, depois que os

effeitos das crises financeira e economica se fizeram sentir

assustadoramente, é ainda mais desanimador.

Tal systema de administração, que traz em perpetuo desequilibrio os

orçamentos, não pode produzir outros effeitos, que não sejam os que

estamos soffrendo, _quasi sem esperança de encontrar sahida d'este

labyrintho_.

E não encontraremos, emquanto os orçamentos do Estado se apresentarem,

como ainda vemos o de 1893-1894, com _deficits_ mais ou menos

consideraveis, e tendo, além d'isto, de se desviar 49,9% das receitas,

isto é, 21.838:340$000, só para pagamentos de juros e amortisações.

Assim é evidente e incontestavel que a vida economica do paiz ha de ser

difficil, acanhada, impossivel.

No balanço geral da Europa, na cotação dos povos, Portugal _é a segunda

nação em encargos, e occupa o segundo logar na taxa dos impostos_.

Assim temos que

A França paga por habitante 12$726 réis

Portugal » » » 9$581 »

Hespanha paga por habitante 8$660 réis

Italia » » » 8$460 »

Hollanda » » » 8$300 »

Belgica » » » 4$900 »

Dinamarca » » » 4$536 »

Suecia e Noruega » » 3$300 »

Suissa » » 1$800 »

A Lucta Civil Brazileira e o Sebastianismo Portuguez · 第 1 / 6 段