a fadigas com que não possa, visto que a deixa carregar fardos,
esfregar casas, trabalhar a qualquer hora da noite em que chegam os
barcos de pesca, nas fabricas de conserva de peixe, quer de verão quer
de inverno, molhada em salmoiras, com as mãos geladas, de pé, horas e
horas consecutivas; que a deixa mondar, ceifar, fazer muitos outros
serviços do campo, qualquer que seja o tempo, de ardente calôr ou de
frigido inverno... A mulher desempenha, em muitas terras das nossas
provincias do norte, o serviço de _estafeta_, percorrendo a pé muitas
leguas, carregada com pêsos que o homem, certamente, não aguentaria
sobre a cabeça.
A mulher, como criada, anda um dia inteiro de pé no fatigante serviço
de casa, deitando-se tarde e levantando-se cedo.
Aguenta uma criança nos braços durante horas consecutivas.
Passa dias com um ferro de engomar e de brunir; cose á máquina horas
sem conta...
E muitos outros serviços _pesados_, que seria longo enumerar.
O homem vê isso e não se sobresalta nem indigna, porque são trabalhos
que elle não quer para si, por mal remunerados.
Se, por acaso, qualquer destes serviços viesse a ser bem pago, não ha
duvida que acorreriam logo a pugnar _pela fraquêsa da mulher_.
Na lucta pela vida o homem é impiedoso para a mulher, que não é a
sua. A operaria raro tem no operario um colega e um amigo; tem apenas
um homem que a desmoralisa e que a despresa se os trabalhos são
diferentes, que a odeia, se é o mesmo, valendo-se de tudo, até das leis
protecionistas, como os tipografos francêses--que apelaram para a lei
que prohibe o trabalho da mulher feito de noite, para as expulsar das
tipografias em que se compõem os jornaes matutinos.
Quando se aventam estas e outras opiniões e estranhêsas, é de uso o
homem responder:--mas se a mulher vem concorrer comnosco nas profissões
em que hôje nos ocupâmos, o que faremos nós?
O que farão?!... O que fazem os inglêses, muito mais numerosos do que
nós e que percorrem o mundo inteiro para ganhar a sua vida; o que fazem
os suissos, levantando a sua pequena patria a toda a altura duma grande
nação; o que fazem os americanos, os alemães, os suecos e tantos
outros, em paizes onde a mulher é equiparada ao homem pelo trabalho.
A riquêsa dum paiz não é espontanea, adquire-se com o trabalho, e o
português, que não tem, como o francês, repugnancia pela emigração,
tem nas nossas colonias campo vasto para a sua actividade e engenho,
alem do muito que ainda tem a fazer na metropole, e sem receio de
concorrencias.
ERRATAS
Além de alguns insignificantes erros tipograficos que no sentido da
leitura facilmente se corrigem, nóta-se a pagina 95:--_cimo da bóta_,
por _cano da bóta_.
Mesma pagina:--lhes _traga_, por lhes _tragam_.
Pagina 106:--_campo_ que lhes sobre, por _tempo_ que lhes sobre.
Mesma pagina:--Vida _desgarrada_, por _vida dispersada_.
Pagina 114:--caminhando _revoltoso_ e _tumultuosamente_ por,
_revoltósa_ e _tumultuariamente_.
Mesma pagina:--_pensar_, por _passar_.
Pagina 125:--_delicadas_ amas, por _dedicada_ ama.
Pagina 142:--entretecida, por entrétecida?!
Pagina 144:--_recorrer_, por _socorrer_.
Pagina 145:--_puzeram_, por _puzessem_.
Pagina 149:--_E_ realmente, por _É_ realmente.
Pagina 167:--_E_ certo, por _É_ certo.
Pagina 209:--_usufruirá_, por _usufrúe_.
Pagina 218:--_lhas_, por _lha_ exija.
INDICE
PAG.
PROLOGO 5
FEMINISMO:
I--Ser feminista 11
II--Uma resposta 27
III--A Instrução 43
As mulheres e a politica 57
Sêr português 67
No anniversario duma escola 85
A mulher de ha trinta annos e a mulher de hôje 101
As pobres mães 113
A miseria do povo 133
A ignorancia do povo 149
Mulheres desnaturadas, mães desnaturadas 161
A proposito duma gréve 177
A MULHER EM PORTUGAL:
I--A mulher e o casamento 193
II--A mulher casada perante o codigo civil 207
III--A mulher solteira perante o codigo civil 223
IV--O trabalho da mulher 241
Livraria Editora da VIUVA TAVARES CARDOSO
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NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Á carta que me dirigiu o Sr. Gomes Pereira, na _Revista Amarella_,
criticando o artigo precedente.
[2] Maio de 1903.
[3] 1904.
[4] Em Gouveia, no inverno de 1903.
* * * * *
Nota do Transcritor:
Erros tipográficos óbvios foram corrigidos; quaisquer outros erros ou
inconsistências foram mantidos como no original.
Foram removidas aspas angulares desnecessárias (utilizadas seguindo um
travessão: "--«") e não fechadas que eram utilizadas inconsistentemente.
Os erros indicados nas Erratas foram corrigidos, exceto o sexto e oitavo
(o primeiro por não ser encontrado na página indicada e o último por
não ser claro o que deve ser corrigido).
Texto rodeado de caracteres de igual representa texto em negrito
(=negrito=).
Texto rodeado de carateres de "underscore" representa texto em itálico
(_itálico_).
Texto em versalete foi substituído por texto em maiúsculas.
End of Project Gutenberg's Ás Mulheres Portuguêsas, by Ana de Castro Osório