Segue-se pois que a criança do povo está condemnada a uma eterna

penitenciaria de ignorancia, se antes da escola não houver a _créche_,

não houver o hospital para parturientes, e, antes do hospital, não

houver a _maternidade_, que é a casa onde a mulher pobre passa com

descanço salutar os ultimos mêses da gravidez; se, ao lado da escola,

não houver a oficina escolar, o asilo modelo donde a criança, rapaz

ou rapariga, sáia preparada para entrar desassombradamente na vida,

sabendo ganhar a sua subsistencia pelo oficio que escolheu. Da escola,

assim acompanhada, deverá a criança sahir sabendo lêr, escrever e

contar, sabendo sobretudo trabalhar metodicamente e com nobre orgulho

da sua profissão.

Ora é isto o que os governos, só por si, não pódem fazer se os não

auxiliar a bôa vontade e iniciativa particular, já fazendo propaganda

entre o povo, já distribuindo livros gratuitamente, fundando escolas

e bibliotécas, dando premios ás crianças aplicadas, contribuindo para

tornar a casa de estudo artistica e agradavel, ensinando mesmo os

professores e fornecendo-lhes maneira de se educarem nobilitando o

ensino, por assim dizer.

É da iniciativa particular que devem partir as bôas ideias exequiveis,

que o governo será obrigado a auxiliar e adoptar, quando a opinião

pública as impônha.

É isto o que é preciso fazer e é isto o que esperâmos vêr realisado

em breve no nosso paiz. Porque, ao lado de muitos que usam a caridade

mirabolante como orchidea de fantasticas fórmas para espanto das gentes

rastejantes, ha lucidos espiritos que fazem o bem pelo bem, como um

dever, como um simples acto de justiça.

Porque dever, porque justiça, é pensar nos que têm fóme, nós que nunca

lhe sentimos os tormentos; é pensar nos que são ignorantes porque

não têm maneira de se educar, nós que nascemos num meio em que nos

instruimos sem querer; é pensar nos que sofrem vendo os filhos fenecer

e morrer por falta de alimentação e higiene, nós que podemos criar os

nossos em melhores condições.

É pensar em todos os que sofrem, sem razão para sofrer,--só porque

o acaso os faz nascer num pobre albergue em vez de casa rica ou

remediada--mas não para lhes dar a esmola que deprime e desmoralisa,

que habitúa o espirito aos favôres do acaso, e que é injusta porque

obedece ao arbitrio individual, mas para dar sem distinção nem favôr,

a todos, porque todos o merecem, a educação que enobrece, a luz que

vivifica, o alimento, o ar, a agua, a casa, a saúde e a alegria emfim,

a que todo o ser humano tem direito.

Não é o luxo, não é o superfluo, que é forçoso dar, é apenas o

necessario, apenas o que é justo.

E se todos, principalmente as mulheres, puserem nesta campanha a

energia do seu querer, a nobrêsa da sua dedicação, temos o direito de

esperar uma hora breve de mais justiça e de mais alacridade para este

miseravel povo português, amortecido pela ignorancia e pelo sofrimento.

MULHERES DESNATURADAS, MÃES DESNATURADAS

É vulgar encontrar-se na leitura diaria dos jornaes titulos assim

alarmantes, sob os quais os reporters juntam á pressa meia dusia de

adjectivos ferozes, na narração detalhada de qualquer crime, ou simples

tentativa, de infanticidio.

Não ha muito ainda que dois jornaes dos que se dizem mais livres

encimavam umas vulgares noticias do genero com os titulos que

reproduzimos.

Numa, era a criada de servir que voltava da terra com o filho

recem-nascido dentro duma canastra e que o atirára pela janela do

vagon em que viajava, se um empregado não evitasse o medonho crime.

A outra era um simples caso de engeitamento, por miseria, tambem por

parte duma criada de servir.

Ora quando jornaes avançados, que se dizem desprendidos da rotina e do

preconceito, usam para tais casos de tão violentos epítetos, o que não

dirão os outros, os arbitros triumfantes do convencionalismo burguês,

os fartos interpretes duma sociedade hipocrita, que nas prégas do seu

manto de pudicicia abriga crimes mais revoltantes do que os cometidos

por esses _monstros moraes_ descriptos com tanto asco!?

_Mães desnaturadas_, essas miseraveis, decerto! Mas com quanta desculpa

a atenuar-lhes a brutalidade do delicto!

E a justiça a que aspirâmos, a justiça nobre e alta que é o objectivo

supremo do nosso ideal de nova sociedade melhorada e feliz--quanto

é licito ao homem sê-lo, sem cuidados de sobre-posse nem exigencias

loucas--a justiça que não se cobre com leis, nem venda os olhos para

não discernir, não póde castigar todos os casos pela mesma rigorosa

interpretação dos codigos, não deve julgar sem atender ás determinantes

e, sobretudo, ao gráu de responsabilidade do delinquente.

Poderemos, acaso, esperar do ignaro e rude trabalhador--que de sol a

sol tira dos musculos o esforço que produz o pão do seu alimento e o

dos filhos, e á noite, extenuado e brutificado, adormece pesadamente,

até que novo sol lhe traga novas canceiras, e alegrias tambem, mas

rudes e vulgares como a sua alma deseducada--poderemos, repito, exigir

a esse a mesma visão clara, a mesma responsabilidade moral que deve

existir no homem culto que no recesso da sua alma pesa e mede os seus

actos, conhecendo leis, conhecendo direitos e deveres?!

Poderemos chamar a essas mulheres _mães desnaturadas_, porque abandonam

um filho, que já fôra abandonado pelo pai? Um filho que não seria mais

do que um tropeço para a sua vida de trabalho; que hôje lhes custaria

a sustentar com a escassa soldada de criadas de servir e ámanhã

lhes custaria mais, infinitamente mais, a vestir, a alimentar e a

educar?!...

--Queria matá-lo, sinistramente, arremessando-o á linha a toda a

velocidade do comboio, por uma noite escura e tragica, como quem alija

demasiado pêso na lucta de um naufragio, como quem num esforço se

alevanta e sacode dos hombros um fardo com que não póde...

E não era esta exactamente a verdade? Quem ensinou a essas mulheres de

vinte annos, abandonadas á propria sorte, pontapeadas pela sociedade,

enganadas pelos homens, servindo quem as despresa e maldiz, só

toleradas porque são uteis--bestas de carga para criarem e servirem os

filhos alheios--quem lhes ensinou a ser mães?

Quem lhes ensinou sequer a ser mulheres, na acepção nobre e alta da

palavra, e não tão sómente a femea brutalisada e despresada pelo homem,

quando o saciamento matou o desejo carnal?

Quem lhes disse que o fructo que de seus efémeros amôres lhes ficou nas

entranhas é um ente crédor a todo o seu respeito--já não digo ao seu

afecto, que se não póde obrigar--de que são apenas as depositarias e

sobre o qual não têm direito de vida ou de morte, embora da sua propria

vida se alimente?!

Quem lho terá ensinado?

A lei, mandando-as depois do crime feito para um presidio ou para uma

penitenciaria? Não, porque a lei não ensina os ignorantes, vinga nos

culpados os sentimentos conservadores da sociedade que a fabricou.

A lei, cahindo rígida e inexoravel sobre a cabeça de um condemnado, que

lhe não conhece o alcance, não converte um criminoso, cria um hipocrita

ou um revoltado.

Quem ensinou essas desgraçadas que hôje choram no segredo do

aljube,--não de remorso, que não podem sentir, mas de pavôr--que era um

crime menor aos olhos da sociedade, que só cura de aparencias, em vez

de abandonar ou matar um filho nascido, tê-lo desfeito misteriosamente,

quando ainda mergulhado na noite da sua vida uterina, mas com tanto

direito á luz e á existencia consciente como depois de nascido?!

É de presumir que tenham tentado primeiro esse crime como tantas que

se vêem a braços com uma situação tão absurda e condemnada, quanto é

vulgar e desculpavel.

Alguem lhes incutiu na consciencia essas simples noções de sã moral?

Certamente ninguem em tal pensou.

E se o que ellas praticaram, ou tentaram praticar, é um crime

abominavel, o outro não o é menos. A diferença está em que um é

conhecido, impõe-se pela brutalidade do facto; o outro é ignorado, não

se prova facilmente e é praticado a sangue frio por muitas mulheres que

se dizem honestas e para as quais a sociedade não ajunta pedras com que

as lapíde, nem escancara aljubes onde as sepulte.

--São peores do que as féras--dizem os moralistas que se não pejarão,

talvez, de deixar outras mulheres na mesma situação embaraçosa--porque

todas as femeas têm o instincto da maternidade e todas, em geral, se

sacrificam pelos filhos.

Opinião já feita e que não representa mais do que uma vulgar figura de

rétorica, que a sciencia desmente a cada passo.

O instincto não é igual em todos os seres, pois os mais infimos na

escala zoologica como os mais superiores individualisam-se no seu modo

de sentir.

Se ha caracteristicos proprios a uma certa raça, entre essa mesmo

salientam-se individuos cujas qualidades e defeitos são uma negação de

todas as regras.

É certo que o instincto da maternidade é um caracteristico de todas as

femeas, e, no emtanto, ha muitas, entre os animaes, que matam e até

comem os filhos.

Ha mulheres que fazem pelos filhos os mais inacreditaveis sacrificios,

tudo lhes dando, tudo achando pouco para elles; como o pelicano,

arrancam de si proprias as pennas com que lhes afôfam a existencia. São

as instinctivamente mães aquellas que se deixariam matar antes do que

vêr maltratar um filho. A javarda ama tanto as suas crias, que persegue

até á morte o caçador atrevido que lhe rouba um bacorinho da ninhada;

e, no emtanto, algumas ha que os comem, quando a próvida natureza lhes

deu mais do que podem aleitar.

Estas tambem obedecem ao seu instincto, forçando a lei que nos dá,

naturalmente, a seleção da especie.

E o que é o homem sem educação mais do que um animal de instinctos

baixos, dotado de faculdades imitadoras para simular os gestos e a voz

dos outros homens?!

A superioridade do ser humano não consiste em andar com a espinha

direita e em poder erguer a cabeça para a luz, não! A sua superioridade

está em comprehender a justiça e ter a consciencia do bem, coisas que

sómente a educação póde incutir no espirito dos que não têm comsigo a

bondade instinctiva dos doceis.

Condemnar sem defêsa nem atenuantes a mulher desprovída de recursos,

exposta ao escarneo e ignominia da sociedade, quando abandona ou mata

um filho, é impiedoso.

Se fosse uma criatura heroica poderia reparar o que se convencionou

chamar _falta_, tirando do seu trabalho, miseravelmente pago, a

sustentação do filho. Mas não é heroi quem o quer ser, e o egoismo

individual é por vezes tão imperioso, que a criatura se ergue num

desespero bruto de féra que quer viver, despedaçando tudo quanto lhe

embaraça os movimentos e lhe pêa a satisfação das suas necessidades

materiaes.

Sentimentos, afectos, inteligencia, tudo se obscurece e oblitéra

perante as exigencias materiais da vida, que a sociedade, á força de

querer melhorar, transformou em lucta sangrenta em que sucumbe a maior

parte.

--É preciso castigar--dizem ainda os moralistas, na velha teoria

inquisitorial e barbara--é preciso dar o exemplo, atemorisar...

Mas, para quê, perguntâmos?!... Se o acto criminoso depende da tára

fisiologica que dispõe determinada criatura á loucura do crime, como

tornar um doente responsavel pelo seu mal?

Se o delicto fôr determinado ocasionalmente, pelas condições especiais

da existencia, o mal tem remedio, e deve remediar-se, acabando com os

factôres que concorrem na sociedade para que tantas desgraçadas sofram

o que essas pobres estão sofrendo agora.

Conheci uma criatura que, estando a servir, lançou um filho

recemnascido numa cloaca, como quem, enojado, deita fóra um trapo

imundo. O que a não impedia de que fosse uma pobre criatura humilde

e inofensiva, e de ser para os outros filhos, senão uma bôa mãe no

sentido completo da palavra--o que a ignorancia e a pouca inteligencia

lhe não permitiam--pelo menos amoravel e dedicada, sacrificando-se para

os alimentar e vestir.

O que determinou essa mulher a cometer tão repugnante crime? A

circunstancia ocasional de estar bem numa casa donde não queria sahir e

da qual seria fatalmente expulsa, conhecido que fosse o seu estado.

O instincto maternal existe, certamente, mas a miseria umas vezes,

outras a educação, o egoismo e as exigencias brutais da vida, têm-no

obliterado em grande parte das almas femininas. Como se explicaria por

outro módo o horror ao filho, que existe, que é flagrante, em quasi

todas as mulheres casadas?!

A alegria com que muitas proclamam não terem filhos que lhes dificultem

e atropelem a existencia, estarem assim socegadas nos seus lares sem

crianças, é uma bem clara próva. A indiferença com que a mulher pobre

vê _ir para o céo_ o filho que a sua incuria, quasi sempre, mata, é bem

conhecida dos medicos para precisar ser mais frisada.

E isto não é um mal dos nossos dias nem da nossa sociedade, é hôje como

hontem, como será sempre.

Á proporção que o individuo se civilisa, isto é: tem a noção mais

clara do bem-estar que lhe póde advir não se sobrecarregando com

responsabilidades, que nem sempre tem a certeza de cumprir, começa o

horror ao casamento e consequentemente aos filhos que o embaraçam.

Isto que nos parece um facto peculiar dos nossos dias, e tanto

sobresalta a França, já se deu na Grecia, já se deu em Roma, com maior

intensidade ainda, não obstante todas as leis e costumes que compeliam

o homem a constituir familia e a dar filhos á republica.

Apesar de tudo, o horror ao casamento manifestava-se, principalmente

nas mulheres, que fugiam, pelo celibato, aos encargos da maternidade e

ao captiveiro do lar.

Depois, se chamarmos a essas mulheres, que a ignorancia e a miseria

desculpam, _mães desnaturadas_, que palavras achariamos no dicionario

para as ricas e ociosas, que ao nascerem os seus filhos os atiram para

os braços duma ama, que depois os entregam aos cuidados problematicos

das criadas de acaso, e mais tarde os afastam do lar e do conchêgo da

familia, como espúrios, para a solidão moral do collegio; não para que

estudem e se habituem cedo ao trabalho, mas para que as não incomodem

com suas traquinices e turbulencias, nem as envelheçam aos olhos dos

estranhos?!

Essas não os matam, porque a carnicería do acto repugnaria aos

seus nervos susceptiveis e seria tão repulsivo, para os seus finos

dedos scintilantes de joias, como matar uma galinha ou estripar

um coelho, coisas no emtanto que as suas cosinheiras fazem com a

maior indiferença. Alem disso, não lhes faz mingua o dinheiro para

os alimentar e vestir, e mais tarde--passada a idade do garridismo

pessoal--é um gosto continuar a figurar por elles e com elles.

Pobres filhos, os destas mães!...

Para as outras reclamariamos, em vez de cadeias, oficinas e casas

honestas que as recolhessem com piedade, e as ensinassem com desvelo

a amar os filhos que a sociedade tem todo o interesse em recolher e

educar para a alegria de viver e de ser util, porque na terra não ha

muito quem o seja e menos quem o saiba ser.

E esses pequeninos seres, que tanto pesam hôje ás pobres mães sem

marido que lhes ajude a criar e educar, não arrastariam pela vida fóra

a vergonha de não ter nome de pai, antes fariam recahir sobre o covarde

que fugiu á responsabilidade dos seus actos todo o despreso das almas

honestas.

Então, a sociedade, melhor orientada, não terá tanto despreso pela

mulher iludida e atraiçoada no seu amôr, que a miseria e ignorancia

tanta vez desculpa, como pela calculista maliciosa que procura o

casamento como emprego, como posição, que a livre de situações

equivocas, legalisando-lhe todos os desvarios.

A PROPOSITO DUMA GRÉVE[4]

Não obstante a quasi geral indiferença da mulher do nosso paiz pelas

questões sociaes e de intelectualidade, tenho ainda confiança na

alma feminina, tenho ainda esperança de que em breve, envergonhadas

de tantos annos gastos em futilidades, voltarão a ser as dignas

descendentes dessas mulheres portuguêsas, que fôram, entre as

mais damas das côrtes brilhantes da Renascença, das mais cultas e

espirituosas, aliando ás graças de espiritos educados a nobrêsa e a

energia de verdadeiras patriotas.

Escrevo hôje para denunciar, aos seus corações de mulheres e de mães,

uma dôr que não roça pela epopeia, mas que na sua humildade é talvez

mais aguda, que na rasteira obscuridade em que se gerou e cresce é

talvez mais amarga para as almas criadas, como as nossas, para a

alegria e para o amôr.

É adentro das nossas fronteiras, como quem diz em nossas casas, neste

lindo paiz que nos viu nascer, debaixo da caricia dulcida deste sol que

nos agasalha e alegra, que essa miseria subsiste:--mulheres e crianças

que se extenuam trabalhando, e não ganham, com o seu trabalho, o quanto

lhe baste para matarem a fome.

Sabemos nós todas, as mulheres:--que não pertencemos á galeria das

privilegiadas, que dispensam, por abundancia de meios, conhecer e

discutir o orçamento das suas casas--quanto se gasta em nossos lares

modestos, comendo sem intemperança, vestindo sem luxo.

Pensemos, pois, o que seja trabalhar uma semana inteira e chegado o

sabado encontrar entre os dedos, que o trabalho violento deformou,

meia duzia de vintens que mal chegam para um dia de fome.

É costume dizer-se para acalmar sensibilidades em sobresalto, que os

pobres, habituados a comer mal, não fazem com isso sacrificio.

Certamente que uma mulher rude dos campos, de pequenina acostumada

ao seu caldo de couves e ao feijão, com pão grosseiro por conducto,

um bocado de porco pelas festas do anno e galinha quando ha doença,

passará admiravelmente sem _fois-gras_, _ragouts_, _mayonaise_,

_vol-au-vent_ e toda a algaravía saborosa e complicada da comida

francêsa, indispensavel a paladares aguçados por estimulantes, a

estomagos gastos e que jámais se encheram com verdadeira fome.

Concordo em que uma dessas solidas camponezas felizes, que do amânho

das suas terras tira o pão caseiro que seus rijos braços fabricaram

numa nuvem de poeira e por suas mãos foi na pá atirado ao forno

aquecido; que do leite das suas cabras tira o queijo salgado, que é um

mimo para os seus paladares deseducados; que das suas oliveiras tira a

azeitona, que sabe curtir para a fartura do anno; concordo em que esta

mulher se riria desrespeitosamente se á sua merenda chamassem lanche

e em vez destas simples iguarias comidas á mão, lhe apresentassem um

prato de porcelana fina com _brioches_ e um bule de perfumoso chá.

Talvez deitasse o liquido fóra cuidando que devia comer as folhas, e

levasse os bolos para o folar das crianças.

Mas o que é cérto é que bem poucos têm essa abundancia, e que a

maioria, principalmente aquellas que a industria apanhou na sua febril

engrenagem e na oscilação das suas altas e baixas de trabalho; não têm

esse bocado de pão grosseiro, nem esse saboroso queijo salgado...

Não comer manjares poderá ser justo, mas passar sem comer é intoleravel.

Ninguem se habitúa á desgraça e á dôr; ha no organismo humano uma

revolta ináta ao sofrimento, que nos faz chorar e estrebuchar a cada

nóva vergastada do destino.

Existem criaturas resignadas e passivas, seres embrutecidos pela

miseria ou fracos por temperamento e nos quais a revolta não explúe;

mas condensada em lagrimas ella hade surgir um dia, quando os famintos,

os miseraveis, os despresados de todos os tempos, vierem reclamar o seu

quinhão de felicidade e de fartura.

Ninguem se habitúa á dôr, ninguem!, dígo-vo-lo eu, que tenho olhado com

mais curiosa piedade para os que em baixo sofrem e maldizem a vida,

do que tenho invejado e admirado os que em cima cantam a sua gloria e

triunfo.

Pois bem, para debelar ou minorar o mal de que sofremos todos, os

filhos duma sociedade que vive num perpetuo desequilibrio de elementos

economicos e moraes, a missão da mulher, irmanada ao homem, libertada

pela inteligencia, pelo trabalho e pela educação, é bem clara! O dever

impõe-se-lhe de maneira indiscutivel e manda-a entrar resolutamente em

acção.

Passaram, de todo, os tempos cavalheirescos. Presentemente ninguem se

lembraria de nos exigir que arrancassemos das panoplias as espadas

dos antepassados para armarmos os nossos filhos e mandá-los vencer

qualquer sóba indisciplinado e bravío...

O perigo não será menor nas luctas que hôje sustentam os nossos

soldados; a porção de coragem necessaria para tais campanhas, nos

longinquos sertões ultramarinos, será a mesma ou mais talvez; mas a

guerra deixou de ter para nós o mesmo sentido moral porque deixou de

ter o imprevisto de duelo, em que era factor importante o valôr e a

força individual, para ser uma carnificina de que são executores certos

os que melhores e mais numerosas armas apresentarem, os que disposerem

de mais conhecimentos e de mais dinheiro, tal como no comercio.

Quando as nações se degladiam hôje, escusâmos de esperar milagres

e prodigios dos homens; os mais fracos serão fatalmente esmagados,

embora com elles esteja a simpathia das almas enthusiastas, como

aconteceu á desgraçada Polonia, á França enfraquecida pelo Imperio, á

Grecia atolada na ultima decadencia, e ao Transvaal apesar do epopaico

heroismo dos seus filhos. Embora como a Hespanha espere muito do

orgulho e valentia dos seus soldados; como a China confie na incontavel

multidão dos seus habitantes, ou como a Russia se iluda com a força

ficticia do seu colossal territorio, povoado de analfabetos e de

revoltados.

Tudo mudou com o tempo--ideias, costumes, maneiras de vêr e de

proceder. O que aos nossos olhos parece hôje rasoavel e justo, seria

aos olhos de nossos avós o mais absurdo dos atentados ao senso comum, o

mais completo despreso pelas leis e convenções sociaes.

E, como tudo mais, a missão da mulher mudou tambem. Já não é de

passividades e resignações como dantes! Da espectadora indiferente

passou a ser figurante; entrou definitivamente na lucta--no trabalho de

preparar a alegria e o socego do dia de ámanhã.

Não admira que assim seja porque, quando os campos de batalha são a

propria sociedade em que vivemos e as armas são as ideias, a mulher tem

o direito, mais, tem o dever de entrar na lide, e, ao lado do oprimido,

do fraco, pugnar pela felicidade ou pela menor desgraça dos que sofrem.

No caso especialissimo que me impulsiona agora, ainda mais justa é a

nossa intervenção, por isso que são mulheres as que sofrem e reclamam

uma migalha para a sua fome.

No direito de solidariedade que nos assiste temos o dever de pensar em

que ha centenas de familias sem trabalho e que para essa terra socegada

e pitoresca nas abas da Estrella se mandam soldados quando se pede pão,

se responde com ameaças quando se desespera com fome.

Sem lume, sem fato, sem dinheiro, como se anuncia prenhe de desesperos

e luctas para esses miseraveis que não pedem esmola e sim maior paga ao

seu trabalho, o inverno que se aproxima cantando a tragedia das suas

dôres, nas ventanias que destelham casebres e arrancam arvores, nas

chuvas que se despenham em torrentes engrossando os rios que regorgitam

em cheias devastadoras, levando as sementeiras e trazendo a agonia nas

dobras da sua mortalha de neve...

Não nos importa saber se é exequivel a pretensão desses operarios

que usam do seu direito da gréve para discutir com os patrões como

combatentes legais, sofrendo heroicamente dias e semanas de fome, para

obter um pequeno augmento, que já lhes parece fortunoso.

Não nos importa tambem saber se é atendivel a defesa dos fabricantes

de panos baratos, que dizem pagar miseravelmente aos operarios porque

miseraveis são os seus ganhos.

Não discutimos nem julgâmos--que não nos compete fazê-lo--mas ainda

menos duvidar da convicção e da justiça dum povo que se resigna a

luctar tendo por armas a fome e o proprio sacrificio, unicas que lhes

deixamos nas mãos.

O que simplesmente nos interessa é a questão feminina, que este

incidente põe a descoberto. Foi pelo pequeno salario da operaria que

a gréve se originou, é para obter uns miseros reais para ellas que

todos os proletarios de Gouveia sustentam uma lucta heroica, porque é

heroismo, e até loucura, entrar numa gréve sem _bolsas de trabalho_,

sem _caixas de reserva_, sem meio algum de lucta e de resistencia.

Não terão razão, essas pobres criaturas ás quais se exige umas

poucas de horas de trabalho, e ás quais se dá em troca sessenta reis

por dia?!... Talvez, mas pensemos em que são como nós mulheres,

que pertencem, como nós, a um sexo que os homens chamam fraco e ao

qual cercearam todos os meios de ganhar a vida--desde a falta de

trabalho até á miseria da paga--excepto um que as inferiorisa e torna

despresiveis aos seus proprios olhos!...

É pois dever nosso, daquellas a quem a educação deu um criterio mais

elevado, pensar nessa multidão de desgraçadas que a miseria e a

ignorancia predispõem para o crime e que, não tendo familia nem homem

que as sustente legalmente, por força hão-de procurar no erro o que o

trabalho e a honestidade lhes não garante.

Ás Mulheres Portuguêsas · 第 5 / 8 段