IGNEZ

Na tua bôca macerada

Por tantos beijos mercenarios que soffreste,

Meu labio achou ainda a candura sagrada

Que da avidez das outras bôcas escondeste...

E no teu peito exhausto, onde em tumulto ouviste

Tantas paixões rolar,

A minh'alma escutou, num eco amargo e triste,

A primeira innocencia em segredo a chorar!

A chorar em segredo a pureza da infancia,

A candura perdida,

De que eu sentia ainda a ultima fragrancia

A evolar-se de ti, como d'urna partida.

Pobre flôr torturada! O teu doce perfume

Foi delicia e veneno...

Pairava o teu Amor como num alto cume:

Só podia attingi-lo o meu beijo sereno!

Todo o teu ser vibrou como uma flor ao vento,

Tremeu, desfalleceu...

E a tua alma, esquecendo o seu longo tormento,

Num sorriso de gloria á tua bôca ascendeu!

Vinha cheia de graça e candura ineffavel,

D'innocencia e de pejo,

Que eu fiquei a scismar se esse beijo insondavel

Seria porventura o teu primeiro beijo!...

_Primeiro de Janeiro_, de 28 de Maio de 1897.

* * * * *

Ilha dos amores, por Antonio Feijó. Um vol. 114 pag. in 8^o, Lisbôa,

Editor M. Gomes 1897.

Produz-se, ao lermos os versos d'este poeta, o desejo de simplesmente os

irmos transcrevendo todos; e nessas condições limitarmos a apreciação a

simples interjecções. Ninguem hoje, em Portugal, cinzela assim tão

primorosamente a lingua portugueza em metro e rima, e a obra litteraria

sae nitida, brilhante, completa,--sem que alguem note a fadiga do

obreiro, ou adivinhe os processos de factura. O artista confunde-se com

o dilettante, e é inconfundivel a linha de cada um d'elles.

Reproduzo esses dezesseis versos,--e ponho ponto na prosa:

Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados etc.

_Noites de Vigilia_. N.^o 16.

Silva Pinto.

* * * * *

«CANCIONEIRO CHINEZ» por ANTONIO FEIJO

Dizia Oliveira Martins que o condão das bellas obras era relerem-se

indefinidamente. Ha treze annos que se publicou a primeira edição do

_Cancioneiro Chinez_. Desde então a poesia, sobretudo no mundo latino,

passou pela mais vertiginosa e estranha evolução, resvalando da _noble

ordonnance_ parnasiana até a anarchia quasi chaotica do decadismo, do

symbolismo, do instrumentismo, do amorphismo e d'outras phantasias

prosodicas e metricas. E, todavia, a segunda edição d'esse livro,

eminentemente artistico, nada mais faz do que renovar em quem o lê a

sensação de graça lyrica, de finura conceptual, de impecavel belleza

plastica, que fez o successo d'essa admiravel e feliz adaptação do

lyrismo chinez á nossa lingua.

O trabalho de Antonio Feijó conseguindo, atravez das versões francezas,

tão maravilhosa transposição, sem estiolar a frescura emotiva do

original, é um dos mais bellos esforços d'arte e de gosto que a poesia

portugueza do fim do seculo passado tentou e realizou. Com a maestria

d'um habilissimo artifice da palavra, com a paciencia meticulosa d'um

beneditino do verso, elle trabalhou, limou, burilou essas pequenas e

graciosas joias, onde nos engastes da phrase perfeita scintillam as

gemmas da emoção lyrica. E como se não cingiu ás formulas inconstantes

da moda litteraria, como, em vez de martellar n'um molde o _plaqué_

d'uma rethorica falsa, lavrou o seu pensamento no oiro puro do verbo

classico, a sua obra não envelheceu, não desbotou, nada perdeu do seu

brilho primitivo, e hoje, como ha treze annos, fulgura com o

inextinguivel esplendor do talento.

É difficil apreciar bem uma versão, quando se não conhece a lingua

original da obra vertida. Mas mais difficil se torna ainda o fazel-o,

quando as duas linguas são tão dessimilhantes, de familias tão diversas,

de estrutura phonetica e até graphica tão differentes como são a nossa e

a chineza. Comtudo, se puzermos em confronto esses lindos poemazinhos e

as traduções da eminente sinologa, madame Judith Gautier, que verteu os

originaes chinezes para prosa franceza, fica-se surprehendido com a

exactidão, a fidelidade, o respeito meticuloso do texto, a que Antonio

Feijó se adstringiu no seu conscienciosissimo trabalho. Não é d'elle que

se poderá dizer: _traduttore, traditore_. Se os poemas chinezes são o

que a erudita filha do grande Théo nos revelou nas bellas paginas do

_Livro de Jade_, póde afoitamente dizer-se que o _Cancioneiro_ de

Antonio Feijó é a mais irreprehensivel e leal das traducções.

Mas abstraiamos d'este ponto de vista. Supponhamos que Antonio Feijó não

buscou nos poetas chinezes mais do que motivos lyricos, para sobre elles

ensaiar variações ou glosas. Supponhamos que o Cancioneiro não é uma

traducção, nem uma adaptação, mas a obra de um poeta europeu, finamente

perfumada de orientalismo. Nem por isso a sua belleza seria menor, nem

por isso seriam menos admiraveis os versos purissimos d'essa purissima

obra d'arte. O auctor teria, neste caso, affirmado mais poderosamente as

suas faculdades de poeta e de artista, porque seria um semi-creador. E o

_Cancioneiro_, reduzido a uma imitação, não diminuiria de valor sob o

ponto de vista litterario.

Portanto, traducção, adaptação ou imitação, esse bello livro é, de

qualquer forma, uma obra superior. As excepcionais faculdades poeticas

de Antonio Feijó, a sua ponderação, o seu gosto, a luminosidade e

elegancia do seu verbo, o seu poder de linha e de colorido, a sua

technica admiravel e conscienciosa, patenteiam-se n'elle de uma maneira

brilhante, impoem-se triumphantemente á nossa admiração. O _Cancioneiro

Chinez_ marca em Antonio Feijó a plena affirmação da sua individalidade

de artista--d'esta individualidade, que já as _Transfigurações_, um

tanto frias nas suas linhas esculpturaes, e as _Lyricas e Bucolicas_,

mais vivas e emocionadas e não menos bellas como forma, annunciavam

promettedoramente. Do _Cancioneiro Chinez_ á _Ilha dos Amores_ havia

apenas um passo a dar. Antonio Feijó deu-o com raro brilho--e tornou-se

um poeta consagrado, um verdadeiro mestre do verso.

_O Cancioneiro_, além do _Portico_, que abre com a exotica decoração e

as sentenciosas inscripções de uma entrada de Pagode, foi accrescentado

com _O sacrificio de Gu-So-Gol_, um canto soberbo de epopeia barbara.

Neste trecho Feijó como que põe mais uma corda na sua lyra--a corda

epica. O quadro d'esse sacrificio heroico é, realmente, grande e nobre.

A flauta de yade, que modulava as docuras idyllicas ou elegiacas do

_Leque_, _Flôr Vermelha_, _Casa no Coração_, _Batel das Flores_, _Esposa

Honesta_, cede a vez á turba estridente que clangora as sublimidades do

heroismo. Os versos resoam bronzeos, metallicos, como um ruido de armas.

O seu rythmo alonga-se, ergue-se, empola-se, como uma vaga que o sopro

da tempestade entumesce. E em todo esse bello episodio uma forte

crispação tragica passa, fazendo-nos vibrar de um confuso sentimento,

mixto de terror e enthusiasmo epico.

_Jornal da Noite_, de 14 de Agosto de 1909.

Luiz de Magalhães.

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 101 / 106 题