SOBRE A «ILHA DOS AMORES»

Poeta por necessidade de temperamento e por fatalidade de herança,

Antonio Feijó sabe impôr, a quem o lê, a contestada mas suprema

fidalguia do verso. Emotivo e delicado como os velhos bysantinos,

amoroso e enternecido como todo o meridional, a sua bella constituição

de lyrico assegura-lhe um logar inteiramente á parte entre os technicos

portugueses. Sendo um religioso da côr, Feijó desadora as tintas

impetuosas e agressivas, e, numa preciosa doçura, dá-nos a branco e oiro

as suas figuras de mulher. O ar contemplativo, o ar extatico das suas

lyricas, veio-lhe no sangue. Numa remota ascendencia lá está frei

Agostinho da Cruz a assegurar-lhe a fatalidade da herança.

Não é esteril a intervenção da hereditariedade na comprehensão moral

d'um poeta. O incomparavel mistico da Arrabida renasce espiritualmente

na alta uncção lyrica e nos piedosos enternecimentos de Antonio Feijó.

Tenho aqui, sobre a minha mesa, esses dois bellos livros--a _Mystica de

frei Agostinho_ e a _Ilha dos Amores_,--tão proximos pelos laços de

familia e tão afastados pelo poder do tempo. O epilogo da Ilha dos

Amores, essa piedosa aspiração a uma vida mais simples, a um ruralismo

honesto e socegado, o que é elle, senão a affirmação d'um mysticismo

profundo, obliquado pela acção dissolvente do meio e pela orientação

revoltosa do tempo? _E tinhas Deus, para te consolar_,--diz

dolorosamente o poeta, no pungente isolamento a que o condemnou a sua

propria superioridade cerebral. O mesmo enlevo mystico d'aquelle, que

Nas pedras do deserto achou brandura,

Nas serpentes da serra piedade

E nas pelles das feras cobertura.

Lendo um e outro, o velho Agostinho Pimenta e o novo Antonio Feijó, vejo

a affirmação de dois grandes poetas e a imposição de duas grandes almas.

Entre o profundo amigo do duque de Aveiro e o louro diplomata, as

differenças apparentes fundem-se numa grande semelhança intima. O

primeiro, victima da sua emotividade excessiva, fugiu do amor da terra

para o amor do ceu; o outro, galante e vivo, deixou-se ficar pelo amor

da terra, e em grande verdade, ficou melhor. Mas quando a evocação da

mulher domina os espiritos d'um e de outro, quando o sentimento da côr

lhes illumina os olhos, então as apparições da Ilha dos Amores teem a

mesma luz que a apparição de Magdalena e de Santa Clara aos olhos

pisados do frade. Vejamos se as figuras que passam na insula encantada,

vestidas de oiro e de sonho, as não poderia ter evocado o cerebro d'um

mystico como Juan de la Cruz, Jacopone de Todi ou Lourenço de Medicis?

Uma _voluptuosa de si mesma_; outra, a lyrica Ignez, duas vezes virgem,

aquella, _toda de sol vestida e de astros coroada_; aquell'outra ainda,

_santa illuminada a oiro, no esplendor d'uma Assumpção_,--o que mostram

todas ellas, senão que o erotismo e o mysterio não são mais que dois

ramos da mesma arvore ou duas flôres do mesmo ramo? O mysticismo de

Agostinho Pimenta e o erotismo de Antonio Feijó, o que são elles, senão

uma e a mesma coisa?

Disse eu, que o poeta da _Ilha dos Amores_ tinha um logar aparte entre

os technicos portugueses. A sua technica, sendo nalguns pontos

decadente, é, por assim dizer, classica e impeccavel no seu decadismo.

Feijó afastou-se da discutivel rigidez do classico absoluto, e fez um

classico seu, de cujas formulas se não aparta. As liberdades da sua

technica chegam a ser mais difficeis do que as difficuldades da technica

parnasiana. É um caso esporádico nos annaes da nossa lyrica. Seja como

fôr, Feijó tem no seu passado, como demonstração clara da sua impeccavel

métrica, dois livros modelares. Nas proprias paginas do _Auto do meu

affecto_, conserva-se um parnasiano puro. O mesmo nos sonetos da _Alma

Triste_. A _Ilha dos Amores_ veio apenas mostrar uma face nova do seu

grande poder de realização. O proprio Francisco Manoel de Mello teve

delirios metricos, como Feijó nalgumas das suas lyricas. E não é, por

isso, menos poeta.

Deus queira que António Feijó nos traga um novo livro quando voltar,--um

livro todo de branco e oiro, em que o travor das suas nostalgias seja,

como neste ultimo, uma bem deliciosa nota. Até lá, envio-lhe, com as

saudades d'este ceu azul, o mais enternecido abraço.

_Novidades_, 20 de Julho de 1897.

Julio Dantas.

* * * * *

«ILHA DOS AMORES»

Temos desde hontem o novo livro de versos de Antonio Feijó--_Ilha dos

Amores_, saido, ha dias, dos prelos da Imprensa Nacional, e editado pela

casa M. Gomes, de Lisbôa. Evidentemente que, por muito menos fadigosa

que a nossa vida fôsse, nos seria absolutamente impossivel avaliar em

conjunto, dentro de tão breve espaço, a obra de um artista litterario da

nobre categoria a que pertence A. Feijó. Vai isto, assim, apenas como

registo de recepção e de vivo agradecimento, envoltamente com algumas

ligeiras notas da impressão que recebemos de uma rapida leitura.

Essa impressão é magnifica. O talento de A. Feijó amplificou-se

notavelmente em emoção, em fantasia, em profundeza de alma; o poeta

alongou os seus passos e a sua visão pelo mundo, e á nostalgia da sua

bella mocidade, não muito longinqua, ainda, se lhe foi juntar a do seu

patrio Minho, tão distante do país scandinavo e, ao mesmo tempo, tão

brutalmente contrastado pela noite e pela neve d'essa tristissima região

polar. E é um encanto de observação o jogo d'esta dupla mágoa, d'este

complicado pungir, deliciosissimo, de que provêm as estancias da _Ilha

dos Amores_. Numa reacção vigorosa de fisiologia e de alma, assim como

os seus olhos se ensanguentaram naquella immensa noite, assim tambem,

naquella tristeza inexoravel, o coração do poeta se dilatou de saudades,

e a estetica do glorioso parnasiano antigo emoveu-se intensamente e

vibrou fundo; todas as nervuras do marmore sagrado se desmineralizaram

em veias e em arterias e uma onda rubra e fumegante circulou e palpitou

por todas ellas.

De resto, em todos os versos que já lemos do novo livro, é o mesmo

estilo magnificente das producções de outr'ora, mas dexterisado com um

maravilhoso, consummado bom-gosto; é essa mesma amplitude

harmoniosissima e limpidez diamantina, o admiravel senso musical, a

riqueza larga de fantasia, e aquella fidalga probidade artistica, o

esmero, a esplendida perfeição de executante, que fizeram de Antonio

Feijó um dos mais elevados representantes da nossa poesia contemporanea.

Em remate, da _Ilha dos Amores_, trasladamos para a valla do noticiario

esta divina lirica:

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 100 / 106 题