rei e dos seus aulicos favoritos, a influencia franceza tinha de ser
preponderante, por que a França era então considerada como o modelo
da elegancia e do gosto. Esta influencia franceza na litteratura
manifesta-se como uma reacção do purismo pseudo-classico contra o
Culteranismo, ou a influencia hespanhola. D. João V tomava como seu
figurino Luiz XV com a sua côrte sensual e sumptuosa. Os fidalgos
portuguezes começaram a ter nos seus jardins fontes feitas por Bernin,
como se usava em França; Mafra era um arremedo de Versailles, e as
Aguas-Livres um despique com o Aqueducto de Maintenon. O Conde da
Ericeira mantinha relações de amisade com o chefe do pseudo-classicismo
francez, o austero Boileau, e traduzia-lhe a sua _Poetica_ para nos dar
um codigo de bom gosto. Boileau agradeceu-lhe em uma carta (é a XIV.^a)
tamanha consagração. Francisco de Pina e Mello imita as _Odes sacras_
de João Baptista Rousseau; Verney, proclamava o _Telemaco_ de Fénélon
«uma Epopêa das mais bem feitas e escriptas que tem apparecido.»[193] A
_Athalia_ de Racine era traduzida por Candido Lusitano, e o _Lutrin_,
imitado no _Hyssope_ de Cruz e Silva. A fundação da _Academia de
Historia portuguesa_, em 9 de Dezembro de 1720, fôra iniciada pelo
Conde da Ericeira no seu palacio da Annunciada «_por emulação dos
Scientes de França_» como se lê em uma _Oração panegyrica_. É curiosa
a transformação das Academias culteranistas do seculo XVII nas
arcádicas do seculo XVIII, aproximando-se do classicismo francez.
Assim, a Academia dos _Generosos_, iniciada pelo trinchante-mór de
Dom João IV, mantendo-se de 1647 até 1668, é renovada em 1684, e por
seu filho D. Luiz da Cunha, continuando até 1693, é disfarçada com o
titulo de _Conferencias discretas_, com que celebrava as suas sessões
de 1696 a 1699 em casa do Conde da Ericeira; e n’esse mesmo palacio
durante quatorze annos (1714 a 1728) se confundiu com a Academia dos
_Anonymos_, refundindo-se a final na _Academia de Historia portuguesa_,
com caracter particular em 1717, e official depois de 4 de Novembro de
1720. Assim a divisa da Academia dos _Generosos_: _Non extinguetur_,
com o emblema de uma vela accesa, tornava-se uma realidade, por que
n’estas renovações transmittia sempre o gosto do Culteranismo. O antigo
secretario da Academia dos _Generosos_, Manuel Telles da Silva, funda
em 1747 a Sociedade dos _Occultos_, com o fim da transformação do
gosto litterario. Existiu até 1755 em que foi dispersada pela tremenda
catastrophe do terremoto de Lisboa, e só veiu a reconstituir-se em 11
de Março de 1756 com o titulo definitivo de _Arcadia Ulyssiponense_,
datando as suas conferencias do _Monte Ménalo_ (á imitação do Parrasio,
da de Roma.) Quando morreu D. João V, o protector das sociedades
arcádicas, celebraram-lhe a memoria as Academias dos _Escolhidos_,
dos _Anonymos_, dos _Applicados_ e dos _Occultos_, que funccionavam
em Lisboa. Foi contra esta forte corrente culteranista que luctou a
_Arcadia Ulyssiponense_, mas com aquella frieza sensata e incolôr do
classicismo francez. A poesia culteranista impunha-se, por que, como o
confessa Verney: «a sua contextura é tão facil, que por máo que seja o
poeta sempre acerta com ellas. A _Decima_, o _Madrigal_, as _Liras_,
a _Silva_, o _Romance_ lyrico, _Quartetos_ puros e de pé-quebrado,
_Tercetos_, etc., nada mais pedem que a naturalidade do conceito e
expressão...»[194] A _Arcadia_ dispendeu a sua energia em questões
banaes, propondo a imitação dos Quinhentistas e as regras do emprego
dos archaismos e neologismos da linguagem. Sob a pressão material
e moral do absolutismo monarchico e do intolerantismo catholico, a
auctoridade academica veiu acabar de deprimir os espiritos, e a poesia
degradou-se na obscenidade, como se vê nos versos de Caetano da Silva
Souto Mayor (o _Camões do Rocio_), de Antonio Lobo de Carvalho (o
_Diogenes da Madragoa_), nos de Filinto e de Bocage.
No emtanto, sente-se no meio d’esta linguagem falta de expressão
emocional o influxo da poesia ingleza em Garção, apezar do seu
horacianismo, e em José Anastacio da Cunha. Entre as obras de Garção
encontra-se a «_Traducção de uns versos inglezes feitos a um grande
pintor_.»[195] E da ode _A uns annos de uma senhora ingleza_,
se deprehende qual a sua convivencia, e ensejo de familiaridade
com as obras dos poetas inglezes. José Anastacio da Cunha traduziu
a _Oração universal_, de Pope, um dos fundamentos com que o
agarrou a Inquisição de Coimbra em 1778; no seu processo do Santo
Officio se lê, que era muito amigo do brigadeiro Ferrier «escossez
de nação, protestante, o qual lhe pedia traduzisse algumas peças e
versos de alguns livros francezes e inglezes, que elle fazia em verso
portuguez...» No sequestro que a Inquisição de Coimbra fez dos seus
Livros, vem enumerados muitos livros inglezes.[196]
A superioridade das poesias lyricas de José Anastacio da Cunha sobre
todas as dos seus contemporaneos explica-se por esses modelos que o
conduziram á realidade e á expressão natural e simples da paixão. O
pseudo-classicismo reconhecendo a sua inutilidade, cultivava a poesia
didactica, pondo em poemas os estudos scientificos tão predilectos do
seculo XVIII, ou propagando tambem em tragedias racinianas as doutrinas
revolucionarias do criticismo encyclopedista. Póde-se considerar
como a ultima phase do _Arcadismo_, que a Revolução franceza,
apezar das grandes paixões postas em conflagração, não conseguiu
desviar da sua inalteravel rhetorica. É certo, que em França, pelo
mesmo negativismo critico, se operava uma libertação da auctoridade
classica e das tradições medievaes, e se proclamava o individualismo
humano e o regresso á natureza. É esta corrente _proto-romantica_
franceza, que vae reflectir-se na Allemanha, acordando o espirito
dos creadores d’aquella grande litteratura; Lessing imita Diderot
no theatro, Goëthe admira o creador do _Neveu de Rameau_,
Wieland reelabora as Gestas francezas, Schiller desenvolve a Tragedia
philosophica com intuitos revolucionarios, e o proprio Kant confessa-se
fecundado pelas ideias individualistas de Rousseau. Os emigrantes
francezes, por occasião da revogação do Edito de Nantes, tinham levado
para a Allemanha o impulso da civilisação moderna; era inevitavel
a preponderancia do pseudo-classicismo francez. Interrompeu-se
essa imitação, quando a Allemanha, suscitada pelo conhecimento da
Litteratura ingleza, comprehendeu o valor das suas antigas _tradições
nacionaes_. O rompimento com a cansada imitação da França só
podia começar em uma nação forte pela raça e pela riqueza das suas
tradições, para fundar a sua Litteratura na idealisação d’ellas.
Foi um trabalho consciente. Por occasião da Guerra dos Sete annos a
Allemanha separou-se da imitação franceza, e a leitura dos antigos
poetas inglezes revelou-lhe que fóra das normas do classicismo francez
existiam outras fórmas artisticas mais coloridas e bellas. Lessing,
na _Dramaturgia_, funda a nova prosa allemã e derrue as theorias
dos tragicos francezes; a côrte de Weimar, sob o influxo pacifico da
regencia de Anna Amelia de Bronswick, agrupa essa pleiada de genios
creadores, de que Goëthe era o chefe. Os irmãos Grimm encetam os seus
vastos estudos sobre a lingua, a mythologia, o direito, as velhas
epopêas e os contos populares da Allemanha; e sobre estes elementos
da _Patria germanica_, resplandece uma nova litteratura, que se
torna uma das mais opulentas do seculo. O _Romantismo_, para os
povos do Occidente foi o regresso ás suas tradições da Edade media,
não comprehendidas, desprezadas e esquecidas desde a Renascença, pelo
prurido da imitação classica sob a protecção official monarchica.
Desde então o movimento das Litteraturas romanicas se resume n’este
impulso da Litteratura allemã, revelando as fontes organicas de toda a
elaboração esthetica.[197]
=§ 3.--O Romantismo=
(HEGEMONIA DA ALLEMANHA)
Os espiritos mais eminentes do seculo XVIII previram a _crise
violenta_, que a decadencia das instituições politicas provocava,
e que as revoltas da consciencia iam apressando. A Revolução
franceza foi essa explosão temporal de um movimento, que desde o
seculo XII procurava um novo equilibrio; movimento complicado pelo
longo esforço negativista de decomposição, e pela incerteza de uma
base positiva para a reconstrucção de uma outra synthese humana. A
queda dos Jesuitas fôra o resultado da final decomposição do poder
espiritual do regimen catholico; e a execução da realeza, na pessoa
do desgraçado Luiz XVI, era a transformação do poder temporal, que
desde as bandas guerras germanicas, e dos privilegios das classes
aristocraticas, se fôra concentrando na dictadura monarchica. Devera
seguir-se um forte trabalho de reconstrucção sobre as ruinas do
regimen catholico-feudal; a Convenção comprehendeu genialmente o seu
destino, e esboçou o _poder espiritual_ com as grandes reformas
pedagogicas, e o _poder temporal_ com a substituição provisoria
da Republica-democratica. Na complicação dos acontecimentos esta
marcha foi perturbada; o poder espiritual desvairado pela metaphysica
_deista_ de Robespierre facilmente regressou a uma reacção
neo-catholica; e o poder temporal, envolvido nas guerras defensivas
e no delirio do _terror_, foi cahir nas mãos de um aventureiro
militar, que com o nome de Consul e de Imperador esgotou a França com
uma orgia de guerras sangrentas, que levou a Europa a colligar-se e
a fazer a restauração da monarchia. Eis a série de factos que na sua
inconsequencia se accumularam na transição do seculo revolucionario
para o seculo XIX; a nova edade continuou a antiga lucta, porém com
menos clareza. Com rasão considerava De Maistre o nosso seculo como
um prolongamento do seculo XVIII. Não se avançou mais no trabalho da
construcção da nova synthese; estabeleceu-se a hypocrisia systematica
das contemporisações e dos partidos medios (_juste milieu_);
as Cartas-outorgadas e o regimen monarchico-representativo foram a
sophismação do poder temporal; da mesma fórma a religião de estado e o
subsidio official a todas as desconnexas especialidades scientificas
corrompeu o poder espiritual em uma espantosa pedantocracia.
N’esta angustiosa crise, que esterelisou o seculo XIX, que deixará
na historia a marca da sua incapacidade para a construcção da
synthese definitiva, as Litteraturas reflectiram todos estes abalos
de um regimen decahido, e da comprehensão de um ideal superior.
Representaram a melancholia e o estado de desalento dos espiritos;
deram expressão aos sentimentos que se compraziam em evocar o
passado, que procurava restaurar o seu antigo dominio; espalharam os
protestos de revolta dos genios insubmissos, e lisongearam o gosto
banal de uma burguezia cordata. Todas estas manifestações eram a
revelação dos caracteres de uma nova época litteraria: chamou-se-lhe
o _Romantismo_. Veiu da Allemanha esta designação, como viera
o exemplo de sympathia pelas tradições da Edade media. Na renovação
das Litteraturas romanicas competiu á Allemanha a hegemonia, nos
começos do seculo, como resultante da solidariedade da civilisação
europêa; e essa acção ligava-se á diversidade que n’este longo periodo
de lucta se estabelecera entre o regimen catholico-monarchico e o
aristocratico-protestante, dos povos romanicos e germanicos.
Considerando como uma base da Sociologia o estudar a civilisação em
todos estes povos que conjunctamente participaram do movimento da
Europa occidental, na Italia, França, Inglaterra, Allemanha e Hespanha,
estabelece Comte: «Estas cinco grandes nações podem ser consideradas
como tendo constituido depois da primeira metade da Edade media, apezar
de immensas diversidades, um povo unico reunido sob o regimen catholico
e feudal e sujeito a todas as transformações successivas que este
regimen provocava consequentemente.»[198] No estudo das Litteraturas
modernas torna-se indispensavel este criterio; embora o genio nacional
tenda a individualisar-se e a manter o separatismo patriotico como um
estimulo de inspiração, é nas Litteraturas que se observa a hegemonia
esthetica que cada nação europêa foi exercendo uma após uma sobre
o conjuncto das outras, creando assim uma verdadeira solidariedade
sentimental na civilisação do occidente. Comte fez sentir o valor
d’esta successão hegemonica: «Ainda que a arte tenha sido accusada
de fomentar antipathias nacionaes, em virtude da sua incorporação
no desenvolvimento proprio de cada população, ella tem, sem duvida,
actuado com mais energia em sentido contrario, aproximando as nações,
pela viva predilecção universal que as obras primas estheticas
suscitavam para o povo que as produzia. Cada uma das bellas-artes teve
o seu modo especial de excitar a sympathia universal da Europa e de
auxiliar a communicação mutua; mas a influencia mais geral e a mais
efficaz, sob este aspecto, pertence á poesia, que obrigou ao estudo das
linguas estrangeiras, sem o qual as diversas obras primas não teriam
sido apreciaveis.»[199]
Na crise systematica da revolução occidental, a começar do seculo
XVI, as capacidades estheticas revelam-se diversamente entre os
povos catholicos e os protestantes. Com o catholicismo prepondera a
monarchia com a sua absorvente dictadura temporal, apoderando-se das
Litteraturas por uma exagerada protecção official, pela instituição
de academias destinadas a subordinar a inspiração individual a regras
rhetoricas, manietando pela auctoridade do gosto ou dos modelos
consagrados todos os impulsos de originalidade. Nada satisfazia melhor
este plano do que a imitação da antiguidade classica; e de facto o
prolongado perstigio da poesia do polytheismo greco-romano durou
com o perstigio das monarchias absolutas, e soffreu a sua reacção
depois da explosão revolucionaria. Com o protestantismo preponderou o
elemento aristocratico, a quem era sympathico o ideal cavalheiresco
do individualismo heroico; e as naturezas artisticas, sem outro apoio
mais do que a espontaneidade da sua vocação e a sympathia popular,
não perderam completamente a originalidade, por que se não afastaram
de todo da Edade media. É por isso que a Inglaterra exerce no seculo
XVIII uma influencia sugestiva no pseudo-classicismo francez, e que no
seculo XIX a Allemanha actúa nas Litteraturas occidentaes revocando-as
pelo exemplo ás suas fontes tradicionaes da Edade media. Nem de outra
fórma se explica como o Protestantismo tão anti-poetico pôde exercer
uma influencia renovadora; não renegára completamente a Edade media.
Comte observou esta differença, concluindo quanto uma verdadeira
theoria do progresso humano póde esclarecer o estudo do desenvolvimento
historico da arte: «Dos dois modos politicos, o monarchico-catholico e
o aristocratico-protestante, o primeiro era mais favoravel á arte do
que o outro. Comprehende-se facilmente que a arte recebesse um impulso
mais homogeneo e mais completo de um poder mais central e mais elevado,
cujo ascendente protector devia incorporar bastantemente a animação
contínua de todas as bellas-artes ao systema geral da politica moderna.
Assim vêmos os governos monarchicos fundarem Academias poeticas ou
artisticas, (_Arcadismo_) as quaes, primeiramente instituidas na
Italia, adquiriram immediatamente em França, sob Richelieu e sob Luiz
XIV uma importancia superior. No modo aristocratico e protestante, ao
contrario, a preponderancia da força local entregava as bellas-artes
ao penivel e insufficiente recurso das protecções particulares, nas
povoações em que o protestantismo tendia a neutralisar a educação
esthetica começada na Edade media.--A dictadura monarchica em
França devia de ter repugnancia pelas recordações da Edade media,
em que a realeza era tão fraca e a aristocracia tão poderosa;... Em
Inglaterra ao contrario, em que o systema feudal estava menos alterado,
as sympathias as mais geraes voltavam-se para as recordações da
Edade-media, o que explica a popularidade que teve a sua representação
pelo grande Shakspeare.»[200]
_a_) REHABILITAÇÃO DA EDADE-MEDIA
Uma das causas da incoherencia mental do seculo XVIII fôra o
desconhecimento da continuidade historica; no seu negativismo religioso
e politico desprezou completamente a Edade media; Helvetius e Raynal
chamavam-lhe _esteril barbarie_, e edade de _trevas sem nome_.
Comprehende-se que a Allemanha feudal, reagindo contra a influencia
litteraria da França, procurasse nas tradições heroicas ou
cavalheirescas da Edade media elementos sympathicos para a idealisação
poetica de espiritos reflexivos. O nacionalismo levava a achar as
fontes organicas da sua elaboração artistica. O mesmo espirito feudal,
na Inglaterra, comprazia-se com a representação de uma existencia
cavalheiresca, que Walter Scott reconstruia pacientemente e com esmero
na portentosa série dos seus romances historicos. Em França este
regresso á Edade media não se deu por um intuito artistico;
determinou-o um fim politico. O conde José de Maistre, servindo a causa
da restauração neo-catholica, tratou de estabelecer a solidariedade
historica da Edade media com o presente. Nada percebia do progresso
humano depois do christianismo, como o previra Condorcet, porém via com
lucidez a continuidade do passado nos seus elementos conservantistas.
Foi esta incapacidade que provocou a lucta entre _Classicos_ e
_Romanticos_, que rompeu em 1818; n’essa lucta revelava-se a antinomia
de doutrinas. Os _Classicos_, que eram voltairianos, que continuavam
sob a Restauração o ideal republicano, ou como academicos se
conciliavam com a monarchia liberal, sustentavam o predominio absoluto
dos modelos greco-romanos. Os _Romanticos_, começaram por servir a
reacção catholica, e para isso é que Chateaubriand idealisou a Edade
media no _Genio do Christianismo_; sendo renovadores na litteratura,
caíam no contrasenso de cooperarem para o retrocesso da consciencia. A
esta phase religiosa chamou-se o _Romantismo emmanuelico_, sendo os seus
principaes vultos depois de Chateaubriand, Lamartine, Alfred de Vigny
e Soumet.
Mas a Edade media não fôra sómente catholica; fôra feudal e
cavalheiresca. Sob este aspecto começou a apparecer como um mundo
ignorado, rico de formosos symbolos e de uma sociabilidade altamente
dramatica; desenvolve-se então o romance historico sobre os typos
de Walter Scott, e o drama de sensação, pelo gosto de Schiller.
É então que apparece Victor Hugo com a _Notre Dame_ e os
_Burgraves_. Na Edade media tambem luctaram pela liberdade
as Classes servas, que chegaram a constituir o terceiro Estado,
que triumphou com a Revolução; foi esse o campo do _Romantismo
liberal_, que foi achar a sua disciplina na renovação dos estudos
historicos por Agostinho Thierry, Guizot, Michelet, Barante, etc.
Assim como a palavra _Romance_ designa a fórma a mais original e
caracteristica das Litteraturas modernas, em que se idealisa o elemento
domestico desconhecido na arte antiga, tambem a palavra _Romantismo_
é uma feliz denominação de uma edade ou phase das Litteraturas
modernas em que ellas reataram a continuidade com a Edade media, onde
se elaboraram todos os germens tradicionaes das raças incorporadas
pela civilisação romanica. Nenhuma expressão poderia achar-se mais
significativa, por que na diversidade das nações europêas tem
implicita a ideia da sua unidade, tantas vezes e tão calamitosamente
obliterada na historia. Nas _Conversas com Eckermann_, Goëthe conta: «A
determinação de poesia _classica_ e de poesia _romantica_, que n’este
momento circula pelo mundo, e que causa tantas discussões e dissensões,
partiu, quanto ao fundo, de mim e de Schiller. Eu adoptára para a
poesia o processo objectivo, o unico que me parecia bom, Schiller, que
pelo contrario, procedia de um modo inteiramente subjectivo, julgou o
seu methodo melhor, e foi para se defender contra mim que elle escreveu
o _Tratado da Poesia ingenua e da Poesia sentimental_. (1795.) Os
Schlegel apoderaram-se d’esta distincção para a levarem mais longe,
de sorte que presentemente estendeu-se pelo mundo todo.» Á maneira
da _Querella dos Antigos e Modernos_, levantou-se a polemica entre
_Classicos_ e _Romanticos_, avançando para uma melhor comprehensão
historica de cada Litteratura, ambas bellas nas suas differenças
estheticas. Segundo Schiller, para os gregos a poesia é uma imitação
da realidade quanto possivel, tendendo para a verdade; o poeta
moderno ou sentimental reproduz a sua propria impressão idealisando-a
como realidade. Mas esta distincção, sendo aliás fundamental é
incompleta, por que a objectividade pertence a todas as épocas de
espontaneidade irreflectida, o que se repete nas Gestas da Edade
media; e a subjectividade caracterisa as épocas em que ha um intenso
trabalho mental, critico e reflectido. A revolução occidental do seculo
XII ao XIX foi na sua maior parte _mental_, metaphysica, critica e
negativista; bastava esta intensa subjectividade para caracterisar as
Litteraturas creadas n’esta longa instabilidade. Comte viu mais claro
o problema; distinguiu as Litteraturas antigas pela idealisação da
_vida publica_ (as Epopêas, as Tragedias, os Córos e Odes triumphaes),
e as Litteraturas modernas pela idealisação da _vida domestica_, como
se vê nos Romances e na Comedia molieresca, creados apezar de todas as
correntes contrarias a uma natural evolução esthetica. N’esta longa
crise revolucionaria, o completo abandono do sentimento sem intervenção
social deixou manifestar-se o individualismo em revolta; é este
elemento _pessoal_ que apparece na arte moderna de uma fórma original
e extraordinaria, dando logar ás expansões de um esplendido lyrismo.
_b_) O ULTRA-ROMANTISMO
Os _Classicos e Romanticos_ já se não entendiam entre si,
chegando os sectarios das normas do gosto greco-romano ou academico, a
pedirem a intervenção do governo contra os quebrantadores das regras
litterarias; os romanticos achavam n’este titulo um apódo de desprezo
com que os queriam ferir, e renegavam-o com desdem. Assim, em 1824,
lamentava Victor Hugo que empregassem o nome de _Romantico_
sem definirem o termo, explorando «um certo vago indefinivel que
lhe redobrava o horror.» E por fim, quando uma pleiada fecunda de
talentos exprimia nas fórmas litterarias os sentimentos modernos, ainda
Victor Hugo, em 1830, se felicitava de que «estes miseraveis termos
de questiunculas tivessem cahido no abysmo...» Tambem Garrett no seu
poema _Camões_ repellia de si a imputação de _romantico_,
e Herculano considerava essa lucta como a dos antigos Nominalistas;
este seguia o romantismo emmanuelico idealisando a saudade pela vida
monachal, e Garrett seguia o romantismo liberal, como o declara no
_Arco de Sant’Anna_. Mas se estes dois chefes não comprehenderam
a lucta dos _Classicos_ e _Romanticos_, tiveram a intuição
da missão da nova edade litteraria; Garrett avançou para o estudo das
tradições nacionaes no _Romanceiro_, e Herculano fixou-se no
estudo das instituições da Edade media portugueza, a que elle chamou
_Historia de Portugal_. O que era definitivamente o Romantismo,
que ninguem sabia explicar, viu-o lucidamente M.^{me} de Staël,
destacando as duas edades, a classica «que precedeu o estabelecimento
da religião christã» e a que se lhe seguiu, isto é, todos os germens
tradicionaes das novas nacionalidades do Occidente unificadas sob o
regimen catholico-feudal da Edade media até aos tempos modernos. O
regresso a estas origens communs das Litteraturas romanicas é que é
o facto capital da transformação esthetica do seculo XIX. A paixão
pela Edade media tornou-se uma monomania; era facil de reproduzir
os seus symbolos caracteristicos e de simular os seus conflictos de
classes, em dramas e romances. A representação exclusiva da Edade
media, á falta de objectividade, levou ao exagero da phrase, a emphase
rhetorica, produzindo um estylo chamado o _Ultra-Romantismo_.
A subjectividade fôra tambem considerada como um caracteristico das
litteraturas modernas, e n’essa parte parece ainda reconhecer-se a
hegemonia allemã.
No decurso da longa edade revolucionaria, primeiramente mental e
depois social, houve o interregno do _sentimento_, deixado á
espontaneidade da sua concordia natural. No seculo XVIII irrompeu
esta nova força, primeiramente na fórma de _philanthropia_,
inspirando reformas a favor das classes soffredoras; veiu a
passividade emocional diante da natureza, a sensibilidade idyllica,
tornou-se moda a voluptuosidade da melancholia, até se chegar á
_sensiblerie_ das lagrimas, ao desalento da vida e ao pessimismo.
A grande actividade mental do seculo, que tudo analysou, conduzia
a um exagerado _subjectivismo_, e as commoções da explosão
temporal foram determinar nas fórmas da arte moderna a expressão da
sentimentalidade acordada n’essa crise. A alma humana carecia de
consolos, e a musica entrou na sua phase de expressão em Haydn, Mozart,
Beethoven, Weber e Cimarosa. A Poesia saíu do allegorico e deslavado
arcadismo para tornar-se pessoal, e traduzir este estado morbido do
_sentimentalismo_ melancholico. N’este meio social e moral, é que
appareceu na Allemanha o _wertherismo_, não creado por Goëthe na
sua novella de _Werther_, mas de que esta narrativa de uma paixão
vaporosa e fatal que leva ao suicidio foi um resultado. Em França, este
mesmo contagio de tristeza ou o _obermanismo_ teve o evangelho
no _Oberman_ de Sénancourt e no _René_ de Chateaubriand. Na
Inglaterra choram-se as _Noites_ elegiacas do Dr. Young, e surgem
depois os poetas _Lakistas_ cantando os luares, os nevoeiros,
os crepusculos da tarde, todas as emoções tenues da alma; Wordsworth
inspirava-se de um platonismo religioso e animava cada cousa com
entidade moral; Southey e Wilson completavam a pleiada dos poetas
visinhos dos lagos de Westmoreland e de Cumberland, para quem a poesia
era um pantheismo christão, uma somnolencia de extasis, uma bonança
mystica no meio da grande derrocada do regimen theologico-feudal do fim
do seculo XVIII.[201]