CAPITULO CXXXIV

_Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando

secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles_

A Rainha D. Isabel ao tempo d'estas festas era prenhe da primeira vez, e

pario em Cintra um filho, que houve nome o Principe D. João, e em menino

logo falleceu, e depois pario logo a Infanta D. Joana, que sempre se

chamou Princesa até o anno que vinha de mil e quatrocentos e cincoenta e

cinco, em que o Principe D. João nasceo, e depois se chamou Infante, e

falleceu honestamente sem casar nem obrigação de religião dentro no

mosteiro de Jesu d'Aveiro, em idade de XXXVI annos no anno que vinha de

mil e quatrocentos cincoenta e seis, e no anno de mil e quatrocentos

cincoenta e sete El-Rei se foi a Evora, onde o Infante D. Fernando seu

irmão, segundo alguma opinião, teve com elle alguns requerimentos a que

El-Rei, segundo sua vontade não satisfez. Pelo qual o Infante, ou

descontente d'isso, ou desejando acrescentar seu nome e honra na guerra

d'Africa, como outros disseram, ou com desejo de ir vêr El-Rei D.

Affonso de Napoles seu tio, que por não ter filho herdeiro legitimo,

tinha esperança que o dotaria por filho para sua sobcessão, determinou

ir-se escondidamente d'estes reinos sem licença d'El-Rei, sendo já

casado em edade de desoito annos. E para isso mandou a Lopo Fernandez

Andorinho, seu estribeiro, que lhe fizesse como fez com grande trigança

e dissimulação aparelhar uma caravela na Foz d'Odiana, e como foi

avisado que era prestes, partiu-se d'Evora secretamente dia dos

Innocentes, que é a terceira Oitava do Natal, e com elle sómente Nuno da

Cunha seu camareiro mór, e o doutor Vasco Fernandez, e dois moços da

camara, e meteu-se n'ella com fundamento de tocar Ceuta.

Não foi El-Rei de sua partida sabedor salvo no outro dia, com que foi

muito anojado, e mandou logo muitos fidalgos por todalas partes,

avisados que por qualquer caminho que levasse o seguissem; e porque o

Infante ao partir d'Evora por enlear os que o seguissem, pôs o rostro em

Moura com mostrança d'entrar em Castella, El-Rei que d'isso foi avisado,

partiu logo para Mourão e d'hi porque não achou certo recado, partio

pelo rio d'Odiana abaixo sem algum repouso até que chegou a Crasto Marim

onde soube que o Infante embarcara, e d'hi apressado se foi a Tavilla.

E ante que da mudança do Infante alguma cousa em Ceuta se conhecesse,

chegaram a ella por mandado d'El-Rei, João de Mello alcaide mór de

Serpa, e Galleote Pereira, que ao conde D. Sancho capitão de Ceuta

notificaram o caso, e da parte d'El-Rei lhe encomendaram, que com gram

deligencia e trigança mandasse guardar o estreito, para que se o Infante

passasse como se presumia, em toda maneira até o avisar o detivesse.

Deu o conde a isso muita pressa e mandou logo armar fustas e caravellas,

e esses navios do reino que tinha. E em se estas cousas aparelhando,

estavam sobre o mar para isso postas atalaias, que n'elle descobriram

uma gallé e uma caravela ambas juntas, e a galé era de um Peroso,

cosairo italiano, que n'aquelle estreito andava d'armada, e na caravella

vinha o Infante após quem o cosairo vinha, já avisado de quem era, e

para o deter e não o leixar passar, se por ventura desviara a prôa de

Ceuta, e o conde como houve conhecimento que alli vinha o Infante o foi

em uma galeota logo receber ao mar, e com elle se veio ao porto onde com

João de Sousa sómente entrou na caravella e lhe beijou as mãos, e o

Infante sahiu, e foi logo a Santa Maria d'Africa, e tornou-se a

apousentar, e o conde fez quanto pôde pelo agasalhar e servir em todo

cumprimento e perfeição, e lhe entregou a vara da governança e capitania

da cidade; mas o Infante havendo-a em sua mão e esforço por bem

empregada, não lh'a tomou, e o conde como era de muitos annos e siso,

depois de praticarem sobre sua partida, moveu o Infante ao que quiz, que

foi conforma-lo com a vontade d'El-rei, para o qual o conde depois de

concertar o assessego do Infante na gallé do cosairo, avisado bem de

tudo logo partiu e o achou em Tavilla, com que El-Rei e o Infante D.

Anrique e toda sua côrte crendo que vinha alli o Infante, foram postos

em grande alvoroço, e os vieram receber á ribeira, e depois de o conde

lhe dizer o fundamento do Infante, El-Rei com causas e razões evidentes,

e que muito faziam ao resguardo de sua honra e estado, houve por

escusado satisfazer á tenção do Infante, que era estar como fronteiro em

Ceuta, a quem tambem logo mandou o conde d'Arrayollos com quem foram

seus filhos, e o conde d'Atouguia, e o marechal, e após elles outros

muitos fidalgos e pessoas principaes de todo o reino, para o Infante lhe

dar fé, e o moverem logo para sua tornada.

E assi se tornou o conde D. Sancho, que no caminho tomou por força uma

caravela com uma rica empresa de mouros e cavallos, e cousas outras

muitas com que veiu alegre a Ceuta. E elle e os outros declararam logo

ao Infante a vontade e desejo d'El-Rei. E finalmente depois de o Infante

ser por cartas d'El-Rei, e por os senhores que com elle eram mui

perseguido acerca de sua volta para o reino; com especial porque na

cidade morriam muito de pestenença, houve por bem faze-lo, sendo já

diante partido o conde d'Arrayolos e D. Fernando, e D. João seus filhos,

que o Infante tinha despedidos com fundamento de ficar em Ceuta alguns

dias.

E ante de o Infante se meter no mar; por que o conde D. Sancho andava

anojado por uma sua filha já mulher, e por o Arcebispo de Lisboa D.

Pedro seu irmão, que uma em Ceuta, e o outro no reino ambos então

falleceram, e em signal de tristeza trazia por elles grande barba, o

Infante lhe rogou que a fizesse e tirasse o dó, e o conde para o fazer

lhe metteu por condição que tambem fizesse a sua que ainda nunca fizera,

de que ao Infante aprouve e assi o fez, e logo embarcou em navios, e com

elle o conde D. Sancho, e o conde d'Atouguia, e outros muitos senhores e

fidalgos, e passaram logo á ilha de Tarifa, e d'hi pelos lugares da

costa do mar até Callez, recebendo o Infante dos castelhanos muitos e

honrados presentes e grandes refrescos, e elle assim fazendo a muitos

que lh'o pediam muitas mercês e esmolas.

E de Callez se foi a Crasto Marim, onde chegou quarta feira sete dias de

Fevereiro do anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, onde estava o

Infante D. Anrique, que no rostro e alegres mostranças com que logo

recebeu o Infante seu sobrinho e filho, e nas festas e avondanças com

que o tratou e os que com elle vinham, pareceu mui claro o grande e

verdadeiro amor que lhe tinha, e alli esteve o Infante D. Fernando oito

dias, nos quaes mandou fazer de vestir asi e a todolos senhores e

fidalgos que com elle vinham, de muitos pannos de sêda e de lã que em

Callez para isso mandou comprar.

E depois de se despedir do Infante seu tio se foi a Mertola, e d'hi a

Beja onde El-Rei o esperava, que foi aos XVII dias de Fevereiro, que era

a primeira sexta feira da quaresma.

Sahiu El-Rei tres legoas ao receber, em cuja vista elle e toda a côrte

receberam muita alegria. E assi foram fallando até á villa, d'onde por

mandado d'El-Rei sahiu muita gente a receber o Infante com muitas festas

e prazeres.

E d'hi a poucos dias El-Rei por satisfazer ao descontentamento do

Infante de que mais sua partida pareceu que procedera, lhe fez doação

das villas de Beja e Serpa e Moura.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 62 / 69 题