_Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando
secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles_
A Rainha D. Isabel ao tempo d'estas festas era prenhe da primeira vez, e
pario em Cintra um filho, que houve nome o Principe D. João, e em menino
logo falleceu, e depois pario logo a Infanta D. Joana, que sempre se
chamou Princesa até o anno que vinha de mil e quatrocentos e cincoenta e
cinco, em que o Principe D. João nasceo, e depois se chamou Infante, e
falleceu honestamente sem casar nem obrigação de religião dentro no
mosteiro de Jesu d'Aveiro, em idade de XXXVI annos no anno que vinha de
mil e quatrocentos cincoenta e seis, e no anno de mil e quatrocentos
cincoenta e sete El-Rei se foi a Evora, onde o Infante D. Fernando seu
irmão, segundo alguma opinião, teve com elle alguns requerimentos a que
El-Rei, segundo sua vontade não satisfez. Pelo qual o Infante, ou
descontente d'isso, ou desejando acrescentar seu nome e honra na guerra
d'Africa, como outros disseram, ou com desejo de ir vêr El-Rei D.
Affonso de Napoles seu tio, que por não ter filho herdeiro legitimo,
tinha esperança que o dotaria por filho para sua sobcessão, determinou
ir-se escondidamente d'estes reinos sem licença d'El-Rei, sendo já
casado em edade de desoito annos. E para isso mandou a Lopo Fernandez
Andorinho, seu estribeiro, que lhe fizesse como fez com grande trigança
e dissimulação aparelhar uma caravela na Foz d'Odiana, e como foi
avisado que era prestes, partiu-se d'Evora secretamente dia dos
Innocentes, que é a terceira Oitava do Natal, e com elle sómente Nuno da
Cunha seu camareiro mór, e o doutor Vasco Fernandez, e dois moços da
camara, e meteu-se n'ella com fundamento de tocar Ceuta.
Não foi El-Rei de sua partida sabedor salvo no outro dia, com que foi
muito anojado, e mandou logo muitos fidalgos por todalas partes,
avisados que por qualquer caminho que levasse o seguissem; e porque o
Infante ao partir d'Evora por enlear os que o seguissem, pôs o rostro em
Moura com mostrança d'entrar em Castella, El-Rei que d'isso foi avisado,
partiu logo para Mourão e d'hi porque não achou certo recado, partio
pelo rio d'Odiana abaixo sem algum repouso até que chegou a Crasto Marim
onde soube que o Infante embarcara, e d'hi apressado se foi a Tavilla.
E ante que da mudança do Infante alguma cousa em Ceuta se conhecesse,
chegaram a ella por mandado d'El-Rei, João de Mello alcaide mór de
Serpa, e Galleote Pereira, que ao conde D. Sancho capitão de Ceuta
notificaram o caso, e da parte d'El-Rei lhe encomendaram, que com gram
deligencia e trigança mandasse guardar o estreito, para que se o Infante
passasse como se presumia, em toda maneira até o avisar o detivesse.
Deu o conde a isso muita pressa e mandou logo armar fustas e caravellas,
e esses navios do reino que tinha. E em se estas cousas aparelhando,
estavam sobre o mar para isso postas atalaias, que n'elle descobriram
uma gallé e uma caravela ambas juntas, e a galé era de um Peroso,
cosairo italiano, que n'aquelle estreito andava d'armada, e na caravella
vinha o Infante após quem o cosairo vinha, já avisado de quem era, e
para o deter e não o leixar passar, se por ventura desviara a prôa de
Ceuta, e o conde como houve conhecimento que alli vinha o Infante o foi
em uma galeota logo receber ao mar, e com elle se veio ao porto onde com
João de Sousa sómente entrou na caravella e lhe beijou as mãos, e o
Infante sahiu, e foi logo a Santa Maria d'Africa, e tornou-se a
apousentar, e o conde fez quanto pôde pelo agasalhar e servir em todo
cumprimento e perfeição, e lhe entregou a vara da governança e capitania
da cidade; mas o Infante havendo-a em sua mão e esforço por bem
empregada, não lh'a tomou, e o conde como era de muitos annos e siso,
depois de praticarem sobre sua partida, moveu o Infante ao que quiz, que
foi conforma-lo com a vontade d'El-rei, para o qual o conde depois de
concertar o assessego do Infante na gallé do cosairo, avisado bem de
tudo logo partiu e o achou em Tavilla, com que El-Rei e o Infante D.
Anrique e toda sua côrte crendo que vinha alli o Infante, foram postos
em grande alvoroço, e os vieram receber á ribeira, e depois de o conde
lhe dizer o fundamento do Infante, El-Rei com causas e razões evidentes,
e que muito faziam ao resguardo de sua honra e estado, houve por
escusado satisfazer á tenção do Infante, que era estar como fronteiro em
Ceuta, a quem tambem logo mandou o conde d'Arrayollos com quem foram
seus filhos, e o conde d'Atouguia, e o marechal, e após elles outros
muitos fidalgos e pessoas principaes de todo o reino, para o Infante lhe
dar fé, e o moverem logo para sua tornada.
E assi se tornou o conde D. Sancho, que no caminho tomou por força uma
caravela com uma rica empresa de mouros e cavallos, e cousas outras
muitas com que veiu alegre a Ceuta. E elle e os outros declararam logo
ao Infante a vontade e desejo d'El-Rei. E finalmente depois de o Infante
ser por cartas d'El-Rei, e por os senhores que com elle eram mui
perseguido acerca de sua volta para o reino; com especial porque na
cidade morriam muito de pestenença, houve por bem faze-lo, sendo já
diante partido o conde d'Arrayolos e D. Fernando, e D. João seus filhos,
que o Infante tinha despedidos com fundamento de ficar em Ceuta alguns
dias.
E ante de o Infante se meter no mar; por que o conde D. Sancho andava
anojado por uma sua filha já mulher, e por o Arcebispo de Lisboa D.
Pedro seu irmão, que uma em Ceuta, e o outro no reino ambos então
falleceram, e em signal de tristeza trazia por elles grande barba, o
Infante lhe rogou que a fizesse e tirasse o dó, e o conde para o fazer
lhe metteu por condição que tambem fizesse a sua que ainda nunca fizera,
de que ao Infante aprouve e assi o fez, e logo embarcou em navios, e com
elle o conde D. Sancho, e o conde d'Atouguia, e outros muitos senhores e
fidalgos, e passaram logo á ilha de Tarifa, e d'hi pelos lugares da
costa do mar até Callez, recebendo o Infante dos castelhanos muitos e
honrados presentes e grandes refrescos, e elle assim fazendo a muitos
que lh'o pediam muitas mercês e esmolas.
E de Callez se foi a Crasto Marim, onde chegou quarta feira sete dias de
Fevereiro do anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, onde estava o
Infante D. Anrique, que no rostro e alegres mostranças com que logo
recebeu o Infante seu sobrinho e filho, e nas festas e avondanças com
que o tratou e os que com elle vinham, pareceu mui claro o grande e
verdadeiro amor que lhe tinha, e alli esteve o Infante D. Fernando oito
dias, nos quaes mandou fazer de vestir asi e a todolos senhores e
fidalgos que com elle vinham, de muitos pannos de sêda e de lã que em
Callez para isso mandou comprar.
E depois de se despedir do Infante seu tio se foi a Mertola, e d'hi a
Beja onde El-Rei o esperava, que foi aos XVII dias de Fevereiro, que era
a primeira sexta feira da quaresma.
Sahiu El-Rei tres legoas ao receber, em cuja vista elle e toda a côrte
receberam muita alegria. E assi foram fallando até á villa, d'onde por
mandado d'El-Rei sahiu muita gente a receber o Infante com muitas festas
e prazeres.
E d'hi a poucos dias El-Rei por satisfazer ao descontentamento do
Infante de que mais sua partida pareceu que procedera, lhe fez doação
das villas de Beja e Serpa e Moura.