CAPITULO CXXXIII

_Como a Imperatriz chegou á Italia e foi do Imperador recebida, e

assim como ambos foram pelo Papa recebidos e coroados em Roma_

E dos moradores da cidade de Pisa em que entrou foi altamente recebida,

e foi a tempo que o Imperador esperando já por ella estava em Italia na

cidade de Sena; d'onde logo enviou a ella o duque de Saxim e dois condes

e quatro barões, e algumas outras senhoras d'Allemanha, e tambem Eneas

Silvio, que então era bispo da dita cidade de Sena, e depois foi

Cardeal, e tambem Papa chamado Pio segundo, com que de Pisa veiu com

grande honra até a dita cidade de Sena, em que entrou a primeira quinta

feira da quaresma. D'onde sahiu logo fóra o duque Alberto, irmão do

Imperador, e depois El-Rei d'Ungria, moço acompanhado de rica e mui

nobre gente, e o Imperador a esperou á porta da cidade da parte de

dentro, acompanhado de dois Cardeaes, todos a pé, e a Imperatriz se

deceu, e lhe quizera beijar a mão, e elle não quiz.

E depois de suas falas e arengas publicas, que por oradores alli se

fizeram, se foram ás pousadas, onde por memoria d'esta primeira vista no

proprio logar em que se primeiro viram está uma coluna de marmore mui

alta com o escudo Real de Portugal, que o dito doutor João Fernandez da

Silveira, embaixador, que era presente, mandou fazer.

E depois de se alli em Sena fazerem muitas festas e prazeres por alguns

dias, o Imperador e Imperatriz partiram para Roma, onde tinha o Sumo

Pontificado o Papa Nicoláo quinto, que depois de o Imperador fazer

certos juramentos e solenidades, a que os Imperadores de Roma são

obrigados, os mandou receber com o Collegio dos Cardeaes, e com toda a

côrte romana, que é a mór honra que se póde fazer. Entraram a nove dias

de Março do anno seguinte de mil e quatrocentos e cincoenta e dois. E da

porta da cidade onde os veiu receber uma solemne procissão, foram logo

decer á Igreja de S. Pedro, onde o Papa nos degráos da porta principal

os veio receber, e depois de lhe beijarem o pé, e fazerem o divido

acatamento, o Papa com grande alegria e muita honra os levou dentro ao

altar de S. Pedro, onde depois de fazerem oração se tornou com elles ás

portas, d'onde por aquelle dia se despediram para as pousadas.

E aos quinze dias houve missa papal em S. Pedro muito solene, a que o

Imperador e Imperatriz estiveram, e alli o Papa lhes fez as benções que

a Santa Egreja aos novos casamentos ordena; porque sem isso houveram por

bem que o matrimonio entre elles se não consumasse nem consumou, salvo

em Napoles depois da quaresma toda passada; porque assi o tomaram por

devoção.

E aos vintoito dias do dito mez no fim da outra missa do Papa, elle com

grandes solemnidades e maravilhosas cerimonias, por suas mãos em S.

Pedro os ungio e coroou, e hi com grandes triunfos foram sem o Papa

levados a S. João de Latrão, e ao passar da ponte de Santangello, indo

de caminho fez o Imperador cavalleiros o duque Alberto seu irmão, e

El-Rei d'Ungria seu sobrinho, que vinham com elle. E assi outras muitas

pessoas de grande valor. E ao outro dia tornou a fazer outros em S.

Pedro ao pé da veronica, em que foi o dito embaixador João Fernandez,

que depois foi o primeiro barão d'Alvito como já disse. Acabadas as

quaes cousas o Imperador e a Imperatriz ante de se irem para o imperio,

a XXVII dias de Março partiram para Napoles vêr El-Rei D. Affonso, que

em bespora de Pascoa lhe fez tão ricos e suntuosos recebimentos e

festas, que com razão por sua grandeza, nobreza, e manificencia apagaram

a memoria de todolos excellentes, que até seu tempo se fizeram, e d'alli

tornaram outra vez junto com Roma, e de hi fizeram seu caminho para

Allemanha, e d'este Imperador e Imperetriz nasceu Maximiliano, que

depois da morte de seu pae foi Rei dos romãos.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 61 / 69 题