CAPITULO CXXV

_Das feições, costumes e virtudes do Infante D. Pedro_

O Infante D. Pedro por certo foi um singular Principe, dino de louvor

entre os bons e louvados Principes que no mundo em seu tempo houve,

homem de grande corpo, e de seus membros em todo bem proporcionado, e de

poucas carnes; teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco

moles, os cabellos da cabeça crespos, e os da barba algum tanto ruivos

como inglez; seu andar a pé era vagaroso e com grande repouso, suas

palavras eram graciosas, com doce orgão de dizer, e nas sentenças mui

graves e sustanciaes, e quando alguma sanha o tocava era sua cara mui

temerosa, e porém não lhe durava muito, cá por siso ou condição natural,

logo se lembrava de mansidão e temperança; foi algum tanto culpado em

credeiro e vingativo, ainda que o desejo da vingança pareceu que não foi

n'elle de grande e vicioso ardor, pois dilatou e temperou a que teve em

sua mão, que para sua vida fôra mui segura e necessaria.

Suas roupas e trajos e maneira de viver, foram sempre de homem honesto,

prudente e grande autoridade, e de moço até idade de LVII annos, em que

acabou, sempre foi muito catholico temente a Deus, e de grande oração, e

fez muitas esmolas. Honrou muito as pessoas ecclesiasticas a que sempre

se escusou dar suas mãos a beijar, nem consentio estararem em giolhos

ante elle.

Foi mui temperado em todolos autos da carne. Nunca se soube ter com

alguma outra mulher carnal affeição, salvo com a sua propria, que

legitimanente recebeu, com que ainda usava de grande temperança, cá como

devoto e mui continente se apartava d'ella em todolos dias de jejuns, e

dias outros solemnes da Egreja. E nas quaresmas com as roupas que de dia

trazia, com essas de noite se lançava sempre vestido sobre palha, sem

outra roupa nem cama ordenada; cada dia por sua devoção rezava as Oras

Canonicas segundo custume romão, com outras muitas orações em que tinha

devoção. Foi muito devoto do Arcanjo S. Miguel, por cuja devoção touxe

por divisa as balanças; porque em sendo moço em uma doença que teve, foi

de todos julgado por morto, e por um Martim Gonçalvez, capellão d'El-Rei

seu padre foi assi levado ao altar da capela de S. Miguel, que está nos

paços de Lisboa, a que foi devotamente encomenda-lo, d'onde

milagrosamente logo retornou com vida e saude, em cuja memoria e por sua

singular gratificação, com suas despesas proprias mandou fazer nos dias

que viveu casas e obras muitas piedosas, assi como a egreja da cerca de

Penella, e S. Miguel d'Aveiro, e o mosteiro de Santa Maria da

Misericordia, que deu á ordem de S. Domingos, e a egreja de Tentugal com

outras.

Fez sempre uma mui louvada profissão do tempo, que nunca em seus dias

lhe passou sem beneficio ou louvor; teve para todalas cousas horas

certas e limitadas que nunca traspassou; deu a casa de Santo Eloy de

Lisboa, em que jaz o Bispo D. Domingos Jardo, aos clerigos da ordem e

regra de S. João Evangelista.

Foi Principe de grande conselho, prudente, e de viva memoria, e foi bem

latinado e assaz mistico em sciencias e doutrinas de letras, e dado

muito ao estudo; elle tirou de latim em linguagem o regimento de

Principes, que Frei Gil Correado compoz, e assi tirou o livro dos

Officios de Tullio, e _Vegecio de Re Militari_, e compoz o livro que se

diz da _Virtuosa Bemfeitoria_ com uma confissão a qualquer christão mui

proveitosa. E foi mui justo, de que lhe veiu sempre avorrecer os máos, e

fazer bem aos bons.

Foi muito verdadeiro e mui constante, e de mui claro entendimento; foi

liberal com medida, e assi caçador e monteiro com temperança; porque o

estudo em que se mais deleitava o privava de semelhantes prazeres; fez

primeiramente usar que os Reis e Principes n'estes reinos comessem em

publico, e fossem em suas mesas acompanhados, o que d'antes não faziam,

cá pela mór parte sempre comiam retraidos; dizendo elle que suas mesas

deviam ser escollas de sua côrte, para que costumava mandar lêr

proveitosos livros, e ter praticas e disputa, de que se tomava muito

ensino e doutrina.

Tirou as aposentadorias de Lisboa, e ordenou os estaos que deu causa a

grande ennobrecimento da cidade, e assi fez outras muitas obras boas, e

proveitosas ordenanças para o reino.

Porque sua alma recebera de Deus o galardão, pois em sua vida este mundo

lhe foi tão ingrato.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 53 / 69 题