CAPITULO CXXIV

_Exclamação á morte do Infante D. Pedro_

Ó inconstante fortuna, quão secreto segredo é o de tua variavel condição

e semelhança de grande poder! Quem se fiará de ti, quem não haverá medo

de ti, pois aquelles que com moderados giros allevantas no mais alto

gráo da honra e da gloria, esses com apressadas voltas trocas e derribas

em profunda pena, em deshonra mortal: os que hoje por tua ordenança

fazes ricos, estimados, e grandes senhores, de manhã por tua desordem os

tornas logo pobres abatidos em semelhança de servos, para cuja prova

para que são outros passados e mais antigos exemplos senão este

presente, lembrando-vos quem foi este excellente Infante D. Pedro, e

agora vermo-lo jazer onde jaz; porque sendo Principe de tamanho estado,

virtudes e grandeza, herdado de tantas terras e senhorio, e dotado de

muitas mais bondades e virtudes, e sendo filho legitimo d'El-Rei D.

João, Rei no mundo tão glorioso vencedor e nunca vencido, que por seu

braço e esforço defendeu e acrescentou estes reinos, e parecia que tu,

fortuna, por isso o servias e acatavas, e agora já não sómente vimos que

o desconheces, mas ainda na propria patria em que nasceu e que honrou

lhe denegas uma pouca de terra em que o metam, e um pedaço de panno

grosseiro com que o cubram; hontem sendo vivo o serviam e honravam com

razão grandes senhores, e hoje não acha quem morto o enterre, se não

servos e pessoas mui vis.

Ó enganosa fortuna ou alguma outra força oculta; porque a este descreto

e mui prudente Infante cegastes seu tão claro entendimento e limpo

juizo, com que não entendeu o perigo de sua honra, e vida, e fazenda em

que se meteo, e vós Infante D. Pedro como não apartastes com vosso siso,

devoção, prudencia e lealdade de nevoas de tanta contradição, e a vossa

vida e limpeza tão suspeitosas e contrairas; porque não tomastes a

longura do tempo por cura de vossas paixões, e seguro remedio de vossos

feitos, pois estava em vosso poder, e se havieis que recebieis evidentes

agravos e injustas perseguições, causadas contra vós do odio de vossos

imigos, que vos faziam n'estes derradeiros dias avorrecer a vida, e por

maior honra e descanso vosso desejar a morte como dizeis; porque vos não

lembrava para a escusardes, que com ella havieis de necessidade matar e

desterrar e destruir vossa mulher e filhos, e os nobres mui honrados

amigos, criados e servidores que tinheis, e vos haviam de seguir,

despensareis com vossa morte paixões e trabalhos por dardes a estes

vida, segurança e descanso, pois o penhor e remedio d'isto era sómente

viverdes, e vossa morte havia de ser o contrairo.

E tu fortuna imiga da razão e piedade com tua crueza assi o executaste;

porque logo se viu o triste Infante sahir-se em Coimbra dos paços em que

vivia, e sem algum resguardo de sua honra e estado, com medo da morte

duvidosa, anda-la procurando certa pelas casas pobres e alheias, de

maneira que fugindo crueza, parecia que a pedia avorrecendo piedade;

vimos de seus filhos, D. James logo preso aparelhado para o cutello, e

D. Pedro o maior fugido e desterrado em Castella, pedindo esmollas a

quem já fizera mercê, e outros por escapar suas vidas vimos ir

escondidos e mudados por terras estranhas, encobrindo com habitos e

sinaes de pobreza suas mui nobres pessoas, que o real e mui alto sangue

de que descendiam, em honra, abastanças e estado criara; vimos logo seus

amigos, criados e servidores, uns mortos e outros presos e desterrados,

e todos de suas honras, favores, officios, beneficios, rendas e

patrimonios sem alguma misericordia de todo privados.

Ó mui excellente Rei D. Affonso, onde estava vossa piedosa humanidade,

onde se escondeu n'este passo vosso singular agardecimento, grande

prudencia, e mui alto saber! Ó Divina Providencia! Ó Virtudes

Celestiaes, pois com mãos não avaras os XVII annos d'este glorioso e

mancebo Rei, n'este tempo dotastes de mais perfeições e bondades d'alma

do que a outros Principes de muitos mais annos fizestes; porque tambem

lhe não allumiastes seu mui angelico entendimento, com que perfeitamente

conhecesse os falsos erros e claros enganos em que seus apassionados

servidores e conselheiros n'estes feitos o traziam emlheado e cego por

tal, que do conhecimento d'esta verdade e limpeza, que nunca foi

conhecida, se evitara a morte e perda de um tão perfeito e innocente

Principe, que a elle mesmo Rei sobre todos era proveitoso e mais

necessario, pois não é de duvidar que sua vida fôra sempre um forte

freio e certa conservação da corôa e patrimonio real de seus reinos, e

sua morte havia de ser o que foi redea solta de sua desolução e

encurtamento! Ó duque de Bragança e conde d'Ourem vosso filho; porque

contra o Infante D. Pedro quizestes ser, e fostes principaes movedores e

sós capitães d'esta feia e dorosa empresa!

Não foi certamente por hereje nem máo christão; porque suas obras o

aprovavam por mui catholico e amigo de Deus. Nem seria por injusto nem

incorrecto nas cousas da justiça, pois n'ella sua balança sem odio nem

affeição foi sempre mui egual e direita. Nem prodigo e destruidor do

thesouro e fazenda real, pois aproveitou e governou sempre com singular

provisão e muita temperança. E se alguma cousa da corôa real tomou e

emlheou para ser culpado, não foi para si nem seus filhos, mas foi

sómente a que a vós e cousas vossas deu, nem seria por ser de fraco

coração e não desposto para defensão dos reinos que regeu, pois sabeis

com quanto esforço, deligencia e ousadia sempre os defendeu,

procurando-lhe sempre paz e justiça, e nunca guerra nem torvação, pois

certamente menos devera ser por desleal, ou por se sentir n'elle como

tyranno alguma vituperada cobiça e danado desejo para reinar, segundo ao

novo rei e a seu povo, para sua maior indinação fizestes entender, pois

a todos foi notorio que não sómente se não achou contra elle culpa,

porque verdadeiramente assi parecesse, nem se podesse bem conjecturar,

mas ainda está claro, que durar a vida d'El-Rei tanto tempo em seu

poder, e procura-la sempre com tanto amor e cuidado juntamente com sua

mui real e perfeita creação o relevam contra si de semelhantes

maginações, e de todo o alimpam d'esta errada suspeita, cá por suas

muitas virtudes e grande lealdade teve como era razão a vida, saude e

estado d'El-Rei em tanta veneração e resguardo, que álém de se conhecer

que sobre todalas cousas o amava, ainda parecia que o adorava, e se em

seu coração entrara proposito tão reprovado, elle ou secreta ou

artificialmente o privara da vida, para que teve largo tempo e boa

disposição, ou o fizera criar e criara em tanta torpeza e danados

costumes, com que não podendo os máos leixar nem dos bons aprender, se

fizera para si mais dino de privação que da governança e regimento de

nenhum reino, cujo defeito e indisposição causara requerer-se n'estes

outro novo regedor ou rei como já outras vezes se fez, mas não se póde

negar que El-Rei assi para Deus e para o mundo, como para si mesmo e

para seus reinos e vassallos, foi tão altamente criado e ensinado tão

perfeitamente, que a certidão d'isso que em sua real pessoa e mui nobre

coração por evidencia de obras claramente se mostrava, fazia que nos

reinos estranhos por sua louvada fama fosse desejado por seu proprio

Principe, e nos seus proprios servido e adorado por Rei; e porque o

Infante D. Pedro tal o criou, bem se viu que por tal o amou e serviu sem

alguma sua quebra nem defeito, usando seu officio de regente com tanta

perfeição e cumprimento, que mais pareceu que acceitara tal cargo para

sua pena e trabalho, mais que para sua gloria nem descanço, cujo

galardão devera ser outro e não este que lhe procurastes, cá vos

leixaste guiar d'odio, inveja e cobiça, com que lhe causaste a morte tão

vituperada com tamanhas maguas em sua limpeza; mas porque com isto a

bondade e justiça de Deus foi claramente offendida, elle como justo e

poderoso que é, não permittiu que tamanha culpa ficasse sem grave pena e

justa vingança, pelo qual sua severa justiça e profundo saber, a que

nada s'esconde ainda que fosse por tempos e passos tão vagarosos, quiz

por castigo d'este e por enxemplo d'outros, que qual de vós irmãos

infante e duque, em tantos males, mortes e desaventuras um ao outro

tivesse a culpa, o neto do innocente, no neto do culpado com deshonrada

e mortal pena de sangue egualmente a vingasse e justificasse depois, e

assi se fez, como d'esta triste e espantosa execução depois de muitos

annos passados a praça d'Evora foi publica testemunha, segundo em seus

tempos e logares está mais declarado.

E acabados os tres dias o corpo do Infante por homens de prema, e com

consentimento d'El-Rei foi levado em uma escada á egreja d'Alverca, onde

porentão foi vilmente e com grande desacatamento soterrado; porque

depois houve outras sepulturas, e com grandes cerimonias e solemnidades,

como ao diante se dirá.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 52 / 69 题