_Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de
morrer um quando o outro morresse_
E passados alguns dias depois d'estes conselhos, o Infante não se
esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde
d'Abranches, e lhe disse:
«Conde, sabei que eu sinto já minha alma avorrecida de viver n'este
corpo, como desejosa de se sair de suas paixões e tristezas, e
consirados os feios combates que minha vida, honra e estado cada dia
recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais,
certo se as cousas n'esta viagem me não sobcedem como eu desejo, e seria
razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e
como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas
bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós
sobre todos tomei esta confiança, assi pela irmandade que comigo
merecestes ter na santa e honrada Ordem da Garrotea em que somos
confrades, como por criação que vos fiz, e principalmente pela certidão
que de vossa bondade e esforço tenho ha muito conhecido, e por tanto
quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis
tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos
primores de vossa honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e
servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e Arcebispo de Lisboa,
depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos
d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados.»
«Senhor, respondeu o conde, para caso de tamanho contentamento, como foi
sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras
nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê
escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa
companhia na morte, assi como vo-la tive na vida, e se Deus ordenar que
d'este mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a
vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das
outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa.»
E para mór confirmação d'este proposito o Infante mandou logo chamar o
doutor Alvaro Affonso, que era clerigo de missa, perante quem relatou a
concordia em que elle e o conde estavam, sobre a qual disse que lhe
desse logo o santo sacramento, e o doutor depois de lhe fazer seus
requerimentos e protestações para o não receberem (como a elle por
sacerdote e por letrado em tal caso cumpria) elle lh'o deu, e elles o
receberam com sinaes de muita devoção e contrição, afirmando ambos e
cada um «que como fieis christãos a Deus, e leaes vassallos a El-Rei o
recebiam, e por taes protestavam morrer quando morressem, e que seu
fundamento não era offender, mas defender com razão e justiça a pessoa e
honra do Infante.» O qual derribando-se no chão sobre seu peito, com os
olhos cheios de lagrimas e com grande fervor de contrição se feria e
acusava de seus pecados, e sobre a comunhão tornaram a firmar
solenemente seus prometimentos, cujo segredo o Infante encomendou muito
ao doutor, de quem depois se houve esta certidão.