CAPITULO CXII

_Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de

morrer um quando o outro morresse_

E passados alguns dias depois d'estes conselhos, o Infante não se

esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde

d'Abranches, e lhe disse:

«Conde, sabei que eu sinto já minha alma avorrecida de viver n'este

corpo, como desejosa de se sair de suas paixões e tristezas, e

consirados os feios combates que minha vida, honra e estado cada dia

recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais,

certo se as cousas n'esta viagem me não sobcedem como eu desejo, e seria

razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e

como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas

bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós

sobre todos tomei esta confiança, assi pela irmandade que comigo

merecestes ter na santa e honrada Ordem da Garrotea em que somos

confrades, como por criação que vos fiz, e principalmente pela certidão

que de vossa bondade e esforço tenho ha muito conhecido, e por tanto

quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis

tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos

primores de vossa honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e

servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e Arcebispo de Lisboa,

depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos

d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados.»

«Senhor, respondeu o conde, para caso de tamanho contentamento, como foi

sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras

nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê

escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa

companhia na morte, assi como vo-la tive na vida, e se Deus ordenar que

d'este mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a

vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das

outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa.»

E para mór confirmação d'este proposito o Infante mandou logo chamar o

doutor Alvaro Affonso, que era clerigo de missa, perante quem relatou a

concordia em que elle e o conde estavam, sobre a qual disse que lhe

desse logo o santo sacramento, e o doutor depois de lhe fazer seus

requerimentos e protestações para o não receberem (como a elle por

sacerdote e por letrado em tal caso cumpria) elle lh'o deu, e elles o

receberam com sinaes de muita devoção e contrição, afirmando ambos e

cada um «que como fieis christãos a Deus, e leaes vassallos a El-Rei o

recebiam, e por taes protestavam morrer quando morressem, e que seu

fundamento não era offender, mas defender com razão e justiça a pessoa e

honra do Infante.» O qual derribando-se no chão sobre seu peito, com os

olhos cheios de lagrimas e com grande fervor de contrição se feria e

acusava de seus pecados, e sobre a comunhão tornaram a firmar

solenemente seus prometimentos, cujo segredo o Infante encomendou muito

ao doutor, de quem depois se houve esta certidão.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 40 / 69 题