_Como o duque se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez
contra, o Infante_
E o duque como da banda de Covilhã acabou de recolher a gente que o
seguio, fez logo seu caminho para Santarem. Onde por aviamento do conde
seu filho, foi de toda a côrte assi grandemente, e com tanto triunfo
recebido, como se o merecera por batalhas campaes, que contra imigos
vencera.
E isto foi por seus aderentes assi ordenado, porque com esta face de
fingida honra encobrissem ao mundo o envés do verdadeiro abatimento que
o duque em sua vinda tinha recebido. Porque para o proposito com que de
suas terras o duque partira, e para a muita gente que comsigo trazia,
sempre os seus na côrte afirmaram que o Infante D. Pedro por sua pouca
força não ousaria de o cometer, nem lhe defender o caminho. Dando a
entender que as mostranças de resistencia que o Infante fazia, eram tudo
rebolarias do conde d'Abranches, porque n'estes feitos se governava. E
porém assi emprimiram todo o que quizeram no novo e molle entendimento
d'El-Rei, que a injuria d'este caso lhe faziam crêr que não era do
duque, mas propria de sua pessoa real.
E porque no conselho em que ante El-Rei esto se praticava, o Infante D.
Anrique terçou um pouco em favor do Infante seu irmão, afirmando que não
consentiria dizer-se, que nenhum filho d'El-Rei D. João faria injuria a
seu Rei e Senhor, fez no que contra o Infante D. Pedro então se requeria
mui grande contrariedade, com que muitos do conselho se foram, e
folgaram de o ajudar, crendo que o Infante D. Anrique clara e
descubertamente a seu irmão queria já valer, e alegravam-se, desejando
aproveitar ao Infante D. Pedro terem-no para isso por cabeceira, sem o
qual consirada bem a disposição do tempo, e pelos contrairos serem de
grande condição não ousavam. D'onde segundo a opinião dos prudentes e
pessoas d'autoridade, que d'estes feitos tiveram conhecimento, se creu
que o Infante D. Anrique n'estes dias falleceu ao Infante D. Pedro com
aquelle verdadeiro amor, favor, e ajuda que como a irmão e amigo lhe
devia; porque com muito seu louvor, e sem mingoamento de sua muita
lealdade lhe podera valer, por maneira com que a El-Rei, e a sua corôa
fizera muito serviço, e ao Infante seu irmão desviara morte tão crua e
tão abatida como recebeu, e sua tão honrada casa não cahira de todo como
cahiu, segundo adiante se dirá, e porque o Infante D. Anrique sobre suas
muitas virtudes era assaz prudente e discreto, bem é de crêr que esta
piedosa bondade para seu irmão, muitas vezes lhe tocaria e espertaria a
memoria, e para o não fazer, o mais honesto e seguro seria leixar a
determinação em duvida, salvo se a causa d'isso attribuissemos a algum
oculto Juizo Divino.
E por tanto, porque a boa vontade do Infante D. Anrique não perseverou
no favor do Infante seu irmão como logo então atentou, foi a querella do
duque ouvida d'El-Rei, e posta e crida no mais alto encarecimento de
fealdade, que contra seu serviço e estado se podia cometer. Pelo qual
logo El-rei começou publicamente declarar a irosa vontade e grande
indinação que contra o Infante D. Pedro tinha, a que por aviamento de
seus imigos tambem ajuntava o desterro e morte da Rainha D. Lianor, sua
madre. E porque no recontamento de suas afeições, desamparo e pobreza,
que até morrer passara, o caso contra o Infante mais s'agravasse, faziam
com as Infantes irmãs d'El-Rei, que eram meninas, e com os criados da
Rainha, que de todas as partes faziam vir, que com lamentações e
forçosos choros as apresentassem ante El-Rei muitas vezes, pedindo-lhe
por isso do Infante D. Pedro justiça e vingança, como de culpas e crimes
já claros e manifestos.