CAPITULO CVI

_Como o duque se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez

contra, o Infante_

E o duque como da banda de Covilhã acabou de recolher a gente que o

seguio, fez logo seu caminho para Santarem. Onde por aviamento do conde

seu filho, foi de toda a côrte assi grandemente, e com tanto triunfo

recebido, como se o merecera por batalhas campaes, que contra imigos

vencera.

E isto foi por seus aderentes assi ordenado, porque com esta face de

fingida honra encobrissem ao mundo o envés do verdadeiro abatimento que

o duque em sua vinda tinha recebido. Porque para o proposito com que de

suas terras o duque partira, e para a muita gente que comsigo trazia,

sempre os seus na côrte afirmaram que o Infante D. Pedro por sua pouca

força não ousaria de o cometer, nem lhe defender o caminho. Dando a

entender que as mostranças de resistencia que o Infante fazia, eram tudo

rebolarias do conde d'Abranches, porque n'estes feitos se governava. E

porém assi emprimiram todo o que quizeram no novo e molle entendimento

d'El-Rei, que a injuria d'este caso lhe faziam crêr que não era do

duque, mas propria de sua pessoa real.

E porque no conselho em que ante El-Rei esto se praticava, o Infante D.

Anrique terçou um pouco em favor do Infante seu irmão, afirmando que não

consentiria dizer-se, que nenhum filho d'El-Rei D. João faria injuria a

seu Rei e Senhor, fez no que contra o Infante D. Pedro então se requeria

mui grande contrariedade, com que muitos do conselho se foram, e

folgaram de o ajudar, crendo que o Infante D. Anrique clara e

descubertamente a seu irmão queria já valer, e alegravam-se, desejando

aproveitar ao Infante D. Pedro terem-no para isso por cabeceira, sem o

qual consirada bem a disposição do tempo, e pelos contrairos serem de

grande condição não ousavam. D'onde segundo a opinião dos prudentes e

pessoas d'autoridade, que d'estes feitos tiveram conhecimento, se creu

que o Infante D. Anrique n'estes dias falleceu ao Infante D. Pedro com

aquelle verdadeiro amor, favor, e ajuda que como a irmão e amigo lhe

devia; porque com muito seu louvor, e sem mingoamento de sua muita

lealdade lhe podera valer, por maneira com que a El-Rei, e a sua corôa

fizera muito serviço, e ao Infante seu irmão desviara morte tão crua e

tão abatida como recebeu, e sua tão honrada casa não cahira de todo como

cahiu, segundo adiante se dirá, e porque o Infante D. Anrique sobre suas

muitas virtudes era assaz prudente e discreto, bem é de crêr que esta

piedosa bondade para seu irmão, muitas vezes lhe tocaria e espertaria a

memoria, e para o não fazer, o mais honesto e seguro seria leixar a

determinação em duvida, salvo se a causa d'isso attribuissemos a algum

oculto Juizo Divino.

E por tanto, porque a boa vontade do Infante D. Anrique não perseverou

no favor do Infante seu irmão como logo então atentou, foi a querella do

duque ouvida d'El-Rei, e posta e crida no mais alto encarecimento de

fealdade, que contra seu serviço e estado se podia cometer. Pelo qual

logo El-rei começou publicamente declarar a irosa vontade e grande

indinação que contra o Infante D. Pedro tinha, a que por aviamento de

seus imigos tambem ajuntava o desterro e morte da Rainha D. Lianor, sua

madre. E porque no recontamento de suas afeições, desamparo e pobreza,

que até morrer passara, o caso contra o Infante mais s'agravasse, faziam

com as Infantes irmãs d'El-Rei, que eram meninas, e com os criados da

Rainha, que de todas as partes faziam vir, que com lamentações e

forçosos choros as apresentassem ante El-Rei muitas vezes, pedindo-lhe

por isso do Infante D. Pedro justiça e vingança, como de culpas e crimes

já claros e manifestos.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 34 / 69 题