GIL VICENTE.--FRAGOA D'AMOR.

--Bofé, por aqui?!

--É verdade, João.

--Mas como? Se o não vira com estes olhos que a terra ha de comer...

--Pois eu sou.

--Como S. Thomé, parece-me que será preciso tocar-­vos para crêr. E como

vindes armado! Nem moço escudeiro vos leva as lampas! Mas ainda o não

posso acreditar. E mestre Gonçalo?

--Meu tio...

--Sim! O bom do velho veio tambem na arrancada. É o que faltava vêr...

elle que não é para estas cousas, apesar de bom portuguez. Mas, em fim,

está ahi o Porto em peso; velhos e cachopos... até mouros. Por pouco

vinham as mulheres! Ala fé, mestre Gonçalo Domingues...

--Meu tio não veio...

--Então...

­--Ai, João, se souberas?!

­--O que?

--Estou como tu; sem leira nem beira.

--S. Jorge e todos os santos batalhadores sejam commigo! Que foi o que

vos succedeu, Fernando? Morreu mestre Gonçalo?

­--Não morreu, não... nem Deus queira tal.

--Então, que foi?

--Ai, João, hontem foi um dia bem de mau sestro!

--Para mim tambem: por um argueiro duas vezes escapei á morte!... Pois

não vi, ao sahir de Gaya, nem gato preto, nem chapim de sola para o ar,

nem velha varrendo lixo: nem ouvi piar a coruja, nem uivar os cães!

Valeu-me o anjo da Guarda...

--A mim não me quizeram matar; mas... parece-­me que me foi peior...

--Peior?!

--Sim, João: lembras-te de me encontrares nos Banhos, e de te fallar em

certos amores? ..... Fui vêl-­a.

--Ah! fostes vêr a tal menina, e estava arrufada...

--Não, João; Irene...

--Irene? chama-se Irene? é um nome que não é feio.

--E ella é mais linda; mas, como te ia contando, fui vel-a. Ia a subir a

um muro do lado do quintal para lhe fallar--queria tirar um peso que

tinha no coração; dizer-lhe que, apesar de meu tio ralhar, lhe havia de

querer muito e... nem eu sei o que mais; mas queria-lhe fallar,

vel-a--ia a subir ao muro, e o muro... zas... no meio do chão, e cara a

cara dou com o pae...

--Ora! E por tal é essa amofinação?

--Olhe, João, que não é o caso para folgar! Como não ralharia elle á

minha pobre Irene, elle, que não tem ar de palavras de mel, e ficou com

um senho... que descarregou nella... de certo...

--Isso de nada vale, Fernando.

--Ainda não ficou ahi o mal. Deitei a correr... eu sei lá para onde!

Quando me lembrei de voltar para casa era tarde; pouco faltava para o

sol posto. Appressei o passo, lembrado de que se meu tio me não

encontrasse nos Pellames, elle, que me guardava má tenção por me haver

encontrado já na maldita arvore, faria de sorte que eu não tornaria a

pôr pés na rua. Ao chegar quasi a S. Domingos, havia uns alaridos, um

grande vozear, e parara ao pé do arco, quando mestre Duarte, o nosso

visinho, veio aonde eu estava, e contou que vira o pae de Irene fallar

com meu tio, e que ambos esbravejavam, por palavras que lhes ouvira,

contra mim. Voltei a Miragaya...

--Para que?

--Nem o sei dizer. Receiava de meu tio... e não receiava. Quando de novo

me dirigi á porta da cidade estava fechada. Do lado da Esnoga via-­se um

grande clarão, e continuava o alarido...

--Era a chamusca da casa de mossem Moysés, o irmão de D. David Algaduxe;

era o escote dos judeus.

--Assim me disseram de manhã.

--Passastes a noite ao relento?!

--Passei, João, e se visse sequer uma luz á janella, parece-­me que

ficava consolado. Ao alvorecer, como depois daquella noite assim corrida

maiores razões tivesse para não voltar aos Pellames, subi a encosta em

cata de mestre Pedro, e, como o não encontrei, fui pelas Hortas. No

campo, a chusma das galés, os acontiados da cidade, e a gente de armas

dos ricos homens vindos de fóra, estava tudo em movimento; chegava povo

a todos os momentos e sahia no meio de vivas; ao pé da torre, junto á

porta, do lado de dentro, distribuiam armas. Um anadel deu-me um

encontrão, e disse-­me que fosse buscar tambem alguma cousa, e fui;

pozeram-me a caminho para aqui, e puz-me a caminho tambem...

--Amores! amores! E agora que ides fazer?

--Boa pergunta, disse, erguendo e cabeça com certo enthusiasmo, o

namorado de Irene, Fernando Vasques, de certo já reconhecido, bem como

João Bispo desde as primeiras linhas deste dialogo; agora é batalhar, e

ou ficar para ahi, ou fazer acção de fama; e depois...

--E depois ides pôr a espada aos pés da vossa dama, como naquelle conto

da Tavola-Redonda ou naquell'outro que tinha frei Gumado... Ama...

Ama...

--Amadis, queres dizer?

--Isso é: um em que havia combates de gigantes e uma princeza muito

formosa: deixai vêr se me lembra o nome... Oriana!...

--A dama de Amadis.

--Bonitos contos, Fernando, esses de cavallerias e amores; pena é que

hoje nada succeda assim de geito.

--Pena que não haja quem tenha a vontade de boas acções e famosas! O

senhor Nun'Alvares, tem-se, ainda assim, havido como alguns dos mais

pintados, e ouvi contar a meu tio, que o viu simples pagem, acompanhando

a rainha Leonor, pela qual depois foi armado.

--Tomou o leão para o fazer lebreo de estrado; mas elle, mal chegou a

idade, mostrou-lhe os dentes todos, e foi para o monte a monteal-a.

Desde nado trouxe boa sina Nuno Alvares. Mestre Thomaz, grande

astrologo, que andava em casa de seu pae, leu nas estrellas, e viu que

empresa em que se mettesse seria boa, e elle sahiria vencedor, se fosse

para bem sua tenção.

--Por isso deixou elle a rainha Leonor; pois em serviço della não andava

bem, e podia-se quebrar o encanto com que foi fadado.

--A mim tambem me leram a sina; porém a maldita da moura que o fez disse

uma tal embrulhada, de que só percebi que havia de entrar em grandes

batalhas, e salvaria um rei...

--Não ouvis? atalhou Fernando, sobresaltado.

--Ouço.

--Além do rio...

--Um como tropear de gente, e quebrar de ramos. Estas fogueiras não

deixam vêr bem. As vigias dormirão?

--­Não... olha, não vês alli ao pé daquelle fraguedo, onde bate o luar,

aquella que se move? está bem desperta. Ainda ha pouco se recolheu uma

rolda, a que acompanhou frei Patinho.

--Escutai, tornou João Bispo, deitando-se no chão para melhor distinguir

a direcção do rumor, depois de retesada a corda da sua besta.

A noite descera havia muito; os galos de algumas choças visinhas tinham

já annunciado que ia alta, a meio do seu curso, e a lua erguia-se

redonda, avermelhada, semelhando um escudo candente, por entre as ramas

dos pinheiros, que fechavam ao nascente o horisonte, fazendo destacar a

uns por contornos negros, cobrindo de uma luz phantastica os curutos de

outros, e projectando sombras immensas pelas clareiras. Á proporção que

ella minguava no céu, tornavam-se mais vivos os reflexos azulados com

que tingia alguns objectos, fazendo contraste com os fogos dos dous

acampamentos áquem e álem de Leça--fogos que em pontos ainda se

mostravam vivos, fazendo ressaltar vultos negros, tocados, sobretudo nos

arnezes, braçaes e grevas dos homens d'armas, de linhas ardentes,

vermelhas quasi; em outros quasi extinctos, mostrando, através de uma

luz vaga, fórmas indecisas, movendo-se, tregeitando. Aqui o ferro de uma

azevan, volteando, espelhava um raio da lua, e imitava os fogos fátuos;

acolá o bacinete polido de um bésteiro de polé lampejava, ao cruzar

rápido por pé dos fogos das vigias. De vez em quando o relincho dos

cavallos se reproduzia nos eccos; as vozes das roldas se alteava;

erguia-se aqui uma risada, alli um clamor, e depois recahia tudo em um

silencio, que só interrompia, alguma conversa a meia voz, como a que

cortaram os nossos dous namorados.

Pela bocca de um delles já todos sabem que os combatentes de que podia

dispôr a cidade da Virgem, homens e rapazes se tinham nessa dia de

madrugada posto a caminho de Leça, e se estão lembrados da noticia dada

pelo bésteiro em S. Domingos, noticia que tirou Gonçalo Rodrigues das

mãos dos populares e o entregou á justiça, que lhe fez grande favor em o

reter preso em Gaya; se se lembram de que D. João Manrique, arcebispo de

Santiago, abalára de Braga com setecentas lanças e dous mil infantes,

portuguezes, partidarios de D. Beatriz, e gallegos, e quando chegára a

mensagem do Mestre acampava perto da cidade, atinarão qual o intento que

ahi os levava. Alguns corredores do bando inimigo tinham, ao tempo que

pecuniariamente se salvava a patria, chegado a Paranhos, alarmando os

poucos camponezes não recolhidos á cidade, e os bons burguezes, que já

os tinham esperado duas vezes sem verem apparecer uma só lança, haviam

resolvido affugentar estes hospedes importunos.

Seis a sete mil homens, pois, acampavam áquem do Leça, occupando uma

extensa linha.

Esta tropa, superior á do arcebispo em numero, era, encarada por outro

lado, talvez inferior. Dos nobres que com os seus homens d'armas tinham

seguido as hostes populares, em alguns não eram firmes as crenças de

partido, como vimos; nos outros, em geral, havia certa má vontade por

vêrem ao seu lado cavalleria burgueza, para a qual olhavam pouco mais ou

menos com os mesmos olhos com que ainda hoje, no seculo XIX, olha o

militar para o miliciano que marcha ao seu lado. Os bésteiros da

behetria, trezentos ao todo, era gente de animo resoluto, porém fracos

atiradores, e os quinhentos, tirados da esquadra e de Gaya, tinham os

outros quasi na mesma conta que ás lanças que rodeavam a bandeira onde

entre torres a Virgem apparecia mostrando Jesus inda menino, aquelles

que seguiam balsões historiados, e mesmo ainda ao mais historiado

labaro, museu de imagens santas ideado pelo futuro condestavel.

Cinco mil homens, exceptuando a chusma da armada, pertenciam a essa

gente que parecia entregue a uma mascarada, quando levamos o leitor aos

adarves que tinham vista para Miragaya. Eram porém estes, era o povo e

os acontiados do municipio que tinham de fazer retirar os muito

esforçados cavalleiros Lopo de Lira, Fernão Gomes da Silva, Martim

Gonçalves de Athaide, Gonçalo Pires Coelho e outros nobres, que seguiam

com elles o arcebispo de Santiago. As ascumas e os mangoaes affaziam-se,

a passar aquellas entre o gorjal e a barbuda, a malhar estes em

cimeiras; amestravam-se para a grande tarefa de Aljubarrota.

Como dissemos, os defensores do Mestre estendiam-se na margem do Leça

por bom espaço. João Bispo e Fernando Vasques encontravam-se em uma das

extremidades da linha, ou acampamento, quando extranho ruido vindo de

uma mata visinha os fez interromper o dialogo que ahi fica exarado. O

amante de Garifa, depois de se conservar por alguns segundos deitado,

com o ouvido attento, ergueu-se, fez um signal ao seu companheiro, e,

empregando o maior cuidado possivel para não fazer rumor, dirigiram-se

ambos para o lado do poente, onde de novo se pozeram a escutar.

--São os nossos, disse o bésteiro novel a Fernando; são os nossos, que

estão abrindo caminho no bosque.

Palavras não eram ditas, um grito sahia da selva, e um bésteiro

levantava quasi debaixo da cara do sobrinho de Gonçalo Domingues a sua

besta armada, mirando-o.

--Eh! Gil! abaixa lá isso, gritou João Bispo: guarda os teus virotes

para os gallegos! Que desbravar de matto é esse?

--Eramá! estás ahi, João? tomei-vos por esculcas desses condemnados!

Abrimos caminho na mata, e vamos passar o rio. João Ramalho está lá em

baixo com trezentos dos da cidade.

--Começa o folguedo?

--Boa festa! Vamos fazer dançar os do arcebispo ao som de assobiar de

virotes, e ranger de polés e garruchas. Os malditos deste lado dormem,

ao que parece, e não é mau despertal-­os.

O amante de Garifa deu alguns passos para se internar na mata. Fernando

reteve-o.

--Espera, João, eu sei um sitio onde se póde passar melhor do que ahi.

--Sabes?

--Além, abaixo daquelle casal que está a alvejar, pelo açude.

--Bom discorrimento teve o cachopo! exclamou o bésteiro, com um sorriso

de escarneo. Vão lá passar pelo açude! É o mesmo que fazer caminho para

o outro mundo. Dous homens na outra margem tragam-vos uma hoste, como a

uma tigella de migas.

--E se de lá não houver ninguem?

O bésteiro, como unica resposta, voltou as costas, encolhendo os

hombros; João Bispo, depois de curta reflexão, tomando a mão do seu

companheiro, exclamou:

--Vámos ao açude!

O desbaste do arvoredo continuou com affinco, e uma hora passada, havia

uma soffrivel clareira aberta, onde tinham já penetrado alguns homens

d'armas. No campo inimigo, em frente, não se ouvia senão o ciciar da

aragem. Um troço de bésteiros e populares, armados estes com toda a

sorte de armas, desde o montante farpeado e o machado, a maça de puas,

até ao chuço e mangoal, começaram a passar o pequeno rio pouco abaixo do

mosteiro dos Hospitaleiros. Cem homens teriam tomado pé na outra margem,

quando um sibilo se ouviu, e um virote se veio cravar em um velho roble,

ao pé do qual João Ramalho dava ordens aos acontiados da cidade. Em

seguida, a outro sibilo juntou-se um grito, o som da queda de um corpo

na agua, e logo um alarido immenso. Bésteiros de pé e a cavallo,

burguezes e mesteiraes, que se tinham lançado ao Leça, recuaram.

Do campo do arcebispo haviam notado o movimento da gente do Mestre, e o

silencio guardado fôra alliciente para os chamar além. Cem homens

estavam na outra margem prisioneiros, se o grosso da força não

avançasse.

--Santiago! Santiago! gritaram os castelhanos; e a margem appareceu como

por encanto coberta de frecheiros, e d'ahi a momentos o relinchar dos

ginetes e o som das trombetas eccoava pelos valles.

--S. Jorge e Portugal! gritou João Ramalho, arrebatando a bandeira da

cidade das mãos de um cavalleiro do municipio, e lançando-se ao rio.

Ávante, filhos, ávante!

Um troço de mesteiraes lançou-se em seguida do caudilho popular; porém

recuou de novo.

As folhas das arvores cahiam, como varejadas, e os troncos lascavam aqui

e alli, que os bésteiros de Garcia Manrique faziam a sua obrigação.

--Assim deixaes os vossos nas mãos daquelles perros?! exclamou Nicolau

Domingues, apontando para a outra margem onde havia um concerto de

pragas, vivas e morras. Bésteiros! bésteiros, pela Virgem de Vandoma,

ávante!

--Ávante! responderam alguns mesteiraes e acontiados, seguindo o exemplo

de João Ramalho.

A lucta travada além do Leça era uma temeridade. O luar alto já,

allumiava o necessario para o inimigo vêr o inimigo que tinha junto de

si, para uma lucta quasi corpo a corpo; e os homens d'armas do

arcebispo, avançando sobre o ponto invadido, iam dar cabo dos attrevidos

portuenses; demais, os fundibularios e bésteiros d'aquem temiam ferir os

seus, ao passo que os gallegos, prolongando-se de lado opposto pela

margem, enviando tiros mesmo ao acaso, difficultavam a passagem. Martim

Correia, o escrivão da chancellaria, Gonçalo Pires, e o filho do Mestre

de Santiago, D. Pedro de Transtamara, com alguns escudeiros e um troço

de cavalleria da cidade, forcejavam em vão por enfiar mais além a

estreita ponte, ainda hoje existente naquellas paragens. O grosso dos

homens d'armas e cavalleiros embaraçavam-se uns e outros, nos vallos,

fraguedos e silvados, pelos sitios onde tinham acampado, alarmados pelo

rebate extemporaneo.

No rio, se se ouvia o chapejar, era o de um ou outro burguez fugitivo;

no bosque o estallar dos ramos, o rumorejar dos fetos não era só

produzido pela queda de virotes; era tambem pela queda de homens.

Nicolau Domingues gritava a bom gritar; mas a chusma da esquadra, vinda

de reforço, não se resolvia a ir juntar-se aos acontiados do Porto,

quando um sucesso inesperado deu um fim brilhante ao que até então não

se podia dizer mais que uma imprudencia do pae de Irene, e da sua gente.

O mosteiro dos Hospitaleiros appareceu illuminado por uma luz

avermelhada: nas ameias da egreja e das torres veria quem dellas se

approximasse vultos negros correndo de um para outro lado açodados, e um

alarido immenso se casava ao fragor do combate da margem.

Fernando Vasques e João Bispo tinham passado o açude e approximado,

fazendo um rodeio, do acastellado mosteiro, pelo lado do norte, lado

desguarnecido, e bastante custára ao namorado da filha do velho Humeia a

suster o seu companheiro, que na effervescencia do seu amor, cheio de

enthusiasmo, imbuido de mais na leitura dos livros de cavallerias, para

conquistar renome se dispunha a commetter temeridades, que serviriam

apenas para alarmar os castelhanos e arriscar a vida. João persuadiu-o a

voltar á outra margem, a procurar reforço para uma ideada surpresa, e

não tinham do lado de áquem dado muitos passos quando lhes chegou aos

ouvidos um vozear confuso, e toparam com uma mulher, que, soluçando, com

os olhos arrasados de lagrimas, conduzia pela mão uma creança, chorosa

tambem. Guiados por essa mulher, a quem Fernando, condoido, perguntára a

causa daquelle pranto, foram ter a um casal. As portas todas da casa

estavam arrombadas: por uma sahia um grande clarão. Uma velha arca e

outros trastes ardiam ao canto de uma adega, e á volta das pipas

tripudiava um troço de bésteiros. O vinho derramado em uma grande celha

de pau, e que, trasbordando, se esbanjava pelo chão, mostrava em que

estado tinham as cabeças, e mais ainda o modo porque recebiam as

admoestações de micer Guilherme: dançavam, tregeitavam, grunhiam e

berravam em várias linguas e dialectos, chegando alguns dos que se

mostravam menos firmes nas pernas ao nariz do nobre aventureiro uma

escudella a trasbordar. Para bem da verdade deve-­se dizer que o

irlandez, pretendendo conter os seus patricios, os inglezes, escocezes,

gascões e normandos, que, recrutados pelo chanceller em Londres, tinham

vindo nas galés, deitava á escudella um olhar tão terno, que não era

para delle esperar grande sanha contra os indisciplinados, nem grande

vontade de se metter á agua.

João Bispo via no meio de gargalhadas e motejos desfazer-se o plano

combinado com o sobrinho de Gonçalo Domingues, quando este se lembrou de

notar aos nossos fieis alliados por palavras e gestos que o vinho dos

cavalleiros de S. João devia de ser cousa muito superior ao de pobre

lavrador. Um hurrah saudou Fernando, e, cambaleando, a turma tomou o

caminho do açude, apesar dos protestos de Down-Patrick.

Vinte homens, se tanto, seguiam aos dous namorados: uma duzia de

archeiros de Gilles de Montferrand e alguns subordinados de Tello

Rabaldo, encontrados tambem na adega do casal: os demais, embriagados,

tinham ficado pelo caminho, e uns dous ou tres afogados no Leça.

Bésteiros e vádios penetraram na cerca com o maior silencio em quanto

João e Fernando rodeavam um páteo junto da igreja, onde os do arcebispo

tinham amontoada bagagem, carros e grande porção de escadas, com que

ameaçavam um assalto á cidade. A sentinella, posta desse lado, dormia,

cabeceando, encostada á lança, quando Fernando deitou mão de uma das

escadas para a encostar ao muro. O pobre archeiro, extremunhado, abriu

os olhos, esgaziados logo pelo terror, e a bocca para dar o signal de

alarme; porém aquelles embaciaram, e desta sahiu apenas uma golphada de

sangue; deu umas outras duas passadas, cambaleando, estendendo as mãos

como a procurar appoio, e cahiu no chão soltando um som rouco e um

assobio, como de homem que desperta de pezadello. O castelhano, não

despertava; adormecia para sempre: aquelle estertor sahia pela garganta

e feridas abertas no peito por João Bispo.

--S. Jorge e Portugal! exclamou o namorado de Irene, abraçando-se ás

ameias do eirado, e arrancando a bandeira dos partidarios de D. Beatriz,

que tremulava ao pé da vermelha dos cavalleiros. S. Jorge e Portugal!

--Estamos perdidos! resmungou João, ouvindo o grito do mancebo; e

estropeando o nome do aventureiro irlandez, gritou: Micer D. Patrico!

micer D. Patrico, por aqui! por aqui! A mim, bésteiros!

Nas torres ergueu-se um alarido immenso: alguns penedos cahiram do

eirado no páteo, e uma nuvem de virotes sibilava nos ares. Ao chamamento

de João apenas tinham acudido Pedro Choca e tres vádios. O sobrinho de

Gonçalo Domingues, com a haste da bandeira defendia-se dos castelhanos,

que, alarmados, mais tratavam de lançar a escada a terra do que de se

desfazerem do temerario inimigo.

--Abaixo, Fernando, abaixo! gritou João; e no alto das torres

appareceram algumas luzes.

--Viva o Mestre de Aviz! gritou o mancebo quasi ao mesmo tempo que lhe

fugia a escada debaixo dos pés, deixando-o suspenso das ameias e

estribado em uma enorme salamandra de granito, que servia de goteira ao

eirado.

--Ahi vem ginetes, disse Pedro Choca, fazendo um esgar. Recommendemos a

alma a Deus!

--Se elle t'a quizer! redarguiu um dos vádios soprando a uns tições alli

deixados em rescaldo, que embrulhára em uma pouca de palha.

--Fernando! exclamou João Bispo, encostando outra escada ao muro, apesar

dos arremessos; afferra-te, Fernando, que eu sou comtigo. ­

--S. Jorge! S. Jorge! se ouviu do outro lado do mosteiro em altas vozes.

­

--A mim, bésteiros, a mim! tornou João Bispo, em quanto o seu amigo se

defendia na goteira, procurando saltar no eirado.

--Hurrah! S. Jorge!

--Malditos! aquelles odres onde estarão! Micer D. Patrico!

--Arriba, João, arriba! accudiram os vádios, marinhando pela escada, que

de novo tinham erguido. Aquelle endemoninhado cachopo vai morrer!

Uma grande lavareda, de repente, illuminou a lucta travada entre

Fernando Vasques, os seus companheiros e alguns homens d'armas do

eirado. Pedro Choca tinha lançado fogo a uns carros de palha, e este

ateava-se aos enormes pavezes de vime, proprios para assalto, amontoados

entre as escadas e bagagens. Era uma fogueira soberba que dentro em

pouco faria estalar o travejamento dos aposentos de D. Mafalda, ao mesmo

tempo que os castelhanos abandonavam o eirado da egreja.

--Os do Mestre! os do Mestre! se ouvia por todos os lados; e nas torres,

besteiros e fundibularios perdiam os seus tiros.

­--Hurrah! continuavam, já roucos, a berrar, do outro lado da cerca, os

inglezes.

--S. Jorge e Portugal! gritaram algumas vozes, com boa clara, pronuncia

portugueza, do lado do rio, apparecendo por entre os castanheiros,

retirando os homens d'armas de Garcia Manrique.

--Ter! gritou um dos seus caudilhos, ameaçando com o estoque os mais

medrosos; ter, rapazes! Não se diga que retiramos diante de meia duzia

de villões!

--Ter, ter! exclamou o guerreiro arcebispo, ap­parecendo no meio dos

fugitivos.

--Os do Mestre estão no bailiado! disse uma voz d'entre a multidão.

Vêde, o mosteiro está a arder, e foi derribada a bandeira!

--Por Sanctiago! tornou o arcebispo para os seus companheiros, espantado

da audacia dos portuenses, embrulhados já com os gallegos, e suppondo-se

cortado por forças immensas; estes excommungados estão decididos a

morrer, e trazem com­sigo o poder do mundo. A caminho de Braga,

senhores! Temos tempo sobejo para desforra.

--Covarde! resmungou João Rodrigues Portocarreiro, esporeando o seu

ginete para se lançar sobre os do Mestre. Covarde! repetiu; e o fogoso

animal, ferido nos peitos por um virotão, ergueu-­se com as mãos no ar,

e cahiu, arrojando com ruido o portuguez rebelde a alguns passos de

distancia, abollando-lhe a armadura e o capacete e fracturando-lhe o

craneo.

--Covarde! repetiu tambem o arcebispo com um sorriso de mofa,

voltando-se para um dos seus capitães, e designando o fidalgo portuguez:

temeridades não aproveitam.

A ponte tinha sido forçada ao mesmo tempo quasi, e a cavallaria de D.

Pedro de Transtamara cortava já pelo meio dos gallegos, atterrados.

--A caminho de Braga! tornou a gritar o arcebispo D. João, que,

lançando-se na estrada partiu, a galope,­ seguido de grande porção de

cavalleiros, e pouco depois de todo o exercito, deixando os apprestes

d'assalto, viveres e bagagens nas mãos dos burguezes do Porto.

--Senhor conde, senhor conde, aqui está a bandeira de Castella,

exclamava momentos depois, attravessando no meio de vivas por entre as

hostes do Mestre, o sobrinho de Gonçalo Domingues, com as mãos cheias de

sangue, de feridas do corpo e da cabeça, mas tão contente, que nada lhe

doia naquelle instante, e, em vez do perigo corrido, se recordava tão

sómente de Irene, alegrava-se por saber que o seu nome lhe havia de

chegar aos ouvidos na historia daquelle recontro.

Era um heroe feito pelo amor.........................................

.....................................................................

O mosteiro dos Hospitalarios tinha sido abandonado, mal o incendio

mostrou aos seus guardas as hostes portuenses além já do Leça, abatida a

bandeira e em fuga Garcia Manrique. No entanto, ainda do lado da cerca,

sol já nascido, as mesmas vozes roucas gritavam:

--Hurrah! S. Jorge!

--Onde demonio estarão estes bargantes? perguntou o namorado de Garifa,

procurando o sitio donde sahia aquelle vozear.

Uma gargalhada estrondosa se seguia, pouco depois, á pergunta. Os

besteiros encontrados no casal, não se esqueceram, chegados ao mosteiro

dos cavalleiros de S. João, que vinham para humedecer a garganta com bom

vinho, e foi a adega a primeira cousa que procuraram. Era de lá que

tinham, com os seus hurrahs, ajudado a alarmar os gallegos.

Desta vez micer Guilherme Down-Patrick não resistira á tentação.

Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV · 第 17 / 26 题