— Na terra dos espanhóis, do outro lado do mar, havia uma cidade
chamada—Salamanca — onde viveram os mouros, os mouros que eram
mestres nas artes de magia; e era numa furna escura que eles
guardavam o condão mágico, por causa da luz branca do sol,
que diz’ que desmancha a força da bruxaria...
O condão estava no regaço de uma fada velha, que era uma princesa
moça, encantada, e bonita como só ela!...
Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos
batizados, e logo perderam uma batalha muito pelejada; e vencidos
foram obrigados ajoelharem-se ao pé da Cruz Bendita... e a baterem
nos peitos, pedindo perdão...
Então, depois, alguns, fingidos de cristãos, passaram o mar e vieram
dar nestas terras sossegadas, procurando riquezas, ouro, prata,
pedras finas, gomas cheirosas... riquezas para levantar de novo o
seu poder e alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de Belém...
E para segurança das suas traças trouxeram escondida a fada velha,
que era a sua formosa princesa moça...
E devia ter mesmo muito força o condão, porque nem os navios se
afundaram, nem os frades de bordo desconfiaram, nem os próprios
santos que vinham, não sentiram...
Nem admira, porque o condão das mouras encantadas sempre aplastou a
alma dos frades e não se importa com os santos do altar, porque
esses são só imagens...
Assim bateram nas praias da gente pampeana os tais mouros e mais
outros espanhóis renegados. E como eles eram, todos, de alma
condenada, mal puseram pé em terra, logo na meia noite da primeira
sexta-feira foram visitados pelo Diabo deles, que neste lado do
mundo era chamado de Anhangá-pitã5 e mui respeitado. Então, mouros e
renegados disseram ao que vinham; e Anhangá-pitã folgou muito;
folgou, porque a gente nativa daquelas campanhas e destas serras era
gente sem cobiça de riquezas, que só comia a caça, o peixe, a fruta
e as raízes que Tupã despejava sem conta, para todos, das suas mãos
sempre abertas e fazedoras...
Por isso Anhangá-pitã folgou, porque assim minava para o peito dos
inocentes as maldades encobertas que aqueles chegados traziam...; e
pois, escutando o que eles ambicionavam para vencer a Cruz com a
força do Crescente, o maldoso pegou do condão mágico — que navegara
em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos —,
esfregou-o no suor do seu corpo e virou-o em pedra transparente; e
lançando o bafo queimante do seu peito sobre a fada moura, demudou-a
teiniaguá6 , sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da
encantada a pedra, aquela, que era o condão, aquele.
E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do
dia, do sol vermelho que ia querendo romper dos confins por sobre o
mar, por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como
brasa e tão brilhante que os olhos de gente vivente não podiam parar
nele, ficando encandeiados, quase cegos!...
E desfez-se a companhia até o dia da peleja da nova batalha. E
chamaram — salamanca — à furna desse encontro; e o nome ficou
p’r’as furnas todas, em lembrança da cidade dos mestres mágicos.
Levantou-se um ventarrão de tormenta e Anhangá-pitã, trazendo num
bocó a teiniaguá, montou nele, de salto, e veio correndo sobre a
correnteza do Uruguai, por léguas e léguas, até as suas nascentes,
entre serranias macotas.
Depois, desceu, sempre com ela; em sete noites de sexta-feira
ensinou-lhe a vaqueanajem de todas as furnas recamadas de tesouros
escondidos... escondidos pelos cauílas, perdidos para os medrosos e
achadio de valentes... E a mais desses, muitos outros tesouros que a
terra esconde e que só os olhos do zaorís7 podem vispar...
Então Anahangá-pitã, cansado pegou num cochilo pesado, esperando o
cardume da desgraças novas, que deviam pegar p’ra sempre...
Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher...
Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrúa8 contava à minha
mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros que,
esses, viram!...
E Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no
cinto, aprumando o facão...; foi parando o gesto e ficou-se olhando,
sem mira, para muito longe, para onde a vista não chegava mas onde o
sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda
passava... ainda passava, porque o sonho não tem
lindeiros nem tapumes...