NOTA

Convém recordar que o primeiro povoamento branco do Rio Grande do

Sul foi espanhol; seu poder e influencia estenderam-se até depois da

conquista das Missões; provém disso que as velhas lendas rio-

grandenses acham-se tramadas no acervo platino de antanho.

Vem da Ibéria, a topar-se com a ingênua e confusa tradição

guaranítica (v. g. a lenda da M’boi-tátá) a mescla cristã-árabe de

abusões e misticismo; dos encantamentos e dos milagres; desses

elementos, confundidos e abrumados ( p. ex. a salamanca do serro do

Jarau ), nasceram idealizações novas e típicas adaptadas ou

decorrentes do meio físico e das gentes ainda na crassa infância das

concepções.

E, como entre conquistadores brancos corria intensa e rábida a febre

da riqueza — o sonho escaldante do El-Dorado — a fulgir nas areias

e nos cascalhos, espadanando das entranhas misteriosas e apojadas do

Novo-Mundo, a preponderante vivaz das suas ficções é sempre a

imantada ânsia — pelo ouro!, forte sobre a dor e a própria morte...

Com a entrada dos mamelucos paulistas outras e doutra feição vieram

do centro e norte do Brasil: o saci, o caápora, a oiára,

que esfumaram-se no olvido.

Por último uma única se formou já entre gente lusitana

radicada e a incipiente, nativa: a do Negrinho do pastoreio.

A estrutura de tais lendas perdura; procurei delas dar aqui uma

feição expositiva — literária e talvez menos feliz — como

expressão da dispersa forma porque a ancianidade subsistente

transmite a tradição oral, hoje quase perdida e mui confusa: ainda

por aí se avaliará das modificações que o tempo exerce

sobre a memória anônima do povo.

*A M’BOI-TÁTÁ*

_A’ Andrade Neves Neto_

_Meu caro Simões L. Neto_

_Agradeço não me haveres esquecido com a tua amizade e com o teu

talento. A lenda da “_boi-tátá_ ”, também conhecida dos nossos

sertanejos, com variantes que muito a diferençam da que escreveste,

deve figurar no “folk-lore” gaúcho, onde já cintila, acesa por ti,

a velinha do “Negrinho do Pastoreio”, à cuja claridade puseste meu

nome. Prossegue, porque fazes trabalho de valor e muito me alegro

por haver insistido com a tua modéstia para que continuasses a

colher, aqui, ali, essas flores eternas da Poesia do povo, fazendo

com elas o ramo que será um encanto para todas as almas

e gloria para o teu nome. Abraço-te_

_teu_

_Coelho Neto_

_Rio 20-XI-09_

Lendas do sul · 第 1 / 26 题