De nenhum outro assumpto tractava o opusculo e não é diffici

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OPUSCULOS

*OPUSCULOS*

POR

A. HERCULANO

SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO

DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE

TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.

TOMO VIII

QUESTÕES PUBLICAS

TOMO V

1.^a EDIÇÃO

LISBOA

TAVARES CARDOSO & IRMÃO--EDITORES _5, Largo de Camões, 6_

MCMI

Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica

178, rua de D. Pedro, 184--Porto

ADVERTENCIA

ADVERTENCIA

Formosos eram os tempos em que pelejavamos pela liberdade do povo;

tão formosos, quão negros estes em que a plebe peleja pela

licença.--A. Herculano--_Voz do Propheta_--1836.

Os breves artigos com que abre o presente tomo sob as epigraphes--_Da

pena de morte_--e--_A Imprensa_,--foram escolhidos entre varios outros

de propaganda social publicados por A. Herculano nos numeros de janeiro

a maio do _Diario do Governo_ de 1838. Entendemos que deviamos

recolhê-los nesta collecção por conterem a opinião do Auctor em

assumptos de elevado alcance, embora resumidamente exposta. Convem notar

que o _Diario do Governo_ era então propriedade dos officiaes das

secretarias do estado: dos officiaes maiores, seus amigos e dirigentes

da empresa, acceitara o publicista o encargo de redactor com o intento

que naquelles artigos evidenciou de encaminhar o espirito público, tão

conturbado a esse tempo por paixões politicas, para a boa práctica e

comprehensão do regimen representativo e outros ideaes conducentes á

prosperidade moral e material do país. Dahi proveiu a desusada feição

que a folha official apresentou durante aquelles meses, sendo para

registar, como nota caracteristica daquella epocha, que os setembristas

exaltados, a quem a catechese do escriptor era principalmente destinada

e não raras vezes irritava, por desforço o increpassem nas suas folhas

de protector de malfeitores, por elle ser contrário á pena capital; como

se a existencia do algoz fosse postulado do credo democratico que

ostentosamente apregoavam. Ao acaso alguns publicistas teem propalado

que fôra em 1837 e não em 1838 que A. Herculano escrevera no _Diario do

Governo_, tendo então de contradizer as suas anteriores crenças

politicas; mas o que acabamos de dizer e os leitores podem verificar

demonstra a inexactidão de taes asserções.

Seguem-se no tomo dous escriptos ácerca de instrucção pública, de

instrucção popular principalmente, com os quaes se liga como complemento

de uma nota a um delles um artigo bibliographico que trouxémos do vol.

II da 2.^a série do Panorama. Os dous escriptos foram ambos publicados

em 1841, sendo o Auctor deputado ás côrtes pela cidade do Porto, e pelas

referencias que encerram a factos parlamentares nos offerecem ensejo de

expôr alguns esclarecimentos que, além de facilitarem a sua melhor

apreciação, interessam sob um ponto de vista geral aos demais trabalhos

contidos no tomo. Junctos aos acima esboçados completam estes

esclarecimentos uma parte pouco conhecida e que por isso tem sido em

mais de um ponto adulterada, da biographia de A. Herculano, no período a

que respeitam.

A camara a que o publicista pertenceu foi a que reuniu em maio de 1840

em substituição da que fôra dissolvida em fevereiro do mesmo anno.

Representava ella na sua grande maioria assignalado triumpho que ao cabo

de ardentes e prolongadas luctas o partido cartista obtinha na opinião

pública contra o setembrista, triumpho que muitos factos faziam prever e

que apenas secundariamente, porventura na escolha de alguns nomes,

dependera da influencia do governo no acto eleitoral. O ministerio

existente era pela conjunctura em que subira ao poder e pelos homens que

o constituiam um ministerio de transição, não sendo todos os seus

membros cartistas tradicionaes, nem contando elle entre estes numero

sufficiente dos mais notaveis. Era o falado gabinete de 26 de novembro

de 1839. Mas como quer que a maioria da camara comprehendesse a sua

missão, o certo é que ella se submetteu á politica ministerial,

mantendo-se o pacto sem quebra formal, e sem embargo do que para alguns

dos membros da maioria tivera de irritante uma parcial recomposição do

gabinete occorrida em 1841, até que, ao abrir-se em janeiro de 1842 a

última sessão da camara, que acto contínuo foi adiada, veiu a revolução

militar iniciada na cidade do Porto e consumada em Lisboa nesse

interregno parlamentar, derrubar a constituição vigente e proclamar a

restauração da carta.

Importa recordar que ás primeiras demonstrações do movimento

revolucionario logo se organisou em Lisboa a famosa colligação liberal

em que as maiorias de ambas as camaras notoriamente se representaram e

que pública e solemnemente protestou contra elle. A esta colligação se

associaram por actos officiaes a corôa, o ministerio exceptuando um dos

seus membros que tomou o partido dos revoltosos, e outro gabinete que

ainda subiu ao poder e chegou a planear medidas enérgicas para

restabelecer a ordem. Sem embargo a revolução conseguiu triumphar e não

só ou não tanto pelo império da força, mas porque o estado de cousas a

que o procedimento dos poderes constituidos até então conduzira, lhe

abrira caminho e facilitara o triumpho. Ao passo que decorridas duas

sessões parlamentares ainda estava por definir em pontos primordiaes o

definitivo plano politico que o partido cartista houvesse de adoptar,

quer ao sabor de exaltados quer ao de moderados, visto que fabianamente

se fugira das questões constitucionaes que podiam aclará-lo, como era a

da reorganisação da segunda camara, tinham-se restringido todas as

liberdades populares e nas mãos do executivo se haviam concentrado por

esse e outros processos habituaes, meios de acção politica e

administrativa tão pronunciados que, por apenas o acautelarem contra as

turbulencias do setembrismo, deixando-o todavia exposto a surpresas da

parte dos seus correligionarios, tanto podiam demonstrar o sincero

propósito de manter a todo o transe a ordem pública, como o reservado

intuito de acabar radicalmente com a politica transitoria, recorrendo

sem temor de resistencias a processos mais ou menos summarios. De modo

que o procedimento do cartismo militar se reduziu a empolgar por

favoravel ás suas conhecidas paixões uma situação que lhe tinham creado

e que de improviso não seria possivel mudar. As memorias de que vamos

extrahindo esta perfunctoria noticia nos dão como principaes planeadores

daquella politica como que preparatoria, além do ministro que

ousadamente desertou do governo para os revolucionarios, um outro bem

notavel pela sagacidade que sempre lhe foi attribuida, o que na

imperfeita e tardia reconstituição ministerial de 1841, passara da pasta

do reino á dos estrangeiros e que, ao ver que o primeiro lhe disputava a

preeminencia politica nos acontecimentos que íam decorrendo, e que o

plano em que collaborara se complicava gravemente, por último resolveu

acompanhar com os seus demais collegas a corôa senão encaminhá-la para o

lado da colligação. Assim esta, embora vencida, adquiriu proporções de

facto não menos assignalado que a revolução, cobrindo até onde possivel

responsabilidades contrahidas por muitos dos colligados e estremando

novos arraiaes para as campanhas politicas que depois agitaram o país.

Houvera, porém, alguns deputados cartistas que não tinham acompanhado a

maioria na sua submissão ao ministerio, nem esperado pela revolta

militar para pugnar pelos bons dictames do cartismo doutrinario. A tempo

haviam elles combatido os excessos de auctoridade e propostas do governo

absorventes das prerogativas parlamentares ou contrárias ás normas

constitucionaes, e pela formação de um ministerio genuinamente cartista

que em vez de sobrexcitar as paixões lhes impusesse respeito, mantendo o

seu partido dentro daquellas normas e honrando-o com uma politica leal e

patriotica. Taes eram os deputados do grupo chamado da opposição

cartista, que teve por orgãos na imprensa--_O Director_--em 1840 e--_O

Constitucional_--em 1841 e foi da opposição parlamentar seguramente o

mais notavel e o mais temido pelo ministerio. A este grupo, como o

leitor terá previsto, pertenceu A. Herculano, guardada a independencia

das suas opiniões em assumptos especiaes, resultando-lhe de tal filiação

ser alvo de aggravos na camara e na imprensa ministerial, onde elle e os

seus amigos eram accusados de tránsfugas aos quaes cegava a cubiça de

ascender ao poder. Alguns ministros chegaram ao excesso de tentar

comprometter A. Herculano com el-rei D. Fernando cujo bibliothecario

era, não vingando a intriga, graças á gentileza do príncipe e á energia

nunca desmentida do escriptor; e tão vivas eram as animadversões contra

a opposição cartista, que ainda depois da revolução consumada, e como se

esta tivesse triumphado com geral acolhimento, continuaram os seus

apologistas a julgar segundo as proprias paixões os homens daquelle

grupo, especialmente A. Herculano, quer em publicações quer em

conversações particulares. Emfim, succede que ainda em recentes

escriptos appareçam reflexos desses juizos que o facciosismo daquella

épocha havia inspirado. Mas a noticia que deixamos exposta é bastante

circumstanciada para que se possa concluir que elles são hoje e foram na

sua origem tão infundados quanto os que já rebatemos a respeito da

redacção do _Diario do Governo_ em 1838. A verdade é que A. Herculano

manteve na camara os mesmos principios em que toda a colligação liberal

e os poderes constituidos estribaram depois os seus protestos contra a

nova solução de continuidade do systema representativo. A verdade é que,

sem quebra allegavel de rigor partidario, elle os havia

ininterruptamente sustentado desde que viera a público com o seu ardente

opusculo _A Voz do Propheta_. Foram tambem esses principios que lhe

serviram de base no transumpto historico que se lê no tomo I desta

collecção, ácerca dos nossos acontecimentos politicos, desde a revolução

de setembro até a de 1842. Assim as increpações de incoherencia politica

lançadas naquella épocha contra o nosso escriptor, e mais tarde

reproduzidas sem exame, reduzem-se a estranhar que elle não tivesse tido

duas consciencias, uma para condemnar os actos desordenados do

setembrismo e outra para se conformar com os analogos dos seus

correligionarios.

Assente este ponto fundamental dos esclarecimentos em que vamos

proseguindo, podemos agora cingir-nos aos que mais de perto se ligam ao

conteúdo do tomo. Como ao constituir-se aquella camara não estivesse

patenteada nenhuma das divisões possiveis do cartismo parlamentar, foram

eleitos membros da commissão d'instrucção pública A. Herculano e mais

dous deputados do seu grupo. Occorreu então ao incansavel e patriotico

publicista o pensamento de estudar e redigir com o auxilio de um destes

deputados, o lente da Universidade e seu particular amigo V.F. Netto de

Paiva, um projecto de organisação de instrucção popular. Não lhe viera

de salto esse pensamento. Já na folha--_O Repositorio

Litterario_--publicada de 1834 a 1835 na cidade do Porto, elle começara

a manifestar o seu interesse pela instrucção do povo, descrevendo ahi as

escholas d'instrucção elementar da Prussia e encarecendo-as como modêlos

no genero. Evidentemente pretendera então impressionar o público pondo

em confronto o estado intellectual deste país com o do nosso, isto é,

fazendo destacar os dous extremos. Em 1838 voltava ao momentoso

assumpto, por incidente em luminosa passagem do artigo sobre monumentos

patrios publicado no _Panorama_, e no _Diario do Governo_ em uma série

de artigos que não incluimos neste tomo por dispormos de mais completos

trabalhos do Auctor sobre a materia. Aquelle projecto não seria, pois,

mais que nova phase de uma propaganda que o Auctor fôra desinvolvendo

par a par com a relativa ao regimen politico recentemente implantado

entre nós, e que elle reputava tão fundamente correlacionada com esta

quanto pelas suas eloquentes palavras os leitores poderão em breve

apreciar.

Fundada esperança de bom exito tinha A. Herculano nesta tentativa porque

contava com a boa vontade de todos ou quasi todos os seus collegas da

commissão e com a acquiescencia do ministro do reino, a quem o prendiam

relações de amizade. Foi de certo a partir dessa épocha que essas

relações começaram a esfriar, degenerando mais tarde em animosidades que

concorreram para perturbar gravemente a carreira litteraria do

escriptor; mas até ahi e desde o cèrco do Porto haviam sido

cordealissirnas e firmadas em repetidas provas de mútua confiança. Desta

vez, não tractava, pois, o insigne patriota apenas de ajunctar mais um

brado em prol da grande causa a que se dedicava, mas de um acto decisivo

e que, por bem concebido e delineado teria resultados seguros. Porém, a

poucos passos as divergencias politicas que já descrevemos deram por

terra com estas illusões. Mesmo no decorrer da sessão de 1840

apresentava o ministro do reino á camara um projecto seu que não teve

seguimento mas que sem dúvida impedia a premeditada combinação; e aberta

a sessão de 1841, logo A. Herculano e os seus amigos foram acintosamente

excluidos da commissão de instrucção pública, sem que a maioria desta se

resentisse do facto. Depois, quando no progresso da sessão o ministro

mudava de pasta e desta mudança e do subsequente caminhar dos negocios,

se podia deduzir que o assumpto não viria a ser ventilado na camara,

resolveu o escriptor levá-lo para a imprensa, expondo em successivos

artigos publicados de setembro a novembro na folha--_O Constitucional_,

as theses que sobre elle havia apurado e examinando á luz dellas o

projecto ministerial. São esses artigos que constituem um dos estudos

sobre instrucção insertos neste tomo e no qual, por emenda deixada pelo

Auctor, substituimos a epigraphe primitiva de--_Instrucção Nacional_

pela de--_Instrucção Pùblica_.

Ainda na sessão de 1840 um deputado da maioria apresentara á camara um

projecto de restabelecimento de anachronicos institutos de ensino

público mortos pela ditadura setembrista e de extincção de outros que

ella creara para os substituir. O principal objectivo do proponente era

a quéda da eschola polytechnica e a restauração do collegio dos nobres,

e contra essa idéa tão retrógrada deu parecer a commissão de instrucção

pública, sendo relator A. Herculano; mas como a questão ficasse

reservada, succedeu que alguem interessado nella mandou distribuir aos

deputados na sessão de 1841, antes do adiamento da camara decretado em

março, uma analyse impressa refutando aquelle parecer. Reaberta a camara

respondeu A. Herculano com o seu opusculo--_Da Eschola Polytechnica e do

Collegio dos Nobres_,--que é o outro dos dous referidos estudos, o que

contém mais vivas allusões ás occorrencias parlamentares e o primeiro na

inserção em obediencia á ordem chronologica. Posto que nesta noticia

deixemos para o leitor a detida apreciação dos trabalhos que vamos

apontando e dos profundos pensamentos philosophicos que os abrilhantam e

ligam como élos da mesma cadeia, convem notar que A. Herculano defendia

neste opusculo a ameaçada eschola pelo que ella podia concorrer,

independentemente de outras funcções, para a instituição das escholas

destinadas a derramar o ensino geral superior, definido nos artigos do

_Constitucional_, e por isso mesmo dissémos a princípio que o assumpto

dominante destes estudos era a instrucção popular, admittida a amplitude

que o escriptor lhe attribuia.

A escola polytechnica ainda foi objecto de novas solicitudes de A.

Herculano dous annos depois delle a defender na camara. Parecendo que

tambem as cousas além das pessoas se conspiravam contra ella, um

incendio viera destruir-lhe o edificio e o material de ensino,

contrariedade sobre modo grave, attenta a míngua dos recursos

pecuniarios do estado. Succedia, porém, andar a esse tempo em projecto

erigir-se por meio de subscripção pública uma estátua a D. Pedro IV,

circumstancia que o nosso escriptor aproveitou para advogar

calorosamente em uma série de notaveis artigos publicados na _Revista

Universal Lisbonense_, a idéa de que, emvez de estátua, fórma monumental

herdada de eras pagans, o monumento ao glorioso caudilho das nossas

líberdades fosse aquella eschola restaurada. Verdadeiros modêlos de

erudição e dialectica servem estes artigos de fecho ao presente tomo,

onde pelo assumpto de que tractam tinham o seu logar marcado. O

monumento-estátua triumphou, mas A. Herculano tornara moralmente

impossivel que a eschola fosse lançada ao olvido, a tal ponto que ella

foi restaurada antes daquelle ser erguido, vindo a justificar pela

brilhante situação que depois conquistou, as campanhas era que o

eminente publicista tanto se empenhara para encarecê-la no espirito

público.

O exame das sessões parlamentares de 1840 a 1841, ainda abstrahindo das

restricções de liberdade que limitaram a vida constitucional do país,

acubertando-se com aspirações ordeiras, e das investidas contra o

progresso de instituições de ensino, offerece-nos seguras provas de que

no governo e na maioria da camara havia não poucos espiritos mais hostis

que favoraveis ás melhores conquistas da revolução liberal, affrontando

até o credo politico de que ambas as entidades se apregoavam

sustentáculos, como se patenteia nas tentativas a que nos vamos referir,

embora estas não alcançassem immediato triumpho. Com effeito, alguns

deputados da maioria firmavam com os seus nomes uma proposta tributária

em cujo preambulo se dizia que um dos grandes erros da primeira

dictadura fôra acabar com os tributos que os povos desde séculos pagavam

sem reluctancia. Os proponentes reputavam, pois, acervo de grandes erros

as leis daquella dictadura, e proferiam esta sentença condemnatoria como

se ella houvesse passado em julgado, como se exprimisse uma verdade que

já ninguem ousasse contestar. Por sua parte o ministerio parecia abundar

nas mesmas idéas, porquanto apresentara á camara um projecto nada menos

que tendente a annullar o memoravel decreto de 13 d'agosto de 1832 sobre

foraes. E assim se ameaçavam em pleno parlamento e á sombra da bandeira

cartista as tradições com que mais deviam gloriar-se os que ostentavam

de leaes servidores dessa bandeira.

Contra taes tendencias que pareciam inspiradas pelo absolutismo, se lê

no opusculo ácerca da eschola polytechnica uma vehemente apóstrophe de

A. Herculano, havendo este já exaltado anteriormente a excellencia das

leis de D. Pedro em artigos publicados na primeira folha da opposição

cartista. Mas o leitor tem no presente tomo um trabalho especial que

lança grande luz sobre o assumpto e cujo manuscripto achámos nos papeis

do Auctor com a data de 1842. É a analyse de um acórdão da _Relação de

Lisboa_ em litígio sujeito ao decreto que acabamos de citar, na qual o

Auctor demonstra a iniquidade do acórdão e exproba ao poder judicial o

propósito de associar-se áquelle perigoso movimento reaccionario. O

manuscripto tem a designação de--communicado--, mas ignoramos se elle

viu ou não a luz pública. Sabemos, porém, que pelo menos uma cópia delle

senão a impressão teria sido offerecida ao jurisconsulto A.C.C. de

Faria, o qual em carta que temos á vista agradece ou uma ou outra cousa,

chamando-lhe artigo talvez por conter aquella designação. Á defesa e

apotheose assim iniciadas das grandes concepções legislativas de

Mousinho da Silveira, deu A. Herculano mais tarde largas proporções como

consta dos tomos II, IV e VII desta colleccão. É que no convulsionado

período que se seguiu á revolução militar de 1842, havia o cartismo

espurio que o calumniara de transfuga, conseguido realisar em parte as

aspirações que manifestara na camara contra as leis de D. Pedro, não

sendo para estranhar que tentasse proseguir nesse caminho. Mas as

particularidades, que não viriam aqui a ponto, da segunda phase desta

importante propaganda de A. Herculano, tem-nas o leitor naquelles tomos,

não esquecendo as que apontámos na _Advertencia_ do último.

Quiseramos incluir neste livro alguns dos discursos parlamentares do

nosso escriptor, e o pequeno opusculo--_O Clero português_--publicado em

1841 sobre um assumpto então submettido á camara dos deputados. Deste

modo e contando com outros artigos avulsos já insertos em tomos

anteriores, bem pouco faltaria para que ficasse constando da collecção

toda a obra de A. Herculano relativa a questões públicas, no período de

que nos ocupamos. Mas aquelles discursos, de breve extensão em sua

maioria, só em memoria especial teriam cabimento, acompanhados de um

summario das controversias a que se ligaram, á similhança do que fizémos

em anotações a este tomo, nas quaes apresentamos os transumptos de dous

delles. Quanto ao opusculo o facto de ter sido pelo Auctor retirado da

publicidade pouco depois de vir a lume tornaria inadmissivel a sua

inclusão, mas está dentro dos limites desta noticia darmos idéa da

substancia delle e conjecturar sobre os motivos que levaram o Auctor a

supprimi-lo.

Inspirando-se nos mesmos sentimentos que no anno seguinte, como se lê no

tomo I, o moveram a expor á condolencia pública a miseria a que estavam

reduzidos os velhos egressos, víctimas de excessos revolucionarios ainda

não remediados, e mais tarde a proceder do mesmo modo em favor das

freiras de Lorvão, naquelle seu opusculo começara A. Herculano por

condoer-se da sorte do clero parochial, a quem a revolução em seu dizer

tambem deixara a viver de esmolas. Em commovente quadro ahi descrevia

elle os longos serviços sociaes da democracia do clero, e recorrendo a

considerações historicas que os leitores poderão ver muito ampliadas nos

notaveis artigos--_O País_ e _A Nação_, tomo VII, argumentava que ella

não devera ser attingida pela onda revolucionária, porque não tinha a

responsabilidade dos abusos e extorsões de que haviam desfructado

durante séculos as altas classes ecclesiasticas. Mas se nesta parte o

opusculo não era mais que o inicio de uma propaganda de piedade

destinada a moderar ódios ainda subsistentes entre vencidos e

vencedores, nelle aproveitava o Autor o ensejo para de certo modo

deprimir em transparente allusão, o ministro que referendara o decreto

de 1834 sobre corporações religiosas, notando que o pensamento deste

decreto, no que tivera de alcance na operada transformação social, não

era invento de alguem que isoladamente pretendesse jactar-se da sua

concepção, mas subordinado aos anteriores decretos da dictadura e desde

muito tempo definido e amadurecido em todos os espiritos liberaes.

Sobrecarregando o ministro com a responsabilidade das imperfeições sem

todavia lhe conceder qualquer partilha de gloria na promulgação do

famoso diploma, dir-se-hia que o escriptor se deixara momentaneamente

vencer por algum sentimento de represalia contra elle; e assim é

provavel que fosse, porque o homem público cuja conhecida altivez acaso

pretendia abater com as suas palavras, o mesmo que na recomposição

ministerial de 1841 assumiu a presidencia do gabinete reconstituido,

pelo seu caracter aggressivo menos dignamente o provocara a um jogo de

increpacões irritantes na sessão parlamentar do anno anterior.

De nenhum outro assumpto tractava o opusculo e não é difficil

presumirmos quaes fossem as causas da sua suppressão. Para esta poderiam

ter concorrido algumas discordancias entre as generalidades nelle

resumidas e certas doutrinas de historia patria que o Auctor a esse

tempo andava apurando e não tardou a trazer á luz pública em cartas que

publicou logo em começo de 1842. Mas em relação á materia do opusculo

essas discordancias eram apenas como que de linguagem, não affectando as

conclusões tiradas e podendo até ser attribuidas á necessidade de evitar

explanações. Por isso nos parece que para o facto tambem concorresse o

ter pesado na austera consciencia do escriptor a animosidade que

revelara na allusão que acabamos de apontar. Sendo A. Herculano como era

o mais enthusiasta e o mais sciente defensor dos grandes decretos de D.

Pedro, guardava sempre para segundo exame os pontos em que cumpria

corrigi-los e desenvolvê-los, seguindo as mesmas normas no julgamento

dos ministros que os tinham referendado. Não admiraria, pois, que elle

tivesse retirado o opusculo da publicidade principalmente como nota

destoante destas normas, quanto ao valor de um desses ministros.

Taes são os esclarecimentos biographicos que nos propusemos expor. De

outros necessitamos agora tractar. Havia A. Herculano começado a rever

os seus dous estudos sobre instrucção pública, fazendo leves correcções

em toda a extensão de ambos e a revisão definitiva de algumas páginas do

publicado em artigos. Tal como o apresentamos ficara este último por

concluir e fòra destinado a um opusculo, como no-lo indicam antigas

provas paginadas que ao auctor serviram para a revisão. Notemos, porém,

que o não prejudica em pontos essenciaes a falta de remate, e se acaso

elle tivesse vindo completo á lus pública, cousa de que até hoje não

tivemos noticia nem esperamos têr, fácil seria de futuro remediar o

erro. O que provavelmente succedeu foi ir-se paginando em separado ao

passo que a publicação seguia no jornal, suspendendo-se uma e outra

cousa por ter cessado a remessa do manuscripto. Quanto ao outro

trabalho, já depois de o percorrer e corrigir quasi todo retrocedeu o

Auctor com o provavel intuito de o limitar em certas explanações e

vehemencias de linguagem onde a materia controvertida não soffresse com

isso. Assim o fazem crêr traços em cheio passados sobre logares seguidos

que rematam o capitulo I, indicando que esses logares seriam supprimidos

ou modificados e o capitulo arredondado por outra fórma. Mas estes novos

preparativos não tiveram seguimento, e por isso nos limitámos a

introduzir em ambos os estudos as emendas explicitamente marcadas pelo

Auctor, apontando em notas paginaes até onde chegou a revisão completa

de um delles e do outro os logares marcados para córte ou remodelação.

Razões plausiveis nos levaram, porém, a resumir em nota, que

opportunamente será indicada, dous documentos--o projecto de restauração

do collegio dos nobres e o respectivo parecer da commissão de instrucção

pública, que o Auctor ajunctara ao seu opusculo como provas. Por meio

della se fará clara idéa do theor e argumentos de taes provas em tudo

que possam aproveitar ao assumpto de que tractam, ao passo que evitamos

que, num livro destinado como todos os do Auctor, a perduravel

existencia, se notem repetições a que a reproducção completa dos dous

documentos teria de conduzir. A consciencia nos diz que o Auctor

procederia de modo análogo, salva a perfeição com que o fizesse.

Se o desejo de recordar um período menos conhecido da vida de A.

Henulano nos levou a alongar esta advertencia, um dever imperioso que

não pudémos cumprir no tomo anterior, nos obriga a annexar-lhe mais

algumas páginas. Estavam já impressas as primeiras folhas desse tomo

quando em 31 de janeiro de 1898, falleceu o illustre academico e antigo

official maior do archivo da Torre do Tombo João Pedro da Costa Basto,

dirigente desta publicação por morte do Auctor. Interpretando

disposições de última vontade de A. Herculano, haviam tractado os seus

dous testamenteiros, legatarios de seus manuscriptos e artigos avulsos,

de colligir uns e outros destes elementos para serem incorporados em

livros, como se advertiu no tomo IV e o testamento auctorisava. Entre

ambos se dividiram os diversos trabalhos a emprehender, cabendo ao

fallecido, como era proprio das suas luzes, além dos repartidos em

commum, os de maior ponderação, incluindo a superintendencia na

organisação de novos livros, tomos de opusculos na sua maioria e a

revisão de provas. Igualmente tomou elle sobre si rever as reimpressões

de todas as demais obras de A. Herculano, reimpressões que de anno para

anno foram progressivamente augmentando como até agora tem succedido, e

lhe absorviam largas horas de escrupulosa attenção. E tão singular

desvelo punha nestes trabalhos que, não raro, folheava importantes obras

ou recorria aos pergaminhos para verificar nos livros de historia

citações e datas que acaso pudessem ter sido alteradas em anteriores

edições. Com grande mágua sua deixou apenas de rever a 5.^a edição,

impressa em 1888, do tomo II da _Historia de Portugal_, cujas provas não

lhe foram enviadas e o typo foi alterado, porque o então proprietario da

primitiva casa editora, ignorava os compromissos que a tal respeito

existiam.

Cumpria-nos, pois, registar nestas páginas a data em que cessaram para a

memoria do illustre academico as responsabilidades inherentes a estes

encargos, e desde a qual toda a benevolencia pública se tornou

imprescindivel em favor de quem, por dever, tem de proseguir nelles como

quer que lhe seja possivel. Cumpria-nos tambem dar aqui testemunho como

singelamente damos, da devoção, e da competencia até onde por intuição

natural pudémos apreciá-la, com que o fallecido zelava as glorias do que

fòra seu grande mestre e amigo. E neste ponto ajunctaremos mais um facto

que harmonisa com os expostos realçando-lhes o valor.

Por motivos de dignidade pessoal se despedira A. Herculano em 1873 de

director da importante publicação academica--_Portugaliae Monumenta

Historica_. Conversando então particularmente ácerca do futuro desta

publicação dizia elle que João Pedro da Costa Basto poderia continuá-la

ao menos até determinado fascículo. Alguns annos depois da morte de A.

Herculano tambem a Academia Real das Sciencias ajuizava do mesmo modo,

convidando o illustre discípulo do historiador para aquella espinhosa

empresa e não tardando a elevá-lo de socio correspondente que era a

socio effectivo. A idade já avançada e sobretudo o melindroso estado de

saúde do official-maior da Torre do Tombo, difficultavam-lhe sobraçar

encargo de tamanha responsabilidade. Posto não haver que meditar sobre o

já definido plano da publicação e em grande parte executado, a escolha,

interpretação e cópia dos diplomas que tinham de ser agrupados, exigiam

além de consumada competencia na materia, aturado labor pbysico e

mental. Mas João Basto não ignorava as expressivas palavras de A.

Herculano a seu respeito, bem que as recatasse na consciencia, e fôra

uma das testemunhas do entranhado affecto com que elle se entregara

durante annos a trabalhosas investigações, para colligir e apurar os

preciosos monumentos da historia patria e trazê-los á luz pública. Por

ventura aquellas palavras exprimiam um desejo de A. Herculano, uma

esperança de que a publicação ainda houvesse de proseguir. Por isso o

honroso convite que em melhores dias e em vida do historiador teria

declinado sem hesitação, agora lhe parecia moralmente irrecusavel.

Acceitou-o, pois, esquecendo-se do seu estado valetudinario; acceitou-o

menos para ampliar os seus foros de erudito professor de diplomatica,

que para honrar a palavra do mestre e fazer resurgir do estacionamento

em que jazia a obra patriotica em que elle tanto se empenhara. Na

coordenação de volumosos fasciculos que proficientemente chegou a

concluir dessa obra e ajunctou aos anteriormente publicados, e nas

outras devoções já descriptas, consumiu, emfim, o fallecido academico os

derradeiros dias da sua oppressa existencia, e só abandonou a cella da

Torre do Tombo onde esses labores o attrahiam, quando uma completa

extincção de forças d'alli o afastou para sempre.

Não caberia neste logar o elogio em que houvessem de ser commemorados

todos os relevantes serviços e accentuadas virtudes de João Pedro da

Costa Basto, nem sob ponto de vista algum seriamos competentes para o

tecer. Por ambas as razões o intuito que nos guiou nas palavras que

ficam expostas, foi apenas como que o de lavrar uma inscripção que

recordasse a memoria do devotado amigo de A. Herculano, e ainda isto em

desempenho de um dever porque de um dever se tractava, embora

gratissimo. Todavia, por mais singela que seja esta inscripção, o livro

a que vai juncta não a deixará cair no esquecimento.

_O segundo legatario_.

DA PENA DE MORTE

1838

DA PENA DE MORTE

I

Bastaria attender aos verdadeiros principios em que assenta a ordem

social, para conhecer que a pena de morte é um absurdo. Tudo aquillo em

que a sociedade limita a nossa liberdade, offende os nossos interesses

particulares, nos causa pena ou dôr, são direitos cedidos pelo indivíduo

que se resolve a dá-los em troca de outros bens que a sociedade lhe

offerece. Nesta cessão nunca poderá entrar o direito sobre a própria

vida, porque ninguem o tem para lhe pôr termo; portanto no pacto tácito

do indivíduo com a totalidade nunca poderá entrar a transmissão de um

direito que não existe. Se quereis legitimar a pena de morte, legitimai

primeiro o suicidio.

Supponhamos os crimes mais horrorosos commettidos por qualquer: venha

entre nós o parricida, o sacrílego, o assassino culpado de muitas

mortes: ponhamos diante delles o cadáver paterno e a historia do

cordeiro pisado aos pés, e os infelizes salteados na via pública e

cosidos de punhaladas: sentemo-nos como juizes, e interroguemos a voz

sincera da nossa consciencia. Alli estão os criminosos maniatados,

cubertos das maldições e affrontas das turbas que os rodeiam: alli estão

as victimas transmudadas, envoltas em sangue; alli o monumento do

insulto commettido contra Deus. O livro da lei está aberto, e nelle a

condemnação escripta; ao longe ergue-se o patibulo, e atrás delle se

estendem as trévas da eternidade, precedidas pelo espectro da perpétua

ignominia. E os remordimentos estampados nas faces dos culpados, e o

clamor que se alevanta do sangue ou do fundo do sanctuario, e a letra da

lei, os gritos do povo, tudo nos incita a pronunciar o voto fatal; o

coração deve estar seguro, a mão firme, os olhos enxutos. Porém não!

Embora tudo ao redor de nós vozeie morte! Embora a indignação, a lei, a

vingança a aconselhe; a confissão do criminoso a admitta; a alma recua

espavorida, e a consciencia nos grita mais alto e nos diz: olha que vais

ser um assassino. O juiz, habituado a subjugar a voz da consciencia, a

vêr na lei a razão suprema, usado ao tracto e aspecto hediondo da culpa,

familiarisado com a imagem do patíbulo escreverá, sem tremer, a sentença

da condemnação. Mas, ao dá-la, a penna cairá das mãos daquelle que pela

primeira vez se assentar na cadeira do magistrado, para exercer o mais

terrivel dos seus deveres, o assignar uma sentença de morte.

No campo de batalha terminam-se muitas vezes mais existencias em um só

dia, do que nos cadafalsos em um século. O soldado cuberto de sangue dos

inimigos, dorme tranquillo juncto dos seus cadáveres, seja veterano ou

bisonho: porque não seriam, pois, tranquillas as nossas noites depois de

condemnar um criminoso ao último supplício, embora fosse pela primeira

vez da nossa vida, que déssemos trabalho de sangue ás mãos maldictas do

algoz?

Aproveitai todas as subtilezas da ideologia para dar a razão destas

differenças. Debalde as aproveitareis, se não quiserdes confessar que ao

juiz clama a consciencia que o acto por elle praticado foi um absurdo

cruel, em quanto diz ao soldado, que, levado ao combate ou pela salvação

da patria ou por força irresistivel de tyrannos, a defesa da propria

vida lhe deu o direito de pôr termo á do contrário.

Os defensores da pena de morte ainda teem uma última cêrca donde

procuram repellir os tiros dos que os accomettem. Lá os iremos buscar.

Dizem que a faculdade que tem a sociedade de impor a pena última é o

direito da defesa natural transmittida pelo indivíduo á república.

Parece-nos isto fugir de um absurdo para outro. Essa transmissão acaba,

esse direito cessa, logo que o indivíduo cessa de existir: o morto

precisa acaso de defesa natural? Por outra: o indivíduo assassinado,

enterrado e talvez já corrupto, quando o seu matador é condemnado, ainda

é salvo da morte com a condemnação deste?--Onde está, pois, o direito da

propria defesa; onde está a legitimação do supplício?

Se as considerações abstractas estão contra a pena de morte, vejamos se

a necessidade, a inexoravel necessidade, que é a suprema lei das nações,

bem como dos individuos, nos obriga a conservar nos códigos esta punição

atroz. Para outro artigo guardamos a investigação deste ponto

importantissimo.

II

Considerámos já em si a pena de morte: vimos que nenhuma sancção tinha

nos principios constitutivos da sociedade; antes era, em respeito a

elles, um absurdo contradictorio. Falta examinar a questão pelo lado da

necessidade: vêr, se como quer De Maistre, todo o poder, grandeza e

subordinação repousam no algoz; e se a espada da justiça deve estar

sempre desembaínhada para ameaçar e ferir de morte. Tirai, diz aquelle

fautor e apologista do despotismo, tirai do mundo o carrasco, esse

agente incomprehensivel, e no mesmo instante a ordem se trocará em

cháos, os ermos soverter-se-hão, a sociedade desapparecerá.

É esta a linguagem de um dos mais habeis propugnadores do absolutismo na

Europa. Foi este o resultado rigorosamente logico que elle deduziu dos

seus principios politicos. Qual será a deducção de principios

contrarios, de principios liberaes? Parece que a opposta. E com effeito

foi a que delles deduzimos no antecedente artigo: vejamos agora qual a

necessidade e a utilidade social da pena de morte.

E um facto ahi está--um facto perenne e innegavel--a historia criminal

dos povos modernos, comparada com a frequencia dos supplicios. Não

falaremos de épochas de convulsões politicas; porque a exaltação das

paixões converte então o homem em anjo de heroismo e resignação, ou em

demonio de barbaria e vileza: mas consideremos os tempos ordinarios de

cada sociedade, seja qual fôr a sua fórma politica de existir; vejamos

se o cadafalso serve, em verdade, para reprimir crimes, porque, na falta

de outros meios para alcançar aquelle fim, elle seria uma necessidade

pública.

Como não é possível chamar a juizo a historia de todas as nações da

Europa, até porque escaceiam os apontamentos estatisticos desta especie

na maior parte dellas, olhemos só para a França e Inglaterra.

Na França é indubitavel que ha uma repugnancia visivel á comminação da

pena de morte: a guilhotina, tão rica de victimas durante a revolução,

quasi que se vê hoje abandonada; e se muitas vezes a brandura e a

philosophia faltam nas leis, estão no caràcter do povo, e na consciencia

dos juizes.

A Inglaterra foi no século XVIII, e ainda nos segundos dez annos do

reinado de Jorge III, o país classico da fôrca, e a pena capital,

segundo Mr. Phillips, dava a Londres umas parecenças de açougue; hoje a

Inglaterra está longe desta crueldade, mas ainda excede muito a França

no numero das execuções annuaes.

Em França, segundo um relatorio do ministro da justiça, de 1829, vê-se

que num anno, de 4475 criminosos julgados, tinham sido condemnados á

morte só 89. No anno de 1833 aquelle país, tendo crescido em população

tinha diminuido em criminosos, pois só houve 4418, dos quaes apenas 74

foram condemnados á pena última.

Todos sabem que a população da Inglaterra é bastante inferior á da

França. A somma dos criminosos convencidos na Grã-Bretanha era de pouco

mais de 10:000 em 1829, sendo destes condemnados á pena última 1:311. Em

1832 houve 14:947 sentenças; não sabemos quantas de morte: mas basta-nos

saber que a pena última imposta á nona parte dos criminosos em

Inglaterra, em 1829, sendo em França, no mesmo anno, imposta á

quinquagesima parte delles, não embaraçou que naquelle país a

criminalidade fosse em progresso, emquanto neste foi em diminuição.

Que prova isto? Que o supplício nada influe nas acções dos homens: que

se devem buscar as causas que os levam a perpetrar delictos, para as

remover, emvez de erguer cadafalsos, que destroem o criminoso, mas não

impediram que elle o fosse. Um homem honrado ultrajado, não dista um

passo de ser um assassino: não espereis que elle o seja, para depois o

enforcardes: dai-lhe leis que tomem a seu cargo desaffrontá-lo. Um

desgraçado, rodeado de filhos, sem ter um bocado de pão que lhes dê, vai

converter-se num salteador da via pública; não espereis que elle o seja

para depois o enforcardes: abri ao povo o caminho de ganhar a vida na

lavoura, no commercio ou na industria, e os salteadores desapparecerão.

Uma creança de tenra idade mostra índole perversa, annuncia para a idade

viril um malvado: moderai-lhe e torcei-lhe essa índole na infancia,

creando uma educação pública, que não existe; não espereis que ella seja

homem e criminoso, para depois a enforcades: guiai bem a mocidade e os

crimes rarearão.

Virá alguem com dizer que no estado actual da sociedade, existindo essas

causas de crimes que apontámos, não é possivel apagar dos códigos

criminaes as leis escriptas com sangue? Pôr esta objecção será daqui a

cincoenta annos uma vergonha: ha tambem cincoenta annos que se julgava

impossivel sustentar colonias sem o tráfico dos negros: quem, sem córar,

se atreverá a dizê-lo hoje? Ainda ha pouquissimos séculos, os tractos e

as fogueiras eram no entender de muitos politicos instrumentos

necessarios da existencia social. No tempo dos hebreus era considerado o

exterminio de raças inteiras como outro elemento da sociedade. Se

conhecessemos a historia primitiva do género-humano, talvez lá

achássemos ainda mais horriveis necessidades sociaes.

Felizmente o progresso intellectual e moral não pára: a última

preocupação das épochas de barbaridade passará: a palavra algoz chegará

a ser um archaismo: e os cadafalsos apodrecidos e roídos dos vermes

serão algum dia, um monumento dos delirios e erros do passado.

A IMPRENSA

1838

A IMPRENSA

Se a arte do escrever foi o mais admiravel invento do homem, o mais

poderoso e fecundo foi certamente a imprensa. Não é ella mesma uma

força, mas uma insensivel mola do mundo moral, inlellectual e physico,

cujos registos motores estão em toda a parte e ao alcance de todas as

mãos, ainda que mão nenhuma, embora o presuma, baste só por si para a

fazer jogar. Imaginavam os antigos uma urna de destinos, a que os tempos

e os homens corriam sujeitos: é a imprensa a urna dos destinos

trasladada para a terra; potencia maravilhosa, formando as opiniões sem

ter uma opinião, creando as vontades sem ter uma vontade, condensando ou

dissipando forças sem ter força, arrastando aquelles mesmos que julgam

dirigi-la, paralisando e quebrando o braço sacrílego que se lhe atreve,

medrando com a prosperidade, medrando ainda mais com a perseguição; sol

novo que o homem accendeu e não poderia apagar, sol que alumia ou

aquece, deslumbra ou abrasa, desinvolve flores e fructos, venenos e

serpentes! É a imprensa o maior facto da sociedade moderna, o que marcou

a maior épocha da historia universal, fazendo surgir a revolução mãe, a

revolução das revoluções, a revolução por excellencia. Se a civilisação

progride com tanta rapidez, a este seu invento o deve, que se tornou o

seu carro triumphal, que movido por vapor ou por electricidade,

arremette com todos os caminhos ferrados ou pedregosos, devora com igual

facilidade os plainos e os alcantis, passa por cima de todos os

obstaculos e inimigos, e lá vai para o horizonte incógnito que Deus lhe

tem apontado.

Quantos milhares de cabeças na hora em que isto escrevemos se estão em

toda a superficie do globo repassando da palavra imprensa! Em quantos

infantes ou adolescentes se está formando o homem futuro, e quanta

virilidade apparelhando para grandes cousas! Quantos centenares e

milhares de pennas estão neste momento lançando para dentro deste vaso,

sempre em fervura, os mistos mais estranhos; a verdade, o sophisma, a

mentira; a impiedade ou a fé, o fel da calumnia ou o incenso da lisonja,

a caridade ou o ódio, a innocencia ou a corrupção, a honra ou o

desafôro, a animação ou o desalento, as sementes da paz ou as da guerra!

Quando se imagina esta immensa e afogueada lida do incansavel e

contradictorio espirito humano, cuida-se estar vendo aquella temerosa

magica Medéa, como no-la pinta Ovidio, cozinhando todo o genero de

drogas, para apurar o líquido milagroso que havia de restituir a

mocidade a um velho decrépito. O pau secco de oliveira com que ella

mexia o misto em cachão, reverdeceu, brotou folhas e azeitonas, nos diz

o poeta; a terra, embebendo as espumas que do vaso transbordavam, relvou

e floriu, e o caduco Eson, injectado que lhe foi o remédio, reappareceu

menino, fresco e viçoso. Sim, por arte tal concertou Deus o mundo, que

houvessem os bens de nascer da mistura de bens e males, para que nada

houvesse que fosse estreme e absoluto mal, e nada tambem que fosse o bem

perfeito antes da outra vida.

Ao som de bençãos e maldicções vai portanto a imprensa preparando e

operando a metamorphose e renovação do orbe. A bons fins a guie Deus,

que só Deus já agora lhe é superior.

A liberdade de imprensa é um dogma, o primeiro da religião politica

moderna, e para muitos até um axioma de philosophia: uma potencia

essencialmente superior a todas forçosamente é livre. Fique portanto

dogma e axioma, porém entenda-se qual é o sentido que neste caso cabe á

palavra liberdade. Nisto variam os auctores. Em geral os mais sisudos e

moraes circumscrevem-lhe os limites onde a nossa natureza marcou os do

justo; outros menos generosos e mais interesseiros, estendem-na até aos

confins do util, palavra eternamente vaga pelo perpétuo conflicto das

utilidades maiores com as menores, das maiores ou das menores entre si,

das da humanidade com as da patria, das da patria com as da cidade, das

da cidade com as da familia, das da familia com as do sujeito, das

utilidades dos contemporaneos com as dos vindouros, das materiaes com as

espirituaes, das politicas com as religiosas: outros em fim não lhe

querem raias algumas, e esses são os homens das theorias, que ainda nem

sequer sondaram o vestíbulo da eschola do mundo real; são corações

magnanimos que vêem o mundo de formosas côres, porque o olham pelo seu

prisma interior, ou corações perversos, a quem não importa o sacrificio

das famas porque não teem um nome, nem o dos bens porque não teem que

perder, nem o da paz porque só após a guerra vem o saque, nem o da

verdade porque não a conhecem, nem o da virtude porque nunca lhe

saborearam as delícias. A opinião desses é monstruosa porque é extrema e

não menos absurda que a da abolição da imprensa, que é o outro extremo

opposto. Não imprimir nada ou imprimir tudo, são em muitos sentidos uma

só e a mesma cousa: mas não falamos aqui senão em relação á moral e á

politica.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 08 · 第 1 / 14 段