Succederam-se com regularidade estes serões do voltarete. Fomos
procuradas pelas notabilidades dos arredores, recebemos e pagamos
visitas, mas o congresso da primeira noite foi que se estabeleceu na
nossa sala de um modo definitivo.
De todas essas pessoas a que me inspirava sympathia verdadeira era o
Theodoro Leite, o despresado, o tolerado apenas. Gostava de contemplar
aquella meiga physionomia de velho timida como a de uma creança.
Sentada com o meu bordado, olhava de relance para elle, e via-o muitas
vezes distraido das preoccupações banaes do jogo, com os olhos como
que fitos n’um mundo para nós invisivel. Se uma imprecação do padre
prior o avisava de que havia commettido alguma falta ao voltarete,
Theodoro estremecia, e o seu rosto de novo tomava a expressão de timida
deferencia, que habitualmente o caracterisava. Mas na sua triste
fronte via eu distinctamente o reflexo dos orbes luminosos, em cuja
contemplação se embevecera.
A sua vida era um poema de sacrificios e de infortunios. Entrara na
sociedade com uma instrucção litteraria desenvolvidissima, e por
conseguinte inutil em Portugal... e em toda a parte, parece-me. Quizera
continuar a estudar, haviam-lhe faltado os meios; quizera ensinar o que
já sabia, e por essa forma grangear alguns recursos, vira-se repellido
de toda a parte, porque o seu caracter recto e firme não lhe permittia
que falsificasse a historia, e que deixasse de estampar na fronte da
facção clerical o estygma que ella merece. Por amor da verdade, e não
por paixão partidaria, quiz luctar com a serpente, cujas roscas geladas
tentam de novo cingir e abafar o mundo, e a serpente ergueu-se contra
elle e suffocou-o. Vencido e exhausto, já de cabellos brancos, tomou o
seu bordão de peregrino, e voltou para Bellas, sua terra natal, d’onde
partira, rico de esperanças, de mocidade e de enthusiasmo; onde entrava
opulento de cãs, de desgostos e de fadigas... pobre de tudo o mais.
Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada, que lhe pedia pão.
O austero apostolo da verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade
e o pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou isso mesmo,
que era só o que lhe restava, ao bem estar de sua irmã.--Elle, o firme
combatente, o luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante os
implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras do sitio eram
protectoras de uma escola de creanças pobres, fundada na aldeia de ***;
Theodoro Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se
em lhe fazer sentir bem a humilhação, a que a desgraça o obrigara; e
afinal, movida pela _caridade christã_, concedeu-lhe o que elle pedia.
A verdade era que estavam em grandes embaraços, porque não encontravam
um unico professor capaz, que se quizesse sujeitar a receber o ordenado
fabulosamente exiguo, que a sua economica beneficencia se prestava
generosamente a conceder.
Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo só fallava
desafogadamente. Nas rapidas palestras, que tinhamos tido, pude
reconhecer a sua vasta erudição, e a bondade quasi angelica do seu
caracter.
Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume: Theodoro, a baroneza,
e o prior no seu eterno voltarete, eu e os outros junto do canapé. A
palestra versara sobre os infortunios do papa. Subito a condessa tira
da algibeira um papel, e diz:
--Lembrou-me abrir aqui uma subscripção para o dinheiro de S. Pedro.
Estou que ninguem recusará tomar parte n’uma obra tão meritoria.
Reservei para a senhora D. Margarida a honra de abrir a lista dos
subscriptores.
Todos os olhos se voltaram para mim, com curiosidade. Theodoro Leite
desviou a attenção do jogo, e mirou-me anciosamente.
Foi no meio de um profundo silencio que eu respondi:
--Aprecio infinitamente a honra que v. ex.ª me faz; é mais uma prova
da sua benevolencia e da sua amizade. Comtudo permitta-me a senhora
condessa que lhe faça algumas observações. Se eu fosse nimiamente
rica, não teria duvida em dar ao Summo Pontifice essa prova do meu
respeito; mas, não tendo riqueza tanta que me permitta esbanjar assim
os meus rendimentos, prefiro poisar na mão do pobre a esmola destinada
ao erario pontifical. Estou que será por essa forma duplamente
agradavel a Deus e ao vigario de Christo. Esse pouco de oiro, que se
sumiria, parcella minima, no golphão do luxuoso Vaticano, pode só por
si fazer brotar a alegria na misera choupana. Portanto, se v. ex.ª m’o
permitte, darei a minha quota aos pobres; bem sabe que é o mesmo que
emprestal-a a Deus.
--Muito bem, muito bem! exclamou Theodoro Leite irreflectidamente.
O pobre homem, deixando-se levar do primeiro impeto, de tudo se
esquecera; mas logo caiu em si, e fez-se pallido como um defuncto.
A condessa aproveitou o ensejo para desabafar, e fulminou Theodoro com
o peso da sua indignação.
--Muito bem, o que? exclamou ella. A senhora D. Margarida, tendo
aquellas idéas, só prejudica a salvação da sua alma, porém o senhor
Theodoro é responsavel para comigo das almas dos meus orphãosinhos.
Como quer que eu conserve na minha escola um homem que tão abertamente
professa doutrinas impias e sacrilegas?
Eu voltara ao meu bordado, e olhava ás furtadellas para o pobre
Theodoro que por minha causa padecia.
A desgraça abatera completamente a alma varonil. Creio que de relance
viu a imagem de sua pobre irmã supplicando-lhe que a não abandonasse,
e as gottas de um suor de agonia aljofraram-lhe a fronte. Então
respondeu n’um tom aflicto, que me faria rir immenso, se aquelle mesmo
ridiculo não fosse tanto para commover.
--Mas, minha senhora... eu não applaudo as idéas... foi apenas a...
a... a disposição grammatical do discurso da senhora D. Margarida.
Perfeitamente bem construido... a regencia irreprehensivel... a
syntaxe...
--A syntaxe o que? interrompeu a condessa lentamente, esmagando-o com o
seu olhar ferino.
O pobre Theodoro estava cada vez mais pallido; era o naufrago, que vê
fugir-lhe das mãos a derradeira taboa, e que ouve o rugido feroz das
ondas, parecendo motejar do seu infortunio.
--Dizia eu, minha senhora, que o estylo era muito acceitavel: mas... (e
Theodoro lançou-me um olhar em que implorava a minha indulgencia), mas
só o estylo; as idéas regeito-as.
--Ah! o estylo! continuava a condessa, implacavel.
Eu sentia o rubor da indignação na fronte. Era infame aquelle
zombetear, aquelle brincar do tigre com a victima.
A condessa curvou-se então para o lado de Theodoro, e disse-lhe algumas
palavras em voz baixa. Suspeito que o demittira do seu logar de
professor, porque vi duas lagrimas brilharem nos olhos melancholicos do
pobre velho.
O que veria elle n’esse tremendo lance? Que sinistras visões lhe
povoariam a mente? O edificio da sua velhice, a tanto custo construido,
e derrubado n’um instante, o pão de sua irmã com tantas lagrimas
amassado, faltando-lhe de subito! O velho pendeu a cabeça, relanceou um
triste olhar para todos os lados, e suspirou. Comtudo ainda não havia
terminado a tortura; não estava acabada a partida, e interrompel-a
seria conciliar para sempre a adimadversão de todos. Theodoro
resignou-se, sentou-se outra vez na cadeira, d’onde se levantara, e
continuou a jogar.
«Outro martyrio, disse eu comigo, que não tem o prestigio da poesia, e
que ninguem se lembraria de lastimar.»
Comtudo reinava um certo constrangimento na sala, e tornava-se
impossivel prolongar muito o serão. Antes que saissem as visitas,
entendi que devia, ainda que não fosse senão por descargo de
consciencia, tentar alguma coisa a favor de Theodoro Leite. Baldada
tentativa! A condessa respondeu-me com hypocrita doçura, mas com
inabalavel firmeza. Tambem a advogada era mal escolhida. A devota
senhora, que já pouco sympatisava comigo, ficou sendo desde essa noite
minha inimiga declarada. Declarava-se o _triumfeminato_ adverso: a
condessa, D. Antonia, D. Carolina.
Ao despedirem-se, vi Theodoro Leite principiar a fazer manobras, cujo
fim não podia adivinhar, approximava-se lentamente da janella, mirava a
a paisagem nocturna, depois encaminhava-se para a mesa, junto da qual
eu estava.
Afinal, quando viu todos distraidos, travou-me subito da mão, e
apertou-m’a com viveza e enthusiasmo.
E, dada esta prova de coragem, saiu quasi a correr.