XII

Succederam-se com regularidade estes serões do voltarete. Fomos

procuradas pelas notabilidades dos arredores, recebemos e pagamos

visitas, mas o congresso da primeira noite foi que se estabeleceu na

nossa sala de um modo definitivo.

De todas essas pessoas a que me inspirava sympathia verdadeira era o

Theodoro Leite, o despresado, o tolerado apenas. Gostava de contemplar

aquella meiga physionomia de velho timida como a de uma creança.

Sentada com o meu bordado, olhava de relance para elle, e via-o muitas

vezes distraido das preoccupações banaes do jogo, com os olhos como

que fitos n’um mundo para nós invisivel. Se uma imprecação do padre

prior o avisava de que havia commettido alguma falta ao voltarete,

Theodoro estremecia, e o seu rosto de novo tomava a expressão de timida

deferencia, que habitualmente o caracterisava. Mas na sua triste

fronte via eu distinctamente o reflexo dos orbes luminosos, em cuja

contemplação se embevecera.

A sua vida era um poema de sacrificios e de infortunios. Entrara na

sociedade com uma instrucção litteraria desenvolvidissima, e por

conseguinte inutil em Portugal... e em toda a parte, parece-me. Quizera

continuar a estudar, haviam-lhe faltado os meios; quizera ensinar o que

já sabia, e por essa forma grangear alguns recursos, vira-se repellido

de toda a parte, porque o seu caracter recto e firme não lhe permittia

que falsificasse a historia, e que deixasse de estampar na fronte da

facção clerical o estygma que ella merece. Por amor da verdade, e não

por paixão partidaria, quiz luctar com a serpente, cujas roscas geladas

tentam de novo cingir e abafar o mundo, e a serpente ergueu-se contra

elle e suffocou-o. Vencido e exhausto, já de cabellos brancos, tomou o

seu bordão de peregrino, e voltou para Bellas, sua terra natal, d’onde

partira, rico de esperanças, de mocidade e de enthusiasmo; onde entrava

opulento de cãs, de desgostos e de fadigas... pobre de tudo o mais.

Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada, que lhe pedia pão.

O austero apostolo da verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade

e o pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou isso mesmo,

que era só o que lhe restava, ao bem estar de sua irmã.--Elle, o firme

combatente, o luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante os

implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras do sitio eram

protectoras de uma escola de creanças pobres, fundada na aldeia de ***;

Theodoro Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se

em lhe fazer sentir bem a humilhação, a que a desgraça o obrigara; e

afinal, movida pela _caridade christã_, concedeu-lhe o que elle pedia.

A verdade era que estavam em grandes embaraços, porque não encontravam

um unico professor capaz, que se quizesse sujeitar a receber o ordenado

fabulosamente exiguo, que a sua economica beneficencia se prestava

generosamente a conceder.

Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo só fallava

desafogadamente. Nas rapidas palestras, que tinhamos tido, pude

reconhecer a sua vasta erudição, e a bondade quasi angelica do seu

caracter.

Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume: Theodoro, a baroneza,

e o prior no seu eterno voltarete, eu e os outros junto do canapé. A

palestra versara sobre os infortunios do papa. Subito a condessa tira

da algibeira um papel, e diz:

--Lembrou-me abrir aqui uma subscripção para o dinheiro de S. Pedro.

Estou que ninguem recusará tomar parte n’uma obra tão meritoria.

Reservei para a senhora D. Margarida a honra de abrir a lista dos

subscriptores.

Todos os olhos se voltaram para mim, com curiosidade. Theodoro Leite

desviou a attenção do jogo, e mirou-me anciosamente.

Foi no meio de um profundo silencio que eu respondi:

--Aprecio infinitamente a honra que v. ex.ª me faz; é mais uma prova

da sua benevolencia e da sua amizade. Comtudo permitta-me a senhora

condessa que lhe faça algumas observações. Se eu fosse nimiamente

rica, não teria duvida em dar ao Summo Pontifice essa prova do meu

respeito; mas, não tendo riqueza tanta que me permitta esbanjar assim

os meus rendimentos, prefiro poisar na mão do pobre a esmola destinada

ao erario pontifical. Estou que será por essa forma duplamente

agradavel a Deus e ao vigario de Christo. Esse pouco de oiro, que se

sumiria, parcella minima, no golphão do luxuoso Vaticano, pode só por

si fazer brotar a alegria na misera choupana. Portanto, se v. ex.ª m’o

permitte, darei a minha quota aos pobres; bem sabe que é o mesmo que

emprestal-a a Deus.

--Muito bem, muito bem! exclamou Theodoro Leite irreflectidamente.

O pobre homem, deixando-se levar do primeiro impeto, de tudo se

esquecera; mas logo caiu em si, e fez-se pallido como um defuncto.

A condessa aproveitou o ensejo para desabafar, e fulminou Theodoro com

o peso da sua indignação.

--Muito bem, o que? exclamou ella. A senhora D. Margarida, tendo

aquellas idéas, só prejudica a salvação da sua alma, porém o senhor

Theodoro é responsavel para comigo das almas dos meus orphãosinhos.

Como quer que eu conserve na minha escola um homem que tão abertamente

professa doutrinas impias e sacrilegas?

Eu voltara ao meu bordado, e olhava ás furtadellas para o pobre

Theodoro que por minha causa padecia.

A desgraça abatera completamente a alma varonil. Creio que de relance

viu a imagem de sua pobre irmã supplicando-lhe que a não abandonasse,

e as gottas de um suor de agonia aljofraram-lhe a fronte. Então

respondeu n’um tom aflicto, que me faria rir immenso, se aquelle mesmo

ridiculo não fosse tanto para commover.

--Mas, minha senhora... eu não applaudo as idéas... foi apenas a...

a... a disposição grammatical do discurso da senhora D. Margarida.

Perfeitamente bem construido... a regencia irreprehensivel... a

syntaxe...

--A syntaxe o que? interrompeu a condessa lentamente, esmagando-o com o

seu olhar ferino.

O pobre Theodoro estava cada vez mais pallido; era o naufrago, que vê

fugir-lhe das mãos a derradeira taboa, e que ouve o rugido feroz das

ondas, parecendo motejar do seu infortunio.

--Dizia eu, minha senhora, que o estylo era muito acceitavel: mas... (e

Theodoro lançou-me um olhar em que implorava a minha indulgencia), mas

só o estylo; as idéas regeito-as.

--Ah! o estylo! continuava a condessa, implacavel.

Eu sentia o rubor da indignação na fronte. Era infame aquelle

zombetear, aquelle brincar do tigre com a victima.

A condessa curvou-se então para o lado de Theodoro, e disse-lhe algumas

palavras em voz baixa. Suspeito que o demittira do seu logar de

professor, porque vi duas lagrimas brilharem nos olhos melancholicos do

pobre velho.

O que veria elle n’esse tremendo lance? Que sinistras visões lhe

povoariam a mente? O edificio da sua velhice, a tanto custo construido,

e derrubado n’um instante, o pão de sua irmã com tantas lagrimas

amassado, faltando-lhe de subito! O velho pendeu a cabeça, relanceou um

triste olhar para todos os lados, e suspirou. Comtudo ainda não havia

terminado a tortura; não estava acabada a partida, e interrompel-a

seria conciliar para sempre a adimadversão de todos. Theodoro

resignou-se, sentou-se outra vez na cadeira, d’onde se levantara, e

continuou a jogar.

«Outro martyrio, disse eu comigo, que não tem o prestigio da poesia, e

que ninguem se lembraria de lastimar.»

Comtudo reinava um certo constrangimento na sala, e tornava-se

impossivel prolongar muito o serão. Antes que saissem as visitas,

entendi que devia, ainda que não fosse senão por descargo de

consciencia, tentar alguma coisa a favor de Theodoro Leite. Baldada

tentativa! A condessa respondeu-me com hypocrita doçura, mas com

inabalavel firmeza. Tambem a advogada era mal escolhida. A devota

senhora, que já pouco sympatisava comigo, ficou sendo desde essa noite

minha inimiga declarada. Declarava-se o _triumfeminato_ adverso: a

condessa, D. Antonia, D. Carolina.

Ao despedirem-se, vi Theodoro Leite principiar a fazer manobras, cujo

fim não podia adivinhar, approximava-se lentamente da janella, mirava a

a paisagem nocturna, depois encaminhava-se para a mesa, junto da qual

eu estava.

Afinal, quando viu todos distraidos, travou-me subito da mão, e

apertou-m’a com viveza e enthusiasmo.

E, dada esta prova de coragem, saiu quasi a correr.

A flor secca: romance · 第 33 / 55 题