XI

Entrava já o sol claro e alegre pela janella aberta, quando despertei.

Esfreguei os olhos, ainda estonteada, e, levantando-me na cama, dei com

a Maria do Rosario, que andava limpando o pó.

--Que horas são? perguntei eu.

--Então como passou a noite, senhora D. Margarida? Ai! cala-te, boca,

não queiras tirar a Deus Nosso Senhor o que a Deus é devido; deixa a

tua ama rezar primeiro as suas orações, e não queiras desvial-a do

caminho da salvação, tentando-a a fallar em coisas d’este mundo. Reze,

reze, senhora D. Margarida.

--Ó mulher, eu perguntei-lhe que horas eram.

--Ai! credo! Santo nome de Jesus! Virgem benta! Senhora Nossa! Estas

meninas de agora nada respeitam! Não ha senão hereges! A senhora D.

Margarida não queira ir arder para as labaredas do inferno, e dar

triumphos ao inimigo. Santo Deus! Tome o exemplo da Senhora D. Antonia

e da senhora condessa de *** que ha de cá vir esta noite.

--Ó senhora! diga-me que horas são, e vá-se embora.

--Eu já me retiro, minha senhora, que eu não quero perder a minha alma,

tornou ella com voz esganiçada. Graças a Deus, toda a minha vida tenho

feito figas ao demonio. Fui menina e moça, solteira e casada, e sou

agora viuva, e nunca arredei pé do caminho do céo. São nove horas,

minha senhora; soube sempre cumprir os deveres do Santissimo Sacramento

do matrimonio. A senhora D. Antonia já está á sua espera para almoçar.

Cruzes, inimigo; agora que sou velha não me venhas tentar. As bagagens

já chegaram. Ó nossa Senhora do Rosario, minha protectora, livra a tua

fiel serva das unhas de Berzabum. As suas malas estão ao pé da commoda.

E resmungando, e esconjurando, foi-se approximando da porta e deitou a

correr pela escada abaixo.

Eu acordara com optimas disposições, de fórma que a insolencia d’essa

mulher não conseguiu turvar-me o espirito. O ridente sol dos fins de

março inundava o quarto com os seus vividos raios, e enchia-o d’essa

luminosa poeira, que tanto espairece a vista. Saltei para baixo da

cama, vesti-me e abri a janella.

Inebriou-me a bafagem balsamica, que respirei na brisa que doidejava

pelo jardim, e que me saudou com as suas vivificantes emanações. O

jardim era vasto, no gosto do seculo passado, mas inculto. A natureza,

entregue a esta bemaventurada negligencia dos jardineiros, remediara o

risco absurdo do jardim. Os canteiros pautados e regrados escondiam-se

por detraz de espessas moitas de buxo, que viçara á vontade e livre da

tosquiadora thesoura. Os tanques sem agua cobriam-se com esverdeado

musgo, e as estatuas desgraciosas envolviam a sua nudez n’um manto

d’hera, que emendava, com as suas elegantes ondulações, a rigidez das

linhas traçadas na pedra pelo inhabil cinzel do rustico esculptor. A

relva molhada verdejava de um modo deslumbrante, e os passarinhos,

escondidos da ramaria das arvores, cantavam alegremente o hymno da nova

primavera.

Estive alguns instantes contemplando esse delicioso espectaculo, até

que ouvi a campainha, que nos chamava para o almoço. Desci, encontrei

Anna, a creadita d’olhos pretos, que me foi ensinar onde era a casa de

jantar; entrei, e vi D. Antonia magestosamente recostada n’uma cadeira

de braços, em palestra muito animada com Maria do Rosario.

Quando appareci, calou-se; fallei-lhe e sentámo-nos á meza, onde nos

esperava o almoço.

Comtudo, eu via pelo olhar odiento, que D. Antonia me lançava, que se

estava preparando alguma tempestade. Effectivamente, depois de ter

mandado embora a creada, D. Antonia voltou-se para mim, e disse-me,

adoçando hypocritamente a voz:

--Minha sobrinha. É preciso que tenha mais prudencia. Não sei qual

foi a educação que recebeu, mas sei que em casa de seu marido sempre

reinou o temor de Deus, e o respeito pela religião christã. Não seja

para as creadas um objecto d’escandalo, queira cumprir os seus deveres

religiosos. Desculpe-me estas observações, accrescentou ella, mas,

na ausencia de seu marido, compete-me dirigir a sua inexperiencia, e

dar-lhe os conselhos que uma velha sabe dar.

--Agradeço tanta bondade, respondi com alguma ironia; mas rogo-lhe que

não authorise as creadas a intervirem nas minhas acções. Queira pensar

tambem, que apesar de ser nova e inexperiente, sou eu a unica dona da

casa, e que não posso consentir que as pessoas que estão ao meu serviço

me faltem ao respeito que me devem.

E completei este discurso, fazendo uma profunda mesura, e retirando-me.

D. Antonia fez-se fula de raiva, e tão irada ficou, que não pôde

articular uma palavra. Lançou-me um olhar indignado, e só pôde

dizer-me, quando eu já chegava á porta:

--Aviso-a que recebemos hoje a visita das nossas visinhas de campo,

a senhora condessa de *** e a senhora baroneza de ***; note que são

senhoras piedosas e de muitas virtudes. Veja o que faz.

Não lhe respondi e saí do quarto.

N’essa noite, apenas deram sete horas, appareceu logo D. Antonia,

vestida esplendidamente para receber as nossas aristocraticas visitas.

O meu fato singelissimo contrastava com o seu luxo deslumbrante. Por

isso Maria do Rosario não fez senão extasiar-se perante as fitas

vermelhas, e as pulseiras e broches d’oiro da minha mortal inimiga.

Ás oito horas sentiu-se parar á porta um churrião puchado a bois. Era

esse o vehiculo que transportava as duas muito nobres senhoras, nossas

visinhas de campo, que moravam a um quarto de legua de distancia.

D. Antonia correu á porta, e chegou a tempo de receber as fidalgas

visitantes.

Eu fiquei na sala, junto da mesa, folheando distraidamente um livro de

devoção ornado de lindas imagens.

Levantei-me da cadeira e dei dois passos para a porta, quando vi

assomarem a ella os vultos das duas senhoras. Cumprimentei-as então

respeitosamente.

Uma d’ellas era alta, elegante, de physionomia austera e altiva fronte.

Devia de ter sido formosa na sua juventude; mas a sua formosura por

força tivera sempre um caracter inflexivel de orgulho indomavel. A

outra era uma senhora quasi decrepita, em cujas feições meio apagadas

se não podia ler outra expressão, que não fosse a d’esse ascetismo

pavido, proprio dos espiritos acanhados, quando os gelos da edade,

accumulando-se-lhes na fronte, lhes phantasiam, para além do tumulo, já

proximo, as chammas atterradoras do inferno.

A primeira d’estas duas senhoras, que eu soube depois que era a

condessa, cumprimentou-me tambem; e levando a luneta aos olhos,

mirou-me alguns instantes com gélida seriedade. Depois voltou-se para

D. Antonia, e dirigiu-lhe um olhar, que parecia querer dizer: «É esta a

pessoa em quem fallámos?» e D. Antonia respondeu-lhe com um movimento

de cabeça, que significava: É sim, minha senhora, infelizmente.»

A condessa veio então para mim, e disse com voz secca e vibrante:

--Folgo muito de conhecel-a, minha senhora. Sou antiga amiga da familia

de seu marido. Estimarei poder consagrar-lhe o mesmo affecto.

--Se conseguir merecer a affeição de v. ex.ª, respondi inclinando-me,

será isso para mim altissima honra, minha senhora.

A condessa cumprimentou-me de novo, e foi sentar-se no canapé. A

baroneza, que esbrugava um rosario e resmungava umas orações, sentou-se

ao pé da mesa de jogo, embrulhou-se toda em pelles e tapetes, que a

Maria do Rosario lhe trouxe com a maior promptidão, e ficou immovel,

com os olhos fitos no vago, com os labios em continuado movimento. A

luz do candieiro, batendo-lhe em cheio no rosto escaveirado e livido,

fazia-a parecer uma d’essas figuras dos quadros asceticos da escola

hespanhola, que tivesse descido da tela, obrigada por magica evocação.

--É muito bonita sua sobrinha, D. Antonia, disse a condessa. Deus

queira que essa bellesa não seja arma que Satanaz queira empregar

contra a salvação da sua alma.

--Não será, não, minha senhora, se Christo Senhor Nosso ouvir as

orações que todos os dias lhe dirijo fervorosamente. Eu, senhora

condessa, desde que meu sobrinho casou, ainda não tive um só

pensamento, que não fosse para o bem d’esta menina. Assim ella m’o

reconhecesse.

E suspirou.

--Bem sei, bem sei que a D. Antonia tem sido sempre um anjo de

caridade. Ponha os olhos em Deus, filha, e não faça caso das

ingratidões do mundo. N’este seculo de impiedade a nossa cruz é bem

pesada. Tomemos o exemplo do Salvador.

--Amen, concluiu devotamente D. Antonia. Eu bem diligencias faço para

que esta ovelha se me não estramalhe do aprisco, mas é difficil a minha

tarefa. Se eu pudesse ter o auxilio de v. ex.ª...

--Ai! filha! tambem tenho de cumprir a minha missão. E juro-lhe que ás

vezes desfallecia, se não tivesse os olhos fitos na recompensa do céo.

--É verdade, é verdade. A senhora condessa entra vestida e calçada no

paraizo. E como vae a sua santa obra?

--Eu não descanço; mas este anno tem provado mal. Debaixo dos meus

auspicios tem-se feito apenas oito casamentos; é verdade que todos

difficeis. Quatro foram de creadas minhas, que andavam de namoro com

uns valdevinos do sitio; mandei-os chamar e obriguei-os a casarem.

Ellas não queriam de fórma alguma. Tinham tomado informações, e sabiam

que os taes rapazes eram uns bebedos, outros jogadores, outros vadios.

«Porque não indagaram isso antes de os namorarem? disse-lhes eu. Ou

fazerem o que lhes digo; ou sairem de minha casa. Não quero escandalos

das minhas portas a dentro. Quem namora deve ter em vista o sacramento

do matrimonio.» Houve uma que teimou, e saíu da casa; mas não

encontrando arrimo em parte alguma, porque todos sabiam que tinha sido

posta fóra por mal comportada. Andou por ahi a morrer de fome, até que

não teve remedio senão fazer o que eu quiz. Mas custou-me.

--Que santa! meu Deus! que santa! bradou D. Antonia em extasi,

levantando para o tecto os olhos e os braços. Pessoas como a senhora

condessa são raras n’este seculo. E a sua prima, a senhora marqueza, o

que é feito d’ella?

--Está em Roma a santinha! Foi beijar o pé a sua santidade! Escreveu-me

de lá. Está louca de contentamento. Já viu tres vezes o vigario de

Christo, e tem conversado com doze cardeaes. Ah! deve ser uma grande

consolação para o padre santo, no meio das amarguras que a impiedade

dos italianos lhe está causando todos os dias, ver que ainda ha fieis

que tem por elle tanto respeito e amor.

Esta edificante palestra foi interrompida por um grito da senhora

baroneza. Levantou-se, como se obedecesse a um impulso de molas, e

bradou com voz sepulchral:

--Arreda-te, inimigo... Cruzes, Satanaz... Não me tentas, não, não me

tentas... Sim, meu doce Jesus, sim, bem vos vejo... Chamais a vossa

serva... Ahi vou, ahi vou... Esperai um instante, meu salvador... Não

desvieis a vossa face... Foge, Belzebuth, Asmodeu, Astaroth e Moloch...

Ai! que eu já vejo o inferno... Senhor Jesus, acudi-me!

--Rezemos, rezemos, exclamou a condessa, caindo de joelhos; são visões

que assaltam aquelle espirito bem-aventurado. É preciso que estejamos

em oração, para que aquella santa vença o inimigo que a tenta.

D. Antonia caíu de joelhos, e a Maria do Rosario, que apparecera á

porta, fez o mesmo, dando grandes murros no peito.

Eu olhava estupefacta para aquella scena burlesca.

Não querendo fazer-me reparada, affastei-me um pouco, e simulei que

ajoelhava.

Afinal a baroneza caiu prostrada no canapé. Viera-lhe a espuma

aos cantos da boca, como succedia ás pythonisas pagãs. A condessa

levantou-se e disse a D. Antonia:

--Mande-lhe dar um caldo, que é sempre o que ella toma, depois d’estes

extasis.

--Um caldo para a senhora baroneza, exclamou D. Antonia, voltando-se

para Maria do Rosario.

E a Maria do Rosario repetiu, correndo pela escada abaixo:

--Um caldo para a senhora baroneza, que tem _bisões_.

D’ahi a pouco voltava trazendo uma chavena de caldo, e dirigia-se á

baroneza.

--Beba, minha santinha, disse ella, beba, que lhe ha de fazer bem.

A baroneza levou machinalmente a chavena aos labios, bebeu dois ou tres

golos; mas de repente estacou, perguntando:

--De que é este caldo?

--De gallinha, senhora baroneza, de gallinha. Matou-se hoje a mais

gorda da capoeira.

--De gallinha! repetiu a baroneza.

E deixou cair a chavena em cima dos pés da Maria do Rosario, entornando

o seu contheudo, e escaldando a creada.

--Má raios... principiou esta.

Mas logo atalhou, mastigando em secco:

--Seja pelo divino amor de Deus! um caldinho tão bom, que os anjos o

podiam beber.

--De gallinha! continuava a baroneza, plangentemente, e hoje é

sexta-feira! Vão chamar o senhor padre prior.

--Elle não deve tardar, minha senhora, acudiu D. Antonia, ficou de vir

jogar uma partida de voltarete.

--Ah! sim! o voltarete! repetiu a baroneza extasiada, n’um tom de

ineffavel jubilo.

E julguei que ia ter outra visão a proposito do basto e da espadilha.

Seguiram-se alguns instantes de um silencio, que foi interrompido pelo

tropear de um cavallo na estrada.

--Ahi vem o senhor padre prior, exclamaram a um tempo D. Antonia e a

condessa.

D’ahi a pouco, sentiram-se na escada passos pesados, e logo depois

appareceu á porta um homem alto e reforçado, de bota de montar, e

casaco até ao joelho.

--_Pax Domini!_ exclamou elle ao entrar.

--É Deus quem o envia, senhor padre prior, acudiu a baroneza. Commetti

um grande peccado, meu padre; venha ouvir-me de confissão.

--Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar. Como está a

senhora condessa? Senhora D. Antonia, Deus a tenha em sua guarda. Viva,

minha menina. Guapa moça! accrescentou voltando-se para a condessa, que

se sorriu com agrado.

--Senhor padre prior, acuda-me, bradou a baroneza, que já sinto as

garras de Belzebuth.

--Então que é isso, minha santinha? Então que é isso? disse a final o

padre prior, dirigindo-se para ella, e fazendo tremer a casa a cada

passada que dava. Então que peccado temos?

Sentou-se, e a baroneza, inclinando-se-lhe ao ouvido, disse-lhe a culpa

que lhe pesava na consciencia.

--Hum! hum! resmungou o padre, quando ella acabou. Isso não é nada.

Reze duas corôas a Nossa Senhora, e temos tudo acabado.

Depois, levantando-se e dirigindo-se a D. Antonia, continuou:

--Então esta é que é a mulher de seu sobrinho?

--Sim, senhor, respondeu ella.

O padre fez-me uma festinha na cara, e disse:

--Estimo conhecel-a! Ande lá que o Claudio não a merecia a Deus.

--Então, senhor padre José, acudiu a condessa brandamente, não esteja

affagando a vaidade feminil; bem sabe que é essa a mais terrivel arma

de que o demonio dispõe.

O padre olhou para ella com tão comico espanto, que eu não pude deixar

de desatar a rir.

O sacerdote olhou-me, sorrindo-se com benevolencia, e offereceu-me uma

pitada.

Como eu recusei, foi offerecendo á roda, e depois, mettendo os dedos na

caixa, tirou um monte de rapé que sorveu com delicias.

--Pois aqui onde me vêem, disse elle, por um triz que não parti inda

agora as costellas.

--Como? acudiu logo o terceto, assustado.

--É verdade; é a primeira vez que monto no cavallo, que comprei em

Lisboa. Por isso, como não lhe conhecia as manhas, vinha com cautella,

e foi o que me valeu. Aqui ao pé, o demonio assusta-se com um tronco

de arvore, que o vendaval de hontem á noite partira, e deu-me tamanho

galão que eu ia perdendo os estribos. Ora, se a senhora condessa visse!

Prégo-lhe as esporas na barriga, e obriguei-o a vir n’uma galopada até

aqui á porta; assim é que eu os ensino.

--Graças a Deus, não se magoou?

--Eu! levava-o a breca, se me megoasse.

--É verdade, senhor padre José, tornou a condessa, não tem por lá

medalhinhas da Virgem para dar aqui á D. Antonia?

--Ora, se tenho; é o que por lá falta! Quer algumas? Não faça

cerimonia! E a proposito, não se joga o voltarete?

--Está-se á espera do _senhor_ Theodoro Leite, acudiu a condessa.

Sempre se ha de fazer esperar. Bem mostra que é herege.

--Oh! se é, tornou o padre; está já a arder no inferno, o maldito! Pois

então não me deu hontem dois codilhos em casa do escrivão... É verdade,

a mulher do administrador lá offereceu um manto riquissimo á Senhora

das Dores.

Nos olhos da condessa fuzilou um raio de colera.

--Offereceu?! logo vi. A filha de um dos meus caseiros, que enriqueceu,

sabe Deus como,--quer saber, D. Antonia? não está agora ao desafio

comigo? A que tempo chegámos, meu Deus! Se eu offereço um resplendor ao

menino Jesus, dá ella um manto de seda a Nossa Senhora. Já se viu uma

coisa assim? Eu sempre queria saber aonde ella vae buscar o dinheiro!

--Que desaforo! acudiu D. Antonia indignada, e o senhor padre prior

consente semelhante coisa!

--Então que lhe hei de eu fazer?...

N’este momento abriu-se a porta, e um homem velho, magro, mal

enroupado, mas de meiga e sympathica physionomia, entrou timidamente.

Cumprimentou-nos a todos com acanhamento, e só de mim recebeu uma

cortezia amavel. A condessa tratou-o friamente; a baroneza nem deu

pela sua entrada; D. Antonia cumprimentou-o com seccura, dizendo-lhe:

«Julgavamos que não vinha», e o padre prior acolheu-o com brados de

indignação.

O pobre Theodoro Leite curvou a cabeça, para deixar passar a procella,

e foi, como que arrastado pelo parocho, sentar-se á mesa do voltarete.

Formamo-nos então em dois grupos distinctos: o prior, a baroneza e

Theodoro entregaram-se ás delicias dos codilhos e das licenças,

emquanto eu, D. Antonia e a condessa ficamos no canapé, conversando

e costurando, duas occupações que me desagradavam bastante. Procurei

vencer a minha repugnancia; mas, apezar dos meus esforços, só de quando

em quando soltava uma palavra, e a agulha ociosa descaía muitas vezes

no meu collo, emquanto o meu pensamento voava para muito longe do sitio

onde estavamos.

Ainda não acabara o desfilar das pessoas, que nos honravam n’essa noite

com a sua visita. Seriam nove horas, quando se abriu a porta da sala

para dar entrada a dois novos personagens.

Um homem ainda novo, e uma senhora tambem na flôr da idade foram os

dois actores que entraram em scena. O personagem masculino tinha as

mais visiveis tendencias para uma obesidade precoce, e no seu rosto

cheio, bochechudo, de alvura deslavada, scintillavam dois olhos

pequenos, mas vivos e inquietos, que denunciavam... intelligencia?

intelligencia, de certo; mas uma d’estas intelligencias _praticas_, a

que não escapa uma especulação proveitosa, e para a qual são enigmas

abstrusos as aspirações grandiosas do espirito, e pomo vedado ainda o

fructo da arvore da sciencia.

A senhora, que o acompanhava, não se podia chamar bonita, porque as

suas feições irregulares protestariam contra a denominação; mas os

seus olhos negros e rasgados tinham um scintillar tão malicioso, tão

provocador, que lhe illuminavam a physionomia, e lhe prestavam, senão

belleza, pelo menos uma certa animação, e um indisivel encanto.

Estas duas pessoas foram recebidas de um modo que contrastava bastante

com o acolhimento feito a Theodoro Leite. D’esta vez houve apresentação

em regra. A condessa radiante pediu-me licença para me apresentar a sua

afilhada D. Carolina «que ella, condessa, se presava de ter educado nos

principios da mais severa religião e da mais sã moral» e o marido da

sua afilhada «moço de muito merito e virtudes, que (gloriosa excepção

no meio da mocidade depravada e impia do nosso tempo) era um modelo de

devoção, um exemplar de caridade, e um poço de sapiencia ainda por cima

para coroar esta assombrosa pyramide de predicados.»

--Muito folgarei de as ver amigas, concluiu a condessa, accentuando

cada palavra. Posso dizer sem orgulho, que uma menina da sua idade,

senhora D. Margarida, e da sua educação, permitta-me que accrescente,

lucra muito com o trato intimo de uma senhora de juizo, como é

Carolina, posso affoitamente dizel-o.

A elogiada Carolina achou modo de conciliar um modesto descer de

palpebras, que lhe serviu para agradecer o retumbante panegyrico,

declamado por sua madrinha, com um olhar malicioso, gaiato, com que me

brindou ao trocarmos o beijo e o abraço fraternaes.

Jeronymo Freitas, seu esposo, cumprimentou-me, e logo depois,

sentando-se, encetou com a madrinha de sua mulher uma conversação,

que parecia um fogo de vistas, em que estalavam todos os nomes

aristocraticos do partido devoto, e que tinha a dupla vantagem de

incantar a condessa, e de deslumbrar D. Antonia. Eu não tinha a minima

idéa de uma coisa assim. Aquelle homem era ao mesmo tempo um vulcão,

uma torrente, um moinho, e um _Almanach de Gotha_ em folio, mas um

_Almanach de Gotha_, que uma causa desconhecida puzesse em ebullição,

e que arrojasse á atmosphera, como bolhas d’ar, os nomes de quantos

marquezes, condes, duques, principes, reis e imperadores existem por

esse mundo. «E estive com a senhora condessa de tal, e a senhora

marqueza disse-me isto, e á volta encontrei a senhora baroneza, que

accrescentou aquell’outro, e a senhora duqueza recebeu uma carta

de sua santidade, e o senhor marquez, que é um santo, disse-me: «Ó

caro Freitas, você não sabe...?» e sua eminencia o cardeal sicrano

communicou-me confidencialmente as suas afflicções» e... eu sei, estava

atordoada com aquella volubilidade incessante, inexgotavel, incançavel,

que apenas se interrompia uma ou outra vez para deixar passar uma

trovoada de imprecações com que o padre prior fulminava o pobre

Theodoro Leite, que fizera as _cinco primeiras_, provocando por essa

fórma os raios da excommunhão suspensos havia muito sobre a sua calva

heretica.

D. Antonia estava extasiada, jubilosa como os gaiatos, que andam

apanhando as cannas dos foguetes, em dias de festividade nacional.

Assim ella tambem corria esfalfada atraz da verbosidade do Jeronymo,

para apanhar de relance um nome, que depois de ter estalado nos ares, e

produzido o seu effeito, caía magestosamente, levantal-o, e perguntar

logo: «Pois o senhor Freitas conhece o duque de tal?»

Não posso calcular até que ponto estariam os meus nervos á prova de

semelhante palestra, porque D. Carolina, que olhara por vezes para mim

sorrindo-se, levantou-se, approximou-se da minha cadeira, e disse-me:

--Dá-me licença que dê um giro no jardim, e quer-me conceder a honra da

sua companhia?

--Com todo o gosto, minha senhora, respondi eu, erguendo-me logo, e

acompanhando-a para fóra da sala.

Descemos ao jardim: a noite estava clara e linda como uma verdadeira

noite de primavera; só a brisa, ainda frigida bastante, lembrava a

proximidade do inverno.

Carolina passou-me o braço á roda da cintura, e, dando-me um beijo

affectuoso, disse-me, sorrindo:

--Sabe, minha querida D. Margaridinha, que me estava mettendo compaixão!

--Eu! respondi sorrindo-me tambem; porque?

--Porque vi o tédio que lhe causava aquella conversação hypocrita

e fastidiosa. Pobre creança, não está ainda habituada á estranha

sociedade, no meio da qual o accaso a collocou. Tudo aqui é frivolo,

minha querida, e tudo toma uma apparencia grave e pedante, como um

alfarrabio theologico; tudo é immoral; e tudo toma ares austeros.

Mascara, mascara e mascara; nada mais. Se estou bem informada, um

dos artigos do regulamento dos bailes publicos prohibe as mascaras

religiosas, mas não ha lei alguma, que me conste, que as prohiba na

sociedade, onde existem com abundancia, ha-de-se costumar tambem, minha

filha, ha de fazer o que eu faço, envergar um dominó da confraria, e

rir-se dos outros, por baixo da mascara como elles se riem de nós.

--Nunca, respondi eu com impetuosidade; se a hypocrisia é em todos os

casos um vicio odioso, que proporções não assume quando macula com o

seu bafo pestifero o sentimento mais nobre que existe no coração do

homem, o sentimento da religião!

--Ai! ai! tornou Carolina desatando a rir, d’onde trouxe essas idéas,

minha querida? de que planeta desconhecido? de que paraiso terrestre,

onde esteja ainda intacta a arvore do bem e do mal? Innocencia digna da

edade de ouro! Virtude bucolica, mais propria para habitar na choupana

classica de Philemon e Baucis, do que n’uma quinta dos arredores de

Bellas! Ah! mas diga-me, a D. Antonia afinal calumniou-a?

--Não sei o que D. Antonia diria a meu respeito, respondi eu com certa

reserva; mas tenho as minhas razões para suppôr que não entoou o meu

panegyrico.

--Carolina parou e olhou para mim, franzindo levemente a sobrancelha.

--Ah! não quer ter franqueza comigo! Está-se mostrando estrategica

habil! Esconde-me o jogo; pois olhe, para lhe provar que póde

depositar plena confiança em mim, vou pôr as minhas cartas em cima da

mesa; queimo os navios, e veremos depois se estará disposta a assignar

comigo um tratado de alliança offensiva e defensiva.

--Oh! minha querida senhora D. Carolina, tornei eu rindo, estou prompta

já a assignal-o, e affianço-lhe que é injusta, desconfiando da minha

franqueza. Mas o que deseja que eu lhe diga? Nos mais reconditos

refolhos do meu coração não se esconde um pensamento, que eu não possa

confiar-lhe.

--_Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon cœur!_ tornou Carolina

com seriedade comica, já conheço o estribilho. Como prova das boas

relações em que vamos estar, principiemos largando o tratamento

cerimonioso que temos empregado. Queres, Margarida?

--Com todo o gosto, Carolina.

--Bom! estamos alliadas! E agora diz-me: que idéa fórmas tu de minha

madrinha, e de meu marido?

--Como quer...

--Como quer? repetiu ella, ameaçando-me com um dos dedos levantado.

--Perdão: como queres que eu tenha uma opinião formada sobre duas

pessoas que vi esta noite pela primeira vez?

--Ou estes olhos mysteriosos, de um azul tão profundo como o do céo em

noite de verão, me enganam muito, ou a esta cabecinha gentil nem tanto

tempo é necessario para avaliar uma pessoa. Eu mesma vou apostar em

como já estou julgada e condemnada talvez no teu tribunal intimo.

--Fazes demasiada honra á minha intelligencia, tornei eu rindo,

affirmo-te...

--Nada affirmes; acceitarei as tuas phrases como versiculos do

Evangelho, e passarei desde já a dizer-te, para poupar trabalho á tua

imaginação, qual é o caracter d’esses dois personagens, com quem me

vejo obrigada a estar sempre em scena n’esta comedia da vida.

--Falla!

Sentámo-nos n’um dos bancos do jardim; Carolina alisou com a mão os

cabellos, que a brisa enredara um pouco, e, depois de relancear, com

certa ironia, os negros olhos para a janella da sala, em cujos vidros

illuminados se estampava de vez em quando o vulto quasi dobrado ao meio

de Maria do Rosario, que andava no seu serviço, voltou-se para mim, e

disse:

--Principiemos por minha madrinha. Aquella senhora austera, que

alli vês, que préga moral rispida, e que é inflexivel em pontos de

pundonor, que, se vivesse no tempo de Jesus, e fosse discipula sua,

duas vezes, pelo menos, o renegaria, a primeira quando elle perdoou

á mulher adultera, a segunda quando enxugou com um raio do seu amor

divino as lagrimas de Magdalena, aquella senhora teve uma juventude

tempestuosa. Não julgues por isso que arredou pé nem uma vez só do

caminho da salvação. Habil como aqueles heroes das lendas antigas, que

aproveitavam os serviços do diabo, e que o logravam depois quando

chegava a occasião do pagamento, fixada no pacto infernal, a condessa

começou desde muito nova a fazer os mais proveitosos enxertos de

ramaria profanissima na arvore divina. Encerrada no templo, curvando

o joelho ao altar, e transformando em alcova a sachristia, zombou das

tolas que peccavam em plena rua, e sobre as quaes os seus labios,

ainda frementes de lascivia, arrojavam com impudencia o sacrilego

anathema. Não julgues comtudo que era a condessa uma excepção no meio

da aristocracia feliz, que pôde receber... nas suas salas a brilhante

juventude monastica. Ai! minha filha, as aventuras fradescas não são

puras invenções dos Rabelais populares, que nol-as transmittiram. O

frade representou um grande papel na chronica escandalosa das gerações

que nos precederam. O devoto habito pendurado á porta de um palacio

era escudo contra a maledicencia, e Cupido, como se dizia n’esse

tempo, podia folgar affoitamente resguardado das vistas curiosas pela

cogulla santa. Cythera chamava-se Thebaida, Paphos era Cartuxo, Gnido

um sagrado mosteiro. Ah! se tu soubesses tudo quanto me revelou a

chronica familiar do palacio, a tradição oral da creadagem! É divertido

e instructivo.

Carolina calou-se por um instante, e continuou depois, levantando-se e

ficando em pé defronte de mim:

--Admiras-te provavelmente, como todas nos admiramos, da singular

seducção que a actriz da voga, que a cantora afamada exercem em muitos

homens. Infelizmente, não temos direito de nos admirar. O que a actriz

e a cantora são para elles, foram-n’o os moços prégadores de fama para

as senhoras, que julgariam peccado horrendo entrar no camarote de

um theatro. Oh! quereria poder contar-te o profano ardor com que as

devotas peccadoras corriam a atulhar a egreja do convento no dia em que

subia ao pulpito o Richelieu tonsurado, o monastico Lauzun d’aquella

sociedade licenciosa e beata, quereria poder narrar-te a mystica

voluptuosidade com que muitos olhos fulgurantes se fitavam no rosto

imberbe do homem de Deus. Podia citar-te anecdotas, podia apontar-te

o nome do garrido frade de pé pequeno, que, se fosse como o José da

Biblia, teria de fazer uma despeza enorme em capas; não era. Podia

citar-te os caprichos de alguma senhora, que, rival em extravagancia da

imperatriz Catharina, substituia os granadeiros da amante de Potemkin,

pelos fradalhões mais nojentos dos innumeraveis conventos de Lisboa.

Não cito; dir-te-hei unicamente que a austera condessa foi uma das

heroinas d’esse poema licencioso; e por uma estranha aberração dos

principios de moralidade contempla hoje sem remorso o seu passado

viver, e julga-se com pleno direito de fulminar com o anathema sobre as

peccadoras da actualidade.

Carolina estava n’esse momento realmente bella; os olhos faiscavam-lhe,

palpitavam-lhe convulsos os labios descorados. Eu mirava-a com espanto.

--Aqui tens o que é minha madrinha, continuou a minha interlocutora,

sem me deixar sequer interrompel-a. Meu marido avaliaste-o de certo

pelo que lhe ouviste. Homem sem principios nem crenças, tudo tem

sacrificado ás suas conveniencias e á satisfação da sua balofa

vaidade. Fez-se devoto, quando o meu dote se lhe deparou como facil

conquista para que soubesse conciliar a affeição de minha madrinha,

que era tambem minha tutora desde a morte de meus paes. Seria sceptico

ferino, se a condessa fosse discipula do senhor de Voltaire. Além

d’isso o seu ridiculo amor-proprio satisfazia-se com a idéa de ver

descerrarem-se-lhe as portas das salas aristocraticas, onde campeiava

essa sociedade que outr’ora insultara com vehemencia republicana,

quando a julgara tão longe de si e tão alto como as celebradas uvas

estavam na parreira longe da raposa da fabula. Ahi tens quem é meu

marido.

--Traçaste esses retratos com mão de mestra, mas suspeito que os

fizeste demasiadamente carregados, accudi eu...

--Não, tornou ella, encolhendo os hombros, disse-te a verdade

francamente, porque soubeste captivar-me as sympathias, e desejo ter-te

por amiga. Desejava tambem explicar-te o meu caracter, que tem duas

faces, a que viste na sala, e a que vês aqui; a complacencia hypocrita,

e a revolta aberta. Aprendi com elles a arte da dissimulação, vi

dos bastidores a comedia que elles representavam, ouvi de boccas

indiscretas os mysterios do camarim emquanto o publico applaudia

e coroava as actrizes e os actores. Convenci-me de que tudo era

hypocrisia; e, passado o primeiro momento de repugnancia, entendi que

devia tambem representar o meu papel n’essa immensa farça. Gosar foi a

minha divisa, lograr esses logradores encartados o meu programma. Ahi

tens o que eu sou. Vamos agora ao que importa. Teu marido é um parvo, e

tu és uma linda e intelligente rapariga. Quem é esse Alberto em quem a

D. Antonia falla com tão devota compuncção?

Olhei para ella com assombro.

--Pois já a tia de meu marido, accudi eu, teve tempo de me rodear, de

me enlear com as suas calumnias? Por amor de Deus, senhora D. Carolina,

preste-me justiça maior.

--É essa a recompensa da minha franqueza, redarguiu ella, sentando-se

ao meu lado; e em vez de uma alliada tenho em ti uma inimiga?

Diriges-me assim uma indirecta reprehensão?

--Deus me defenda, tornei eu um tanto constrangida, como hei de

arvorar-me em juiz das acções dos outros? O teu procedimento foi-te

dictado por motivos que eu não tenho... desculpas que eu... não poderia

allegar...

--Não te embaraces mais, tornou ella com certo azedume, só te digo que

fazes mal em ir por esse caminho. És inexperiente, e precisas de quem

te guie na escabrosa estrada da tua rebellião.

--Mas se eu não tento revoltar-me!

--Queres persuadir-me que amas teu marido?

Não respondi.

--E, não o amando, affirmas que não teem o minimo fundamento as

bisbilhotices d’essa tola da D. Antonia?

--Juro-o; acudi eu, levantando-me de um impeto; ainda que o amor não

exista na minha ligação com um homem bom e honrado, basta o sentimento

do dever para me impedir de deshonrar o nome, que voluntaria ainda que

irreflectidamente acceitei. Póde acredital-o.

--Agradeço a lição, tornou Carolina com amarga ironia, e não quero

ficar-lh’a devendo; dar-lhe-hei outra. Saiba pois, pomba innocente que

se julga tão forte, que ha de chegar um momento, em que, perseguida

pela calumnia incessante, abandonada por um esposo indifferente ou

cego, sentindo referver-lhe nas veias o sangue da mocidade, inebriada

pelas tentações que a hão de rodear, se despenhe e macule as azas

brancas n’esse tremedal que despreza. Então ha de lastimar amargamente

o ter repellido a alliança que lhe offereço. Voltemos para a sala.

--Sinto, senhora D. Carolina, tornei eu gravemente, haver-lhe

desagradado. Mas acredite que, se a fatalidade me levar a esse

aviltamento, não sentirei senão o remorso de ter praticado uma acção

indigna.

--Veremos, respondeu ella erguendo-se.

Voltámos para a sala, e pouco depois todas as visitas se retiraram.

A flor secca: romance · 第 32 / 55 题