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RESUMO ELEMENTAR
DE
ARCHEOLOGIA CHRISTÃ
POR
POSSIDONIO DA SILVA
1887
Antigo edificio religioso de Santarem
LISBOA--Museu de Archeologia do Carmo
RESUMO ELEMENTAR
DE
ARCHEOLOGIA CHRISTÃ
POR
_Possidonio da Silva_
MEDALHA CONFERIDA EM 1869
LISBOA
LALLEMANT FRÈRES, IMPRENSA
1887
Á
MEMORIA DE MEU PAE
Reinaldo José da Silva
TESTEMUNHO DE RESPEITO E GRATIDÃO
O Auctor
AO LEITOR
Inaugurando-se agora nos seminarios de algumas dioceses de Portugal
cadeiras para o ensino de archeologia christã, estudo que ha muito era
urgente crear-se no nosso paiz, proponho-me publicar os elementos
principaes d'esta sciencia, afim de facilitar os estudos a quem desejar
possuir esses conhecimentos indispensaveis para curar da conservação dos
objectos do culto e evitar o ignorante modo de se restaurarem os
edificios religiosos dos differentes estylos, que pertencem á nação;
pois já é tempo de não se continuar a praticar nos edificios concertos
mal pensados, que alteram o caracter respectivo da sua architectura, e
causam tambem desdouro ao avaliar-se a nossa civilisação.
Ainda que não façamos um compendio completo, comtudo, talvez possa ser
de algum auxilio para se divulgarem as instrucções principaes d'esta
natureza afim de pôr cobro aos vandalismos que têem destruido tantas
antiguidades e objectos preciosos do culto.
Muito embora não se consiga desde já o proficuo resultado d'este ensino,
todavia ficará registado, no final do seculo XIX, o empenho que
illustres Prelados têem tomado para obstar a serem illudidos os parochos
nas substituições das alfaias, e para se opporem ás defeituosas
restaurações dos monumentos religiosos do nosso paiz. Darei por bem
empregada esta minha modesta publicação, se por ventura conseguir este
empenho patriotico e artistico a que tenho constantemente dedicado a
maior parte da minha existencia.
Possidonio da Silva.
INTRODUCÇÃO[1]
Os monumentos historicos ou simplesmente artisticos são os marcos que
assignalam os passos, mais ou menos firmes, vagarosos ou apressados, que
os povos vão dando no caminho da civilisação. Porém não se pense que,
relativamente a esses padrões, a cultura de uma nação deva ser avaliada
sómente pela significação d'elles, por mais gloriosa que seja, ou por
mais que se aprimorasse n'elles a arte, mas sim tambem pelo apreço e
respeito com que essa nação vela pela sua conservação.
Sobreleva Portugal a todas as nações na alta significação dos seus
monumentos, porque não commemoram unicamente façanhas militares e
virtudes christãs e civicas, communs a outros povos. Não recordam só mil
acções de valor, de coragem e de abnegação, praticadas na defensa da
patria, ou para alargamento das suas fronteiras, ou para honra e lustre
do seu nome. Mas fallam tambem os nossos monumentos d'essas
arrojadissimas emprezas de navegações e descobrimentos, com que os
portuguezes abriram de par em par as portas á moderna civilisação,
levando a luz do evangelho, atravez de mares ignotos, ás mais longinquas
regiões do globo.
Quasi todas essas glorias, que doiram as paginas da nossa historia,
foram memoradas por nossos maiores com a fundação de um templo, acanhado
e singelo, ou grandioso e opulento, segundo o permittiam a rudeza dos
tempos, ou a florescencia da nação, bem como o animo e posses dos
fundadores.
As convulsões do sólo, a pouca illustração dos reedificadores, e
modernamente a sanha brutal dos demolidores, têem destruido ou
desfigurado muitas d'essas auctorisadas testemunhas dos tempos heroicos
de Portugal. Este vandalismo, que nos degrada do gremio das nações
cultas, não está, infelizmente, ainda de todo proscripto d'entre nós. Os
poderes publicos ainda não prestam aos nossos monumentos toda a attenção
e vigilante solicitude que, para a sua conservação, elles demandam, e a
honra e bom nome do paiz com tanta justiça reclamam. E não basta que se
attenda á conservação dos monumentos commemorativos dos grandes factos
historicos, e ao mesmo tempo opulentos d'arte. Merecem o nosso apreço e
cuidados todos os padrões que interessam, de qualquer maneira, aos
annaes da nação e á historia da arte.
Não obstante os differentes elementos de destruição, que tem actuado
entre nós, ainda existem de pé n'este reino não poucas egrejas
anteriores á fundação da monarchia, ou contemporaneas do nosso primeiro
rei, ou construidas sob o sceptro dos seus immediatos successores. São
pequenos e de construcção mesquinha todos esses templos, tendo por
feição principal a mesma simplicidade e pobreza, que distinguiam n'essa
epocha o viver da nação. Todavia, embora o acanhamento das proporções, e
a simplicidade da architectura corram parelhas com a pobreza das
memorias historicas, todas essas egrejas são exemplares de subido valor
para a historia da arte em Portugal, tanto mais quanto é tristemente
certo, que os grandes templos, levantados nos principios da monarchia,
têem sido mascarados e desfigurados, por occasião das reedificações,
como aconteceu ao de Alcobaça, á Sé de Lisboa, e a outros, ou
desappareceram, como o de Santa Cruz de Coimbra e o de S. Vicente de
Fóra, em Lisboa, para em seu logar se edificarem outros mais vastos e
mais sumptuosos.
Pois essas preciosas reliquias de tão remota antiguidade que têem
resistido ao duro embate das tempestades no correr de tantos seculos,
zombando até agora dos cataclysmos da natureza e dos furores do
camartello, acham-se presentemente ameaçadas, pelo menos algumas
d'ellas, de perderem, em reconstrucções dirigidas sem amor da arte, e
sem respeito aos monumentos de remotas éras, as suas primitivas e
venerandas feições.
E ao mesmo passo vão desapparecendo das velhas parochias sertanêjas as
suas antigas alfaias, vendidas por uma bagatella, a titulo de alcançar
meios para reparação do edificio, e os seus vasos sagrados dos seculos
anteriores ao XVIII, de muita belleza e primôr artistico, a troco de
outros de fabrica moderna, mais luzentes e vistosos, porém destituidos
da formosura e elegancia das fórmas, e da delicadeza e perfeição do
trabalho esculptural, que dão fóros universaes de preeminencia á
ourivesaria, principalmente dos seculos XV e XVI.
Os compradores d'objectos d'arte e de industria, antigos, que vem a
Lisboa todos os annos do estrangeiro, sobretudo de França e da
Allemanha, percorrem as nossas provincias em todas as direcções;
apparecem em todas as cidades, nas villas e nas proprias aldeias,
tentando com dinheiro á vista os possuidores d'essas preciosidades, que
não sabem aprecial-as, desconhecendo-lhes o valor.
É mister por honra do paiz, e por exigencia imperiosa dos interesses
publicos, que se trate de pôr algum côbro, quando não possa obstar-se
inteiramente, á assolação ou deformação d'aquelles monumentos da
antiguidade, e a esta continua expropriação das nossas riquezas
artisticas, documentos irrecusaveis do alto grau de florescencia nas
artes, e por conseguinte de civilisação, que Portugal attingiu n'esse
glorioso passado.
Um dos meios inquestionavelmente mais adequado, seria oppôr a essa
torrente devastadora a illustração e o zelo dos parochos, illustração e
zelo provenientes de conhecimentos especiaes para saberem apreciar
aquelles objectos, ricos d'arte e de memorias piedosas, que os estranhos
nos cobiçam, e que os nacionaes malbaratam por ignorancia.
Se os parochos tivessem algumas noções de archeologia religiosa, não
consentiriam, certamente, que as suas egrejas perdessem, com feições
bastardas, o typo primitivo que as ennobrecia, nem haviam de tolerar,
que fossem despojadas, por compra ou troca, dos seus vasos sagrados e
alfaias antigas, que são nos templos verdadeiros brazões da sua nobreza,
e testemunhas authenticas, eloquentes na sua propria mudez, do amor da
religião dos nossos antepassados, que n'elles se casava com o amôr da
patria. E não limitariam esses parochos a sua acção benefica, sem
duvida, a salvaguardar as preciosidades artisticas das suas egrejas; mas
não deixariam tambem, em casos identicos, de dispensarem aos parochianos
os conselhos do seu saber e da sua experiencia.
Foram estas considerações retemperadas pelo affecto que todos devemos á
terra, que nos serviu de berço, e ás Santas Crenças, que recebemos dos
maiores, que moveram a Real Associação dos Architectos e Archeologos a
elevar ao esclarecido juizo dos Prelados Portuguezes o pedido de
instituirem nos seus respectivos seminarios uma cadeira de archeologia
religiosa.
É uma sciencia muito complexa a archeologia, não ha duvida, pois que
cada uma das partes, que a compõem, e que se subdividem, a seu turno, em
outras partes de materia amplissima para o estudo, constitue um ramo
importante dos conhecimentos humanos, que demanda muita applicação para
ser bem sabido.
Porém, no que diz respeito á archeologia religiosa é um estudo muito
limitado, facil e agradavel, e que póde restringir-se, querendo
abrevial-o, estabelecendo o ponto de partida da invasão dos povos
septemtrionaes e destruição do imperio romano; ou dos tempos mais
proximos da fundação da monarchia portugueza. O que é mister é que se dê
nos seminarios aos futuros parochos a instrucção precisa para que
conheçam os differentes estylos architectonicos, empregados nos templos
do christianismo; a epocha da sua introducção em Portugal, e as
modificações, que tiveram aqui, determinadas pelo estado da nossa
civilisação e pelos habitos e costumes da sociedade. É indispensavel,
tambem ministrar-lhes eguaes conhecimentos em relação á ourivesaria
religiosa, e ás mais artes liberaes e mechanicas, que, no correr da éra
christã, têem concorrido com os seus productos para o serviço dos
altares, e para a ornamentação das egrejas.
Os parochos assim instruidos não deixarão de apreciar devidamente, e de
velar com verdadeiro zelo pela conservação dos edificios e dos objectos
concernentes ao culto, venerandos pelas tradições religiosas e pela
consagração dos seculos, e dignos de grande estima pelo seu valor
artistico ou archeologico.
Ignacio de Vilhena Barbosa.
Resumo elementar de archeologia christã
CAPITULO I
Principios da arte christã no Occidente
PRIMEIRO PERIODO
CAPITULO II
/#
*Summario.*--Descripcão das catacumbas de Roma--Principios
artisticos e classificações das pinturas das catacumbas--Symbolos
ou allegorias dos primitivos christãos--Representação de Jesus
Christo e de Nossa Senhora--Imagens dos Santos--Monogramma de
Christo--Lampadas--Sarcophagos christãos--Vasos de
sangue--Monumentos christãos fóra das catacumbas--Edificios
religiosos construidos nos tres primeiros seculos--Cemiterios á
superficie do solo--Alfaias e instrumentos do culto.
#/
Os mais numerosos monumentos christãos que se offerecem para o estudo da
archeologia christã são os cemiterios subterraneos da cidade de Roma. Os
christãos continuaram a escavar nas antigas pedreiras da cidade novas
catacumbas depois do reinado de Constantino, e durante os quatro ou
cinco seculos seguintes, transformaram as catacumbas em logares de
peregrinação. Fizeram-se restaurações e embellezamentos n'estes
sanctuarios até ao fim do seculo VIII.
As catacumbas eram destinadas a tres fins: o primeiro e principal era
servirem de cemiterio aos christãos. Os tumulos ficavam dispostos nas
paredes uns por cima dos outros formando fileiras de tres a doze. Os
corpos eram collocados em nichos oblongos, fechados por tampas de
marmore, ou por tijolos ordinariamente em numero de tres, ajustados
perfeitamente com cal.
N'estas galerias veem terminar em muitos sitios camaras sepulchraes. São
especies de covas funerarias, no fundo das quaes se encontra muitas
vezes, debaixo de uma abobada, um tumulo encerrando os restos mortaes de
algum martyr illustre. Estes tumulos serviam de altar no dia
anniversario do martyr, em que os christãos vinham fazer as suas
orações.
A fórma dos sepulchros era variadissima: ha-os circulares,
semi-circulares, octogonaes, hexagonaes e pentagonaes; comtudo a maior
parte são quadrados.
O segundo fim a que destinavam as catacumbas era servirem de logar de
reunião para ahi celebrar as ceremonias do culto. Foi para fazerem as
suas assembléas religiosas que os primitivos christãos construiram, nos
seus cemiterios subterraneos, oratorios, compostos a maior parte das
vezes de dois ou tres sepulchros contiguos, e que se designam pelo nome
de _basilicas das catacumbas_.
O terceiro fim das catacumbas era tambem servirem de retiro ao
Pontifice, ao clero e aos fieis no tempo da perseguição.
A historia das catacumbas póde dividir-se em tres periodos principaes: o
periodo da formação, o periodo da restauração e de visitas piedosas, e o
periodo de explorações scientificas.
O primeiro periodo abraça os quatro primeiros seculos. No decurso do
seculo IV viu-se diminuirem as sepulturas subterraneas pelo augmento dos
tumulos á superficie do solo. Depois do anno 410 não se encontram
sepulturas nas catacumbas.
O segundo periodo estende-se desde os primitivos annos do seculo V até
ao principio do seculo IX.
Chamam-se cryptas historicas as camaras sepulchraes em que repousavam os
restos de martyres illustres.
O ultimo periodo, de explorações scientificas, data do anno de 1578.
No mez de maio de 1578, uns trabalhadores que se occupavam em extrahir
pozzolana n'uma vinha, a duas milhas da cidade de Roma, descobriram uma
abertura que dava para um cemiterio christão decorado de pinturas, de
sarcophagos e de inscripcões.
Estas pinturas pertencem a epochas differentes, e algumas ao primeiro
seculo da nossa éra. As do seculo II são mais numerosas, porém as do
seculo III são ainda em muito maior numero.
A maior parte das decorações das paredes das catacumbas foram executadas
a fresco, sendo feitas algumas com mosaicos em limitado numero.
Os antigos artistas contentavam-se em traçar a silhuêta dos personagens
e dos objectos, enchiam em seguida o espaço comprehendido entre os
contornos por côres lisas ou illuminuras, e indicavam convencionalmente
as rugas dos fatos com traços cheios e as saliencias com traços finos.
Faziam o contrario do que se praticava desde o seculo VI, desprezando,
na representação dos assumptos, os accessorios.
As pinturas dos tumulos, em fórma d'arco, apparecem sobre um fundo
ornado,--um assumpto com muitas figuras traçadas dentro de molduras de
fórma quadrada ou semicircular.
Os ornatos são na maior parte imitações de objectos usuaes, açafates com
fructos ou grinaldas de flores, sendo imitado este genero de decoração
de pintura da arte pagã.
Nas catacumbas representava-se ordinariamente Jesus Christo debaixo da
fórma do Bom Pastor.
As imagens do Redemptor não se encontravam isoladas, apresentando todos
os caracteres das pinturas posteriores a muitos seculos á conversão de
Constantino.
A Santa Virgem é figurada nas pinturas das catacumbas sobre os vidros
dourados e os sarcophagos dos seculos primitivos, estando sentada, com o
Menino Jesus ao collo.
A adoração dos Magos recordava aos fieis tres dogmas: a vocação dos
infieis, a Divindade de Nosso Senhor, e a Maternidade Divina.
Os primitivos christãos representavam tambem a Virgem com ou sem o
Filho, debaixo da forma d'uma _orante_, isto é, em pé e levantando os
braços n'uma attitude de supplica. Muitas imagens são anteriores ao
seculo IV.
_Jesus Christo multiplicando os pães_: figura a Santa Eucharistia, como
sendo alimento das almas.
O Salvador é representado em geral debaixo da figura d'um mancebo
imberbe vestido com manto e tunica ornada com duas bandas de purpura.
_O paralytico curado_ é representado no momento em que, deixando a
piscina, leva a sua cama ás costas. Está vestido com uma tunica e cinta
e uma especie de ceroulas.
_Jesus resuscitando Lazaro_: é representado Lazaro debaixo da fórma
d'uma pequena mumia envolvida em pequenas fitas e collocada na posição
vertical á entrada do tumulo, que tem a fórma de um edificio ou pequeno
templo.
As representações de refeição dividem-se em duas classes conforme
symbolisam a Eucharistia, ou a felicidade dos predestinados á
bemaventurança.
A felicidade dos predestinados é symbolisada por um banquete ao qual
servem o Amor e a Paz, porque estes dois gosos eram tidos como os
principaes do Paraiso.
_Jesus Christo rodeado dos seus discipulos_: representa o ensino dado
aos apostolos e a celebração da ultima ceia do Senhor.
As imagens dos Santos encontram-se nas cryptas historicas, e todas em
geral são posteriores á conversão de Constantino. Muitas são ornadas de
resplendor, que só foi dado aos Santos no principio do seculo VI.
A scena do Orpheu tocando lyra, tirada da mythologia, é muito commum nas
pinturas das catacumbas e sobre os monumentos christãos dos primeiros
seculos.
Entre os primeiros christãos, Orpheu deleitando os animaes ferozes com
os sons da sua lyra, era um symbolo de Jesus Christo domando as paixões
dos homens e attrahindo-os com os encantos da sua doutrina.
Os primeiros christãos reproduziam de differentes maneiras as quatro
estações sobre as paredes das catacumbas e sobre os sarcophagos, porque
as estações symbolisavam aos olhos dos christãos a futura resurreição.
Os primitivos christãos serviam-se dos symbolos, em primeiro logar, para
subtrahir á irrisão dos infieis as mais augustas verdades da religião, e
em segundo logar, para se conhecerem entre si. Os mais antigos d'estes
symbolos eram a pomba, o peixe, a barca, a lyra e a ancora.
Durante os primeiros tres seculos da Egreja, o peixe era um dos symbolos
mais divulgados entre os christãos para significarem Jesus Christo.
Empregava-se de dois modos, como nome e como figura. A palavra _ichtus_,
que significa peixe, fornece as iniciaes das palavras _Jesus Christo
Filho de Deus_.
O peixe representado sobre os monumentos pintados ou esculpidos tinha a
mesma significação, era um signal hyerogliphico lembrando aos christãos
a palavra grega e todas as verdades que ella symbolisava. Tanto o
acrostico como o peixe symbolico, era principalmente gravado sobre as
pedras e sobre os objectos portateis para o uso da piedade dos primeiros
christãos.
A Cruz que se encontra nos monumentos christãos dos quatro primeiros
seculos apresenta-se com fórmas dissimuladas, de ancora, que era ao
mesmo tempo o symbolo da esperança, e serve desde o primeiro seculo para
recordar aos fieis o signal da Redempção.
Empregou-se desde os primeiros seculos o cordeiro para representar Jesus
Christo.
Os primitivos christãos tinham por costume orar em pé, com os braços
estendidos e levantados para o ceu. Na maior parte dos monumentos
christãos primitivos vêem-se fieis dos dois sexos, e principalmente
mulheres em attitude de _orantes_.
A _orante_ symbolisa a alma christã admittida no ceu e considerada
esposa de Jesus Christo. As duas arvores que em alguns monumentos se
encontram aos lados, designam o paraiso ou a felicidade eterna.
Encontra-se frequentemente nos primitivos monumentos christãos de toda a
especie a pomba, e principalmente nos epitaphios dos seis primeiros
seculos da nossa éra. Nos tumulos symbolisa ordinariamente a alma pura e
innocente dos fieis. A oliveira que está ao seu lado ou o ramo d'esta
arvore, que muitas vezes tem no bico, são o symbolo da paz que gosa a
alma, e equivale á formula _in pace_, tantas vezes empregada nos
epitaphios.
A _palma_ tem sido em todos os tempos o symbolo do triumpho; os
christãos primitivos collocaram-n'a nos seus tumulos para recordar a
victoria ganha pelo defuncto aos inimigos da fé.
O _monogramma de Constantino_ ou simplesmente _monogramma_ são as duas
letras gregas X P ligadas da seguinte maneira:
[Figura]
Outro _monogramma cruciforme_ parece ter existido no Oriente e tem a
letra X com a fórma d'uma cruz [Símbolo] onde está ligada na perpendicular
superior a barriga da letra P:
[Figura]
As duas fórmas tambem se empregaram no Occidente.
A partir do meado do seculo IV, o monogramma é muitas vezes acrescentado
com mais duas letras gregas A e [Grego: Omega], a primeira e a ultima do
seu alphabeto.
O monogramma data da conversão de Constantino que mandou fazer o
_lábaro_, que era encimado pelo monogramma.
Durante os primeiros seculos da Egreja, o altar era apenas uma taboa de
madeira, servindo de mesa aos apostolos para celebrar os divinos
mysterios.
As catacumbas forneceram-nos mais tarde o typo dos altares em fórma de
tumulo. As tumbas _em arco_ tinham uma prateleira horisontal cobrindo os
restos do santo martyr; sobre esta prateleira é que se dizia a missa.
As lampadas que se encontraram nas catacumbas tinham a fórma das
_lucerncae_ dos antigos. Assemelham-se a uma barquinha, que era um dos
symbolos mais usados na Egreja primitiva. A maior parte são de argila;
tambem se encontram algumas de bronze. Estas ultimas pertencendo a uma
epocha menos remota, são quasi todas munidas de cadeias que serviam para
as suspender nos tectos das capellas.
Chama-se sarcophago (palavra derivada de _sarcos_ carne e _phagos_ eu
como) um tumulo de marmore ou de porphyro mais ou menos ornado de
esculpturas.
Podemos classifical-os em _simples_, _mixtos_ e _ricos_.
Os sarcophagos _simples_ apresentavam a fórma de um cofre rectangular
sem ornamentação.
Na maior parte os sarcophagos eram adornados de um ornato que se chamava
_strigiles_.
Os _strigiles_ são canneluras de fórma sinuosa, imitando o raspador,
instrumento de que os antigos se serviam para tirar, na occasião de se
banharem, a humidade e os corpos estranhos espalhados na superficie da
pelle.
Os sarcophagos _ricos_ têem as quatro faces, ou pelo menos tres, ornadas
de esculpturas em baixo, ou em alto relevo. Quando se reproduzem sobre
uma mesma face muitas scenas ou figuras, são justapostas simplesmente,
ou separadas por columnas ornadas de pampanos e de pequenos genios
colhendo fructos.
Muitos sarcophagos têem, no centro da face principal, um medalhão
circular, onde se vê em busto a figura do defuncto. Os tumulos que
serviam de sepultura a dois esposos, têem dois bustos, e algumas vezes
uma arcada central apresentando, com a mesma significação, dois
personagens em pé dando a mão e chorando.
Os sarcophagos _mixtos_ são ornados parte com strigiles e parte com
figuras gravadas a traço ou esculpidas em relevo.
Os sarcophagos dos tres primeiros seculos foram escolhidos nas officinas
pagãs, ou esculpidos por artistas christãos, segundo modelos profanos.
As scenas da Paixão propriamente dita, taes como a flagellação, o
coroamento de espinhos e a crucificação, não se encontram representados
em monumento algum do primitivo christianismo.
Os christãos dos primeiros seculos punham muitas vezes nas sepulturas
objectos que tinham pertencido ao defuncto.
Encontram-se nos tumulos dos fieis: tecidos d'ouro, anneis, bracelêtes e
bijoterias, brinquedos de creança, relicarios portateis, vasos de vidro
ou d'argila collocados ordinariamente perto das cabeças dos cadaveres,
instrumentos de supplicio.
_Vasos de sangue_. Entre os signaes certos do martyr o principal é o
vaso de vidro ou d'argila, que serviu para recolher _o sangue do
martyr_, collocado dentro do tumulo, ou no exterior do nicho sepulchral.
_Objectos collocados no exterior do tumulo_. Entre estes objectos, uns
são executados pela mão do homem, outros não o são. Podem
classificar-se, na primeira cathegoria, os _baixos relêvos_, as
estatuetas, os pequenos _bustos_, e os fragmentos de esculpturas em
pedra e em marmore, os cacos de louça, os fragmentos de _vasos_ de
_crystal_ e de _vidro esmaltado_ e _dourado_, os prismas e as pequenas
_placas_ de _mosaico_, os anneis, os collares, os bracelêtes, e um
grande numero d'outros objectos de _toilette feminino_, d'ambar, ouro,
marfim e nacar, os brinquedos de creança, as folhas de taboa de
escrever, as placas de bronze, as guarnições e os ornamentos para portas
e cadeiras, d'ouro, marfim, bronze e ferro, os camapheus, as moedas e as
medalhas, os utensilios de cosinha; n'uma palavra, tudo desde o objecto
mais ordinario até ás joias mais preciosas.
Encontram-se tambem fragmentos brutos de toda a especie de substancias,
os mais diversos objectos naturaes e os mais extravagantes; pedaços de
tufo, estilhaços de pedra ou de tijôlo, caróços de fructos, folhas
d'arvore ou de planta, dentes e ossos d'animaes, caracoes, cascas de
mexilhão e d'ôstra, conchas, etc.
Estes objectos fixos ao cimento, eram dispostos de maneira que podessem
desenhar figuras de que facilmente se podesse fazer idéa.
_Outros monumentos christãos dos tres primeiros seculos além das
catacumbas_. Occupar-nos-hemos dos edificios religiosos construidos
sobre a terra, dos cemiterios construidos ao ar livre, dos paramentos
sagrados e dos instrumentos do culto, anteriores á abjuração de
Constantino.
Sabemos por documentos historicos que muitas pessoas abastadas tinham em
seus palacios oratorios onde os soberanos Pontifices vinham celebrar os
Santos Mysterios na presença da multidão dos fieis. Muitos d'estes
oratorios foram substituidos, depois da abjuração de Constantino, por
basilicas, ás quaes deram o nome das pessoas piedosas que haviam cedido
á egreja o direito de propriedade; e se mais tarde estas pessoas ficavam
consideradas no numero dos Santos, estas basilicas eram-lhes dedicadas.
A mais remota menção d'um templo christão data do tempo de Alexandre
Severo, que foi imperador desde 222 até 235.
Não é conhecida a fórma nem a distribuição interior d'estas primitivas
egrejas.
Os unicos monumentos notaveis dos tres primeiros seculos, até hoje
conhecidos, são as _cellas_ dos cemiterios, ás quaes se deu tambem o
nome de _basilicas_, desde o principio do IV seculo.
Estes pequenos edificios, construidos nos cemiterios, serviam para ponto
de reunião dos fieis.
_Cemiterios ao ar livre_. As sepulturas christãs foram estabelecidas,
desde o principio, ao ar livre.
Estes cemiterios, designados em geral pelo nome de _d'areae_[2] eram, do
mesmo modo que as catacumbas, situados fóra das portas das cidades;
porque as leis romanas prohibiam severamente as inhumações dentro dos
muros.
Depositavam-se os cadaveres, quer em simples fóssas, algumas vezes
revestidas interiormente de tijólos e de lages, quer em pias de pedra,
ou caixões de madeira mettidos debaixo da terra. As paredes dos tumulos
mais ricos eram, dadas certas circumstancias, rebocadas de argamassa, ou
estucadas e decoradas com pinturas _a frêsco_, semelhantes ás das
galerias e capellas sepulchraes das catacumbas.
_Paramentos e objectos do culto_. Parece certo que, durante os primeiros
seculos, os paramentos sagrados não se differençavam dos fatos
ordinarios, nem pela fórma nem pelo talhe.
Do mesmo modo que aproveitavam para os sagrados paramentos as fórmas e
os pannos dos fatos ordinarios, assim tambem aproveitavam para o serviço
dos altares os vasos ricos e preciosos que haviam servido aos usos
profanos.
CAPITULO III
/#
*Summario.*--Estylo Latino--Estylo Bysantino--Fórmas das
Basilicas--Origem da Basilica Christã--O Narthex--Orientação das
Basilicas e Egrejas Christãs--Egrejas cruciformes, circulares e
polygonaes--Cryptas--Baptisterios--Oratorios domesticos--Templos
pagãos e edificios profanos apropriados em Egrejas
Christãs--Systema e regras de construcção--Decoração
monumental--Narthex, fachadas e portaes das Basilicas--Janellas e a
maneira de as vedar.--Madeiramento do cume dos
edificios--Torres--Pinturas representadas em mosaico--Pavimento nos
edificios--Altares--Ciborium--_Ambon_, Tribuna para as leituras da
Biblia--Poltrona para os bispos e bancos para os
sacerdotes--Cemiterios--Monumentos funerarios--Sarcophagos--Tumulos
subterraneos--Objectos com symbolos christãos achados nas
sepulturas--Alfaias religiosas--Calices e
Patenas--Custodias--Relicarios--Pombas e torres--Accessorios do
altar--Corôas de metal precioso suspensas sobre o
altar--Dipticos--Encadernação dos livros dos Evangelhos--Estofos
religiosos--Paramentos sacerdotaes--Jesus Christo sob fórmas
symbolicas--Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo.
#/
_Periodo Latino e Bysantino_. A architectura christã póde considerar-se
dividida em dois ramos perfeitamente distinctos. O primeiro, que se
poderá chamar o _Estylo Latino_, foi adoptado pela egreja Latina, isto
é, na Italia, na Illyria, na Dalmacia e em toda a Europa Occidental. É
caracterisado pela imitação mais ou menos correcta da architectura
classica, greco-romana. O outro estylo, formado por elementos orientaes
e romanos, nasceu em Constantinopla, e ahi se desenvolveu, formada sob a
influencia Oriental, uma configuração inteiramente nova: deram-lhe o
nome de _Bysantino_.
O Estylo Latino predominou no Occidente até ao principio do seculo VIII;
e o Estylo Bysantino no Oriente, até á tomada de Constantinopla pelos
Musulmanos, em 1453.
Chamou se _Latino_ o estylo do imperio do Occidente, em primeiro logar
porque, derivando do Estylo Romano ou Classico, foi empregado nos paizes
em que a lingua _latina_ era a lingua ecclesiastica e vulgar; em segundo
logar, porque existiu tanto tempo como aquella lingua, approximadamente.
O Estylo _Bysantino_ tem o nome derivado de Bysancio ou Constantinopla,
capital do imperio do Oriente.
_Estylo Latino_. A architectura greco-romana chegou ao seu apogêo
durante os dois primeiros seculos da era christã. A sua decadencia
começou no seculo III, afastando-se da nobre simplicidade do Estylo
Classico.
No seculo IV, ainda mais se pronunciou a sua degeneração.
Começaram então a desmanchar os antigos monumentos para em seu logar
construir e decorar mais facilmente os novos. Tal era o estado da
architectura no Occidente, quando foram construidos os primeiros
monumentos christãos do periodo _Latino_.
_Fórma das basilicas_. As _basilicas profanas_ eram vastos edificios
construidos no _Forum_, ou nos arredores das praças publicas. Serviam
para ponto de reunião dos vendedores, assim como de outros individuos
que se occupassem de negocios. Era n'ellas que os magistrados
administravam Justiça.
As _basilicas christãs_ foram construidas segundo o modêlo das basilicas
profanas; sómente, em vez de se construirem ao longo das praças
publicas, eram precedidas de um pateo quadrado, com o fim de as afastar
do ruido e do tumulto da rua. Tinham, como as basilicas profanas, a
fórma d'um rectangulo mais ou menos alongado e compunham-se de tres
partes principaes--o _pateo_ ou o _atrium_; a _nave_ e o _Sanctuario_.
O _narthex_ abria-se ao fundo do atrium. Era uma especie de vestibulo,
propriamente dito, formado pelo portico transversal contiguo á fachada
da basilica.
Esta primeira parte da basilica era occupada, durante o officio, por
aquelles a quem as leis ecclesiasticas prohibiam tomar parte nas
assembléas dos fieis.
Do _narthex_, entrava-se por uma, tres ou cinco portas para a basilica,
que era ordinariamente dividida em tres naves por duas ordens de
columnas.
A da direita, reservada para os homens, e a da esquerda para as
mulheres.
Avançando pela nave dentro, encontravam-se os _ambons_, pulpitos
destinados á leitura dos Santos Evangelhos para as prédicas, e á
promulgação das leis ecclesiasticas.
Entrava-se emfim na terceira parte da basilica, a parte mais Santa e
mais veneranda, aquella onde os seculares não podiam penetrar, e que se
chamava o _Sanctuario_.
O altar occupava a parte central do Sanctuario, e tinha frente para uns
poucos de lados.
Atraz do altar desenvolvia-se o _abside_ de fórma semi-circular e
coberto ordinariamente com uma meia cupula.
A cadeira do Bispo era collocada ao fundo do _abside_, e para ella se
subia por uns poucos de degraus. Aos lados da cadeira episcopal, se
achavam, contiguos ao hemicyclo do abside, os assentos ou bancos
destinados aos padres, que assistiam aos Officios Divinos.
A alteração mais notavel, que a disposição interior das basilicas
soffreu com o andar do tempo, foi o accrescentamento do cruzeiro ou nave
transversal, entre o abside e a nave propriamente dita.
_Orientação das basilicas e das egrejas christãs_. Chama-se _orientação_
uma disposição particular, segundo a qual o eixo longitudinal d'um
edificio, d'um tumulo, etc., se dirige do Occidente para Oriente.
Desde a primitiva que a egreja christã adoptou o costume de orar
voltando o rosto para o Oriente.
O costume de orientar as egrejas foi dos primeiros seculos do
Christianismo.
Ha dois modos inteiramente oppostos d'orientar as egrejas. N'um, usado
antigamente, a fachada principal forma a parte Oriental do edificio e a
capella-mór do lado do Poente. N'outro, que preponderou mais tarde, a
posição de todas as partes da egreja é completamente trocada, a fachada
está voltada para o Occidente, e a capella-mór para o Oriente.
O primeiro modo d'orientação não durou muito tempo. Nos seculos V e VI,
a começar no V, se construiram muitas egrejas com a capella-mór voltada
para o Oriente. No Occidente a mudança effectuou-se lentamente, pois só
se completou durante o seculo XIII.
_Cryptas_. A maior parte das basilicas foram edificadas nos mesmos
sitios onde tinham sido sepultados os restos mortaes d'um Martyr, ou de
qualquer Santo illustre.
Nas primitivas basilicas, o altar era situado mesmo sobre a sepultura.
As galerias e capellas subterraneas, que mais tarde foram substituidas,
tiveram o nome de _cryptas_, da palavra grega que significa, _eu
escondo_.
Estas galerias abobadadas transformaram-se muito tarde em verdadeiras
capellas, ou egrejas subterraneas, por debaixo de todo o _presbyterium_;
bastante vastas para necessitarem o emprego de columnas que recebiam os
arcos das abobadas, formando assim muitas naves.
_Baptisterios_. Distinguem-se tres especies de baptismo: o baptismo por
_immersão_, o baptismo por _aspersão_, e o baptismo por _infusão_ ou
_affusão_.
O primeiro ministra-se mergulhando na agua todo o corpo; no segundo e
terceiro, o ministro, de longe ou de perto, lança a agua sobre a cabeça
do neophito. O baptismo por immersão foi usado até ao seculo XII; a
começar d'esta épocha, principiou a ser substituido, na egreja Latina,
pelo baptismo por infusão, do qual até ali se não serviam, a não ser
para os doentes em perigo de vida.
Primitivamente era reservada aos Bispos a administração do Solemne
Baptismo. O Bispo mergulhava tres vezes o neophito, invocando de cada
vez uma das Pessoas da Santissima Trindade.
Depois da abjuração de Constantino, quasi se generalisou por toda a
christandade o baptismo ministrado nos edificios particulares situados
ao lado das principaes egrejas, e especialmente das cathedraes.
Os baptisterios tinham em geral a fórma circular ou octogona, mas alguns
havia quadrados, e outros ainda em fórma de cruz grega. As pias
baptismaes eram muito grandes, porque muitas vezes se ministrava a
adultos o baptismo por immersão.
_Templos pagãos e edificios profanos convertidos em egrejas christãs_.
Os templos pagãos não se prestavam em geral para o culto christão, em
consequencia das suas diminutas proporções.
Entretanto alguns foram convertidos, com ligeiras modificações, em
egrejas christãs, e outros foram-lhes encorporados.
A maior parte d'estas transformações datam do reinado do imperador
Theodosio (383-385), e dos seus successores immediatos.
Tambem houve monumentos civis que foram transformados em egrejas
christãs; taes como as thermas e os banhos, que entre os romanos
excediam em magnificencia os proprios templos.
_Caracteres do Estylo Latino_. As basilicas christãs foram muitas
d'ellas construidas, aproveitando para isso monumentos mais antigos. Mas
em consequencia das basilicas serem muito mais vastas do que os templos
pagãos, tornava-se por isso não raras vezes necessario desmanchar muitos
d'esses monumentos para construir uma só basilica.
A architectura estava n'uma tal decadencia, que muitas vezes chegavam a
reunir fragmentos de dimensões e estylos differentes, e ajustavam-nos o
melhor que podiam.
Se, por exemplo, se tratava de columnas provenientes de diversos
monumentos, não pertenciam muitas vezes á mesma Ordem d'architectura;
tendo portanto os fûstes e os capiteis de alturas differentes,
enterravam os fustes, ou os collocavam sobre soccos. O desvio e a
distancia relativa das columnas variavam dentro de limites excessivos.
A unica innovação d'alguma importancia introduzida nas construcções, foi
a substituição da _arcada_ pela architrave.
Nas regiões onde escasseavam monumentos antigos, os edificios do periodo
Latino eram em geral muito pequenos, baixos e pobremente decorados,
muitos até de madeira.
Apezar do que acabâmos de expôr, no seculo V e VI, construiram-se em
Ravenna muitos monumentos importantes (dos quaes ainda alguns se
conservam), sem que fôsse necessario recorrer á devastação que tiveram
os anteriores; o que prova existir n'aquella epocha em Ravenna uma
brilhante escola de habeis constructores.
_Materiaes de construcção_. As basilicas e os monumentos do periodo
Latino eram construidos com pedras d'alvenaria regulares, quasi sempre
quadradas, de mediano preparo, e tambem com tijolos chatos, ficando
separados por uma espessa camada de cimento. Muitas vezes tambem os
muros eram formados por cordões de uma, duas ou muitas faxas de pedras
d'alvenaria alternadas com outras compostas de uma ou duas fiadas de
tijolos.
_Decoração dos monumentos_. O periodo Latino não foi epocha de esplendor
para a architectura ornamental.
O _ábaco_ dos capiteis recebeu, durante o periodo Latino, dimensões e um
esvasamento taes que muitas vezes parecia ser um capitel sobrepôsto
sobre outro. A frente do ábaco era adornada, do lado da nave principal,
com um symbolo, que algumas vezes era o monogramma do fundador, e em
geral havia uma Cruz d'ordem Trina isolada, ou inscripta n'um circulo.
Chama-se Cruz de Ordem Trina aquella cujos braços são mais largos nas
extremidades do que no ponto de intersecção dos ramos. Esta cruz, quer
só, ou entre dois cordeiros, ou entre dois passaros, com a frente um
para o outro, foi um dos symbolos christãos mais usados durante o
periodo Latino.
_Narthex, fachadas e portaes das basilicas_. O narthex interior occupava
o fundo do atrio, e era formado pelo portico contiguo á fachada
principal da basilica. Communicava pelos extremos com as galerias que
rodeavam o atrio; como se observa na egreja de Villarinho de S. Romão,
na provincia do Douro.
Nas basilicas latinas, quando a configuração do terreno não permittia
estabelecer o atrio e o narthex, substituiam algumas vezes estes, por
galerias altas collocadas no interior do edificio ao longo da nave.
Os portaes das basilicas eram construidos segundo o modelo dos portaes
ricos do estylo classico.
As portas dos portaes das basilicas eram de bronze ou de madeira.
Algumas das portas de bronze, das primeiras basilicas, provieram de
monumentos pagãos. No seculo IX, a egreja de Santa Maria Maior, em Roma,
tinha portas de prata.
_Janellas e vidraças_. As janellas das basilicas eram rasgadas d'alto a
baixo, e de volta inteira.
Serviam de vidraças a estas janellas grandes laminas de marmore ou de
pedra, atravessadas de buracos para por elles penetrar a luz no interior
dos edificios. Mais tarde, estas laminas foram vasadas de maneira que
offereciam á vista os mais complicados desenhos. Na Europa Occidental e
Septemtrional, em que as laminas de pedra e de marmore escasseiavam,
guarneciam as janellas com caixilhos de madeira.
As clara-boias muitas vezes não tinham cobertura, principalmente nos
paizes meridionaes; e n'outros eram vedadas com laminas de pedras
translucidas ou de placas de alabastro.
Desde o seculo VII que começou a haver vidraças com vidros brancos e
esverdeados, e até mesmo com vidros de differentes côres. Não appareciam
ainda figuras, nem ornatos alguns, pintados sobre os vidros; as vidraças
com vidros de côr eram formadas por um grande numero de vidros
coloridos, cortados de differentes modos e que se reuniam de certa
maneira, a fim do conjuncto representar figuras de fórmas regulares.
Desde o reinado de Constantino, os grandes edificios apenas se cobriam
com madeira.
A maior parte d'esta construcção ficava visivel no interior dos
edificios. Em alguns, as naves tinham tectos de madeira com pinturas
diversas, representando caixões ricamente adornados e dourados.
Raras eram as basilicas que desde a sua fundação tinham possuido torres.
Os campanarios que hoje se vêem proximo das antigas egrejas de Roma, são
quasi todos posteriores ao seculo VIII. As torres do _periodo Latino_
são na maior parte de fórma circular ou octogonal.
Nas grandes basilicas as abobadas esphericas do abside e o Arco
Triumphal, e algumas vezes tambem as paredes comprehendidas entre as
janellas altas da nave e das arcadas que ligam as columnas, ficavam
revestidas com vistosos mosaicos.
Os materiaes mais ordinariamente empregados n'este genero de trabalho,
eram folhas de marmore e pedaços de vidro.
Em muitas basilicas de Roma, o abside abobadado em forma de esphera tem
ao centro a imagem de Jesus Christo em pé ou sentado, com o braço
direito erguido, ou lançando a benção, e com um rolo de papel ou um
livro collocado á sua esquerda. Aos lados do Salvador estão
representados os Apostolos, ou outros Santos. O sólo que pisam é o da
Judeia, o que se conhece pela representação do rio Jordão, cujo nome é
muitas vezes inscripto debaixo dos pés de Jesus Christo, e pela presença
das palmeiras, que foram, desde o primeiro seculo da era christã, o
symbolo da Terra promettida. Logo abaixo do abside se estende, em toda a
largura, uma zona estreita, no centro da qual se vê o Cordeiro Divino
coroado com ou sem a Cruz, collocado sobre um outeiro d'onde brotam os
quatro rios do Paraíso: Geham, Phison, o Tigre e o Euphrates, symbolos
dos Evangelistas. Doze cordeirinhos, seis de cada lado, se dirigem para
o cordeiro symbolico, e parecem sahir das cidades Santas de Jerusalem e
Bethlem, que occupam os extremos da composição, e se acham representadas
por varias portas e muralhas com ameias. Estes cordeirinhos symbolisam
os fieis.
Alguns mosaicos representam o sonho de S. João, isto é, os quatro
animaes, symbolos dos Evangelistas; e os vinte e quatro velhos, vestidos
de mantos brancos, offerecendo coroas ao Cordeiro.
Para piso das basilicas, os primitivos christãos serviam-se dos
differentes processos de empedramento, como os romanos usavam. Mais
tarde, estes processos foram substituidos por um trabalho de novo
genero, chamado _opus alexandrinum_, assim designado por ter sido usado
primeiramente na Alexandria. Estes empedramentos consistiam em um
conjuncto de variados marmores em que predominavam os porphyros verdes e
vermelhos; pareciam como um rico tapete estendido no sólo. O
empedramento _alexandrino_ foi muito pouco empregado na Europa
Occidental e Septemtrional.
Havia tambem empedramentos em que sobresahia a prata e outros metaes
preciosos.
Parte do piso do Sanctuario da basilica do Vaticano é de palhetas de
prata; mas o da capella de S. Pedro, da mesma basilica, é de palhetas de
ouro.
Nas catacumbas era mesmo sobre os tumulos dos martyres que se celebravam
os Santos Mysterios; porém, a começar do seculo III, este uso foi
approvado tambem pela Egreja.
No Occidente, o altar era quasi sempre erigido sobre o tumulo d'um
martyr. Os restos mortaes do Santo collocavam-se immediatamente debaixo
do altar n'um sarcophago, e ainda, na maior parte dos casos, ficavam
depositados n'uma crypta collocada debaixo do Sanctuario. Tanto na
Grecia como no Oriente, nunca em tempo algum, e até mesmo em nossos
dias, se fez d'um tumulo um altar, mas sim d'uma mesa, que recordava
aquella sobre a qual o Salvador instituiu a Eucharistia. Um altar
_nunca_ encerrava _reliquias_. Desde o tempo de Constantino, que data a
maior parte dos altares das egrejas do Occidente. No principio do seculo
VI (517) o concilio de Épona prescreveu, que todos os altares fossem de
pedra, os quaes foram adoptados pela razão symbolica de ser considerado
o Salvador a pedra angular.
Os altares de pedra d'essa épocha eram sempre formados por uma especie
de prateleira quadrada ou rectangular, para constituir a mesa do altar
propriamente dito. Esta mesa, muitas vezes, cobre um sarcophago ou um
tumulo de madeira; outras é sustentada por um pé central em forma de
cippo e ainda outras posta em quatro, cinco e mesmo até seis
columnellos.
Havia altares formados de tres lages, das quaes duas se collocavam
verticalmente, servindo de supporte á terceira, collocada
horisontalmente, a fim de formar a mesa do altar. Encontram-se tambem
altares formados de cinco placas, tendo, pelo seu conjuncto, a fórma de
um cofre de pedra.
A Auréola era formada de folhagens e sustentada por quatro anjos; Nosso
Senhor Jesus Christo fica collocado entre dois Cherubins, que facilmente
se reconhecem pelas suas asas abertas. Uma mão figurada no remate
superior da Auréola, é para indicar a presença de Deus. É tambem
adornada de flores, para indicar que o assumpto se passa no Céu.
As esculpturas mostram que esta arte estava muito decahida no seculo
VIII. Essas figuras com posições grotescas e forçadas, teem todas o
rosto de frente, e os membros desproporcionados, sendo tudo d'uma
imperfeição tal, que é difficil imaginar-se nada mais grosseiro e rude.
A inscripção, muito mal escripta, e n'uma linguagem quasi
inintelligivel, não é mais esmerada do que as esculpturas.
Quando as faces dos altares das basilicas das grandes egrejas não tinham
esculpturas, eram então revestidas de laminas de ouro e de prata, com
engastes de pedras preciosas, ficando cobertas de colchas bordadas,
representando algumas vezes assumptos sagrados.
Desde o seculo IV até meiado do XII, que as mesas dos altares eram
muitas d'ellas escavadas em fórma de bandeja em toda a extensão do plano
superior, tendo um rebórdo de alguns centimetros de altura; às vezes
tinham ornatos esculpidos. Muitas mesas eram furadas nos angulos, com um
ou muitos buracos, cuja serventia ainda não foi possivel descobrir. O
altar era encimado por um _ciborium_, especie de docel ou baldaquim,
sustentado por quatro columnas de madeira ou de marmore e de metal.
Entre as columnas do _ciborium_ havia umas cortinas ou reposteiros de
corrediça, que se corriam para occultar o officiante e o altar durante a
consagração.
O _ciborium_, que data do seculo XII, tem uma fórma um tanto differente
da que foi posta em uso durante o periodo Latino.
As cortinas dos antigos _ciboriums_ eram em geral de preciosissimos
damascos de seda e ouro, ou com ricos lavores, guarnecidos de perolas,
pedrarias e mesmo laminas de ouro e de prata.
Primitivamente, cada egreja apenas tinha um altar. Comtudo mais tarde
houve egrejas no Occidente, que tinham muitos.
Os gregos e os orientaes nunca tiveram senão um altar nas suas egrejas.
Os _altares portateis_ antigos compunham-se, bem como os mais recentes,
de uma prancha rectangular de madeira, de pedra ou de metal, algumas
vezes munida de uma moldura de ouro ou de prata, e tendo no extremo um
appendice para servir de punho. Não se acharam altares portateis do
periodo Latino, não obstante parecer indubitavel que deveriam ser
communs n'aquelle periodo.
Uma tribuna, collocada no meio da nave principal das basilicas, era
destinada á leitura dos Santos Evangelhos e aos sermões. Algumas egrejas
possuiam tres: uma para o Evangelho, outra para a Epistola e outra para
as prophecias.
A tribuna do Evangelho tinha regularmente duas escadas. Perto d'ella
havia um enorme candelabro que servia para supportar uma grande tocha
chamada _o facho do Evangelho_.