Muniu-se, desde logo, Arnaldo Gracias de desabado _sombrero_ e vasto
manto hespanhol, que mysteriosamente arvorou, fizesse sol ou chuva,
como symbolo de graves complicações e perigosas incidencias, em sua
vida, o que a não poucos communicou, exigindo, porém, rigorosissimo
sigillo—questão de muito compromettimento.
Cuidou, em seguida, de lançar um emprestimo na praça do Rio de
Janeiro, cousa, aliás, bem modesta, uns 200$, que, entretanto, não lhe
foi facil reunir, embora offerecesse aos emprestadores de profissão
juros positivamente fabulosos. Emfim, já como favor pessoal, já
como adiantamento para um livro a sahir dos prélos e destinado a
estrondosa acceitação—intitulado, ora _Novos aspectos de critica_—ora
_A metempsychose á luz da sciencia_, ou então _O euréka nas lettras e
nas artes_—aos 5, 10 e 20$ pôde arranjar a somma precisa para ajustar
e aluguel de um carro de cocheira com cavallos pretos—velozes como o
pampeiro, recommendára elle—ter um quarto melhor no _Hotel dos Quatro
Cantos_—e outras despezas indispensaveis. Aos creados, largas gorgetas
prévias—era de obrigação no melindroso trecho.
Em poucos dias, tudo ficou minuciosamente combinado.
Com as liberdades de vida que tinha Julia Candelaria, nenhuma empreza
difficil, aliás, e menos ainda de assombrar, o sahir de casa pelo portão
do jardim, das 9½ ás 10 horas da noute, metter-se n’um carro á espera
alli por perto e... _fouette, cocher_! Nas vesperas do grande dia, ou
antes da noute fatidica, sentiu-se Gracias agitadissimo. Não é graça,
de certo, proceder-se ao rapto de uma menor, apatacada ou não. E esta
idéa de dinheiro pungia até o nosso bohemio de modo especial. Havia
momentos em que preferira saber a amada pauperrima, filha de necessitados
operarios, afim de tirar á aventura em que ia metter-se qualquer caracter
de vil interesse, como, infallivelmente, não deixaria a malevolencia de
assoalhar, perfida, viperina.
Além disto, por mais leviano e despreoccupado que se seja, por menos que
se pense, representavam esse feito e as immediatas consequencias tal
modificação de habitos na sua existencia livre e descuidosa, que, de vez
em quando, lhe girava a cabeça como se fôra a perder os sentidos.
Mal podia dormir e passava as noites a fumar cigarrinhos de palha,
uns após outros, e a beber chicaras de café, concentrado, apezar das
reclamações dos donos da casa.
—Você põe-se doudo varrido com esta historia de rapto, gritavam elles.
No dia então aprazado, não teve um momento de descanço o alvoroçado
Gracias. Duas, tres, dez, vinte vezes foi ao _tattersal_, repetiu
as instrucções, descreveu ao cocheiro aprazado os logares, todas
as particularidades do ponto de espera, fez d’elle seu confidente,
gratificando-o com toda a antecedencia. Do mesmo modo no _Hotel dos
Quatro Cantos_.
A rua do Ouvidor percorreu-a febrilmente o dia todo. Aqui, alli, nas
innumeras e vertiginosas passadas, a consultar todos os relogios como se
receiasse perder a hora solemne, foi ingerindo calices e mais calices
de cognac, kirsch e rhum e xerez e mais isto e mais aquillo, em numero
de todo o ponto incalculavel, capaz de encher de alto a baixo todo um
obelisco egypcio, consagrado a dados estatisticos sobre consumo de
liquidos.
E, entretanto, não dava signal de ebriedade; a superexcitação nervosa o
aguentava com valentia.
Não pôde jantar. Mal lambiscou umas gulozinas.
Tambem, á hora em que, encafuado no carro, se quedou á espreita da
presa, á maneira de ardilosa aranha no centro da teia, não podia mais
de cansaço, os membros todos alquebrados, numa lassidão inexprimivel.
Cochilava como um perdido e, embora quizesse impedir a conversa do
cocheiro com um caixeirinho da venda proxima á casa do commendador, não
se mexia, a cabecear, tolhido, inerte, estatelado, ouvindo, comtudo,
palavras que deviam tel-o sobresaltado: _espéra_, _rapto_, _moça do
bairro_...
Só despertou com a chegada de Julia Candelaria, toda de preto e envolvida
em mantilha negra, mas muito senhora de si, alegre, satisfeitissima
da sua proeza. Não encontrára estorvo algum; não suscitára nenhuma
desconfiança.
Soavam então 10 horas.
—Cocheiro, bradou Gracias sahindo do seu torpôr; toque para o ponto que
já sabe... Um relampago!
E lá se foi em disparada o vehiculo pelas ruas já silenciosas, com ares
de mysterio muito _chic_, baixas as cortinas, fustigados valentemente
os cavallos negros, encarregados de representar de pampeiro naquelle
dramatico episodio.
—Emfim... emfim... exclamou Gracias buscando chamar a si todo o
enthusiasmo das tradições castelhanas, chegou a nossa hora... chegou...
chegou...
Qual! somno invencivel lhe prendeu a lingua, fechou-lhe a bocca com
mão de ferro. Grande tambem o espanto de Julia, que a pouco e pouco se
mostrou amuada, offendida, e afinal se encolheu mal humorada a um canto
do carro.
Ao rapido balancear da tipoia sonhava o misero com uma cama larga,
macia, perfumada, irresistivel, em que afinal tomava desforra completa
das passadas insomnias! Como era bom dormir, dormir a farta, refazer as
forças perdidas, estender e desentesar os nervos e musculos, tantos e
tantos dias contrahidos, repuxados, _hypersthenisados_! Não, devéras,
nada vale um bom conchego, quando a gente tem somnos atrazados, nada se
lhe compara!
De repente accordou.
Era o carro que parava, alcançado o _Hotel dos Quatro Cantos_.
E o creado á porta, gravibundo, ainda que revestido de certo ar de
condescendencia, esperava os dous pombinhos e os foi guiando com toda a
discrição ao quarto preparado.
Fecharam-se.
Gracias, acabada a momentanea sacudidéla da chegada, não comprehendia
mais onde estava, o que fazia. Tudo entrava no dominio do sonho. E não
era que o via realisado? Como que lhe estirava amorosos braços uma cama,
a puxal-o com desapoderada attracção na sua brancura, deslumbrante a
olhos faceis, bem duvidosa, entretanto, máo grado todas as recommendações
mil vezes feitas. «Um ninho de cysnes!» pedira instante ao hoteleiro,
gostando, mais que tudo, da phrase.
Como, pois, não se deitar logo e logo a fio comprido? Como recusar-se
a tão convidativos e suaves encantos? Impossivel, superior a forças
humanas... n’aquella emergencia!
—Ao thálamo nupcial, balbuciou elle. Julia... minha celeste Julia!
E, dando o exemplo, tirou depressa as celebres botinas de verniz e,
vestido como estava, embrulhado no manto hespanhol, deixou-se ir, sem
resistencia, a um somno de chumbo, acabrunhador, ineluctavel. D’alli a
nada resonava como um bemaventurado.
Estava a imprudente Julia positivamente attonita, terrificada. Que
significava tudo aquillo?
Lembrou-se de gritar, de pedir soccorro, bater nas paredes, mas não
poude, sentia-se paralysada ao menor movimento, sem voz, sem acção.
Deixou-se cahir assombrada numa cadeira de braços e alli ficou, envolvida
em sua mantilha negra, apathisada, longo tempo, talvez horas, sem saber
o que seria d’ella. Olhava sem ver para o singular raptor, cujo corpo, á
luz da mortiça stearina, se lhe afigurava simplesmente o de algum bicho
monstruoso, repugnante; e lagrimas compridas desfiavam-lhe amargas pelas
faces afogueadas.
Nem de proposito, numa sala proxima, entre grandes berreiros,
terminava-se uma ceia com proporções orgiaticas, e os gritos
descompassados de homens e mulheres, o espoucar estrepitoso do
_champagne_, as saudes, os _hipps_ e _hurrhas_, lhe imprimiam ao systema
nervoso contrachoques electricos, que a punham quasi louca.
A pouco e pouco, porém, se iam acalmando e esbatendo todos os barulhos
da rua, e multiplos ruidos do hotel, quando a desventurada verificou,
transida de horror, que a vela breve se extinguiria. Como, ás escuras, em
tão pavorosas circumstancias? Se aquelle homem passasse do somno á morte?
E esta idéa tanto a aterrou, que, fazendo heroico esforço sobre si mesma,
procurou na maior anciedade e por toda a parte meios de prolongar a
claridade, prestes a sumir-se.
Foi-lhe de grata impressão encontrar na gaveta do lavatorio um pacóte de
falsificado Clichy.
—Emfim! não poude deixar de exclamar.
Recuperando algum alento, depois de reformar a vela, achegou-se a Gracias
e chamou-o, a principio com meiguice e bem baixinho, depois com força,
impaciencia e raiva.
—Arnaldo... Arnaldo, estou com medo... accorda! Sr. Arnaldo... accorde!...
Mal se mexeu o desastrado. Ergueu, n’um gesto inconsciente, as mãos
immensas, que puzeram temerosas sombras na parede, e murmurou:
—Conversaremos amanhã... temos... muito tempo.
Desanimou Julia de vez, instinctivamente offendida.
Emfim, não ficaria ás escuras, não era pouco; accendeu até duas velas
mais, e, de volta á sua cadeira de braços, com a maior intensidade de
luz, contemplou espaçadamente aquelle novo Endymion, presa de inquebravel
dormir, o ideal do seu romance, o pomo de discordia com o seu velho pai,
tão bom, prompto sempre a lhe fazer todas as vontades, o causador da sua
vergonha e irremediavel desgraça.
Pois devéras era aquillo?! Que nariz ridiculamente arrebitado, que
barbas de piaçava, que cabellos e que tez esverdeada, baça! E a grotesca
saliencia dos olhos por baixo das palpebras inchadas? E as sobrancelhas
em matagal, unidas como sombria e fatidica linha? Santo Deus, que pés
colossaes, mettidos em meias de branquidão negativa!
Que seria della, perdida para todo sempre, depois de tamanho escandalo,
travados a sua existencia inteira, o seu futuro, com o desse seductor
impossivel?!
E de novo chorou copiosamente quando a madrugada já vinha colorindo de
rosicler uns pontos do espaço, annunciada pelo estridulo grito dos gallos
matutinos.
Sorria-se todo feliz Gracias na sua beatitude de largo repouso afinal
conquistado; mas nem por isto se mostrava menos feio e repulsivo, pelo
contrario. Ah! quanto arrependimento, que intenso vexame, no peito de
Julia! Que acerbas reflexões! Que horas ainda! Que anhelo, para que
aquella noite acabasse e ao mesmo tempo nunca pudesse ter fim, nunca,
durasse eternamente.
Afinal, vencida por mortal fadiga e indizivel angustia, pegou tambem no
somno, na tal cadeira de balanço.