23 de novembro

Há dias em que me sinto envolvido pela morte e nas mãos da morte. Há

dias em que não distingo a vida da morte, e agarro-me como um naufrago a

este sonho...

...Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde queria. Tu és o meu sonho

phrenetico. Não há outro maior. Cheguei ao ponto em que te não distingo

da vida. Tu és a vida maior. Por vezes vejo o grande mar, onde a lua

deixa o seu rasto, caminhar direito a mim. Vagueia a floresta adormecida

e avança desenraizada para mim... Cheguei ao ponto, Morte, em que não me

metes medo. Acceito-te. De ti me vem a vida. Absorve-me. Só tu agora me

prendes os olhos e de ti não posso arrancal-os. És o unico misterio que

me interessa. Confio em ti. Cheguei ao ponto, Morte, eu que só de ti

espero. Só tu resolves e explicas. Só tu acalmas. Acceito-te mas

intimo-te. Toma a forma que quizeres, mais negra, mais tragica, mais

torpe--bem funda é a noite e está cheia de luzeiros:--recebo-te, mas

como um passo a mais para outra iniciação, para outro assombro, e até

para outra dôr se quizeres, porque da dôr extraio mais belleza, mais

vida e mais sonho.

...E contudo esta resignação é ficticia... Não, nunca acordei sem

espanto nem me deitei sem terror. Ainda bem que o digo!

Siga a vida seu curso esplendido. Sabe a sonho e a ferro. É ternura,

desgraça o desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de

ilusão, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos.

Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilhão do

lodo. Mata-nos. Mas, um momento só que seja, obriga-nos a olhar para o

alto, e até ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.

Humus · 第 75 / 83 题