Há dias em que me sinto envolvido pela morte e nas mãos da morte. Há
dias em que não distingo a vida da morte, e agarro-me como um naufrago a
este sonho...
...Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde queria. Tu és o meu sonho
phrenetico. Não há outro maior. Cheguei ao ponto em que te não distingo
da vida. Tu és a vida maior. Por vezes vejo o grande mar, onde a lua
deixa o seu rasto, caminhar direito a mim. Vagueia a floresta adormecida
e avança desenraizada para mim... Cheguei ao ponto, Morte, em que não me
metes medo. Acceito-te. De ti me vem a vida. Absorve-me. Só tu agora me
prendes os olhos e de ti não posso arrancal-os. És o unico misterio que
me interessa. Confio em ti. Cheguei ao ponto, Morte, eu que só de ti
espero. Só tu resolves e explicas. Só tu acalmas. Acceito-te mas
intimo-te. Toma a forma que quizeres, mais negra, mais tragica, mais
torpe--bem funda é a noite e está cheia de luzeiros:--recebo-te, mas
como um passo a mais para outra iniciação, para outro assombro, e até
para outra dôr se quizeres, porque da dôr extraio mais belleza, mais
vida e mais sonho.
...E contudo esta resignação é ficticia... Não, nunca acordei sem
espanto nem me deitei sem terror. Ainda bem que o digo!
Siga a vida seu curso esplendido. Sabe a sonho e a ferro. É ternura,
desgraça o desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de
ilusão, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos.
Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilhão do
lodo. Mata-nos. Mas, um momento só que seja, obriga-nos a olhar para o
alto, e até ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.