21 de novembro

Não me comprehendo nem comprehendo os outros. Não sei quem sou e vou

morrer. Tudo me parece inutil, e agarro-me com desespero a um fio de

vida, como um naufrago a um pedaço de taboa.

Nem sei o que é a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta

saudade, a esta dôr; chamo vida e morte a este cataclismo. É a

immensidade e um nada que me absorve; é uma queda immensa e infinita,

onde disponho d'um unico momento.

Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da

minha propria alma. Faço parte duma coisa dolorosa, que totalmente

desconheço, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dôr ligada á minha

dôr, consciencia ligada a minha consciencia.

Estou até convencido que nenhum d'estes sêres existe. Este fél é o meu

fél, este sonho grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo isto são

apenas expressões de dôr--e mais nada.

Nós não vemos a vida--vemos um instante da vida. Atraz de nós a vida é

infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavéra está aqui, mas

atraz d'este ramo em flôr houve camadas de primavéras d'oiro, immensas

primavéras extasiadas, e flôres desmedidas por traz d'esta flôr

minuscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que

ahi vem um tropel, um sonho desmedido que ha-de realizar-se. E nenhum

grito é inutil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé. A alma que vae

desesperada á procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e

dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus, os

vivos e os mortos.

O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma n'este turbilhão

infinito e perpetuo, n'este movimento atroz? O mundo é um sonho sem um

segundo de paz. A dôr gera dôr n'um desespero sem limites.

Eu não sou nada. Sou um minuto e a eternidade. Sou os mortos. Não me

desligo disto--nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto

aos gritos.

Cada vez fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mãos

d'uma coisa desconforme. Sinto-me nas mãos d'uma coisa embravecida pela

eternidade das eternidades. Sinto-me nas mãos d'uma coisa immensa e

cega--d'uma tempestade viva.

Toda a vida está por esplorar: só conhecemos da vida uma pequena

parte--a mais insignificante. E o erro provem de que reduzimos a vida

espiritual ao minimo, e a vida material ao maximo. O homem é um S. F.

ligado a todo o universo.

Deus é eterno com a mascara sempre renovada. A alma há-de acabar por se

exprimir, Deus, que olha pelos nossos olhos e fala pela nossa bocca,

há-de acabar por falar claro.

Está tudo errado. Só há um momento em que o comprehendemos. Mas n'esse

momento já não podemos voltar para traz. É quando, fazendo ainda parte

dos vivos, fazemos já parte dos mortos.

Não só a sensibilidade é universal--a inteligencia é exterior e

universal.

O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração.

A materia tambem existe em estado de nublosa--isto é um estado de dôr.

Toda a theoria mechanica do universo é absurda. D'ahi a alguns annos

todos os systemas serão ridiculos--até o systema planetario.

O sonho completo é o universo realizado.

Humus · 第 74 / 83 题