16 de setembro

O desabar da chuva lá fóra dil-o-hieis não exterior, mas ligado ao teu

proprio sêr: são lagrimas que tenho ainda para chorar. Da escuridão

opaca resurgem e rodeiam-me os mortos: o montante que rachou a

alvenaria, e os cavadores que lavraram a mesma terra e curtiram a mesma

dôr. Este cheiro a pobre, estes traços corroídos pelas lagrimas, estes

typos amolgados pela desgraça, povoam-me a noite toda e dizem bem com o

desabar ininterrupto de lagrimas lá fóra. Outra coisa exprimem as

figuras denegridas que vão aparecendo por traz da figura da Joanna...

Some-se a mulher da esfrega, e primeiro vem um velho que móe e remóe

obstinado uma codea de pão. O pae de Joanna tinha oitenta annos quando

morreu. Deram com elle cahido sobre o lar, levaram-n'o em braços para a

enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre,

junto ao peito, a pedra secca, o granito. Uma mulher desata aos gritos

debruçada sobre o catre:

--Vocemecê conhece-me? vocemecê conhece-me?

Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o

alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pelle é

como a crosta que calcamos. Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de

tronco, afóra os cabellos brancos que o tornam humano. O tempo

revestiu-o da mesma côr dos montes. Deshabituou-se de falar, e pela

grandeza e pelo silencio só o comparo á pedra. Tudo isto foi pedra. Elle

e os seus, a poder d'annos, moeram-n'a. Sua vida está ligada á vida da

terra. Creou-a. Á terra só falta comel-o.

Terra, terra negra e ingrata, terra de detrictos de rocha e mortos,

poeira d'arvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há

muito que o fizeste teu egual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras,

pelle como a tua pelle.

A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De

revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a

Christo, a um Christo que tivesse vindo até á velhice, de desilusão em

desilusão e de desamparo em desamparo.

Na noite negra desfilam outras figuras. Um chega e diz:--O corpo pede-me

terra:--A pobre, com um sacco de estopa ás costas, espera a esmola e

reza. Agora este... Este resequiu como os morros de pedra, como a lage

compacta. A pedra pega pedra. As mãos tem terra nas rugas desde que

lidaram com terra. Curtiu annos de fome e de terra entranhada na pelle,

entranhada na alma.

O casebre é de pedra, é de pedra o lar, e arrima-se d'um lado ao coração

do monte. Por tecto uma trave e colmo, por chão terra batida. A casa

tambem entra aqui. Pedras, ternura, aflição, tudo no mundo deita as

mesmas raizes. Uma casa não é só alvenaria: é dôr e vida e morte. A

arvore tambem aqui entra: a arvore é uma construcção viva.

A mãe ficou prenhe. Eram tão pobres que, para o que havia de nascer, só

amanharam um panninho, duas camisas e um lenço. Vieram as dôres e

nasceram dois gemeos. Repartiu as camisas, rasgou o lenço e o panno ao

meio, e, no casebre perdido, entre a natureza bruta, a mulher poz-se a

chorar dando um seio a cada um.

Mais outras figuras se destacam ainda da noite. São de terra e pedra,

são figuras deshumanas. Remóem o pão devagar, e o fumo sobe pela parede

e enegrece-a, camada atraz de camada. Aquecem-se ao lar. A pedra é um

calháo arrumado á parede, uma lasca negra e resequida. E agora, noite

funda, todos os mortos estão alli presentes e atendem... A pedra tosca

do lar, a pedra salitrosa á volta da qual se juntam, é muito mais que um

calháo. A pedra é sagrada.

Está alli o montante que acometeu a pedra do monte dura como aço, e dias

após dias curvou-se sobre a fraga e meteu-lhe o ferro até á raiz. Um

delles cavou e escavou o sobrado e dorme com a cabeça encostada ao

granito. A terra desgasta-o, a terra imprime-lhe relevo e caracter.

Cerra-se-lhe a bocca, greta-se-lhe a pelle. Elle e o monte suportam a

mesma dôr, que não sabem exprimir.

A côr é a côr da fome, o frio o da pobreza. Gasta-o e desgasta-o o uso

da vida e a terra entranhada.

É o cavador... Tudo que era exterior puiu-o no cavador a terra, na

mulher as lagrimas. Ficou só a expressão descarnada, como nos montes,

como na propria casa onde as coisas são simples e eternas. Pariu-lhe

alli a mulher, entrou-lhe lá dentro a morte. E as palavras reduziram-se

tambem a esqueleto e teem o mesmo emprego sobrio: nem o cavador nem a

femea teem que dizer um ao outro. Só o môrro consegue deitar um fio

d'agua, que lima alguns palmos d'herva. Concentrou-se em muda aflição

para produzir essas gotas geladas e um lameiro verde.

O escuro gera uma serie infinita de mulheres... Há em todas um momento

de ternura antes da terra se lhes entranhar. Aos trinta annos a femea

encardida está velha. Está velha de fome. Está velha de trabalho. Ella

carrega. Ella levanta-se de noite para coser a fornada ou para ir á

villa. Ella quando tem um dia de folga vae ganhar seis vintens de

jornal. Ella pesa o pão e reparte-o, ficando com o quinhão mais pequeno.

Com isto gasta-se. Nasceu com a pobreza, dormiu com a desgraça, e com os

annos uma figura se foi sobrepondo a outra figura. Apagam-se linhas,

salientam-se traços, e a mesma côr humilde reveste a mulher e a

alvenaria. Ella e a pobreza, ella e o dia d'hoje, o dia d'hontem e o dia

d'amanhã; ella e os filhos para crear, os carretos para fazer; ella e a

vida, todos os dias se vão amalgamando, luctando, empurrando com

desespero, até se crear esta figura e se apagar a outra, gasta pelo uso

da dôr e pelo uso das lagrimas.

Sósinhas luctam, sorriem, amparam. Velhas e exhaustas espalham ainda

ternura. Curvam-se sobre os berços, vão pedir pelos homens. E sobre isto

ignoram-se.

--Mãe--pergunta a filha mais moça--mãe que coisa é casar?

E ella responde como sua mãe lhe respondera:

--Filha, é fiar, parir e chorar.

A vida é uma coisa seria e por isso emudecem. Guardam para si o bocado

mais amargo, a tarefa peor de fazer. Se choram, choram baixinho para que

as não ouçam chorar, alli nas quatro paredes de alvenaria, alli onde as

trouxeram pela mão, entre as coisas familiares, o fôrno, o lar, os

potes, a enxerga... Na enxerga onde morreu a mãe, nasceram tambem os

filhos.

Há seculos que a mesma serie de figuras repete os mesmos gestos. Há

seculos que a mesma mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve a

terra. Há seculos que comem o mesmo pão e a mesma usura os leva até á

cova. Há seculos que choram as mesmas lagrimas e o monte deita a mesma

agua. As mulheres trazem os pequenos ao collo e falam-lhes como lhes

falaram a ellas. O que se gasta, o que a dôr e a vida consomem, é a

parte externa: as lagrimas renovam-se sempre. As leiras dão sempre o

mesmo pão escasso, no monte não se estanca o fio d'agua, que, como o fio

de ternura reproduz a vida e remoça sempre quatro palmos d'herva. A

mulher, esta ou outra, chora, debruçada sobre a maceira, pare com dôr no

mesmo catre, morre com dôr na mesma enxerga.

E no fim de todas, apagada e sumida, surge outra, a serva. Do escuro

saem gemidos. A casa desapareceu: só correm lagrimas. Sinto uma mão que

procura a minha mão, e uma voz que me diz ao ouvido:

--Escuita! escuita!

É a creada que serve o cavador desde pequena, a pobre que só tem de seu

a saia que traz vestida, que mistura lagrimas ás minhas lagrimas.

--Escuita! escuita!

E aquece-me as mãos com bafo.

E se remexo o brazeiro--vejo outras figuras, outras ainda, até ao inicio

da vida. Estão alli o avô, os avós, os jornaleiros. A um, tão entranhado

de terra, mal o descortino. E atraz d'estes, ainda outros, mudos e

disformes--outros como terra--outros como arvores decepadas--outros como

fome e que mal sabem exprimir-se--outros a quem só se vêem as mãos

nodosas--e a serie sumida de mulheres, bronco e dôr, que a vida

consumiu, e que procuram debruçar-se para ouvir... Tão longe! tão

longe!... Mal descortino já a luz tão pequenina e humilde, mal distingo

a vida na treva condensada--uma luzinha de candeia, que há seculos vem

de mão de mulher em mão de mulher... Tudo volta á cinza. Diante de mim

está sosinha a Joanna, que me mostra as mãos roídas, as mãos enormes, as

mãos só dôr...

O mundo é feito de dôr--a vida é feita de ternura.

Humus · 第 70 / 83 题