O desabar da chuva lá fóra dil-o-hieis não exterior, mas ligado ao teu
proprio sêr: são lagrimas que tenho ainda para chorar. Da escuridão
opaca resurgem e rodeiam-me os mortos: o montante que rachou a
alvenaria, e os cavadores que lavraram a mesma terra e curtiram a mesma
dôr. Este cheiro a pobre, estes traços corroídos pelas lagrimas, estes
typos amolgados pela desgraça, povoam-me a noite toda e dizem bem com o
desabar ininterrupto de lagrimas lá fóra. Outra coisa exprimem as
figuras denegridas que vão aparecendo por traz da figura da Joanna...
Some-se a mulher da esfrega, e primeiro vem um velho que móe e remóe
obstinado uma codea de pão. O pae de Joanna tinha oitenta annos quando
morreu. Deram com elle cahido sobre o lar, levaram-n'o em braços para a
enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre,
junto ao peito, a pedra secca, o granito. Uma mulher desata aos gritos
debruçada sobre o catre:
--Vocemecê conhece-me? vocemecê conhece-me?
Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o
alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pelle é
como a crosta que calcamos. Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de
tronco, afóra os cabellos brancos que o tornam humano. O tempo
revestiu-o da mesma côr dos montes. Deshabituou-se de falar, e pela
grandeza e pelo silencio só o comparo á pedra. Tudo isto foi pedra. Elle
e os seus, a poder d'annos, moeram-n'a. Sua vida está ligada á vida da
terra. Creou-a. Á terra só falta comel-o.
Terra, terra negra e ingrata, terra de detrictos de rocha e mortos,
poeira d'arvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há
muito que o fizeste teu egual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras,
pelle como a tua pelle.
A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De
revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a
Christo, a um Christo que tivesse vindo até á velhice, de desilusão em
desilusão e de desamparo em desamparo.
Na noite negra desfilam outras figuras. Um chega e diz:--O corpo pede-me
terra:--A pobre, com um sacco de estopa ás costas, espera a esmola e
reza. Agora este... Este resequiu como os morros de pedra, como a lage
compacta. A pedra pega pedra. As mãos tem terra nas rugas desde que
lidaram com terra. Curtiu annos de fome e de terra entranhada na pelle,
entranhada na alma.
O casebre é de pedra, é de pedra o lar, e arrima-se d'um lado ao coração
do monte. Por tecto uma trave e colmo, por chão terra batida. A casa
tambem entra aqui. Pedras, ternura, aflição, tudo no mundo deita as
mesmas raizes. Uma casa não é só alvenaria: é dôr e vida e morte. A
arvore tambem aqui entra: a arvore é uma construcção viva.
A mãe ficou prenhe. Eram tão pobres que, para o que havia de nascer, só
amanharam um panninho, duas camisas e um lenço. Vieram as dôres e
nasceram dois gemeos. Repartiu as camisas, rasgou o lenço e o panno ao
meio, e, no casebre perdido, entre a natureza bruta, a mulher poz-se a
chorar dando um seio a cada um.
Mais outras figuras se destacam ainda da noite. São de terra e pedra,
são figuras deshumanas. Remóem o pão devagar, e o fumo sobe pela parede
e enegrece-a, camada atraz de camada. Aquecem-se ao lar. A pedra é um
calháo arrumado á parede, uma lasca negra e resequida. E agora, noite
funda, todos os mortos estão alli presentes e atendem... A pedra tosca
do lar, a pedra salitrosa á volta da qual se juntam, é muito mais que um
calháo. A pedra é sagrada.
Está alli o montante que acometeu a pedra do monte dura como aço, e dias
após dias curvou-se sobre a fraga e meteu-lhe o ferro até á raiz. Um
delles cavou e escavou o sobrado e dorme com a cabeça encostada ao
granito. A terra desgasta-o, a terra imprime-lhe relevo e caracter.
Cerra-se-lhe a bocca, greta-se-lhe a pelle. Elle e o monte suportam a
mesma dôr, que não sabem exprimir.
A côr é a côr da fome, o frio o da pobreza. Gasta-o e desgasta-o o uso
da vida e a terra entranhada.
É o cavador... Tudo que era exterior puiu-o no cavador a terra, na
mulher as lagrimas. Ficou só a expressão descarnada, como nos montes,
como na propria casa onde as coisas são simples e eternas. Pariu-lhe
alli a mulher, entrou-lhe lá dentro a morte. E as palavras reduziram-se
tambem a esqueleto e teem o mesmo emprego sobrio: nem o cavador nem a
femea teem que dizer um ao outro. Só o môrro consegue deitar um fio
d'agua, que lima alguns palmos d'herva. Concentrou-se em muda aflição
para produzir essas gotas geladas e um lameiro verde.
O escuro gera uma serie infinita de mulheres... Há em todas um momento
de ternura antes da terra se lhes entranhar. Aos trinta annos a femea
encardida está velha. Está velha de fome. Está velha de trabalho. Ella
carrega. Ella levanta-se de noite para coser a fornada ou para ir á
villa. Ella quando tem um dia de folga vae ganhar seis vintens de
jornal. Ella pesa o pão e reparte-o, ficando com o quinhão mais pequeno.
Com isto gasta-se. Nasceu com a pobreza, dormiu com a desgraça, e com os
annos uma figura se foi sobrepondo a outra figura. Apagam-se linhas,
salientam-se traços, e a mesma côr humilde reveste a mulher e a
alvenaria. Ella e a pobreza, ella e o dia d'hoje, o dia d'hontem e o dia
d'amanhã; ella e os filhos para crear, os carretos para fazer; ella e a
vida, todos os dias se vão amalgamando, luctando, empurrando com
desespero, até se crear esta figura e se apagar a outra, gasta pelo uso
da dôr e pelo uso das lagrimas.
Sósinhas luctam, sorriem, amparam. Velhas e exhaustas espalham ainda
ternura. Curvam-se sobre os berços, vão pedir pelos homens. E sobre isto
ignoram-se.
--Mãe--pergunta a filha mais moça--mãe que coisa é casar?
E ella responde como sua mãe lhe respondera:
--Filha, é fiar, parir e chorar.
A vida é uma coisa seria e por isso emudecem. Guardam para si o bocado
mais amargo, a tarefa peor de fazer. Se choram, choram baixinho para que
as não ouçam chorar, alli nas quatro paredes de alvenaria, alli onde as
trouxeram pela mão, entre as coisas familiares, o fôrno, o lar, os
potes, a enxerga... Na enxerga onde morreu a mãe, nasceram tambem os
filhos.
Há seculos que a mesma serie de figuras repete os mesmos gestos. Há
seculos que a mesma mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve a
terra. Há seculos que comem o mesmo pão e a mesma usura os leva até á
cova. Há seculos que choram as mesmas lagrimas e o monte deita a mesma
agua. As mulheres trazem os pequenos ao collo e falam-lhes como lhes
falaram a ellas. O que se gasta, o que a dôr e a vida consomem, é a
parte externa: as lagrimas renovam-se sempre. As leiras dão sempre o
mesmo pão escasso, no monte não se estanca o fio d'agua, que, como o fio
de ternura reproduz a vida e remoça sempre quatro palmos d'herva. A
mulher, esta ou outra, chora, debruçada sobre a maceira, pare com dôr no
mesmo catre, morre com dôr na mesma enxerga.
E no fim de todas, apagada e sumida, surge outra, a serva. Do escuro
saem gemidos. A casa desapareceu: só correm lagrimas. Sinto uma mão que
procura a minha mão, e uma voz que me diz ao ouvido:
--Escuita! escuita!
É a creada que serve o cavador desde pequena, a pobre que só tem de seu
a saia que traz vestida, que mistura lagrimas ás minhas lagrimas.
--Escuita! escuita!
E aquece-me as mãos com bafo.
E se remexo o brazeiro--vejo outras figuras, outras ainda, até ao inicio
da vida. Estão alli o avô, os avós, os jornaleiros. A um, tão entranhado
de terra, mal o descortino. E atraz d'estes, ainda outros, mudos e
disformes--outros como terra--outros como arvores decepadas--outros como
fome e que mal sabem exprimir-se--outros a quem só se vêem as mãos
nodosas--e a serie sumida de mulheres, bronco e dôr, que a vida
consumiu, e que procuram debruçar-se para ouvir... Tão longe! tão
longe!... Mal descortino já a luz tão pequenina e humilde, mal distingo
a vida na treva condensada--uma luzinha de candeia, que há seculos vem
de mão de mulher em mão de mulher... Tudo volta á cinza. Diante de mim
está sosinha a Joanna, que me mostra as mãos roídas, as mãos enormes, as
mãos só dôr...
O mundo é feito de dôr--a vida é feita de ternura.