Preciso aqui duma arvore... Uma arvore que dê sombra e ternura--uma
velha arvore carcomida. Nunca pude passar sem essa sombra inocente. Meio
morto de cansaço e de mentira deito-me ao pé d'ella e renasço. Todos a
aproveitam--para o lume--para traves--para o caixão.
É filha de cavadores e neta de pedreiros: obstina-se e por fim afaz-se.
A dôr afeiçoa-a. Aceita tudo: a vida e a morte com a mesma resignação. E
depois desta vida acceita ainda outra com o purgatorio e o inferno.
Pouco e pouco a ternura torna á supuração. A filha desapareceu. Sabe que
a D. Hermengarda, pobre e cachetica, pára n'um hospicio, e vae lá
buscal-a. Caso extraordinario: vê mais naturalmente a desgraça da filha
do que a pobreza da D. Hermengarda. É a sua senhora. Limpa-lhe a baba e
cata-lhe o piolho; bezunta-a de pomada, e nos seus olhos de cão há uma
inexprimivel serenidade. A D. Hermengarda ainda tem exigencias. Manda e
a Joanna obedece. Melhor: trabalha para lhe dar de comer. Está afeita.
Faz mais: a Joanna agora rouba. Ella, que sacrificou a filha, rouba seis
vintens, doze vintens... De dia carrega bahus, á noite o quadro é este:
a veneravel D. Hermengarda n'uma cadeira de rodas, com um resto de quico
na cabeça, e a Joanna extactica a satisfazer-lhe as impertinencias.
Não ouve, creio mesmo que não pensa. Os seus gestos são conduzidos por
outras mãos, atraz d'ella há outras figuras até á raiz da vida, que
embalaram berços, choraram sobre a desgraça e tomaram para si o quinhão
mais pesado. Até já nem é Joanna que fala, mesmo para contar a sua
historia. Ou só, ou quando encontra alguem, a Joanna divaga:
--E vae eu disse-lhe... Fui ter com a filha e vae eu
disse-lhe:--Deita-me ahi pão quente n'uma malga com meio quartilho de
vinho.--E vae ella disse-me:--Tenho ahi pão velho, não enxerto o
outro.--E vae eu disse-lhe:--As bagadas que tenho chorado caiam sobre
ti.
Não sabe mais que dizer. Aquella fastidiosa perlenga ouviu-a a outras
velhas e vem do principio do mundo: aplica-a para exprimir a sua dôr. Se
lhe falam dos ladrões finge que não entende. Se insistem, a Joanna
responde com olhos de pasmo:
--Os ladrões davam-me uma tigela de caldo.
Não soube nada na vida, não foi nada na vida, não percebeu nada da vida.
Oh vida denegrida, monotona e sem sabor, de louça para lavar, de
carretos para fazer, afundaste-a, esfarrapaste-a, amarfanhaste-a,
engrandeceste-a!...
Deante do universo é menos que um caco, é um pobre coração usado pela
dôr. O ultimo gesto que a Joanna faz, é o seu primeiro gesto, mas
esboçado apenas, como quem segue um fio já muito tenue de sonho que não
tem força para levar até ao fim, o de aconchegar uma creança ao
peito--gesto que vem de seculos em seculos, desde o inicio do mundo,
repetido pelas successivas imagens de mulheres já desfeitas em pó,
repetido no futuro por milhares de sêres incriados.
O trabalho da vida é persistente e occulto. Gasta, desgasta, como uma
pedra sobre outra pedra Não é só por fóra que creamos rugas: por dentro
a usura é immensa. Só a Joanna conserva a ternura intacta. O que havia a
dizer era como se formou esta alma e eu não sei dizel-o. Por fóra
farrapos, por dentro vida. O tojo mais bravio deita mais flôr. Um fio
d'agua que reluz prende-me horas e transforma as pedras. A ternura da
Joanna modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe ás mãos e aos trapos que a
vestem. O que eu não dou é a expressão, o que eu não dou é a luz.
Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impõe-se-me pela expressão
maxima da dôr. A Joanna debruça-se sobre uma grandeza com que não posso
arcar. Resiste, lucta e atreve-se. Augmenta. E tambem só ella no mundo
não se importa de morrer.
Talvez a morte seja para ella a vida.
Esta luzinha viaja há muitos milhares d'annos. É como a faúlha d'uma
estrella, perdida na immensidão, que lhe custa a chegar á terra. E
caminha sempre, humilde e obstinada, atravez do infinito--sempre. Por
isso ella teimava:--O menino está vivo!...--Por vezes parece que se
apaga. Reaparece atravez da obscuridade espessa acumulada há seculos.
Talvez toda a grandeza d'esta mulher esteja n'isto: é que ella é
conduzida por uma mão enorme. A sua ternura é instinctiva, a sua
humildade é instinctiva... Pare. Pare a desgraça. Cria. É a velha que
tira a codea á bocca para a dar aos netos. É a velha que encontraste há
bocado no caminho, do olhos aguados. Cada vez maior; traz este carreto á
cabeça desde o principio do mundo, e ainda o não poude pousar. Embala os
berços. Pega nas creanças ao collo. Desde o principio do mundo que estas
mãos asperas amparam. Não é uma figura--é uma serie de figuras...