15 de setembro

Preciso aqui duma arvore... Uma arvore que dê sombra e ternura--uma

velha arvore carcomida. Nunca pude passar sem essa sombra inocente. Meio

morto de cansaço e de mentira deito-me ao pé d'ella e renasço. Todos a

aproveitam--para o lume--para traves--para o caixão.

É filha de cavadores e neta de pedreiros: obstina-se e por fim afaz-se.

A dôr afeiçoa-a. Aceita tudo: a vida e a morte com a mesma resignação. E

depois desta vida acceita ainda outra com o purgatorio e o inferno.

Pouco e pouco a ternura torna á supuração. A filha desapareceu. Sabe que

a D. Hermengarda, pobre e cachetica, pára n'um hospicio, e vae lá

buscal-a. Caso extraordinario: vê mais naturalmente a desgraça da filha

do que a pobreza da D. Hermengarda. É a sua senhora. Limpa-lhe a baba e

cata-lhe o piolho; bezunta-a de pomada, e nos seus olhos de cão há uma

inexprimivel serenidade. A D. Hermengarda ainda tem exigencias. Manda e

a Joanna obedece. Melhor: trabalha para lhe dar de comer. Está afeita.

Faz mais: a Joanna agora rouba. Ella, que sacrificou a filha, rouba seis

vintens, doze vintens... De dia carrega bahus, á noite o quadro é este:

a veneravel D. Hermengarda n'uma cadeira de rodas, com um resto de quico

na cabeça, e a Joanna extactica a satisfazer-lhe as impertinencias.

Não ouve, creio mesmo que não pensa. Os seus gestos são conduzidos por

outras mãos, atraz d'ella há outras figuras até á raiz da vida, que

embalaram berços, choraram sobre a desgraça e tomaram para si o quinhão

mais pesado. Até já nem é Joanna que fala, mesmo para contar a sua

historia. Ou só, ou quando encontra alguem, a Joanna divaga:

--E vae eu disse-lhe... Fui ter com a filha e vae eu

disse-lhe:--Deita-me ahi pão quente n'uma malga com meio quartilho de

vinho.--E vae ella disse-me:--Tenho ahi pão velho, não enxerto o

outro.--E vae eu disse-lhe:--As bagadas que tenho chorado caiam sobre

ti.

Não sabe mais que dizer. Aquella fastidiosa perlenga ouviu-a a outras

velhas e vem do principio do mundo: aplica-a para exprimir a sua dôr. Se

lhe falam dos ladrões finge que não entende. Se insistem, a Joanna

responde com olhos de pasmo:

--Os ladrões davam-me uma tigela de caldo.

Não soube nada na vida, não foi nada na vida, não percebeu nada da vida.

Oh vida denegrida, monotona e sem sabor, de louça para lavar, de

carretos para fazer, afundaste-a, esfarrapaste-a, amarfanhaste-a,

engrandeceste-a!...

Deante do universo é menos que um caco, é um pobre coração usado pela

dôr. O ultimo gesto que a Joanna faz, é o seu primeiro gesto, mas

esboçado apenas, como quem segue um fio já muito tenue de sonho que não

tem força para levar até ao fim, o de aconchegar uma creança ao

peito--gesto que vem de seculos em seculos, desde o inicio do mundo,

repetido pelas successivas imagens de mulheres já desfeitas em pó,

repetido no futuro por milhares de sêres incriados.

O trabalho da vida é persistente e occulto. Gasta, desgasta, como uma

pedra sobre outra pedra Não é só por fóra que creamos rugas: por dentro

a usura é immensa. Só a Joanna conserva a ternura intacta. O que havia a

dizer era como se formou esta alma e eu não sei dizel-o. Por fóra

farrapos, por dentro vida. O tojo mais bravio deita mais flôr. Um fio

d'agua que reluz prende-me horas e transforma as pedras. A ternura da

Joanna modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe ás mãos e aos trapos que a

vestem. O que eu não dou é a expressão, o que eu não dou é a luz.

Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impõe-se-me pela expressão

maxima da dôr. A Joanna debruça-se sobre uma grandeza com que não posso

arcar. Resiste, lucta e atreve-se. Augmenta. E tambem só ella no mundo

não se importa de morrer.

Talvez a morte seja para ella a vida.

Esta luzinha viaja há muitos milhares d'annos. É como a faúlha d'uma

estrella, perdida na immensidão, que lhe custa a chegar á terra. E

caminha sempre, humilde e obstinada, atravez do infinito--sempre. Por

isso ella teimava:--O menino está vivo!...--Por vezes parece que se

apaga. Reaparece atravez da obscuridade espessa acumulada há seculos.

Talvez toda a grandeza d'esta mulher esteja n'isto: é que ella é

conduzida por uma mão enorme. A sua ternura é instinctiva, a sua

humildade é instinctiva... Pare. Pare a desgraça. Cria. É a velha que

tira a codea á bocca para a dar aos netos. É a velha que encontraste há

bocado no caminho, do olhos aguados. Cada vez maior; traz este carreto á

cabeça desde o principio do mundo, e ainda o não poude pousar. Embala os

berços. Pega nas creanças ao collo. Desde o principio do mundo que estas

mãos asperas amparam. Não é uma figura--é uma serie de figuras...

Humus · 第 69 / 83 题