Eis emfim a villa sonho, a villa phantasma. Reparem nas pedras e no que
ellas exprimem, na alvenaria e castanho assentes com outro destino...
Ruas lageadas, recantos onde nunca entrou o sol. Paredes mestras.
Silencio e humidade até á medula, gestos lentos, habitos regrados. Uma
rua desce até á egreja de cantaria lavrada. Um predio enorme avança
sobre a ruella onde os passos echoam. Cresce aqui uma vegetação especial
de sepulchro, e a sombra absorvida pelas muralhas da Sé exhala-se em
bafo passado um seculo. Os alicerces são temerosos, as traves d'uma casa
davam para a construcção d'um bairro. E tudo isto se entranhou de
salitre, de interesse e de odio. Em tudo isto há uma mescla de
inutilidade, de fé e de sonho. Tudo isto está cimentado para seculos.
Cada barrote foi pregado com um destino, cada bloco metido na terra para
se lhe erguer em cima não uma parede, mas uma ideia, uma vida, uma
alma--tudo isto tem uma camada de bolor e se impregnou de desespero. Até
os sepulchros foram construidos para a eternidade. A pedra depois de
talhada, é uma expressão. Entro na cathedral. Silencio e um cheirinho a
floresta apodrecida. As lages estão gastas d'um lado pelos passos dos
vivos, do outro pelo contacto dos mortos. Tudo aqui gira em torno da
mesma ideia... A pedra esboroa-se, mas eu contemplo-a viva, com um povo
de estatuas em cima, com um povo de mortos em baixo. Nos alicerces uma
geração, outra geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra
misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa, a parte
subterranea é mais maravilhosa ainda. É a unica raiz que se conserva
intacta.
Aqui não andam só os vivos--andam tambem os mortos. A villa é povoada
pelos que se agitam n'uma existencia transitoria e baça, e pelos outros
que se impõem como se estivessem vivos. Tudo está ligado e confundido.
Sobre as casas há outra edificação, e uma trave ideal que o caruncho roe
une todas as construcções vulgares. Sob um grito outro grito, sob uma
pedra outra pedra. Debalde todos os dias repelimos os mortos--todos os
dias os mortos se misturam á nossa vida. E não nos largam.
Eis a villa abjecta, a villa banal onde se praticam todos os dias as
mesmas acções e se repetem todos os dias os mesmos gestos... Aqui só há
um pensamento fundamental: fugir á morte, protestar contra a morte, que
é a mais viva de de todas as realidades, que é talvez a unica realidade.
Protestar, contra as forças desabaladas, pelo sonho, em espirito ou em
pedra, que se erga deante do Destino e desafie o Destino. Atravez da
paciencia e da mentira, todo o esforço do homem tende para outro homem,
para o homem ideal, para a figura de sonho, que há-de sêr um dia a
creação dos vivos e dos mortos--o sonho realisado--o universo realisado.
A vida ideal, a vida artificial, como a do granito, representa a mesma
tentativa da mentira contra a verdade e a obstinação sobrehumana dos
mortos para suprimirem a morte.
A vida em si é o mais profundo de todos os horrores, é o esforço
inconsciente da larva repetindo as mesmas acções instinctivas, que o
destino nos impõe. Tudo que nos rodeia é monstruoso; o que nos rodeia de
negrume vae desabar sobre nós, reclamando dôr, reclamando gritos e
sustentando-se de gritos. Separa-nos um fio. Só com a condição de não
vermos a realidade é que podemos viver. Para a esconder erguemos a
cathedral immensa, reconstruimos o universo todos os dias pelo esforço
dos vivos e das gerações passadas. E toda esta mentira tragica a
levantamos até ao céo a poder de palavras e com a força magnetica das
palavras.
Não só os sentimentos criam palavras, tambem as palavras criam
sentimentos. As palavras formam uma architectura de ferro. São a vida e
quasi toda a nossa vida--a razão e a essencia d'esta barafunda. É com
palavras que construimos o mundo. É com palavras que os mortos se nos
impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na
vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas
palavras? É preciso crear outras, empregar outras, obscuras, terriveis,
em carne viva, que traduzam a colera, o instincto e o espanto.
Mas se tudo são palavras e de palavras nos sustentamos, o que nos resta
afinal? Gritos em frente de gritos, instinctos em frente de instinctos.
Fica a morte á solta e o instincto á solta. Ficam os mortos de pé--a
cohorte que não queriamos vêr, erguida, como o vento ergue a poeira, até
aos confins da vida.
A D. Adelia não existe, o que aqui está vem de muito longe. Está aqui a
paciencia com um chale, a mentira com uma cuia de retroz--estão aqui
espectros. O que aqui está, com o infinito em cima e o infinito em
baixo, são phantasmas. Todos praticam as mesmas acções banaes entre a
vida e a morte, mas eu vejo o riso sem boca e ouço o grito de dôr,
emquanto as mascaras se transformam e a materia se decompõe. Eu vejo o
que ha dentro deste sêr, que não tem limites, o que ha dentro deste sêr
de real e verdadeiro. Cada um assume proporções temerosas. Cahem lá
dentro palavras, sentimentos, sonho--é um poço sem fundo, que vae até á
raiz da vida. Á superficie todos nós nos conhecemos. Depois ha outra
camada, outra depois. Depois um bafo. Ninguem sabe do que é capaz,
ninguem se conhece a si proprio, quanto mais aos outros, e só á
superficie ou lá para muito fundo, é que nos tocamos todos, como as
arvores duma floresta--no céo e no interior da terra. Do mais baixo
ainda veem terrores, ancias, desespero...
Agora o homem existe em toda a sua plenitude. Anda hoje no universo como
andou sempre no universo. Para elle não há passado nem futuro porque
elle é o passado e o futuro. A villa tomou outras proporções e sente-se
n'outras mãos. Quem lhe dera ser insignificante e grotesca! quem lhe
dera não vêr! Para não te aturar vida sôfrega e doirada, tive de me
revestir de casca como as arvores, porque no principio todos fomos
phantasmas. E agora não sou eu quem falo--são elles que falam! O que as
figuras representam vem do fundo dos fundos--o que ellas teem de
transitorio e o que ellas teem de temeroso, desde o homem que não bole
junto das fazendas petrificadas, até á impenetravel D. Ursula, que remoe
entre dentes o pavôr. O que me parecia gelatinoso é uma fôrça immensa,
este habito ridiculo um principio de sonho. A paciencia e a mentira são
aspectos da dôr, e a bisca joga-se entre o pelago e o pelago. Os
penantes usados, as ceremonias grotescas, passam-se entre phantasmas e
phantasmas, n'um ciclone de desespero e gritos. Cada boca fala por
outras bocas, e a D. Penaricia, columna de Israel do fel e vinagre, é
uma figura tremenda. Todos os dramas teem a mesma
assignatura--Shakespeare. As acções veem dos confins dos seculos e o
proprio mal não é um acto individual. O crime é sempre a acção impulsiva
ou premeditada dos mortos. Para praticar um crime é preciso revolver
camadas de phantasmas. Desperta echos adormecidos até não sei que
profundidades. Põe em debate este mundo e o outro mundo, e d'ahi a
fascinação que exerce em todas as almas. A vasa não na jogam só figuras
somiticas: de cada sêr paciente e sordido arranca-se outro sêr
ilimitado. Vejo no escuro as outras figuras atentas sobre o jogo...
Estão aqui as velhas amarradas por quinhentos annos á mesma mesa da
bisca. Está a inveja, e a inveja esverdeada torce-se sob o olhar da
magestosa Theodora. Está a paciencia, e a paciencia sorri deante da
magestosa Theodora. Está aqui a mesa de jogo projectada no infinito, com
sêres que se não podem vêr, e que hão-de cohabitar acorrentados por
quinhentos annos. Ha ocasiões em que vomitam as peores injurias; ás
vezes torcem-se e soltam ais sobre ais represos.--Jogo!--E a bisca segue
pela eternidade fora.--Corto!--Tambem eu atravessei o inferno e tenho
saudades do inferno!--E a magestosa Theodora parece calcinada pelo fogo
do inferno. É o momento decisivo, quando, de pé, em roda da mesa, onde
fôram insignificantes, se vêem umas ás outras. Peor momento é quando a
si proprias se vêem, quando se chocam como ferros, e seus olhos adquirem
tal percepção que não são só ellas que olham, quando ao espanto se junta
espanto e não são só ellas que falam, mas muitas outras vozes, e não só
as suas figuras gesticulam mas muitas outras figuras. Um momento, um
seculo, e eil-as até aos confins. Todas as bôccas prégam de cada vez
mais fundo...
Cada bocca se abre no escuro como se fosse o abismo; as boccas falam por
muitas boccas que não tem nada de humanas e que moem e remoem com
escarneo e baba; por boccas franzidas só pelle e espuma; por boccas sem
dentes; por boccas ascorosas que tentam ser boccas e que escorrem
veneno; por boccas que se desesperam de ser boccas, para se fazerem
ouvir.
E o candieiro escorre o mesmo petroleo sobre ellas e sobre as figuras
invisiveis que arfam de desespero até á raiz da vida...
N'esse instante vêmos todos os sêres extraordinarios que não tinham
entrada no mundo; n'esse instante toda a villa está de pé, a villa
tragica, com os vivos e os mortos e o drama profundo das almas que toca
no céo e no inferno. Eis a villa como não torna a aparecer outra na
terra, e que dura um minuto e um seculo. Cada figura escorre dôr, não só
a dôr propria, mas a do tumulo, cada figura é um sêr d'espanto. Até tu,
no relampago antes de te curvares sobre a meia que já tem vinte metros
de comprido, ó prima Angelica, ó figura tremenda de inepcia, que tambem
achaste sabôr á vida e logo te fechaste com elle na escuridão cerrada da
idiotia--até tu, pela maneira como apertaste a mandibula, pelo olhar que
se fitou no meu olhar e veio da espessura dos seculos, descobriste não
sei que mar nunca d'antes navegado, não sei que dôr transida e doirada,
não sei que mysterio que não fala, que não pode falar, mas que está,
real e patente, aqui ao lado e na nossa companhia...
Há--sentimol-o! vêmol-o!--forças que tacteiam para lá e augmentam o
nosso desespero. É talvez Deus que nos quer falar e que não pode, ou que
fala e não o entendemos.
Não são só os grandes fluidos que se entrechocam sobre a villa, há outra
coisa que a todos os momentos nos reclama... E é um milagre que toda
esta architectura--que não existe! que não existe!--se sustente de pé e
no vacuo, baseada em palavras e sons, e que joguemos a bisca de tres na
encrusilhada da vida e da morte. Mais: é um milagre muito maior ainda
que consigamos cerrar os ouvidos á força que bate estonteada á nossa
volta e que faz esforços desesperados para communicar comnosco. Não tem
bocca para falar, mas tenta, n'uma dôr muda, fazer-nos comprehender
algumas noções que transformariam o universo. Ás vezes estamos por um
fio...--perdemo-nos logo n'uma escuridão que tem leguas de distancia.
Bom é cerrarmos os ouvidos. Se chegassemos a entendel-a tudo isto
desaparecia no ar...
Chegamos ao ponto! chegamos ao ponto em que não nos distinguimos na
floresta apodrecida! A vila é immensa, as figuras são immensas, só dôr e
sonho--jacto que vae de polo a polo e onde não existe nem vida nem
morte. Na floresta putrefacta o tempo e o espaço desapareceram: só
existem sêres estranhos e arvores estranhas. O que nós viamos eram
sombras projectadas n'um muro. Mais um passo e todos sahimos doirados
d'este mergulho no sonho--outro passo ainda e só existe uma fôrça
frenetica e immensa, desesperada e immensa...
Agora é que ella anda á solta! agora é que ella anda á solta!