25 de maio

Eis emfim a villa sonho, a villa phantasma. Reparem nas pedras e no que

ellas exprimem, na alvenaria e castanho assentes com outro destino...

Ruas lageadas, recantos onde nunca entrou o sol. Paredes mestras.

Silencio e humidade até á medula, gestos lentos, habitos regrados. Uma

rua desce até á egreja de cantaria lavrada. Um predio enorme avança

sobre a ruella onde os passos echoam. Cresce aqui uma vegetação especial

de sepulchro, e a sombra absorvida pelas muralhas da Sé exhala-se em

bafo passado um seculo. Os alicerces são temerosos, as traves d'uma casa

davam para a construcção d'um bairro. E tudo isto se entranhou de

salitre, de interesse e de odio. Em tudo isto há uma mescla de

inutilidade, de fé e de sonho. Tudo isto está cimentado para seculos.

Cada barrote foi pregado com um destino, cada bloco metido na terra para

se lhe erguer em cima não uma parede, mas uma ideia, uma vida, uma

alma--tudo isto tem uma camada de bolor e se impregnou de desespero. Até

os sepulchros foram construidos para a eternidade. A pedra depois de

talhada, é uma expressão. Entro na cathedral. Silencio e um cheirinho a

floresta apodrecida. As lages estão gastas d'um lado pelos passos dos

vivos, do outro pelo contacto dos mortos. Tudo aqui gira em torno da

mesma ideia... A pedra esboroa-se, mas eu contemplo-a viva, com um povo

de estatuas em cima, com um povo de mortos em baixo. Nos alicerces uma

geração, outra geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra

misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa, a parte

subterranea é mais maravilhosa ainda. É a unica raiz que se conserva

intacta.

Aqui não andam só os vivos--andam tambem os mortos. A villa é povoada

pelos que se agitam n'uma existencia transitoria e baça, e pelos outros

que se impõem como se estivessem vivos. Tudo está ligado e confundido.

Sobre as casas há outra edificação, e uma trave ideal que o caruncho roe

une todas as construcções vulgares. Sob um grito outro grito, sob uma

pedra outra pedra. Debalde todos os dias repelimos os mortos--todos os

dias os mortos se misturam á nossa vida. E não nos largam.

Eis a villa abjecta, a villa banal onde se praticam todos os dias as

mesmas acções e se repetem todos os dias os mesmos gestos... Aqui só há

um pensamento fundamental: fugir á morte, protestar contra a morte, que

é a mais viva de de todas as realidades, que é talvez a unica realidade.

Protestar, contra as forças desabaladas, pelo sonho, em espirito ou em

pedra, que se erga deante do Destino e desafie o Destino. Atravez da

paciencia e da mentira, todo o esforço do homem tende para outro homem,

para o homem ideal, para a figura de sonho, que há-de sêr um dia a

creação dos vivos e dos mortos--o sonho realisado--o universo realisado.

A vida ideal, a vida artificial, como a do granito, representa a mesma

tentativa da mentira contra a verdade e a obstinação sobrehumana dos

mortos para suprimirem a morte.

A vida em si é o mais profundo de todos os horrores, é o esforço

inconsciente da larva repetindo as mesmas acções instinctivas, que o

destino nos impõe. Tudo que nos rodeia é monstruoso; o que nos rodeia de

negrume vae desabar sobre nós, reclamando dôr, reclamando gritos e

sustentando-se de gritos. Separa-nos um fio. Só com a condição de não

vermos a realidade é que podemos viver. Para a esconder erguemos a

cathedral immensa, reconstruimos o universo todos os dias pelo esforço

dos vivos e das gerações passadas. E toda esta mentira tragica a

levantamos até ao céo a poder de palavras e com a força magnetica das

palavras.

Não só os sentimentos criam palavras, tambem as palavras criam

sentimentos. As palavras formam uma architectura de ferro. São a vida e

quasi toda a nossa vida--a razão e a essencia d'esta barafunda. É com

palavras que construimos o mundo. É com palavras que os mortos se nos

impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na

vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas

palavras? É preciso crear outras, empregar outras, obscuras, terriveis,

em carne viva, que traduzam a colera, o instincto e o espanto.

Mas se tudo são palavras e de palavras nos sustentamos, o que nos resta

afinal? Gritos em frente de gritos, instinctos em frente de instinctos.

Fica a morte á solta e o instincto á solta. Ficam os mortos de pé--a

cohorte que não queriamos vêr, erguida, como o vento ergue a poeira, até

aos confins da vida.

A D. Adelia não existe, o que aqui está vem de muito longe. Está aqui a

paciencia com um chale, a mentira com uma cuia de retroz--estão aqui

espectros. O que aqui está, com o infinito em cima e o infinito em

baixo, são phantasmas. Todos praticam as mesmas acções banaes entre a

vida e a morte, mas eu vejo o riso sem boca e ouço o grito de dôr,

emquanto as mascaras se transformam e a materia se decompõe. Eu vejo o

que ha dentro deste sêr, que não tem limites, o que ha dentro deste sêr

de real e verdadeiro. Cada um assume proporções temerosas. Cahem lá

dentro palavras, sentimentos, sonho--é um poço sem fundo, que vae até á

raiz da vida. Á superficie todos nós nos conhecemos. Depois ha outra

camada, outra depois. Depois um bafo. Ninguem sabe do que é capaz,

ninguem se conhece a si proprio, quanto mais aos outros, e só á

superficie ou lá para muito fundo, é que nos tocamos todos, como as

arvores duma floresta--no céo e no interior da terra. Do mais baixo

ainda veem terrores, ancias, desespero...

Agora o homem existe em toda a sua plenitude. Anda hoje no universo como

andou sempre no universo. Para elle não há passado nem futuro porque

elle é o passado e o futuro. A villa tomou outras proporções e sente-se

n'outras mãos. Quem lhe dera ser insignificante e grotesca! quem lhe

dera não vêr! Para não te aturar vida sôfrega e doirada, tive de me

revestir de casca como as arvores, porque no principio todos fomos

phantasmas. E agora não sou eu quem falo--são elles que falam! O que as

figuras representam vem do fundo dos fundos--o que ellas teem de

transitorio e o que ellas teem de temeroso, desde o homem que não bole

junto das fazendas petrificadas, até á impenetravel D. Ursula, que remoe

entre dentes o pavôr. O que me parecia gelatinoso é uma fôrça immensa,

este habito ridiculo um principio de sonho. A paciencia e a mentira são

aspectos da dôr, e a bisca joga-se entre o pelago e o pelago. Os

penantes usados, as ceremonias grotescas, passam-se entre phantasmas e

phantasmas, n'um ciclone de desespero e gritos. Cada boca fala por

outras bocas, e a D. Penaricia, columna de Israel do fel e vinagre, é

uma figura tremenda. Todos os dramas teem a mesma

assignatura--Shakespeare. As acções veem dos confins dos seculos e o

proprio mal não é um acto individual. O crime é sempre a acção impulsiva

ou premeditada dos mortos. Para praticar um crime é preciso revolver

camadas de phantasmas. Desperta echos adormecidos até não sei que

profundidades. Põe em debate este mundo e o outro mundo, e d'ahi a

fascinação que exerce em todas as almas. A vasa não na jogam só figuras

somiticas: de cada sêr paciente e sordido arranca-se outro sêr

ilimitado. Vejo no escuro as outras figuras atentas sobre o jogo...

Estão aqui as velhas amarradas por quinhentos annos á mesma mesa da

bisca. Está a inveja, e a inveja esverdeada torce-se sob o olhar da

magestosa Theodora. Está a paciencia, e a paciencia sorri deante da

magestosa Theodora. Está aqui a mesa de jogo projectada no infinito, com

sêres que se não podem vêr, e que hão-de cohabitar acorrentados por

quinhentos annos. Ha ocasiões em que vomitam as peores injurias; ás

vezes torcem-se e soltam ais sobre ais represos.--Jogo!--E a bisca segue

pela eternidade fora.--Corto!--Tambem eu atravessei o inferno e tenho

saudades do inferno!--E a magestosa Theodora parece calcinada pelo fogo

do inferno. É o momento decisivo, quando, de pé, em roda da mesa, onde

fôram insignificantes, se vêem umas ás outras. Peor momento é quando a

si proprias se vêem, quando se chocam como ferros, e seus olhos adquirem

tal percepção que não são só ellas que olham, quando ao espanto se junta

espanto e não são só ellas que falam, mas muitas outras vozes, e não só

as suas figuras gesticulam mas muitas outras figuras. Um momento, um

seculo, e eil-as até aos confins. Todas as bôccas prégam de cada vez

mais fundo...

Cada bocca se abre no escuro como se fosse o abismo; as boccas falam por

muitas boccas que não tem nada de humanas e que moem e remoem com

escarneo e baba; por boccas franzidas só pelle e espuma; por boccas sem

dentes; por boccas ascorosas que tentam ser boccas e que escorrem

veneno; por boccas que se desesperam de ser boccas, para se fazerem

ouvir.

E o candieiro escorre o mesmo petroleo sobre ellas e sobre as figuras

invisiveis que arfam de desespero até á raiz da vida...

N'esse instante vêmos todos os sêres extraordinarios que não tinham

entrada no mundo; n'esse instante toda a villa está de pé, a villa

tragica, com os vivos e os mortos e o drama profundo das almas que toca

no céo e no inferno. Eis a villa como não torna a aparecer outra na

terra, e que dura um minuto e um seculo. Cada figura escorre dôr, não só

a dôr propria, mas a do tumulo, cada figura é um sêr d'espanto. Até tu,

no relampago antes de te curvares sobre a meia que já tem vinte metros

de comprido, ó prima Angelica, ó figura tremenda de inepcia, que tambem

achaste sabôr á vida e logo te fechaste com elle na escuridão cerrada da

idiotia--até tu, pela maneira como apertaste a mandibula, pelo olhar que

se fitou no meu olhar e veio da espessura dos seculos, descobriste não

sei que mar nunca d'antes navegado, não sei que dôr transida e doirada,

não sei que mysterio que não fala, que não pode falar, mas que está,

real e patente, aqui ao lado e na nossa companhia...

Há--sentimol-o! vêmol-o!--forças que tacteiam para lá e augmentam o

nosso desespero. É talvez Deus que nos quer falar e que não pode, ou que

fala e não o entendemos.

Não são só os grandes fluidos que se entrechocam sobre a villa, há outra

coisa que a todos os momentos nos reclama... E é um milagre que toda

esta architectura--que não existe! que não existe!--se sustente de pé e

no vacuo, baseada em palavras e sons, e que joguemos a bisca de tres na

encrusilhada da vida e da morte. Mais: é um milagre muito maior ainda

que consigamos cerrar os ouvidos á força que bate estonteada á nossa

volta e que faz esforços desesperados para communicar comnosco. Não tem

bocca para falar, mas tenta, n'uma dôr muda, fazer-nos comprehender

algumas noções que transformariam o universo. Ás vezes estamos por um

fio...--perdemo-nos logo n'uma escuridão que tem leguas de distancia.

Bom é cerrarmos os ouvidos. Se chegassemos a entendel-a tudo isto

desaparecia no ar...

Chegamos ao ponto! chegamos ao ponto em que não nos distinguimos na

floresta apodrecida! A vila é immensa, as figuras são immensas, só dôr e

sonho--jacto que vae de polo a polo e onde não existe nem vida nem

morte. Na floresta putrefacta o tempo e o espaço desapareceram: só

existem sêres estranhos e arvores estranhas. O que nós viamos eram

sombras projectadas n'um muro. Mais um passo e todos sahimos doirados

d'este mergulho no sonho--outro passo ainda e só existe uma fôrça

frenetica e immensa, desesperada e immensa...

Agora é que ella anda á solta! agora é que ella anda á solta!

Humus · 第 67 / 83 题