20 de maio

Toda a villa, a villa toda, a que a luz artificial dava relevo, desata a

gritar como se lhe arrancassem a pelle. Gritam as velhas, grita o Santo

em frente da sombra que se lhe introduziu na vida. Grita a paciencia e a

mentira, grita a hipocrisia. Desapareceram as figuras e só ficam gritos

na noite. Outro passo--outro grito. É a custo que me separo d'este sêr

com quem cohabitei sempre. O escarneo está aqui; está aqui o escarneo e

o rancor. Gritam no mundo subvertido. Mais gritos. Que dever? O dever de

te matar? O dever de te cuspir? Matal-a, mas matal-a é até um caso de

consciencia, para que a minha vida seja a minha vida.--E os gritos

augmentam--gritos de dôr, gritos d'espanto, gritos sufocados de colera,

mais gritos de sêres que se não querem separar da antiga carcassa.

Tudo isto caminhava para um fim, tudo foi desviado ao mesmo tempo d'esse

fim; tudo isto se alimentava de certas regras, tudo avança desesperado,

aos gritos, ancioso e doloroso:--Pois és tu! és tu! E o interesse és tu!

e o amor és tu!--O desespero augmenta, os gritos redobram. As creaturas

com que deparo são temerosas. Uns desatam a rir com rancor e sarcasmos

sobre sarcasmos. Há-os que se reduzem a baba e a pó.--O quê, tudo isto

era tão pequeno! Pois passei metade da existencia, annos atraz do annos,

ao lado d'esta coisa feroz e esplendida, absorto em ninharia! E nunca

dei pelo assombro, pela vertigem! Atrevo-me a matar, atrevo-me a odiar,

atrevo-me a escarnecer-te...--Mas então--pergunto--eu fui o homem

escrupuloso, eu fui o homem honesto que luctei toda a vida com os maus

instinctos, n'um combate perpetuo--para isto? Pergunto--para isto? Alli

aquella desata aos berros e sêres caminham transfigurados; sêres que

nunca sonharam, materia impenetravel, deparam pela primeira vez com o

sonho, o que os deixa atonitos. Ninguem pode encarar-se até ao fundo. A

tua meticulosidade é de ferro, está de tal maneira entranhada no teu sêr

que sem ella não existes. Pois até a tua meticulosidade se há-de

dissolver. E tu sem o habito não existes, nem tu sem o dever, nem tu sem

a consciencia. A D. Ursula que passou a vida a esfregar, a polir, a

limpar os moveis reluzentes, deita-os todos a esmo do terceiro andar á

rua.--Adoro-a mas não posso separar o interesse do amôr--não posso

separal-os. Está dito e redito. No fundo do meu pensamento, bem no fundo

de meu horrivel pensamento, uma outra ideia lucta, avança e não a posso

arredar. Estraga-me a vida toda.--O mundo moral está com escriptos e

reduz-se a uma loja escura, com teias de aranha no tecto.

Vemo-nos! vemo-nos que é o peor! Porque na verdade eu nunca me tinha

visto n'esta horrivel nudez sem arrepanhar á pressa os vestidos. Eu

metia-me medo. E agora vemo-nos! vemo-nos! Todos os sêres são temerosos.

Mesmo grotescos são tragicos. Há n'este trapo que creaste, n'esta corôa

de lata que foi a tua vida, não sei o quê que sua espanto. E dôr! e dôr

na tua duvida ridicula, no vislumbre, no minuto de sonho que entrevi nos

teus olhos. Este momento tragico, esta pausa, este horror em que cada um

se vê na sua essencia, em que cada sêr se encontra sós a sós com a sua

propria alma, reduzido sem artificios á sua propria alma, só tem outro a

que se compare, aquelle em que cada um vê a alma dos outros. Porque, por

melhor ou peor que tenhamos julgado os outros, vimol-os sempre atravez

de nós mesmos.

O que ahi está é temeroso, sêres estranhos; sêres que, se dão mais um

passo, nem eu nem tu podemos encarar com elles. Andam aqui interesses--e

outra coisa. Com mil palavras diversas e ignobeis, mil boccas que te

empurram para a infamia--outra coisa. Tens de confessal-o. Não é a

consciencia--não é o remorso--não é o medo. É uma coisa inexplicavel e

immensa, profunda e immensa, que assiste a este espectaculo sem dizer

palavra--e espera... És immundo, és a vida. Não te sei definir, não te

comprehendo. Se te levo até ao ultimo extremo perco o pé... Não sei até

onde vae o meu horrivel pensamento. Até aqui tinha limites, agora nem o

meu pensamento nem o teu encontram limites. Matar ou deixar de matar é

tudo a mesma coisa. É tudo inutil. Agora não! agora não me quero ver nem

te quero ver! Estamos no céo; e no inferno, D. Idalina e a langonha.

Estamos no céo e no inferno, Anacleto, e tu ainda te enroscas na tua

inalteravel correcção. Não te desmanches! Estamos emfim todos no céo e

no inferno, e todos á uma percebemos que a vida foi inutil. É com gritos

que a D. Leocadia reconhece que o escrupulo não existe; é com espanto

que ella percebe que o bem que fez foi inutil; é com horror que a D.

Leocadia comprehende que só lhe resta o vacuo. A inteiriça D. Leocadia

berra no infinito, depois de se desfazer de todos os sentimentos

falsos:--Mas eu cumpri sempre o meu dever!--Há-de-te servir de muito!--E

aqui te encontras diante desta coisa que não foi feita para ti, aqui

estás tu atirada de repente para uma acção sem limites, com os cabelos

em pé,--tu D. Leocadia e o infinito; tu D. Leocadia que moravas entre

quatro paredes a rever salitre, e agora tens de morar no céo e no

inferno. O drama é tu, D. Leocadia, não te poderes desfazer da outra D.

Leocadia; o drama supremo é tu seres ao mesmo tempo, D. Leocadia

29-3.^o-D e D. Leocadia Infinito.--Reduzi-me a isto e reduzi-a a isto!

Cheguei ao ponto! cheguei ao ponto! Cheguei ao ponto em que te vejo cara

a cara e percebo que tudo é absurdo e inutil! Talvez o meu dever fosse

fazer o mal. Atraz de mim, atraz de ti, andavam duas figuras, que, por

mais esforços que fizessem, nunca se chegaram a entender!--A tua vida, a

minha vida, foi um perpetuo inferno. Tiveste um filho e apegaste-te mais

ao teu dever que ao teu filho. Dedicaste-lhe as tuas economias. Por o

dever esqueceste interesses e paixões, e na tua alma solitaria só coube

o exaspero e o dever. Mais nada. E á medida que a vida te inutilisou as

ambições e te gastou os sonhos, mais te apegaste a essa palavra, que foi

a unica razão da tua existencia. Tambem eu! tambem eu! Fechaste-te com

ella no silencio gelido da villa, onde, nas noites sem fim, se chegava a

ouvir o contacto das aranhas devorando-se com volupia no fundo dos

saguões. Todos os dias pezaste o pão que lhe déste, mas déste-lho. E,

tendo perdido tudo, só o dever te restou no mundo--e a orfã, a quem já

não consegues reconhecer as feições. A mesma coisa nos dilacerou a

ambos, a mesma coisa dolorosa nos encheu de colera, á medida que

caminhavamos para a velhice e para a morte. E aqui chegaste, aqui

cheguei, ambos ridiculos e amargos, sahindo d'uma lucta desesperada com

outra coisa que nunca quizemos vêr. Ambos grotescos e de pé, tu e eu, eu

e tu, com o teu broche, onde o mesmo sujeito de suissas--lembrança do

primeiro matrimonio!--não tira de mim os olhos aguados de peixe. Ambos

tendo atravessado n'uma taboa o mais tragico de todos os mares, e no

fundo a mesma dôr, no fundo o mesmo fél, no fundo o mesmo esforço para

sustentarmos sobre a cabeça esta abobada que não existe. O que não

queriamos vêr era a noite...--Vontade tinha eu de fazer o mal, o que me

não atrevia era a fazel-o.--Oh D. Leocadia dá um passo, outro passo

ainda e mergulhas na beatitude como quem cumpre um destino.--Cessou o

debate.--Não fales mais, D. Leocadia. Está tudo dito...

A figura que ahi vem mastiga em secco, com uma camada de verde e outra

camada de sonho. A figura que ahi vem, d'um egoismo concentrado, e a que

adherem ainda os mil e um nadas da sua existencia anterior de molusco,

avança hirta para mim, inteiriça como uma barra de ferro. Ainda cheira a

môfo, mas os olhos entranham-se-lhe n'um vasto panorama inexplorado. Vê

para dentro, cada vez mais sofrega e o seu sonho não tem limites. O mal

não tem limites. Tem diante de si mil annos e um dia para essa absorpção

dolorosa e tragica. Abarca o mundo. Ó D. Leocadia agora é que tu

chegaste ao amago! É um conflicto entre ti e os outros mortos, uma lucta

num tablado que abrange o universo. D'ahi o seu prestigio--d'ahi o

immenso scenario que se desdobra deante da D. Leocadia absorta n'esse

panorama sem limites...

Só há no céo e no inferno outro espectro peor. É este sêr sem nome,

pedra e desespero, noite e desespero, que se imobilisa na inutilidade de

todos os esforços.

Todos gritam de desespero no céo e no inferno. Confundem-se mil boccas,

as coisas mais altas e as coisas mais reles. Aqui está a villa toda,

virada do avesso, os ridiculos sem vergonha do ridiculo e os infames

lambendo a infamia. Aqui está a ilusão--e aqui está em pello a D.

Possidonia, que ainda conserva na cabeça o chapeu de plumas. Aqui está a

ordem e aqui está a desordem, as palavras inuteis e a inutil burandanga,

toda a formula, todo o calvario da vida para subir até a morte--e aqui

nos vemos uns aos outros tal qual somos, admiraveis, obscenos, reles,

todos da mesma lama e com as mesmas chagas.--Eras tu força estupida e

cega que me enchias de ilusão para poder suportar a vida? Eras tu o

interesse, eras tu o amôr?... Aqui estão d'uma banda as formulas (e só

agora comprehendo a sua necessidade) aqui está do outro lado a vida;

aqui está o que se chamava a honra, e o que se chamava o dever. Ó amigos

eis aqui todo o nosso grotesco, todas as nossas ambições, todas as

nossas vaidades--e com ellas o absurdo e a logica. E eis aqui o meu

drama e o teu drama. Os grandes desmoronamentos, a colera duns e o

terror dos outros. Eis aqui o céo e o inferno, o maximo de ilusões e a

ausencia completa de ilusões. Aqui as vaias, o sarcasmo, os apupos, os

grandes insultos e a suprema mixordia. Desmoronou-se tudo, todas as

fachadas e todos os artificios. Gritos, mais gritos, mais sarcasmos e

insultos.--Como eu te reconheço! e a ti! e a ti!--E a ti que és a figura

silenciosa que há tanto tempo me persegues, calada e triste, o que eras

a peor. Tu que curvas a cabeça, sem nunca te pronunciares, tu que sofres

quando eu sofro, que te envolves em silencio quando persisto n'este

caminho doloroso--como te reconheço!--Dá gritos! podes gritar á tua

vontade!

Agora estou nu e toda a mentira me é impossivel; agora estou nu e todas

as palavras são inuteis; agora estou nu deante da immensidade e não

posso ao mesmo tempo com o céo e o inferno. Agora é peor, agora tanto

faz resistir um dia como um seculo. Agora é peor: não nos podemos ver.

Como dois amigos que se encontram passados muitos annos, perdemos todos

os pontos de contacto. Estamos aqui a representar: a verdade é que não

nos podemos ver. Eis-nos bichos em frente de bichos.

Humus · 第 66 / 83 题