Toda a villa, a villa toda, a que a luz artificial dava relevo, desata a
gritar como se lhe arrancassem a pelle. Gritam as velhas, grita o Santo
em frente da sombra que se lhe introduziu na vida. Grita a paciencia e a
mentira, grita a hipocrisia. Desapareceram as figuras e só ficam gritos
na noite. Outro passo--outro grito. É a custo que me separo d'este sêr
com quem cohabitei sempre. O escarneo está aqui; está aqui o escarneo e
o rancor. Gritam no mundo subvertido. Mais gritos. Que dever? O dever de
te matar? O dever de te cuspir? Matal-a, mas matal-a é até um caso de
consciencia, para que a minha vida seja a minha vida.--E os gritos
augmentam--gritos de dôr, gritos d'espanto, gritos sufocados de colera,
mais gritos de sêres que se não querem separar da antiga carcassa.
Tudo isto caminhava para um fim, tudo foi desviado ao mesmo tempo d'esse
fim; tudo isto se alimentava de certas regras, tudo avança desesperado,
aos gritos, ancioso e doloroso:--Pois és tu! és tu! E o interesse és tu!
e o amor és tu!--O desespero augmenta, os gritos redobram. As creaturas
com que deparo são temerosas. Uns desatam a rir com rancor e sarcasmos
sobre sarcasmos. Há-os que se reduzem a baba e a pó.--O quê, tudo isto
era tão pequeno! Pois passei metade da existencia, annos atraz do annos,
ao lado d'esta coisa feroz e esplendida, absorto em ninharia! E nunca
dei pelo assombro, pela vertigem! Atrevo-me a matar, atrevo-me a odiar,
atrevo-me a escarnecer-te...--Mas então--pergunto--eu fui o homem
escrupuloso, eu fui o homem honesto que luctei toda a vida com os maus
instinctos, n'um combate perpetuo--para isto? Pergunto--para isto? Alli
aquella desata aos berros e sêres caminham transfigurados; sêres que
nunca sonharam, materia impenetravel, deparam pela primeira vez com o
sonho, o que os deixa atonitos. Ninguem pode encarar-se até ao fundo. A
tua meticulosidade é de ferro, está de tal maneira entranhada no teu sêr
que sem ella não existes. Pois até a tua meticulosidade se há-de
dissolver. E tu sem o habito não existes, nem tu sem o dever, nem tu sem
a consciencia. A D. Ursula que passou a vida a esfregar, a polir, a
limpar os moveis reluzentes, deita-os todos a esmo do terceiro andar á
rua.--Adoro-a mas não posso separar o interesse do amôr--não posso
separal-os. Está dito e redito. No fundo do meu pensamento, bem no fundo
de meu horrivel pensamento, uma outra ideia lucta, avança e não a posso
arredar. Estraga-me a vida toda.--O mundo moral está com escriptos e
reduz-se a uma loja escura, com teias de aranha no tecto.
Vemo-nos! vemo-nos que é o peor! Porque na verdade eu nunca me tinha
visto n'esta horrivel nudez sem arrepanhar á pressa os vestidos. Eu
metia-me medo. E agora vemo-nos! vemo-nos! Todos os sêres são temerosos.
Mesmo grotescos são tragicos. Há n'este trapo que creaste, n'esta corôa
de lata que foi a tua vida, não sei o quê que sua espanto. E dôr! e dôr
na tua duvida ridicula, no vislumbre, no minuto de sonho que entrevi nos
teus olhos. Este momento tragico, esta pausa, este horror em que cada um
se vê na sua essencia, em que cada sêr se encontra sós a sós com a sua
propria alma, reduzido sem artificios á sua propria alma, só tem outro a
que se compare, aquelle em que cada um vê a alma dos outros. Porque, por
melhor ou peor que tenhamos julgado os outros, vimol-os sempre atravez
de nós mesmos.
O que ahi está é temeroso, sêres estranhos; sêres que, se dão mais um
passo, nem eu nem tu podemos encarar com elles. Andam aqui interesses--e
outra coisa. Com mil palavras diversas e ignobeis, mil boccas que te
empurram para a infamia--outra coisa. Tens de confessal-o. Não é a
consciencia--não é o remorso--não é o medo. É uma coisa inexplicavel e
immensa, profunda e immensa, que assiste a este espectaculo sem dizer
palavra--e espera... És immundo, és a vida. Não te sei definir, não te
comprehendo. Se te levo até ao ultimo extremo perco o pé... Não sei até
onde vae o meu horrivel pensamento. Até aqui tinha limites, agora nem o
meu pensamento nem o teu encontram limites. Matar ou deixar de matar é
tudo a mesma coisa. É tudo inutil. Agora não! agora não me quero ver nem
te quero ver! Estamos no céo; e no inferno, D. Idalina e a langonha.
Estamos no céo e no inferno, Anacleto, e tu ainda te enroscas na tua
inalteravel correcção. Não te desmanches! Estamos emfim todos no céo e
no inferno, e todos á uma percebemos que a vida foi inutil. É com gritos
que a D. Leocadia reconhece que o escrupulo não existe; é com espanto
que ella percebe que o bem que fez foi inutil; é com horror que a D.
Leocadia comprehende que só lhe resta o vacuo. A inteiriça D. Leocadia
berra no infinito, depois de se desfazer de todos os sentimentos
falsos:--Mas eu cumpri sempre o meu dever!--Há-de-te servir de muito!--E
aqui te encontras diante desta coisa que não foi feita para ti, aqui
estás tu atirada de repente para uma acção sem limites, com os cabelos
em pé,--tu D. Leocadia e o infinito; tu D. Leocadia que moravas entre
quatro paredes a rever salitre, e agora tens de morar no céo e no
inferno. O drama é tu, D. Leocadia, não te poderes desfazer da outra D.
Leocadia; o drama supremo é tu seres ao mesmo tempo, D. Leocadia
29-3.^o-D e D. Leocadia Infinito.--Reduzi-me a isto e reduzi-a a isto!
Cheguei ao ponto! cheguei ao ponto! Cheguei ao ponto em que te vejo cara
a cara e percebo que tudo é absurdo e inutil! Talvez o meu dever fosse
fazer o mal. Atraz de mim, atraz de ti, andavam duas figuras, que, por
mais esforços que fizessem, nunca se chegaram a entender!--A tua vida, a
minha vida, foi um perpetuo inferno. Tiveste um filho e apegaste-te mais
ao teu dever que ao teu filho. Dedicaste-lhe as tuas economias. Por o
dever esqueceste interesses e paixões, e na tua alma solitaria só coube
o exaspero e o dever. Mais nada. E á medida que a vida te inutilisou as
ambições e te gastou os sonhos, mais te apegaste a essa palavra, que foi
a unica razão da tua existencia. Tambem eu! tambem eu! Fechaste-te com
ella no silencio gelido da villa, onde, nas noites sem fim, se chegava a
ouvir o contacto das aranhas devorando-se com volupia no fundo dos
saguões. Todos os dias pezaste o pão que lhe déste, mas déste-lho. E,
tendo perdido tudo, só o dever te restou no mundo--e a orfã, a quem já
não consegues reconhecer as feições. A mesma coisa nos dilacerou a
ambos, a mesma coisa dolorosa nos encheu de colera, á medida que
caminhavamos para a velhice e para a morte. E aqui chegaste, aqui
cheguei, ambos ridiculos e amargos, sahindo d'uma lucta desesperada com
outra coisa que nunca quizemos vêr. Ambos grotescos e de pé, tu e eu, eu
e tu, com o teu broche, onde o mesmo sujeito de suissas--lembrança do
primeiro matrimonio!--não tira de mim os olhos aguados de peixe. Ambos
tendo atravessado n'uma taboa o mais tragico de todos os mares, e no
fundo a mesma dôr, no fundo o mesmo fél, no fundo o mesmo esforço para
sustentarmos sobre a cabeça esta abobada que não existe. O que não
queriamos vêr era a noite...--Vontade tinha eu de fazer o mal, o que me
não atrevia era a fazel-o.--Oh D. Leocadia dá um passo, outro passo
ainda e mergulhas na beatitude como quem cumpre um destino.--Cessou o
debate.--Não fales mais, D. Leocadia. Está tudo dito...
A figura que ahi vem mastiga em secco, com uma camada de verde e outra
camada de sonho. A figura que ahi vem, d'um egoismo concentrado, e a que
adherem ainda os mil e um nadas da sua existencia anterior de molusco,
avança hirta para mim, inteiriça como uma barra de ferro. Ainda cheira a
môfo, mas os olhos entranham-se-lhe n'um vasto panorama inexplorado. Vê
para dentro, cada vez mais sofrega e o seu sonho não tem limites. O mal
não tem limites. Tem diante de si mil annos e um dia para essa absorpção
dolorosa e tragica. Abarca o mundo. Ó D. Leocadia agora é que tu
chegaste ao amago! É um conflicto entre ti e os outros mortos, uma lucta
num tablado que abrange o universo. D'ahi o seu prestigio--d'ahi o
immenso scenario que se desdobra deante da D. Leocadia absorta n'esse
panorama sem limites...
Só há no céo e no inferno outro espectro peor. É este sêr sem nome,
pedra e desespero, noite e desespero, que se imobilisa na inutilidade de
todos os esforços.
Todos gritam de desespero no céo e no inferno. Confundem-se mil boccas,
as coisas mais altas e as coisas mais reles. Aqui está a villa toda,
virada do avesso, os ridiculos sem vergonha do ridiculo e os infames
lambendo a infamia. Aqui está a ilusão--e aqui está em pello a D.
Possidonia, que ainda conserva na cabeça o chapeu de plumas. Aqui está a
ordem e aqui está a desordem, as palavras inuteis e a inutil burandanga,
toda a formula, todo o calvario da vida para subir até a morte--e aqui
nos vemos uns aos outros tal qual somos, admiraveis, obscenos, reles,
todos da mesma lama e com as mesmas chagas.--Eras tu força estupida e
cega que me enchias de ilusão para poder suportar a vida? Eras tu o
interesse, eras tu o amôr?... Aqui estão d'uma banda as formulas (e só
agora comprehendo a sua necessidade) aqui está do outro lado a vida;
aqui está o que se chamava a honra, e o que se chamava o dever. Ó amigos
eis aqui todo o nosso grotesco, todas as nossas ambições, todas as
nossas vaidades--e com ellas o absurdo e a logica. E eis aqui o meu
drama e o teu drama. Os grandes desmoronamentos, a colera duns e o
terror dos outros. Eis aqui o céo e o inferno, o maximo de ilusões e a
ausencia completa de ilusões. Aqui as vaias, o sarcasmo, os apupos, os
grandes insultos e a suprema mixordia. Desmoronou-se tudo, todas as
fachadas e todos os artificios. Gritos, mais gritos, mais sarcasmos e
insultos.--Como eu te reconheço! e a ti! e a ti!--E a ti que és a figura
silenciosa que há tanto tempo me persegues, calada e triste, o que eras
a peor. Tu que curvas a cabeça, sem nunca te pronunciares, tu que sofres
quando eu sofro, que te envolves em silencio quando persisto n'este
caminho doloroso--como te reconheço!--Dá gritos! podes gritar á tua
vontade!
Agora estou nu e toda a mentira me é impossivel; agora estou nu e todas
as palavras são inuteis; agora estou nu deante da immensidade e não
posso ao mesmo tempo com o céo e o inferno. Agora é peor, agora tanto
faz resistir um dia como um seculo. Agora é peor: não nos podemos ver.
Como dois amigos que se encontram passados muitos annos, perdemos todos
os pontos de contacto. Estamos aqui a representar: a verdade é que não
nos podemos ver. Eis-nos bichos em frente de bichos.