A vida tem dois periodos: o do entontecimento, o da saudade. Não sei
qual é melhor. Talvez aquelle em que se ouvem os passos da morte, mais
perto! mais perto! O frio da morte dá á vida um encanto superior e um
prestigio maior.
Deixem-me! deixem-me! Deixem-me só com isto, deixem-me viver para isto.
Deixem-me fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridiculo,
que não existe e é a razão da minha vida. Deixem-me ir para a cóva
agarrado a este nada immenso, que me doirou as mãos e me deixou atonito.
Só no fundo da cóva é que estou bem, sós a sós, fechado com elle para
sempre.
Se o sentimento de belleza é a unica coisa humana que não nos engana--se
só a isto ficamos reduzidos--como não prever outra belleza maior?
De sobresalto em sobresalto, de assombro em assombro, de vulgaridade em
vulgaridade e de contradição em contradição, assim vim até ao fim. Não
consigo desprender-me de um, nem libertar-me do outro.
Atraz d'este assombro há outro assombro--e depois outro assombro ainda.
Qual é a minha experiencia da vida? Nenhuma. Qual é a lei que extraes da
vida? Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre
assumindo maiores proporções, que sinto desabar no silencio, mais
doirada e phrenetica que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos
valor, e a coisas a que não damos valor. E entretanto ao nosso lado
passa o tropel magico, desesperado e cahotico. Alli fóra desabam os
seculos e a torrente misteriosa que leva comsigo estrellas em vez de
calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito,
levando comsigo a alma, o universo, o logico e o ilogico, o absurdo e
Deus.
Uma vida resume-se em duas linhas, synthetisa-se em dois ou tres factos.
Se a vida fosse só isso não valia a pena vivel-a. A vida é muito maior
pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que
conhecemos. Se nos contentamos com a superficie, não há nada mais
estupido--se nos quedamos a contemplal-a faz tonturas. É por isso que eu
teimo que a Morte não tem só cinco lettras, mas o mais bello, o mais
tremendo, o mais profundo dos misterios. Prepara-te.
O problema capital da vida é o problema da morte. Elle resolve tudo. Não
há factos isolados; não há acontecimento no universo que não gere outro
acontecimento. O inconsciente não pode criar o consciente. É impossivel
dar um passo a que não succeda outro passo. A vida gera a morte--a morte
gera a vida. Mas que vida?
Sou nada diante do universo. Mas teimo, mas discuto comigo e comtigo, ó
espanto, mas defronto-me com o enigma, encarniço-me e saio d'aqui
esfarrapado, despedaçado--mas teimo e hei-de vencer-te. Não quero morrer
de vez. Não quero perder a consciencia do universo nem a sensibilidade
do universo. Eu sou o nada, tu és o infinito--hei-de por força
vencer-te!
E no entanto sinto-me tocado de hesitação e de duvida. Do que tenho
saudades é d'esta vida. Ao que eu aspiro é a esta vida. O gesto que o
moribundo faz ao arrepanhar o lençol é um gesto de naufrago.
D'um lado a materia, do outro o espirito. D'um lado consciencia, debate,
lucta, do outro a impassibilidade, a fatalidade inexoravel. Nenhum grito
a perturba. D'um lado a vida gasta n'um segundo, do outro a successão
ininterrupta dos seculos, indiferente e eterna. Como acaso é atroz, a
não ser que outra coisa nos espere.
Se não nos detivessemos com palavras, se avançassemos todos ao mesmo
tempo, esquecendo o que é inutil, para esta coisa que nos devora,
subjugavamol-a. Conquistavamol-a por uma vez, por maior que ella fosse.
Mas nenhum de nós se atreve e passamos a vida a fingir que não existe. E
só ella existe.