11 de fevereiro

A vida tem dois periodos: o do entontecimento, o da saudade. Não sei

qual é melhor. Talvez aquelle em que se ouvem os passos da morte, mais

perto! mais perto! O frio da morte dá á vida um encanto superior e um

prestigio maior.

Deixem-me! deixem-me! Deixem-me só com isto, deixem-me viver para isto.

Deixem-me fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridiculo,

que não existe e é a razão da minha vida. Deixem-me ir para a cóva

agarrado a este nada immenso, que me doirou as mãos e me deixou atonito.

Só no fundo da cóva é que estou bem, sós a sós, fechado com elle para

sempre.

Se o sentimento de belleza é a unica coisa humana que não nos engana--se

só a isto ficamos reduzidos--como não prever outra belleza maior?

De sobresalto em sobresalto, de assombro em assombro, de vulgaridade em

vulgaridade e de contradição em contradição, assim vim até ao fim. Não

consigo desprender-me de um, nem libertar-me do outro.

Atraz d'este assombro há outro assombro--e depois outro assombro ainda.

Qual é a minha experiencia da vida? Nenhuma. Qual é a lei que extraes da

vida? Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre

assumindo maiores proporções, que sinto desabar no silencio, mais

doirada e phrenetica que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos

valor, e a coisas a que não damos valor. E entretanto ao nosso lado

passa o tropel magico, desesperado e cahotico. Alli fóra desabam os

seculos e a torrente misteriosa que leva comsigo estrellas em vez de

calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito,

levando comsigo a alma, o universo, o logico e o ilogico, o absurdo e

Deus.

Uma vida resume-se em duas linhas, synthetisa-se em dois ou tres factos.

Se a vida fosse só isso não valia a pena vivel-a. A vida é muito maior

pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que

conhecemos. Se nos contentamos com a superficie, não há nada mais

estupido--se nos quedamos a contemplal-a faz tonturas. É por isso que eu

teimo que a Morte não tem só cinco lettras, mas o mais bello, o mais

tremendo, o mais profundo dos misterios. Prepara-te.

O problema capital da vida é o problema da morte. Elle resolve tudo. Não

há factos isolados; não há acontecimento no universo que não gere outro

acontecimento. O inconsciente não pode criar o consciente. É impossivel

dar um passo a que não succeda outro passo. A vida gera a morte--a morte

gera a vida. Mas que vida?

Sou nada diante do universo. Mas teimo, mas discuto comigo e comtigo, ó

espanto, mas defronto-me com o enigma, encarniço-me e saio d'aqui

esfarrapado, despedaçado--mas teimo e hei-de vencer-te. Não quero morrer

de vez. Não quero perder a consciencia do universo nem a sensibilidade

do universo. Eu sou o nada, tu és o infinito--hei-de por força

vencer-te!

E no entanto sinto-me tocado de hesitação e de duvida. Do que tenho

saudades é d'esta vida. Ao que eu aspiro é a esta vida. O gesto que o

moribundo faz ao arrepanhar o lençol é um gesto de naufrago.

D'um lado a materia, do outro o espirito. D'um lado consciencia, debate,

lucta, do outro a impassibilidade, a fatalidade inexoravel. Nenhum grito

a perturba. D'um lado a vida gasta n'um segundo, do outro a successão

ininterrupta dos seculos, indiferente e eterna. Como acaso é atroz, a

não ser que outra coisa nos espere.

Se não nos detivessemos com palavras, se avançassemos todos ao mesmo

tempo, esquecendo o que é inutil, para esta coisa que nos devora,

subjugavamol-a. Conquistavamol-a por uma vez, por maior que ella fosse.

Mas nenhum de nós se atreve e passamos a vida a fingir que não existe. E

só ella existe.

Humus · 第 42 / 83 题