Ella foi uma flôr que se aspira e se deita fóra--quasi sem
reparar--scismando na imortalidade da alma.
Se eu pudesse cinematographar a vida e a morte d'uma flôr,
cinematographava a sua vida.
Não sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa,
é o que ella disse á grande nodoa de humidade da parede.
Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguem a ouviu, ninguem deu por
ella. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lagrimas sumiu-as,
meteu-as para dentro. A dôr aprendeu a contel-a. Habituou-se a
queixar-se á grande nodoa de humidade da parede.
Entre mim e ella interpoz-se o sonho.
A ternura tambem cansa. Deixem-me! deixem-me sonhar!
O principal para mim foi a queixa que ninguem ouviu no mundo; foi o que
os seus olhos verdes d'espanto decifraram n'aquelle arabesco da parede.
Podes por ventura conceber isto? Uma dôr que não deixa vestigio, um
sonho ignorado que não deixa vestigio, que passa no mundo e não deixa
vestigios--a dôr despercebida, as lagrimas contidas que se não chegam a
chorar?
Não valia nada o que vale um passaro, e em questões afectivas, em
ternura, tinha a profundidade do mundo--a do silencio--a do sonho.
Tanto se queixou baixinho que morreu de frio!
Deito-me debalde aos encontrões á noite. Nem um grito. Os remorsos são
inuteis. Um passo na vida é sempre irremediavel: não há forças humanas
que o possam apagar.