8 de fevereiro

O sonho é um--a realidade é outra: a realidade é uma figura só dôr.

Remoeu aquelle sonho quando seguiu a filha pelas viellas. As mãos seccas

de desespero tentaram em vão arrancal-a á desgraça. A filha desceu mais

fundo, a Joanna desceu mais fundo. Deu-lhe a vida e suportou o escarneo.

Andou nas mãos dos ladrões e tem tal ar de aflição, que parece tonta. A

desgraça pega-lhe pela mão e leva-a mais fundo ainda: aperta-a de

encontro ao peito descarnado... Não faz idéa nitida da vida e da morte,

nem d'aquella viella com mulheres. Atura a miseria e a desgraça. Suporta

os vestidos encharcados no corpo. Foi d'isto que ella fez sonho--das

noites de dôr e do riso dos ladrões.--A usura da vida e a dôr represa,

engrandecem-na. Nunca se queixou. Escondeu de todos a sorte da filha.

Guardou aquillo para si, noite a noite, toda a vida. Bronco e dôr, uma

carcassa e farrapos, e nos olhos não sei que expressão que a faz mais

baixinha:--Aqui estou para te servir.--Passou por tudo, e um resto

d'ilusão bastou-lhe para poder viver. Sós a sós a figura tem uma

expressão descarnada e reflectida.

Nessa noite, á meia noite, nasce o menino entre ladrões. Vem morto ao

mundo. A Joanna pega-lhe a tremer com as mãos da esfrega e deita-o no

chale. Quatro cabeças se curvam á luz do candieiro de petroleo para

verem o menino--tres cabeças de ladrões e a cabeça da velha.

--O menino está vivo!--afirma a Joanna.

--É preciso enterral-o de caminho--diz o ladrão mais velho, encolhendo

os hombros. E juntam-se á porta falando baixo, enquanto a velha lhe

aquece o corpo pegajoso com o bafo. Dentro a mãe geme.

--Vamos.

Os gritos cessaram de todo.

--Venha d'ahi.

E, tomando o braço de Joanna, que achega a si o menino embrulhado no

chale, levam-na para a rua. Vão adiante o ladrão e a velha. Caminham até

um terreno de construcção, lama calcada e recalcada: ao fundo o panno

d'um muro e um resto d'arvore mutilada. Escolhem o sitio e o pae abre a

cóva com o alvião. Nenhum diz palavra. Só a Joanna aperta mais o menino

de encontro ao seio murcho, como se fosse possivel aquecel-o. Agazalha-o

dando voltas ao chale roto, e vae depois no escuro palpar a terra

encharcada. Tira-lho o pae para o meter na cóva, e ella ainda protesta:

--O menino está vivo.

Nenhum dos ladrões se ri. O que ella quer é outra vez crear. Está

disposta a recomeçar a vida, a deitar mais ternura, a tiral-o á bocca

para o dar aos outros. E insiste:

--O menino está vivo.

--Vamos embora.

Sacodem as mãos: só a Joanna conserva nas mãos a terra da cóva.

Rodeiam-na tres sombras enormes e ella sente-lhes no escuro o bafo

monstruoso. A seu lado caminha o ladrão mais velho. Os outros

adiantam-se.

--O estafermo da velha rica está só. Tu podes abrir-nos a porta...

--Roubar!...

--Ouve o que te digo... Tu não sentes o frio e estás molhada até aos

ossos, tu de tanta fome já não sentes a fome.

--Ainda hoje comi uma tigela de caldo que me deram.

--Nem dás pela desgraça. Tu não vês a tua filha n'uma viella e nas mãos

dos ladrões?

--As bagadas que eu tenho chorado, senhor ladrão!...

--A desgraça tral-a escripta na cara. Ainda hontem lhe bateram. Nem a

lama das ruas é mais baixa e mais calcada. Tu ouves?...

E a Joanna mastiga:

--N'aquella terra tão fria, chegado á terra...

--Para não sofrer. Deixa lá os mortos. Os mortos podem mais que os

vivos. Ouves o que te digo?... O menino matou-o ella ao parir...

--Jesus!

--Matava-o eu para não ser ladrão. Deixa lá o menino que está na terra.

Excusa de ser ladrão... O estafermo da velha rica está só. Tu podes

fazer-nos a entrega...

--Senhor ladrão, vossa senhoria... Assim Deus me ajude... Como a terra

está fria!...

--Que me importa a terra! O que me importa é o dinheiro do estafermo.

Ouve! ouve! ouve! Ella é rica, tu és pobre...

--O Senhor fez os pobres para servirem os ricos, e os ricos para

ajudarem os pobres...

--A minha vontade era esganar-te... Por tua filha! Se não nos abres a

porta elle estorcega-a. A tua filha é menos que nada nas mãos d'elle...

--A minha filha... Vocemecê, senhor ladrão, tambem teve uma filha, que

eu sei...

--Cala-te! Esta noite é por força noite de desgraça. Tive uma filha e

não lhe pude valer. Vi-a morrer com os olhos enxutos. Morreu tisica,

morreu-me á fome e não lhe pude valer! Fiz-me depois ladrão. Deixemos os

mortos... Uma madrugada fui de prego em prego. Tinha despido o casaco

para o pôr no prego. Á porta d'um estava um cavallo á carroça, com a

cabeça metida n'uma ceira, a comer. O que eu invejei aquelle cavallo!

Morreu-me. Foi n'esse dia que me fiz ladrão.

--A sua filha morreu-me nos braços...

--Tu não te calarás! Esta noite já me não serve. É noite de desgraça.

Vae-te p'r'o diabo!

Repele-a, e ao por-lhe a mão no hombro, repara que só traz a camisa

extreme sobre o corpo:

--O chale? que é do chale?

--O chale dei-o ao menino.

--Fizestel-a bonita!

Tal é a figura esfarrapada. Maior. Maior pela desgraça e pela mentira. A

Joanna, quando faz rir as velhas de cuia postiça, mente. Tem duas

existencias, uma vulgar, outra oculta. Lava as escadas, calada e

submissa: á noite vive com os ladrões e as mulheres das viellas. E

mente. Mentiu sempre. Mentiu emquanto pôde. Mentiu a si e aos outros.

Fez da dôr mentira e da mentira sonho. Quanto mais desgraça, mais

exagero e mais grotesca a sala de vizitas--maior a sala de vizitas--mais

doirada a sala de vizitas. A Joanna não se atreve a sonhar a felicidade:

contenta-se em sonhar a desgraça, e não lhe tira os olhos de cima, para

não vêr outra desgraça maior. Ilude-se. E debate-se n'uma cogitação

profunda como a noite. Toda a noite lhe parece negra. É como se pela

primeira vêz désse com a vida. Deita as mãos, não encontra a que se

apegue, e faz gestos para repelir o negrume. Remoe coisas que não

percebe bem, que se lhe confundem na alma e que traduz em palavras

descosidas e sem significação. De quando em quando pára, com os olhos

fixos, e diz uma phrase fóra de propósito, a scismar com obstinação

n'outra coisa:

--Casa de mulheres, casa de ladras.

Ou monologa parada a um canto:

--O Senhor lá sabe porque a gente anda n'este mundo e para que se criam

estas coisas... Estas coisas...--E abre os olhos espantados.--Tudo está

escripto no livro do futuro... Sempre elle há gente muito boa n'este

mundo! É o que vale á pobreza.--Depois um salto dentro d'ella:--Onze,

não, doze vintens é que são. Quatro vintens, do bahu que levei á cabeça,

seis vintens da esfrega...--E conta pelos dedos:--Seis, sete, nove

vintens... Depois aquillo remexe, vae ao fundo do fundo:--A desgraça não

nasceu comigo nem há-de morrer comigo.--Ou explue n'um grito de quem não

pode mais:--Não posso com este peso, com esta desgraça, com esta

desgraça sobre esta desgraça, e com isto!... A dôr que a gente cria aos

seus peitos! E ainda por cima isto!

Depois cala-se. É peor. Fica confundida e atonita, como um cavallo

prostrado, que não sabe porque sofre e mantem os olhos abertos--ridicula

deante da desgraça e deante do assombro. Cala-se e outro sêr immenso

começa a falar dentro d'ella. É um debate ao mesmo tempo futil e cheio

de grandeza, que não posso fixar, mesquinho pelas palavras que emprega e

grande pelo sentimento que o reveste. É uma coisa triste, uma coisa

dolorosa, uma coisa desconexa, feita de nadas, de gritos, de mudez. A

Joanna fala com o Sonho tu cá tu lá e atira-se ao Sonho. E quando emfim

o espanto se acumula sobre ella, a Joanna dispõe-se a arrancar-lhe

farrapos. Misturem a isto a dôr, misturem a isto ridiculo, porque a

Joanna revolve tudo, phrases, sentenças, palavras que lhe acodem e que

não formam sentido--veem de muito longe...--lagrimas, sonho, e ranho.

Assoa-se ao avental.

--Eu não sei dizer! eu não sei dizer!...

E sem falar á sombra que a não larga, a velha gesticula para o escuro: a

desgraça tapou-lhe a bocca, meteu-lhe outra vez a bocca para dentro.

Avança com as mãos abertas. A noite é immensa. Cabem na noite os mundos

infinitos, mas só me interessa a alma de Joanna. Quer comprehender e não

pode. Peor: o sonho humilde já lhe não é possivel. Parece perdida, tão

inutil no mundo! A ternura não lhe serviu de nada. E há outra coisa em

que é preciso insistir: não sabe porque sofre, não lhe cabem lá dentro a

desgraça e a explicação da desgraça. Outra vez recorre á perlenga com

que amortece a dôr:--A sala... a outra sala...--Mas na sala disforme

vomitam-se injurias e as boccas transformam-se em bocarras monstruosas,

que a Joanna não consegue tapar. Está só e a noite, só e o sonho. Fica

dôr pelo lado de dentro, como a fuligem d'uma chaminé quando se

incendeia e fica doirada pelo lado de dentro. O negrume é cada vez mais

compacto e o esforço da velha cada vez maior. Quanto mais negra é a

sala, mais a Joanna insiste. Augmenta-a, e agitam-se as vizitas em

delirio: quem as recebe de pé a fazer cortezias de espalhafato é a

propria desgraça vestida de amarello. As cadeiras tomam outra expressão,

o doirado dos moveis apega-se á noite espessa. Estes cacos são

expressões de dôr e é a desgraça quem os arruma.

A noite irrita-me com a sua imobilidade imperturbavel, e ao lado este

sêr que só tem uma forma grotesca de exprimir o que sofre. Esta sala com

um gato bordado a retroz, interessa-me muito mais que a noite negra, a

noite funda, a noite cahotica com esta vida e outra vida. A noite é

inutil.

Humus · 第 39 / 83 题