O sonho é um--a realidade é outra: a realidade é uma figura só dôr.
Remoeu aquelle sonho quando seguiu a filha pelas viellas. As mãos seccas
de desespero tentaram em vão arrancal-a á desgraça. A filha desceu mais
fundo, a Joanna desceu mais fundo. Deu-lhe a vida e suportou o escarneo.
Andou nas mãos dos ladrões e tem tal ar de aflição, que parece tonta. A
desgraça pega-lhe pela mão e leva-a mais fundo ainda: aperta-a de
encontro ao peito descarnado... Não faz idéa nitida da vida e da morte,
nem d'aquella viella com mulheres. Atura a miseria e a desgraça. Suporta
os vestidos encharcados no corpo. Foi d'isto que ella fez sonho--das
noites de dôr e do riso dos ladrões.--A usura da vida e a dôr represa,
engrandecem-na. Nunca se queixou. Escondeu de todos a sorte da filha.
Guardou aquillo para si, noite a noite, toda a vida. Bronco e dôr, uma
carcassa e farrapos, e nos olhos não sei que expressão que a faz mais
baixinha:--Aqui estou para te servir.--Passou por tudo, e um resto
d'ilusão bastou-lhe para poder viver. Sós a sós a figura tem uma
expressão descarnada e reflectida.
Nessa noite, á meia noite, nasce o menino entre ladrões. Vem morto ao
mundo. A Joanna pega-lhe a tremer com as mãos da esfrega e deita-o no
chale. Quatro cabeças se curvam á luz do candieiro de petroleo para
verem o menino--tres cabeças de ladrões e a cabeça da velha.
--O menino está vivo!--afirma a Joanna.
--É preciso enterral-o de caminho--diz o ladrão mais velho, encolhendo
os hombros. E juntam-se á porta falando baixo, enquanto a velha lhe
aquece o corpo pegajoso com o bafo. Dentro a mãe geme.
--Vamos.
Os gritos cessaram de todo.
--Venha d'ahi.
E, tomando o braço de Joanna, que achega a si o menino embrulhado no
chale, levam-na para a rua. Vão adiante o ladrão e a velha. Caminham até
um terreno de construcção, lama calcada e recalcada: ao fundo o panno
d'um muro e um resto d'arvore mutilada. Escolhem o sitio e o pae abre a
cóva com o alvião. Nenhum diz palavra. Só a Joanna aperta mais o menino
de encontro ao seio murcho, como se fosse possivel aquecel-o. Agazalha-o
dando voltas ao chale roto, e vae depois no escuro palpar a terra
encharcada. Tira-lho o pae para o meter na cóva, e ella ainda protesta:
--O menino está vivo.
Nenhum dos ladrões se ri. O que ella quer é outra vez crear. Está
disposta a recomeçar a vida, a deitar mais ternura, a tiral-o á bocca
para o dar aos outros. E insiste:
--O menino está vivo.
--Vamos embora.
Sacodem as mãos: só a Joanna conserva nas mãos a terra da cóva.
Rodeiam-na tres sombras enormes e ella sente-lhes no escuro o bafo
monstruoso. A seu lado caminha o ladrão mais velho. Os outros
adiantam-se.
--O estafermo da velha rica está só. Tu podes abrir-nos a porta...
--Roubar!...
--Ouve o que te digo... Tu não sentes o frio e estás molhada até aos
ossos, tu de tanta fome já não sentes a fome.
--Ainda hoje comi uma tigela de caldo que me deram.
--Nem dás pela desgraça. Tu não vês a tua filha n'uma viella e nas mãos
dos ladrões?
--As bagadas que eu tenho chorado, senhor ladrão!...
--A desgraça tral-a escripta na cara. Ainda hontem lhe bateram. Nem a
lama das ruas é mais baixa e mais calcada. Tu ouves?...
E a Joanna mastiga:
--N'aquella terra tão fria, chegado á terra...
--Para não sofrer. Deixa lá os mortos. Os mortos podem mais que os
vivos. Ouves o que te digo?... O menino matou-o ella ao parir...
--Jesus!
--Matava-o eu para não ser ladrão. Deixa lá o menino que está na terra.
Excusa de ser ladrão... O estafermo da velha rica está só. Tu podes
fazer-nos a entrega...
--Senhor ladrão, vossa senhoria... Assim Deus me ajude... Como a terra
está fria!...
--Que me importa a terra! O que me importa é o dinheiro do estafermo.
Ouve! ouve! ouve! Ella é rica, tu és pobre...
--O Senhor fez os pobres para servirem os ricos, e os ricos para
ajudarem os pobres...
--A minha vontade era esganar-te... Por tua filha! Se não nos abres a
porta elle estorcega-a. A tua filha é menos que nada nas mãos d'elle...
--A minha filha... Vocemecê, senhor ladrão, tambem teve uma filha, que
eu sei...
--Cala-te! Esta noite é por força noite de desgraça. Tive uma filha e
não lhe pude valer. Vi-a morrer com os olhos enxutos. Morreu tisica,
morreu-me á fome e não lhe pude valer! Fiz-me depois ladrão. Deixemos os
mortos... Uma madrugada fui de prego em prego. Tinha despido o casaco
para o pôr no prego. Á porta d'um estava um cavallo á carroça, com a
cabeça metida n'uma ceira, a comer. O que eu invejei aquelle cavallo!
Morreu-me. Foi n'esse dia que me fiz ladrão.
--A sua filha morreu-me nos braços...
--Tu não te calarás! Esta noite já me não serve. É noite de desgraça.
Vae-te p'r'o diabo!
Repele-a, e ao por-lhe a mão no hombro, repara que só traz a camisa
extreme sobre o corpo:
--O chale? que é do chale?
--O chale dei-o ao menino.
--Fizestel-a bonita!
Tal é a figura esfarrapada. Maior. Maior pela desgraça e pela mentira. A
Joanna, quando faz rir as velhas de cuia postiça, mente. Tem duas
existencias, uma vulgar, outra oculta. Lava as escadas, calada e
submissa: á noite vive com os ladrões e as mulheres das viellas. E
mente. Mentiu sempre. Mentiu emquanto pôde. Mentiu a si e aos outros.
Fez da dôr mentira e da mentira sonho. Quanto mais desgraça, mais
exagero e mais grotesca a sala de vizitas--maior a sala de vizitas--mais
doirada a sala de vizitas. A Joanna não se atreve a sonhar a felicidade:
contenta-se em sonhar a desgraça, e não lhe tira os olhos de cima, para
não vêr outra desgraça maior. Ilude-se. E debate-se n'uma cogitação
profunda como a noite. Toda a noite lhe parece negra. É como se pela
primeira vêz désse com a vida. Deita as mãos, não encontra a que se
apegue, e faz gestos para repelir o negrume. Remoe coisas que não
percebe bem, que se lhe confundem na alma e que traduz em palavras
descosidas e sem significação. De quando em quando pára, com os olhos
fixos, e diz uma phrase fóra de propósito, a scismar com obstinação
n'outra coisa:
--Casa de mulheres, casa de ladras.
Ou monologa parada a um canto:
--O Senhor lá sabe porque a gente anda n'este mundo e para que se criam
estas coisas... Estas coisas...--E abre os olhos espantados.--Tudo está
escripto no livro do futuro... Sempre elle há gente muito boa n'este
mundo! É o que vale á pobreza.--Depois um salto dentro d'ella:--Onze,
não, doze vintens é que são. Quatro vintens, do bahu que levei á cabeça,
seis vintens da esfrega...--E conta pelos dedos:--Seis, sete, nove
vintens... Depois aquillo remexe, vae ao fundo do fundo:--A desgraça não
nasceu comigo nem há-de morrer comigo.--Ou explue n'um grito de quem não
pode mais:--Não posso com este peso, com esta desgraça, com esta
desgraça sobre esta desgraça, e com isto!... A dôr que a gente cria aos
seus peitos! E ainda por cima isto!
Depois cala-se. É peor. Fica confundida e atonita, como um cavallo
prostrado, que não sabe porque sofre e mantem os olhos abertos--ridicula
deante da desgraça e deante do assombro. Cala-se e outro sêr immenso
começa a falar dentro d'ella. É um debate ao mesmo tempo futil e cheio
de grandeza, que não posso fixar, mesquinho pelas palavras que emprega e
grande pelo sentimento que o reveste. É uma coisa triste, uma coisa
dolorosa, uma coisa desconexa, feita de nadas, de gritos, de mudez. A
Joanna fala com o Sonho tu cá tu lá e atira-se ao Sonho. E quando emfim
o espanto se acumula sobre ella, a Joanna dispõe-se a arrancar-lhe
farrapos. Misturem a isto a dôr, misturem a isto ridiculo, porque a
Joanna revolve tudo, phrases, sentenças, palavras que lhe acodem e que
não formam sentido--veem de muito longe...--lagrimas, sonho, e ranho.
Assoa-se ao avental.
--Eu não sei dizer! eu não sei dizer!...
E sem falar á sombra que a não larga, a velha gesticula para o escuro: a
desgraça tapou-lhe a bocca, meteu-lhe outra vez a bocca para dentro.
Avança com as mãos abertas. A noite é immensa. Cabem na noite os mundos
infinitos, mas só me interessa a alma de Joanna. Quer comprehender e não
pode. Peor: o sonho humilde já lhe não é possivel. Parece perdida, tão
inutil no mundo! A ternura não lhe serviu de nada. E há outra coisa em
que é preciso insistir: não sabe porque sofre, não lhe cabem lá dentro a
desgraça e a explicação da desgraça. Outra vez recorre á perlenga com
que amortece a dôr:--A sala... a outra sala...--Mas na sala disforme
vomitam-se injurias e as boccas transformam-se em bocarras monstruosas,
que a Joanna não consegue tapar. Está só e a noite, só e o sonho. Fica
dôr pelo lado de dentro, como a fuligem d'uma chaminé quando se
incendeia e fica doirada pelo lado de dentro. O negrume é cada vez mais
compacto e o esforço da velha cada vez maior. Quanto mais negra é a
sala, mais a Joanna insiste. Augmenta-a, e agitam-se as vizitas em
delirio: quem as recebe de pé a fazer cortezias de espalhafato é a
propria desgraça vestida de amarello. As cadeiras tomam outra expressão,
o doirado dos moveis apega-se á noite espessa. Estes cacos são
expressões de dôr e é a desgraça quem os arruma.
A noite irrita-me com a sua imobilidade imperturbavel, e ao lado este
sêr que só tem uma forma grotesca de exprimir o que sofre. Esta sala com
um gato bordado a retroz, interessa-me muito mais que a noite negra, a
noite funda, a noite cahotica com esta vida e outra vida. A noite é
inutil.